Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

sábado, 1 de maio de 2021

Ruy Belo - A Margem da Alegria

Robert Grant - Tília, Jardim Botânico da Universidade de Coimbra



quando o mínimo gesto era um gesto criador
e as coisas começavam e o mundo sempre em simples sons se descobria
quando ninguém ainda se movia na periferia da necessidade ou da conveniência
e havia gigantescas tílias que nos davam sombra em troca do cansaço
e a formosura das mulheres se notava até na violência do silêncio
junto às folhas recentes das amigas amoreiras perto de ameixieiras encarnadas
quando as águas do mar eram ainda águas sem medida revolvidas
e não como hoje são domésticas e mansas
quando os homens viviam na intimidade da sensibilidad e dilatavam
as narinas para aspirar profundamente o cheiro do suor
das mulheres quando após o esforço principiava a arrefecer
e todas as palavras eram relativamente novas e caíam como pétalas
e não havia tantas miudas minudências rodeando os corpos

Qando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo


Ruy Belo

Excerto de A margem da alegria (1974)


terça-feira, 27 de abril de 2021

Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu




GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951) é um poeta, professor e tradutor brasileiro.


"A geração Paissandu" em Digestivo Cultural e em Setaro's Blog.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

Sá de Miranda - Comigo me desavim

Sá de Miranda, por Elvira Palma. Évora. Foto de Jaime Silva


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo,
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Com dor, de gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda



Meio: Mais 

Imigo: Inimigo.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Filipa Leal - "Talvez por causa da Luísa..."

Filipa Leal


Talvez por causa da Luísa,
não guardei do colégio amigos de infância.
Cresci entre as minhas primas,
na quinta dos avós.
Um dia fizemos o nosso esconderijo
na pocilga já vazia de animais.
Numa parede pintámos o sol,
na outra a lua,
e fechávamo-nos naquele cubículo,
a fumar cigarros roubados aos pais,
como quem começa a preferir a arte
à natureza.

Filipa Leal


 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

Mário de Andrade - "Na rua Aurora eu nasci..."

Casa em que M. de Andrade nasceu, em São Paulo, rua Aurora nº320* 


Na rua Aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci.

No largo do Paissandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes da rua.

Mário de Andrade

Lira Paulistana (1945)

https://www.culturagenial.com/poemas-de-mario-de-andrade/



terça-feira, 6 de abril de 2021

Miguel Torga - Dies Irae

Fotografia de André Pipa

 

DIES IRAE

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Miguel Torga 



domingo, 4 de abril de 2021

António Reis - "É domingo hoje..."

Fotografía de Gonçalo Filipe
 


É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

não como quem
de ilusão
precisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Manoel de Barros - A boca

© Monica Silveira

 

A BOCA

"Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri sede.

Agora penso
nessa abertura
com que por anos
me envenenaste,
com que por anos
a minha infância
tornaste impura,
tornaste indigna
de andar ao lado
de outras infâncias...
Agora penso
deixar na fenda
de tua boca,
dissimulada,
todo o veneno
de que me inundas.
Porém és morta
resignada,
ó boca amarga
de namorada
nunca atingida,
sempre ane
boca perdida
para as saudades,
jamais beijada.

Dorme entre flores.

(Será dos anjos?)

Vai para os anjos
vai para os pássaros
do firmamento,
ó boca amarga,
que me enganavas
com aquele riso
posto no canto!

Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri quanto.

Estás no seio
da morte, quente
como na terra;
me conturbavas
como na rua
tu exibias
teus belos dentes...

Vai, grota rasa!

Flor obscura
na minha infância
desabrochada,
continuada
na adolescência
perto de casa,
na vizinhança,
solta na rua
como uma fruta
covil aberto
de mil acenos,
cobra na rua
que me mordia,
que me injetava
sutis venenos...

Vai, pesadelo,
noites de insônia,
pura miragem
de minha sede;
vai para o diabo
que te carregue,
não me persiga:
sai, boca morta!"

Manoel de Barros


segunda-feira, 29 de março de 2021

Cristóvão Falcão - Como dormirão meus olhos?


Como dormirão meus olhos?
Não sei como dormirão,
Pois que vela o coração.

«Toda esta noite passada,
Que eu passei em sentir,
Nunca a pude dormir,
De ser muito acordada.
Dos meus olhos fui velada;
Mas como não velarão
Pois que vela o coração?

