POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quarta-feira, 21 de junho de 2017

"Sempre que penso em ti estás a dançar levemente..." (Herberto Helder)

Fotografia de Yaci Andrade


Sempre que penso em ti estás a dançar levemente num clima de canela despenteada, ó aroma vagaroso, desordem aérea, mas a memória tem pressa, o sangue tem pressa interna, e antes de pensar tremo, e depois tremo, pelo meio desenvolve-se o pavor de uma beleza maiúscula, o coração corre entre iluminuras rápidas, é uma criança sucessiva nas pautas da música, assim escrevo uma nação simultânea, desapareces na respiração do teu vestido, entretanto a revelação anuncia-se pelo medo, curvas-te como as aldeias devoradas pela lua, mais tarde sempre que penso em ti estás com um lenço escrito nas duas mãos, e a tua velocidade abranda junto aos espelhos, expandes-te assim lentamente gravada, és uma floresta de silêncios visíveis, sempre que penso penso sempre ao contrário do fim, estás cada vez mais no princípio de ti mesma, então vejo que nesse lugar é o meu começo eterno, quando danças é um corpo rodeando a brancura rodeada ou de novo qualquer coisa criminal entre o cuidado e o espaço, nas linhas puras da solidão arde a cabeça, arde o vento, atrás de ti as imagens assassinas da noite - estrelas: subversão da noite, sempre que penso em ti danço até à ressurreição do tempo.

Herberto Helder


Do seu livro Retrato em Movimento, em Poesia Toda



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Tu e eu (Luis Fernando Veríssimo)





TU E EU

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.

Luís FernandoVeríssimo





quarta-feira, 14 de junho de 2017

Manuel Alegre é o vencedor do Prémio Camões




Manuel Alegre é o vencedor do Prémio Camões

8 de junho de 2017

Escritor é o 12.º autor português a receber aquele que é considerado o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.

O Prémio Camões de 2017 foi esta quinta-feira atribuído ao poeta e romancista Manuel Alegre, que se torna assim, aos 81 anos, o 29.º autor (e o 12.º português) a receber a mais importante consagração literária da língua portuguesa.

O prémio, no valor de cem mil euros, foi anunciado esta quinta-feira à tarde na sede da Biblioteca Nacional brasileira, no Rio de Janeiro, quando em Portugal eram cerca de 19h40. O nome de Manuel Alegre foi escolhido por um júri que integrou as ensaístas portuguesas Maria João Reynaud e Paula Morão, os académicos brasileiros José Luís Jobim de Salles Fonseca e Leyla Perrone Moisés, o poeta cabo-verdiano Jose Luiz Tavares e o especialista moçambicano em literaturas africanas Lourenço do Rosário.

Poeta, romancista e ensaísta, Manuel Alegre tem um longo percurso como lutador anti-fascista, é um dirigente histórico do PS e foi candidato à Presidência República em 2006.

(....)


Notícia completa no diário Público (8 de junho de 2017)


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AGORA MESMO

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen



Do seu livro Chegar Aqui



terça-feira, 13 de junho de 2017

Para ser grande, sê inteiro (Reis / Pessoa)




Para ser grande, sê inteiro: nada
         Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
         No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
         Brilha, porque alta vive.

14-2-1933

Ricardo Reis


Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 148.




Análise do poema "Quando era criança" (Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa aos três anos de idade



Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Fernando Pessoa

2-10-1933





Análise do poema "Quando era criança"

O poema "Quando era criança" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 2 de Outubro de 1933. Sendo um poema tardio e da autoria de Pessoa em seu próprio nome, caracteriza-se por uma das temáticas mais queridas a Pessoa quando escrevia em seu próprio nome: a lembrança da infância, enquanto período dourado da sua vida.

Por isso, este poema fala da própria infância de Pessoa e não só da infância enquanto período de felicidade para todos os homens.

Passemos à análise do poema propriamente dito:

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

Aqui Pessoa aborda a temática da infância enquanto período da inconsciência completa: "Vivi, sem saber". As crianças vivem a felicidade, porque em grande medida a desconhecem estar a viver. Esta oposição pensar/viver acompanhará sempre Pessoa nas suas análises. Ele sabe que será impossível regressar àquela condição infantil, porque hoje adulto ele sabe qual é a sua vida e não a pode ignorar: ele agora pensa e não se limita a viver. Por isso ele diz "Só para hoje ter / Aquela lembrança". De facto tudo o que resta é a lembrança, porque essa inconsciência da vida não vai regressar novamente.

É hoje que sinto
Aquilo que fui
Minha vida flui
Feita do que minto.

"Hoje" é que Pessoa sente o que foi. Isto reforça o que já dissemos: hoje a vida de Pessoa é feita daquele "pensar" que não existia quando ele era apenas criança. Hoje ele "sente", quando era criança apenas "vivia". A sua vida actual é uma mentira - pela sua própria avaliação. É uma mentira, provavelmente porque ele sente não conseguir descobrir a verdade do seu destino: é uma mentira existencial, uma vida que Pessoa sente não lhe pertencer por direito.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Pessoa está preso então nessa vida, nessa mentira que lhe impuseram. O que lhe resta é o "livro" que lê, o livro das memórias de uma infância perdida. E ao ler, vem-lhe um "sorriso alheio", um sorriso do passado, que já não é dela, mas que ele pode continuar a recordar, num apaziguamento frágil, mas que ao menos o poderá consolar na sua existência perdida. A memória da infância perdida conforta-o, mas igualmente o sufoca.

Ps: podem encontrar as características de Fernando Pessoa Ortónimo neste link:

prof2000.pt


(Fonte desta análise: Um Fernando Pessoa)



sábado, 10 de junho de 2017

Sete anos de pastor Jacob servia (Luís de Camões)

Jacob conhece Raquel, filha de Labão, de William Dyce (1845)



Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia o pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
pera tão longo amor tão curta a vida!

Luís de Camões


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Noutros lugares (Jorge de Sena)






NOUTROS LUGARES

Não é que ser possível ser feliz acabe,
quando se aprende a sê-lo com bem pouco.
Ou que não mais saibamos repetir o gesto
que mais prazer nos dá, ou que daria
a outrem um prazer irresistível. Não:
o tempo nos afina e nos apura:
faríamos o gesto com infinda ciência.
Não é que passem as pessoas, quando
o nosso pouco é feito da passagem delas.
Nem é também que ao jovem seja dado
o que a mais velhos se recusa. Não.

É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.

É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
As ruas rasgam casas onde leitos
já frios e lavados não rangiam mais.
E portas encostadas só se abrem sobre
a treva que nenhuma sombra aquece.

O modo como tínhamos ou víamos,
em que com tempo o gesto sempre o mesmo
faríamos com ciência refinada e sábia
(o mesmo gesto que seria útil,
se o modo e a circunstância persistissem),
tornou-se sem sentido e sem lugar.

Os outros passam, tocam-se, separam-se,
exactamente como dantes. Mas
aonde e como? Aonde e como? Quando?
Em que praias, que ruas, casas, e quais leitos,
a que horas do dia ou da noite, não sei.
Apenas sei que as circunstâncias mudam
e que os lugares acabam. E que a gente
não volta ou não repete, e sem razão, o que
só por acaso era a razão dos outros.

Se do que vi ou tive uma saudade sinto,
feita de raiva e do vazio gélido,
não é saudade, não. Mas muito apenas
o horror de não saber como se sabe agora
o mesmo que aprendi. E a solidão
de tudo ser igual doutra maneira.
E o medo de que a vida seja isto:
um hábito quebrado que se não reata,
senão noutros lugares que não conheço.

Jorge de Sena

Poesia - III



Jorge de Sena



Jorge de Sena morreu a 4 de junho de 1978 em Santa Bárbara, na Califórnia. Recordamo-lo hoje com estas duas ligações e um poema


Ler Jorge de Sena 


Jorge de Sena no Instituto Camões
por Jorge Fazenda Lourenço



segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema (Manoel de Barros)



Manoel de Barros (1916 - 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade

(Wikipédia)






quinta-feira, 1 de junho de 2017

Luanda em São Paulo (José Eduardo Agualusa)



LUANDA EM SÃO PAULO

Um taxista, ou taxeiro como com mais propriedade se diz em Luanda, estranhou o meu sotaque quando em Novembro do ano passado visitei o Recife.

— Você me desculpe, moço, mas você vem de onde?
Disse-lhe que era angolano e ele olhou para mim espantado.
— Angola? Isso fica no Brasil?

Expliquei que não, Angola fica em África, do outro lado do mar. Um país com pouco mais de dez milhões de habitantes, mais ou menos do tamanho do estado do Amazonas, rico em recursos naturais e destruído por uma prolongada guerra civil.

— Mas você é filho de brasileiros?
— Também não.
— Então onde aprendeu a falar português?

Respondi-lhe, já um pouco irritado, que embora existam em Angola muitas outras línguas, quase toda a gente entende e fala o português.

— Verdade? — estranhou o homem— , julguei que só nós, brasileiros falávamos português.
— E então os portugueses?
— Os portugueses? – o taxeiro sorriu superior. –Bom, esses falam um dialecto meio atravessado, não é bem português…

Mais tarde, passeando pelas ruas de Olinda (o casario pintado de cores loucas, os quintalhões protegidos por grossos muros de adobe ) lembrei-me como sempre da velha cidade de São Filipe de Benguela. Em Salvador reencontrei Luanda ( a festa permanente, o ritmo e o riso, o caloroso calulu). Corumbá, ardendo ao sol, em frente às águas lentas do Paraguai, trouxe-me à memória a Feira do Dondo, na margem direita do Quanza, a primeira cidade que os portugueses construíram nos sertões de Angola. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num sítio esquecido, longe da fúria e do fragor do mundo. Em Cachoeira, no recôncavo baiano, reencontrei a alegre vendedeira de raízes, santinhos e prodígios, que no mercado de São Paulo, em Luanda, me vendeu certa vez um pedaço de brututu, para o fígado, e estranhando que eu ainda não tivesse filhos se propôs vender-me também Pau de Cabinda. Num bar de esquina, no Rio de Janeiro, reencontrei os velhos funcionários públicos, de impecável terno de linho branco, que todas as tardes se reúnem a uma mesa da Biker, a mais antiga cervejaria de Angola, e à luz esplêndida do crepúsculo discutem todas as grandes questões do nosso tempo (sobretudo mulheres).