«As horas dela, cuidei
Dormi-las, foram veladas,
Pois tão bem as empreguei,
Dou-as por bem empregadas.
Todas as noites passadas
Neste pensamento vão,
Pois que vela o coração.

«Pássaros que namorados
Pareceis no que cantais,
Não ameis, que, se amais,
De vós sereis desamados.
Em meus olhos agravados
Vereis se tenho razão,
Pois que vela o coração

Cristóvão Falcão 

 (c.1515-1553/57) 

Wikipédia

(Pintura: Jovem adormecido, 1931, de Eugene Berman, russo (ativo em França), 1899–1972. Boston MFA)


quinta-feira, 25 de março de 2021

Luís Amaro - Fuga

Luís Amaro, por Luís Manuel Gaspar


FUGA

Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.

Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.

Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas
ondas meu coração.

Luís Amaro


"Luís Amaro (1923-2018): um homem que era a memória viva da literatura portuguesa contemporânea", (Público, 24 de agosto de 2018) 
 
Luís Amaro, poeta, editor, bibliófilo e investigador português, na Wikipédia



segunda-feira, 22 de março de 2021

António Osório - As adolescentes

Fotografia de Sven L


AS ADOLESCENTES

A pele mosqueada da maçã reineta,
um ar vago e doce, feliz.
Subitamente correm como rapazes,
são a corda do arco
que se dilata e a seta do corpo
chega aos quinze anos,
quando abrem as ancas
e amam como se fossem mães.

António Osório

A Raiz Afectuosa (1972)


A Raiz Afectuosa na Infopédia



quinta-feira, 18 de março de 2021

Vitorino Nemésio - “Tenho uma saudade tão braba..."

Ilha Terceira, Acores - © Viaje-Comigo


Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio


Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003) - Póstumo


A palavra brabo no dicionário Priberam

"Bravo ou brabo" (Dúvidas de Português)




segunda-feira, 15 de março de 2021

Mário de Sá-Carneiro - Quasi




QUÁSI

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indicios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sôbre os precipícios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Mário de Sá-Carneiro



sexta-feira, 12 de março de 2021

Raul de Carvalho - A cidade

Lon&Queta - Dos amigas; Jinotega, Nicaragua

 

A CIDADE

A luminosidade
desta gente.
Por toda a parte
gente bonita.

Atirando
ramos de flores
nos olhares.

Tão velha a vida.

Raul de Carvalho
(1920 - 1984)


Lido em Rua das Pretas 


Raul de Carvalho na Infopédia.


segunda-feira, 8 de março de 2021

Ruy Belo - Vat 69

Fotografia de Joseph Sudek



VAT 69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro - gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos - nós outra vez crianças -
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte - nunca mais - pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
-orate frates - ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder

Ruy Belo

 Homem de Palavra[s] (1970)



sexta-feira, 5 de março de 2021

Baltasar Estaço - Do tempo


Fotografia de Mário Soure


DO TEMPO

De tempo em tempo tudo vai andando,
O tempo sem pôr tempo vai correndo,
Sem tempo não se vão os tempos vendo,
Por tempo o tempo vai profetizando.

Do tempo o tempo só pode ir falando,
A tempo se pode ir o tempo erguendo,
C'o tempo se vão tempos entendendo,
Que o tempo vários tempos vai mostrando.

Nunca o tempo perdido é mais cobrado,
Que se o tempo nos tira o que é presente,
Mal pode dar o tempo o que é passado.

O tempo gaste bem todo o prudente,
Que se o tempo que passa é bem gastado,
Todo o tempo passado tem presente.

Baltasar Estaço

 

Padre Baltasar Estaço (1570-16--?) nasceu em Évora e foi cónego da Sé de Viseu. Dedicou-se à poesia e à filosofia escolástica. Por motivos desconhecidos, foi processado pela Inquisição e preso em Julho de 1614. Sabe-se que esteve preso em Coimbra em 1616, onde se tentou suicidar, sendo transferido para Lisboa no ano seguinte. Em 1620 é condenado a prisão perpétua, mas é libertado em 1621 com a condição de não voltar a Viseu. Publicou, a pedido de D. João de Bragança, bispo de Viseu, a obra Sonetos, Éclogas e Outras Rimas (Coimbra, 1604), onde glorifica vários santos e condena as vaidades do mundo num estilo em que ele próprio se propõe dar o exemplo de humildade, mas que é sobretudo feito da exploração teológica dos paradoxos e da coincidentia oppositorum no amor a Deus. Deixou diversas obras manuscritas.