Por tudo isto eu quase acreditei estar em Angola quando vi, em viagem de ônibus entre São Paulo e Campo Grande, uma placa na estrada anunciado: Luanda, cem quilómetros. Mas depois disso conversei com a vendedeira de milagres em Cachoeira, com os funcionários públicos no Rio de Janeiro, centenas de outros brasileiros, e quase todos quiseram saber, como o taxeiro do Recife, onde ficava o meu país. O confronto entre a memória remota de África, que persiste em praticamente todas as regiões do Brasil, pelo menos a norte do Rio de Janeiro, e a absoluta ignorância do que é o continente nos nossos dias, deixa-me sempre perturbado. É como descobrir, no fim da vida, um irmão que partilhou connosco uma infância feliz, e que depois partiu para longe. Nós, em África, nunca deixámos de ter notícias dele. Ele nunca mais soube de nós. Ainda se recorda das canções que cantávamos, do tempero do calulu e do som do berimbau — mas já não sabe quem somos.

É importante para o Brasil redescobrir Angola (África)?

A mim, parece-me que será no espaço africano que o Brasil poderá exercer com mais vantagem, e proveito geral, a sua brasilidade. Parece-me também que o reencontro com África poderia ser importante para ajudar uma certa inquietude racial, latente, que é no fundo parte de uma mais vasta e profunda inquietação de identidade. Esta, porém, é uma questão a que só aos brasileiros cabe responder.

Nós, em África, continuamos à espera.

José Eduardo Agualusa

in Revista Lusofonia, Cascais, Portugal, Julho, 1996




segunda-feira, 29 de maio de 2017

Uma história exemplar (Mário-Henrique Leiria)



HISTÓRIA EXEMPLAR

Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Diretor.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Diretor.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Diretor.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Diretor.
Saí.

Mário-Henrique Leiria



segunda-feira, 22 de maio de 2017

"Cântico Negro" recitado por Maria Bethânia




CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!




quinta-feira, 18 de maio de 2017

O profissional da memória (João Cabral de Melo Neto)



Chico Buarque lê "O profissional da memória", poema do livro "Museu de tudo", para o projeto Encontros inspiradores, dO Globo, para a Bienal do Livro 2011 do Rio de Janeiro.


O PROFISSIONAL DA MEMÓRIA

Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,

para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.

Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;

foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada.

Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;

já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.

A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.

Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.

João Cabral de Melo Neto 



quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Noiva Judia (Pedro Paixão)




Vamos de mãos dadas. Levam-nos os passos que damos. Neste preciso momento é o suficiente. Os passos levam-nos por entre as ruas estreitas e iluminadas. Ouvimos o coração um do outro, só isso, ou antes, imaginamos o barulho que faz o coração um do outro e é o bastante. E às vezes um pássaro voa baixo sobre as nossas cabeças. Todas as portas estão fechadas. Dorme-se lá dentro. É como se toda a gente tivesse morrido. Há uma saudade nisto tudo que não se sabe de quê. Voltamos para trás, pelo mesmo caminho, refazendo os passos. São só os passos que passam, e isso também é o bastante.

Depois estamos num quarto. Nenhum de nós tem a ousadia de abrir a luz. Temos medo de nós, e esse medo é bom, como um arrepio. A esta hora todos os corpos são demasiado pesados, diz. Eu penso, como sempre, o que não digo. Ela põe um disco e a música enche o quarto.

Pedro Paixão


A Noiva Judia (1992)


Pedro Paixão (Lisboa, 1956) é um escritor e fotógrafo português.




 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Juro que nunca vou esquecer (António Lobo Antunes)



Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico (não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.

António Lobo Antunes





sexta-feira, 12 de maio de 2017

segunda-feira, 8 de maio de 2017

O dia em que fuzilaram o guarda-redes da minha equipa (Mia Couto)

(*)



O DIA EM QUE FUZILARAM O GUARDA-REDES DA MINHA EQUIPA

Nós éramos os do muro, sentadiços. Os outros corriam os futebóis, dispensavam suores. Enquanto nós, não. As meninas passavam, com suas batas brancas, pareciam aprendizes de garças. Os outros perseguiam-nas caçando simpatias. Nós ficávamos no muro, olhos trincando as sombras femeameninas.

Nosso futebol era ali, na mesa de matraquilhos do Bar Viriato. A mesa de jogo dormia fora do bar, ao dispor do luar que tombava no pátio. Era tão pesada que nenhum ladrão punha nela sua cobiça. Os roubadores daqueles tempos tinham dedos tremedrosos, eram gente de pequeno empreendimento.

Naquele pátio do Bairro Matacuane ficava o estádio do nosso encantamento. Era ali que vibravam as nossas multidões quando a pequena bola de madeira escorrecaía no buraco da baliza. Mas nós, sem idade e com as raças todas à mistura, só podíamos frequentar o imaginário relvado no intervalo dos outros. A mesa de matraquilhos era nossa só quase às vezes. No resto, pertencia aos tropas, soldados que abundavam por aqueles lados. O Viriato ficava na fronteira dos mundos, subúrbio dos subúrbios.

Sempre quando há quartéis, os bairros perdem seus nomes civis. E o nosso lugar era agora chamado de Zona do Quartel. Com o novo nome vieram as prostitutas e encheram os bares com suas grandes pernas cruzadas. Mesmo em nossos sonhos aquelas pernas se descruzavam sob lençóis que transpiravam. Por isso, nossos pais já não permitiam que muito parássemos pelos lados do Bar. Os receios deles careciam de fundamento. Nós só entrávamos no exterior. Lá dentro, apenas nossa curiosidade espreitava.

Mas a brincadeira dos matraquilhos custava cada vez mais preço. A moeda roubávamos lá em casa descarteirando eu de meu pai e Nandito não se sabe de onde. A moedinha abria o momento mágico. A gente metia na ranhura e a máquina expedia suas nove bolinhas, já tão gastas que coxeavam em cada volta de seus épicos percursos.

Foi quando se deram os casos chamados para estória. Primeiro acharam graça: apareceu um dos bonequinhos pintado de preto. O avançado do centro da minha equipa tinha mudado de raça, da noite para a madrugada. Os soldados portugueses, quando chegaram, fizeram riso e alcunharam o novo matraquilho de Eusébio.

Depois, apareceram mais três avançados, subitamente transcoloridos. Ainda encontraram piada, anedotaram. Distribuíram mais nomes: Coluna, Vicente, Matateu. Só o dono do bar é que ventilou ameaças: se descubro o sacana do pintor, ai de quem!

Um dia a mesa amanheceu com todos os jogadores de raça negra. No Bar Viriato, bem luso de seu nome e propriedade, figuravam os matraquilhos mais africanos do mundo.

Eu e Nandito apresentámo-nos bem cedinho, madrugada recém-estreada. Não tocámos no jogo, ficámos espectadores. Olhávamos as gotinhas de cacimbo, rebrilhando nas botas dos bonequinhos.

Até que surgiram os tropas, barulhosos, donos. Chegaram-se aos matraquilhos e trocaram suas admirações. Dessa vez, ninguém riu. Ao inverso, havia uma raiva partilhada que multicrescia. De repente, um dos soldados se deu de berrar salivando raivas. Os outros tentavam de acalmar-lhe as fúrias. Mas nada, o homem se atestara de ódios. Súbito, retirou do cinto uma pistola e em volta fechou-se o silêncio, solene. Parecia cinema, o Nandito olhava de espanto cheio: aquilo já não era Viriato, era o saloon. E aquele soldado acenando a pistola era o Clint Eastwood, o Rambo dos tempos. Quem sabe foi por causa desse estado de maravilhação que o Nandito não ouviu gritarem quando o soldado louco apontou sobre o guarda-redes da minha equipa. O tiro soou e o pequeno boneco esvoou, salpicando estilhaços, mais súbitos que o sangue.

Ainda hoje aquele tiro continua ressoando em minha vida, junto com esse outro grito que, por engano de um relâmpago, me pareceu sair do bonequinho alvejado.

Mia Couto


Do seu livro Cronicando (Caminho, 1ª edição, 1991)





domingo, 7 de maio de 2017

O riso das mães (Miguel Esteves Cardoso)



As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam.

A minha mãe está sempre a voltar. Aparece-me mais vezes do que quando estava viva. Sinto-a a rir-se dentro de mim, a desafiar-me a lembrar-me dela: "Diz lá então o que é que diz esta mãe tão chata que não te deixa em paz?"

Antes de morrer ela confidenciou-me "as mães, por muito boas que sejam, acabam sempre por deixar mal os filhos". Em inglês: they always let you down. Senti-me imediatamente culpado: não estaria ela a falar nos filhos? Não somos nós que as desiludimos, num instantinho?

As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam. Até voltam mais quando estamos bem e esquecemos as saudades que temos delas. Voltam para nos fazer rir, voltam para nos mostrar como, voltam para ver as coisas com os olhos delas.

Há um grande amor que se solta quando a presença física desaparece. Há um grande amor que espera por esse vazio para se mostrar. É como a voz dela dentro de mim: só comecei a ouvi-la no silêncio que caiu à minha volta quando ela se foi embora. Durante uns tempos — que nunca mais acabavam — doía-me que eu não pudesse falar com ela. Mas doía-me ainda mais ela não poder falar comigo.

Sim, não posso telefonar-lhe. Mas já não preciso. Ela fala comigo várias vezes por dia. Eu conto à Maria João, tal e qual tivesse acabado de falar com ela. Ela ajuda-me a rir, a perceber, a entregar-me.