(Projecto Vercial)


segunda-feira, 1 de março de 2021

Pepetela - Os Donos da Língua



OS DONOS DA LÍNGUA

A estória que vos vou contar aconteceu no tempo em que os animais falavam, ou melhor, em que falavam todos o mesmo idioma.

O Senhor Cão, o animal mais velho da floresta, era uma espécie de guardião do verbo. Na verdade via-se a si próprio como o legítimo proprietário da fala.

- A palavra foi criada pelos cães, os quais, por gentileza, a emprestaram aos outros animais - explicava aos filhos. - O vosso avô, o Velho Cão, andou por toda esta floresta, descobrindo e nomeando as coisas: rios, lagos, rochedos, montes e vales, árvores, ervas, flores, frutos, os pequenos insectos, nevoeiros, chuvas,o lodo e a lama. Enfim, tudo. O que nós, cães, não conhecemos, não existe; o que não tem nome, não existe. Assim, a existência da floresta deve-se a nós. Este é um Mundo Cão.

A Senhora Sucuri não gostava de ouvir aquele discurso. Era o animal maior da floresta, falava tão bem como o Senhor Cão, e, como ele, usava chapéu. "A língua pertence a todos", dizia, "da mesma forma que um rio constrói o seu caminho e depois é ele esse caminho, assim nós fazemos uma lingua e a seguir ela nos refaz". A Senhora Palanca achava o mesmo, mas era mais dramática: "A língua sou eu!"; e o Senhor Papagaio repetia: "A língua sou eu, a língua sou eu!". Tímida, a Corça propunha uma outra formulação: "A minha Pátria é a minha língua"; e o Senhor Papagaio repetia: "A minha Pátria é a minha língua, a minha Pátria é a minha lingua".

Um dia o Senhor Cão foi passear para a zona mais remota da floresta, como costumava fazer, empurrado pelo desejo de descobrir coisas novas às quais pudesse dar nome (e existência). A luz era escassa, húmida e verde, naqueles deslimites. Uma lama espessa escondia o chão. As próprias árvores pareciam perigosas.

Algumas tinham os troncos cobertos de picos, outras de resina ácida, flores de uma melancolia crepuscular devoravam tudo em seu redor.

Ali, meio imerso na lama, o Senhor Cão descobriu o esqueleto de um animal desconhecido. Aproximou-se para o estudar melhor, ansioso por lhe dar um nome, agregando-o dessa forma à floresta, ao universo, à imensidão das coisas existentes, mas não lhe ocorreu nada. Ficou assim muito tempo, rondando aquela morte que lhe desorganizava o pensamento. "Como te chamas?", perguntou, já desesperado, e então, para seu grande espanto, o esqueleto ergueu-se e respondeu: "O meu nome? Nunca tive nome.

O Senhor Cão assustou-se:

- O nome é um resumo da alma - disse -, tudo o que existe ou existiu, ou até que se acredita que possa vir a existir, tem de ter um nome.

O esqueleto chocalhou os ossos, indiferente à perplexidade do outro:

- Eu nunca tive. Vivi e morri sem que ninguém me nomeasse.

Naquela tarde os outros animais viram o Senhor Cão regressar a casa de cabeça baixa. Achava-se um falhado. Descobrira algo de novo na Floresta e não fora capaz de lhe dar um nome. Adoeceu de desgosto. Alguns dias depois, preocupada, a Senhora Corça foi saber o que se passava e encontrou o Cão às portas da morte.

"Morro", disse-lhe este, "sem ter cumprido o meu papel nesta Floresta". E morreu.

Durante uma semana os animais choraram, dançaram e beberam o morto, conforme a tradição, e depois lançaram o seu cadáver ao rio, e o rio arrastou-o até à zona mais remota da floresta.

Anos depois, ou séculos, não importa, o cão foi parar junto às ossadas do animal desconhecido.

- Estou a conhecer-te - disse o esqueleto. - Tu és o cão. Aquele que se julgava o dono da língua. Mas morreste e a língua continua. Os outros animais servem-se dela, agora, como se fosse um perpétuo Domingo.

- Já alguém te deu um nome? - quis saber o cão - Só isso me interessa.

O outro riu-se:

- Sim - disse -, chamam-me Escuridão.


Pepetela


(Texto publicado com licença da Fundação Gulbenkian, a quem agradecemos)



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Gilka Machado - “A que buscas em mim, que vive em meio...”