As mães só fingem que nos deixam ficar mal. A verdade — que também é triste — é que não nos largam. Porque nós não as deixamos. Nem podemos.

Miguel Esteves Cardoso


(Público, 7 de maio de 2017)




segunda-feira, 1 de maio de 2017

Aldeia (Manuel da Fonseca)




ALDEIA

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam os pombos bravos
e acordam ecos no descampado

Manuel da Fonseca



(Blogue Voar fora da asa)




quinta-feira, 27 de abril de 2017

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (Luís de Camões )




Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões 




Aqui podemos ouvir este belo soneto camoniano com dois sotaques diferentes.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Antes e depois do 25 de Abril de 1974 (Beatriz Cunha)



"À conversa com a minha mãe, e apesar de ela apenas ter 7 anos de idade aquando do 25 de Abril, notei algumas alterações na sua vida, nomeadamente no que diz respeito ao microssistema.

O que mais notei foram alterações no que respeita à escola; antes do 25 de Abril, fiz a primeira classe como aluna da minha mãe, numa escola em que rapazes e raparigas estavam separados, quer nas aulas quer no recreio. o mais engraçado, é que apesar de os alunos serem separados, eu estava numa turma de rapazes, pois a minha mãe dava aulas aos rapazes! Depois do 25 de Abril fui obrigada a mudar para a escola da minha área de residência, deixei de ser aluna da minha mãe, e já estava numa turma mista, e tinha muito medo dos rapazes!

Era muito nova e não tenho a noção das alterações na sociedade, mas lembro-me de começarem a existir muitas manifestações, passava na rua e eram só caravanas com os carros a apitar e com bandeiras, os muros cheios de cartazes políticos, dos mais diversos partidos! Também me lembro de, na televisão, à hora do almoço, começarem a dar os desenhos animados dos Beatles! Começou a haver muito mais agitação, e as músicas de intervenção passaram a ser uma constante nas rádios e em todos os locais públicos. Antes, isso era impensável!

Também me lembro da grande vaga de retornados das ex-colónias, a maior parte deles vieram sem nada, e comecei a conviver com eles diariamente, na escola, eram vizinhos, e alguns deles ainda hoje são grandes amigos. Tenho uma vaga ideia de em Lisboa terem feito A Pirâmide, com alimentos para ajudarem os retornados, e davam as imagens na televisão. Foi pouco tempo depois do Natal desse ano..."

Beatriz Cunha

Lido em Psic.12ºB.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Auto-retrato (Manuel Bandeira)

Manuel Bandeira, retratado por Candido Portinari (1931)



AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crónicas
Ficou cronista de província;
Arquitecto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

Manuel Bandeira




sexta-feira, 7 de abril de 2017

Auto-retrato (Alexandre O'Neill)

Alexandre O'Neill


Depois da leitura do auto-retrato de Bocage, toca a ler o de Alexandre O'Neill, inspirado nele e com o toque de humor tão característico dele.


AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço'






Auto-retrato (Bocage)




AUTO-RETRATO

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765 - 1805)

Imagens achadas aqui




sábado, 1 de abril de 2017

Remodelações governamentais (Mário-Henrique Leiria)



REMODELAÇÕES GOVERNAMENTAIS

-Podem sentar-se, meus senhores - determinou o Presidente aos Ministros que, atentos, o esperavam ao longo da mesa magnífica. E sentou-se também, no lugar que lhe competia. - Parece-me ser conveniente uma remodelação integral do ministério.

Entre o silêncio respeitoso, o Presidente levou a mão discreta ao bolso interior do casaco. Tirou o apito e apitou. Três vezes.

A porta da antiquíssima sala dos Passos Longos abriu-se. De par em par. A guarda presidencial entrou e abateu os Ministros com rajada de metralhadora competente. Todos.

-Muito bem - confirmou o Presidente, levantando-se. O cabo Ludovino encostou a metralhadora à parede, com todo o cuidado. Esfregou o nariz, olhou em volta, sorriu e atirou o Presidente pela janela daquele quarto andar.

Mário-Henrique Leiria


Novos Contos do Gin (1974)

sexta-feira, 31 de março de 2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

Êxtase (Miguel Torga)



ÊXTASE

Terra, minha medida!
Com que ternura te encontro
Sempre inteira nos sentidos,
Sempre redonda nos olhos,
Sempre segura nos pés,
Sempre a cheirar a fermento!
Terra amada!
Em qualquer sítio e momento,
Enrugada ou descampada,
Nunca te desconheci!
Berço do meu sofrimento,
Cabes em mim, e eu em ti!

Miguel Torga


segunda-feira, 20 de março de 2017

O mais importante na vida (António Botto)



O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.

António Botto


António Botto (1897-1959), "O mais importante" in «Canções» (1920)
Manuela de Freitas in «Poemas de Bibe» [em parceria com Mário Viegas] (1990)
Tradução para inglês de Fernando Pessoa em: «Songs» (1930) / Translation by Fernando Pessoa
Música: Bernardo Sassetti (1970-2012), "Inocência - Movimento I"



segunda-feira, 13 de março de 2017

Dor elegante (Paulo Leminski)




DOR ELEGANTE

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nesse dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra

Paulo Leminski 




segunda-feira, 6 de março de 2017

Os comboios que vão para Antuérpia (Herberto Helder)



Em janeiro eu estava em Bruxelas, nos subúrbios, numa casa sobre a linha férrea. Os comboios faziam estremecer o meu quarto. Fora-se o natal. Algo desa­parecera, uma coisa ingénua em que se poderia ter confiado. Talvez a esperança. Eu não tinha dinheiro nem livros nem cigarros. Não tinha trabalho nem ócio, por­que estava desesperado. Por isso passava o dia e a noite no quarto. Na linha em baixo rangiam e apitavam comboios que talvez fossem para Antuérpia. Eu pen­sava em Deus quando os comboios trepidavam nos carris e apitavam tão perto de mim. Quando iam pos­sivelmente a caminho de Antuérpia. Pensava nos com­boios como quem pensa em Deus: com uma falta de fé desesperada. Pensava também em Deus — um com­boio: algo que sem dúvida existe, mas é absurdo, que parte com um destino indefinido: Antuérpia — que pos­sivelmente (evidentemente) não era.

Às vezes vinha à janela e, por detrás dos vidros, olhava para o caminho de ferro. Mas antes de lá chegar os meus olhos encontravam uma árvore esquisita — tímida mas tenazmente viva — num quintal próximo. Esta árvore metia medo: era como a esperança em mim mesmo, ou uma ainda mais ambiciosa aposta: a fé do­lorosamente contraditória nos homens. Nos homens? Há em mim todas as virtudes da confiança, mas sou um desesperado. Apesar de tudo também sou um ho­mem. Tenho capacidades de amor. Amo a minha seme­lhança com todos os homens, mas desespero nesse mesmo amor. Estou fechado num quarto. Nem posso fumar. Não posso descansar. Imagino que se consiga partir de Antuérpia depois de lá chegar num desses comboios rangentes. Antuérpia não é um sítio final. É uma cidade como as outras: com bares e nevoeiros, o silêncio, as pessoas, as vozes, a matemática impe­netrável das suas multiplicações e desmultiplicações, e o fluxo e refluxo das imagens. Em Antuérpia há pros­titutas, há um calor humano degradado, a embriaguez. Lá também se morre. Talvez alguém tenha um dia res­suscitado em Antuérpia. Não sei.

O lugar em que penso é difícil, sempre difícil.

Ao norte existe o rio Escalda. De lá se parte, che­ga-se ao mar. Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confi­ança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode.

Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus... Comboios que não param de ranger e apitar. Comboios que partem. Durante a noite acordo muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a mi­nha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa.

Talvez pudesse ouvir passos junto à porta do quar­to, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vaga­mente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defron­te da porta, a poucos metros, à distância de um sim­ples movimento caloroso. Mas nesse instante ser-me-ia revelada a essencial crueldade do espírito. Penso que desejaria somente a presença incógnita e solitária des­sa pessoa atrás da porta. Ela não deveria bater, solici­tar, inquirir.

— Posso falar? Podemos falar?

O meu único alimento é o desespero. E é do cora­ção estéril que extraio toda a força: tenho confiança em que Deus está neste quarto, está na tão experiente ex­pectativa das tumultuosas passagens dos comboios.

O pensamento alude ao norte, a essa ideia que re­laciona o norte com o frio puro e a dramática alegria da neve, das temperaturas muito baixas. Alude também à viagem sem fé, inconsequente, feita com o inexpli­cável ardor de quem se inicia na eternidade.

Mas nem cigarros tenho. Estou possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar, a fraternidade solitária, o amor sempre em viagem.

O meu gosto pela exactidão já sabe o horário dos comboios que possivelmente (evidentemente) nem vão para lá.

Deus principia a inspirar-me terror. A minha unida­de, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que pode alcançar.

Não, não está ninguém junto à porta.

Herberto Helder

Os Passos em Volta (1963)



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Poema de uma Quarta-feira de Cinzas (Manuel Bandeira)

Carnaval de Olinda, 2014 (Fotografia de Jan Ribeiro)



POEMA DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e desgraça...

O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,

Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente ele passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e desgraça...

Manuel Bandeira


Do seu livro Carnaval (1916)




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Pára-me de repente o pensamento (Ângelo de Lima)

Fotografia de *F~



Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Pára e fica e demora-se um momento.

Pára e fica na doida correria…
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Destruição (Carlos Drummond de Andrade)




DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Assume o amor como um ofício (Eduardo White)



ASSUME O AMOR COMO UM OFÍCIO

Assume o amor como um ofício
onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição,
repete-o quantas vezes for preciso
até dentro dele tudo durar
e ter sentido.

Deixa nele crescer o sol
até tarde,

deixa-o ser a asa da imaginação,
a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre
para não ser memória.