 

A que buscas em mim, que vive em meio
de nós, e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai, de onde me veio,
trago-a no sangue assim como uma tara.

Dou-te a carne que sou… mas teu anseio
fora possuí-la – a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar ao mundo alheio,
essa que tão somente astros encara.

Por que não sou como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo, em mim preferes
aquela que é o meu íntimo avantesma…

E, ó meu amor, que ciúme dessa estranha,
dessa rival que os dias me acompanha,
para ruína gloriosa de mim mesma!

Gilka Machado

Meu glorioso pecado (1928)

Gilka da Costa de Melo Machado, conhecida como Gilka Machado, (Rio de Janeiro, 12 de março de 1893 - Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1980) foi uma poeta brasileira. Seu trabalho geralmente é classificado como simbolista. Machado ficou conhecida como uma das primeiras mulheres a escrever poesia erótica no Brasil; também foi uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino (em 1910), que defendia o direito das mulheres ao voto, atuando no mesmo também como tesoureira.


Mais poemas em Escritas.org 

(Fotografia: Revista O Malho, nº 1578, de março de 1933. Fonte: Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Digital)


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Luíza Neto Jorge - Minibiografia


"No texto poético encontrou Luíza Neto Jorge um espaço de resistência e insubordinação contra a repressão do Estado Novo. Com as palavras recusava o modelo vigente e provocava: «Diferente me concebo e só do avesso/ O formato mulher se me acomoda». É o poema que faz este episódio do programa "Voz", dito pela atriz Joana Seixas. Para ver, ouvir e ler aqui."

Ensina RTP


Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

Luíza Neto Jorge

in A Lume (1989)




Luiza Neto Jorge, tradutora e poetisa portuguesa, nasceu em Lisboa, no dia 10 de maio de 1939.

Foi fundadora do Grupo de Teatro de Letras, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Desistiu do curso para ir viver para Paris (1962-1970).

Integrou o grupo de poetas que se reuniu em torno do movimento Poesia 61, antologia poética, organizada em fascículos, que reúne textos de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz e Maria Teresa Horte, no âmbito do qual publicou Quarta Dimensão. O seu primeiro livro foi Noite Vertebrada, publicado em 1960.

Traduziu obra, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro, de autores como Céline, Sade, Marguerite Yourcenar, Garcia Lorca, Boris Vian, entre outros. Recebeu, em 1987, o Grande Prémio de Tradução Literária pela tradução da Obra “Mort à Crédit” de Lous-Ferdinand Céline.

Fez adaptações de textos para teatro e colaborou com alguns cineastas.

Encontra-se representada em quase todas as antologias de poesia portuguesa contemporânea (editadas em Portugal e no estrangeiro) e tem grande parte dos poemas traduzidos para diversos idiomas.

Morreu em Lisboa, no dia 23 de Fevereiro de 1989, vítima de doença pulmonar.

A Editora Assírio & Alvim lançou, em 1993, ‘Poesia’, uma edição que reúne toda a poesia de Luiza Neto Jorge.

(escritores.online)




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Mário Cesariny - Homenagem a Cesário Verde

 

Fotografía en escritas.org

HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

Mário Cesariny

Aqui, De tarde, de Cesário Verde.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Carlos Drummond de Andrade - Um Homem e o seu Carnaval




UM HOMEM E O SEU CARNAVAL

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Carlos Drummond de Andrade


Do seu livro Brejo das Almas (1934)


Fotografia: Foliões brincando o carnaval de rua, no Rio de Janeiro, s.d. Fundo Correio da Manhã.



domingo, 14 de fevereiro de 2021

Alexandre O’Neill - “Não o amor não tem asas..."

Coisas do amor! (Fotografia de Luzinete Martinez)


Não o amor não tem asas
se tem asas são as mãos
que se enlaçam para a festa
maravilhosa do corpo
e entre elas o coração

coração acordeão

Alexandre O'Neill

Coração Acordeão. Edição de Vasco Rosa. Lisboa, O Independente, 2004. p.13



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Alexandre O'Neill - Mesa

A ler Orpheu (1954) - José de Almada Negreiros (1893-1970)


MESA 

põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa

desmanivela-a
desce
é cama

faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama

desmanivela-a
desce mais
é caixão

entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão

era a brincar
era a brincar

manivela-o
sobe
é cama

manivela-o
sobe
é mesa

põe os cotovelos na mesa

Alexandre O'Neill




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Alexandre O'Neill - Desaprender



DESAPRENDER

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».

Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.

Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.

É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.

Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill

Uma Coisa em Forma de Assim (1980)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Última entrevista a Alexandre O’Neill e Alfredo Barroso sobre O'Neill

 

 

Publicado no blogue O funcionário cansado (1.09.08):

"Está quase a fazer 23 anos, a 21 de Setembro de 1985, foi publicada no Expresso a última entrevista de Alexandre O’Neill, feita por Clara Ferreira Alves. Deixo-a aqui:"

E agora deixo eu aqui: Alexandre O'Neill: a última entrevista


Mais um artigo de Alfredo Barroso no Jornal i (14-03-2018):

"Se há poeta do século XX que tenha compreendido a “patriazinha” foi Alexandre O’Neill. Mas a “patriazinha” não gosta de se ver ao espelho"

Alexandre O’Neill, o grande poeta “esticalarica e caixadóculos”


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Blogue Bianda - A mata

 Mata em S. Tomé (Fotografia de Robert Grant)


A MATA

Atravessando a mata. A mata vive, tem ossos, carne, coração, espírito. No carro o condutor conta a história da árvore que foi cortada num dia e no dia seguinte apareceu de pé, ainda com as marcas da serra, mas de pé e eu vi, vi mesmo. A mata tem mistérios.

Na roça do João oiço as histórias de S.Tomé, que são tantas, cruzadas, emaranhadas, resolvidas, mal resolvidas, problemáticas, esperançosas e por aí fora. O céu desaba-se em água. Chove sempre, sempre e forte. A mata tapa tudo, só se vislumbrando um punhado de casas ali, um troço de estrada mais além, o cume dum monte ao longe, uma breve vista do mar e as vozes.

A mata tem sons e vozes. S.Tomé tem povos vários, atirados do mar para dentro da mata. Com o lento escoar do tempo os povos se cruzam mas ainda dizem, nós, eles, aqueles, este é nosso, aquele é deles, não queremos saber nada deles e assim. Os povos ainda não sabem se juntar, num único abraço.


Lido no blogue Bianda
(12-11-11)

Uma ajuda do dicionário Houaiss para algumas palavras:

Mata 1. área coberta de plantas silvestres de portes diversos. 2. m.q. floresta ('conjunto de árvores') (...)

Floresta: denso conjunto de árvores que cobrem vasta extensão de terra; mata.

Roça: terreno de lavoura, grande ou pequeno; plantação, plantio.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Alda do Espíritu Santo - Ilha Nua

Ilha de S. Tomé, fotografia de André Pipa


ILHA NUA

Coqueiros e palmeiras da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta de irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...

Alda do Espíritu Santo

É Nosso o Solo Sagrado da Terra (1978)



Alda Espírito Santo, também conhecida por Alda Graça, teve a sua educação em Portugal, onde chegou a frequentar a Universidade.

Acabou por abandonar, em parte devido às suas actividades políticas, mas também por motivos económicos. Regressada a S. Tomé, veio a trabalhar como professora.

Na sua passagem por Lisboa, foi contemporânea, de Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente na Casa dos Estudantes do Império.

Foi uma das mais conhecidas poetizas africanas de língua portuguesa, tendo ocupou s cargos de relevo nos governos de São Tome e Príncipe, como o de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura tendo sido igualmente Deputada.

Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias lusófonas, nomeadamente em M. Andrade e F. J. Tenreiro, Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958); ª Margarida, Poetas de S.Tomé e Príncipe (1963); M. Ferreira, No Reino de Caliban II (1976); C. ª Medina, Sonha Mamana África (1988); O Coro dos Poetas e Prosadores de S.Tomé e Príncipe (1992); entre outros bem como em jornais e revistas de São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Dados de Lusofonia Poética



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Clarice Lispector - É para lá que eu vou

 