Eduardo White



"(...) Eduardo Luís de Menezes Costley-White nasceu a 21 de Novembro de 1963 em Quelimane, de mãe portuguesa e pai inglês. É um dos poetas ligados à fundação da revista bimestral Charrua, da Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO), que em meados dos anos 80 contribuiu para renovar a literatura do país. (...)"


(Texto e fotografia do diário Público: "Morreu o poeta moçambicano Eduardo White" (24-8-2014)




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Com a tua letra (Fernando Assis Pacheco)

Fernando Assis Pacheco




Com a tua letra

Fala-se de amor para falar de muitas
coisas que entretanto nos sucedem.
Para falar do tempo, para falar do mundo
usamos o vocabulário preciso
que nos dá o amor.

Eu amo-te. Quer dizer: eu conheço melhor
as estradas que servem o meu território.
Quer dizer: eu estou mais acordado,
não me enredo nas silvas, não me enredo,
não me prendo nos cardos, não me prendo.
Quer também dizer: amar-te-ei
cada dia mais, estarei cada dia
mais acordado. Porque este amor não pára.

E para falar da morte; da enorme
definitiva irremediável morte,
do carro tombado na valeta
sacudindo uma última vez (fragilidade)
as rodas acendedoras de caminhos
- eu lembraria que o amor nos dá
uma forma difícil de coragem,
uma difícil, inteira possessão
de nós próprios, quando aveludada
a morte surge e nos reclama.

Porque eu amo-te, quer dizer, eu estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco





terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Um adeus português (Alexandre O'Neill



Voltamos a ler este maravilhoso poema de Alexandre O'Neill, porque temos a oportunidade de o ouvir dizer.



UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"Dezoito anos. Quase loiros os cabelos..."



O meu amigo António Gonçalves enamorou-se de uma jovem que o atende na caixa de um minimercado. Seja qual for o dia da semana, mesmo domingos, lá está ela, sempre atrás da máquina registadora, sempre com o mesmo cumprimento, sempre com as perguntas obrigatórias sobre cartões, sacos e promoções, como se fosse um prolongamento artificial daquela estrutura metálica e de cimento, ou tivesse sido metamorfoseada por uma bruxa má numa máquina falante. O enamoramento do meu amigo é todo interior, apenas dele, platónico, sem qualquer veleidade ou pretensão. Trata-se antes de uma espécie de simpatia ideológica, de um sentimento de solidariedade. De compaixão. O que o leva por vezes a opiniões radicais e muito pouco em moda, como defender que em muitas situações a mulher faria melhor em optar por ser dona de casa, da sua casa, do que sujeitar-se a aturar patrões, empregos alienantes e mal pagos. Sobretudo agora com tantos eletrodomésticos a permitir tempo livre para ocupações mais criativas. Mas ele também acrescenta que o que diz se pode e deve aplicar aos homens, ainda que estes estejam mais habituados a ser burros de carga.

E, ao correr da pena, escreveu este poema num guardanapo:

Dezoito anos. Quase loiros os cabelos.
O verde nos olhos. E um estranho lume
no corpo quando dança.
Saiu agora da longa casa da infância,
e trabalha das nove às seis
algures num subúrbio.
Não gosto de pensar que em breve
não mais terá dezoito anos,
nem quase loiros os cabelos.
Talvez o verde nos olhos, mas já não
um estranho lume no corpo quando dança.






quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

As Letras Assinadas (Baptista Bastos)



  No paredão austero da Mundial, onde a prudência administrativa mandou pespegar uma lápida: «É proibido afixar anúncios nesta propriedade», um miúdo de metro e meio de altura escreveu a carvão estas letras infamantes para a higiene do edifício: «Viva o Benfica».
  O miúdo não percebia de leis, pelos vistos. O miúdo não sabia que homens muito sábios, muito avisados e muito prudentes têm escrito milhares de palavras de ordem - e que essas palavras de ordem foram articuladas para serem rigorosamente cumpridas. O miúdo só sabia que tinha uma mensagem para dizer, umas palavras que eram a ordem das coisas e a própria expressão do seu mundo: «Viva o Benfica». E o miúdo escreveu-as. Em letras grandes, mal feitas, mas grandes e arrogantes. Limpou as mãos aos calções e ficou a espiar a sua obra. Faltava lá qualquer coisa. Tornou a pegar no carvão e escreveu: «Manel». Responsável pela afirmação, o Manel não quis que ela ficasse anónima. A sua responsabilidade começou a partir daí. Um polícia aproximou-se lentamente. Viu tudo. E, como as leis são feitas para se cumprirem, agarrou num braço do Manel. O Manel a princípio ficou surpreendido e perplexo; depois, como ter medo é próprio dos homens, o medo apareceu-lhe em veios por todo o corpo, para se exprimir finalmente em resistência e lágrimas.
  Começou a juntar-se gente. Manel gritava e o polícia manifestava firmeza na mão e indiferença no olhar. Com razão ou sem ela, a verdade é que as pessoas que formavam roda penderam em simpatias e inclinações para o miúdo-pardal-de-telhado que estava à beira de ser engaiolado. O polícia, certamente, começou a pensar que uma situação absoluta é horrível - concluindo para os seus botões de metal, que «nem tanto ao mar, nem tanto à terra», que é um belo aforismo, muito profundo e muito reverente. Afrouxou a pressão que fazia no braço do Manel. Afrouxou também a tensão que se estabelecera entre as pessoas que miravam a cena. Manel deu por isso com os seus olhos espertos e traquinas. E correu. E escapou-se. Porém, antes de virar à esquina, voltou-se para trás e gritou para o polícia:
  – Se calhar o sô guarda é do Sporting, não?