É PARA LÁ QUE EU VOU


Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto - é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia - é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou - é para lá que eu vou
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? eu vos espero. E para lá que eu vou. Na ponta da palavra está a palavra. Quero usar a palavra "tertúlia" e não sei aonde e quando. À beira da tertúlia está a família. À beira da família estou eu. À beira de eu estou mim. É para mim que eu vou. E de mim saio para ver. Ver o quê? ver o que existe. Depois de morta é para a realidade que vou. Por enquanto é sonho. Sonho fatídico. Mas depois - depois tudo é real. E a alma livre procura um canto para se acomodar. Mim é um eu que anuncio.
Não sei sobre o que estou falando. Estou falando de nada. Eu sou nada. Depois de morta engrandecerei e me espalharei, e alguém dirá com amor meu nome.
É para o meu pobre nome que vou.
E de lá volto para chamar o nome do ser amado e dos filhos. Eles me responderão. Enfim terei uma resposta. Que resposta? a do amor. Amor: eu vos amo tanto. Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
À extremidade de mim estou eu. Eu, implorante, eu a que necessita, a que pede, a que chora, a que se lamenta. Mas a que canta. A que diz palavras. Palavras ao vento? que importa, os ventos as trazem de novo e eu as possuo.
Eu à beira do vento. O morro dos ventos uivantes me chama. Vou, bruxa que sou. E me transmuto.
Oh, cachorro, cadê tua alma? está à beira de teu corpo? Eu estou à beira de meu corpo. E feneço lentamente.
Que estou eu a dizer? Estou dizendo amor. E à beira do amor estamos nós.

Onde estivestes de noite (1974)

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Rui Knopfli - Estrada

 

Na estrada para Cobue, Moçambique. Fotografía de Carlos Reis


ESTRADA

Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açúcar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.

Rui Knopfli


O País dos Outros (1959)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Almada Negreiros - A verdade

*


Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a ver­dade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta con­fessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de­-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...

Almada Negreiros 

A Invenção do Dia Claro, 1921


sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Ruy Cinatti - O Espanto

Fotografia de Rubens Nemitz Jr


O ESPANTO

O que se passa em mim é um prodígio.
Um sim que se dilata
até perder o sentido
longe, como o balão
fugido da criança.
Um sim, transgredido,
arremetido
à estupidez do ouvido,
da razão.
Um sim que quando explode me diz não
com delicadeza.

Ruy Cinatti



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Sá de Miranda - "Desarrezoado amor dentro em meu peito..."

Museu da Marioneta, foto de Amélia Monteiro

 
Desarrezoado amor dentro em meu peito,
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força; faz e desfaz,
sem respeito nenhum; e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

D’outra parte, a Razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo; enfim vem o seu dia:

Então não tem lugar certo onde aguarde
Amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Sá de Miranda



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Armindo Mendes de Carvalho - Cantiga do pobrediabismo de café

Fotografia de Renata Ginzburg


CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ

Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital

Armindo Mendes de Carvalho

(Cantigas de Amor & Maldizer, 1966)


"Poeta, dramaturgo e novelista, Mendes de Carvalho (1927-1988), foi também na vida um homem de sete instrumentos, sempre muito próximo de grupos teatrais ("Casa da Comédia", "Teatro Estúdio de Lisboa e "Clube Palco"), orientou páginas literárias e colaborou em jornais e revistas literárias com poemas, artigos e ensaios sobre literatura e artes plásticas."

Continua em "Mendes de Carvalho - uma poesia crítica e satírica", de Serafim Ferreira, em a Página da educação.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Camilo Pessanha - Madrigal

Abbott Thayer - Girl arranging her Hair - 1918-19 

MADRIGAL

Aquela enorme frieza
Não entristeça ninguém...
Ela estende o seu desdém
À sua própria beleza:

Quando, solta do vestido,
Sai da frescura do banho,
O seu cabelo castanho,
Esse cabelo comprido,

(Que frio, que desconsolo!)
Deixa ficar-se pendente,
Em vez de feito em serpente
Ir enroscar-se-lhe ao colo!

Camilo Pessanha


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Pedro Mexia - Percepção

Fotografia de Viviane S Carvalho


PERCEPÇÃO  

Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide,
assim se parte
o rio. A infância
dum lado. Do outro
a terra firme
onde isto se passou.

Pedro Mexia


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Ana Martins Marques - Museu

Fotografia de Lester Public Library


MUSEU

Se houvesse
um museu
de momentos

um inventário
de instantes

um monumento
para eventos
que nunca aconteceram

se houvesse
um arquivo
de agoras

um catálogo
de acasos

que guardasse
por exemplo
o dia em que te vi atravessar a rua
com teu vestido mais veloz

se houvesse
um acervo
de acidentes

um herbário
de esperas

um zoológico
de ferozes alegrias

se houvesse
um depósito
de detalhes

um álbum
de fotografias
nunca tiradas

Ana Martins Marques

O livro das semelhanças, 2015, in Aeroplanos da Birmânia.