Baptista-Bastos 

Lisboa contada pelos dedos



Armando Baptista-Bastos (Lisboa, 1934), jornalista e escritor português, na Wikipédia e no Jornal de Negócios.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Guilhotinar a cultura (Manuel António Pina)

10 de maio de 1933: Bücherverbrennung em Berlim


GUILHOTINAR A CULTURA

Em 1933, a Alemanha hitleriana promoveu, em dezenas de cidades, a queima pública de livros "não alemães" e de "intelectuais judaicos". A "Bücherverbrennung" (queima de livros) obedeceu ao projecto de "sincronização cultural" de Goebbels visando a "limpeza" da cultura alemã. Foram assim atirados ao fogo, no meio de multidões ululantes e de braço estendido, obras de, entre outros, Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Heine, Freud, Einstein... Hoje já não se acendem fogueiras, usam-se guilhotinas. Mas o objectivo continua a ser a "limpeza", desta vez comercial, e a "sincronização cultural", agora com os padrões do lucro a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da própria cultura. Se não vejam-se os "intelectuais" sacrificados na "Bücherguillotinierung" (guilhotinagem de livros) recentemente organizada pelo Grupo Leya de Miguel Pais do Amaral: Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin... Ao menos os nazis queimavam livros em nome de uma ideia de cultura, o que sempre é um pouco mais respeitável que fazê-lo por mera ganância.

Manuel António Pina


Publicado originalmente no Jornal de Notícias, 19/02/2010


Crónica, saudade da literatura. 1984-2012 (Manuel António Pina), Assírio & Alvim, 1ª edição, 2013.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

"O mundo meu é pequeno, Senhor..." (Manoel de Barros)



O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore .
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

Manoel de Barros




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A vida (Mário Quintana)




A VIDA

A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida...

Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado..
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava
o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca
dourada e inútil das horas...
Seguraria o meu amor, que está a muito à minha frente, e diria
EU TE AMO...
Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido
à falta de tempo.

Não deixe de ter alguém ao seu lado
por puro medo de ser feliz.

A única falta que terás será desse tempo que infelizmente...
não voltará mais.

Mario Quintana 




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Até que o vós me doa (Ricardo Araújo Pereira)



Tenho saudades de uma pessoa. É a segunda pessoa do plural. Em Lisboa, como sabeis, fora do púlpito praticamente ninguém a usa. Se calhar, tem um sabor antigo – e vós desejais ser modernos. Ou então soa a beatice – e vós ambicionais ser marotos. Seja por que razão for, a segunda pessoa do plural foi substituída por uma formulação meio esquisita. Em vez de “vós falais”, dizeis “vocês falam”. (Eu também digo, mas estou a conter-me para efeitos de comédia.) Ora, “falam” é a terceira pessoa do plural e, por isso, “vocês falam” constitui uma mixórdia linguística. 
A forma verbal que usamos para “eles”, aplicamos a “vós”. Na verdade, a “vocês” – que, ao que parece, resulta da contracção das palavras “vossas mercês”, uma expressão pelo menos tão antiquada como “vós”. Em Lisboa (e não só) dizemos, por isso, “vocês falam” e “eles falam”. Aquele “falam” passa a servir para tudo. Em inglês, a mesma forma verbal também serve para várias pessoas: I speak, you speak, we speak, they speak. É uma falta de higiene e uma vergonha. Parece uma língua inventada por crianças.

Façamos um esforço para retomar o vós. E, de caminho, tentemos também recuperar esta forma de imperativo que parece usar o presente do conjuntivo. Nos livros, ainda se diz: “Brindemos à saúde do Vítor.” Na vida real, no entanto, toda a gente diz: “Vamos brindar à saúde do Martim”, não só porque ninguém usa aquele imperativo, como porque já quase ninguém se chama Vítor. Os colegas das minhas filhas têm nomes completamente diferentes dos colegas que eu tinha na idade delas. Não há um Jorge, acabaram os Fernandos e os Paulos, escasseiam os Carlos e rareiam mais ainda os Vítores. Já no meu tempo, não havia Vicentes, e quase ninguém se chamava Tomás, Martim ou Lourenço. Vós chamastes outros nomes aos vossos filhos e parastes de invectivar os amigos com o imperativo que pede emprestado ao conjuntivo. “Partamos imediatamente, Alberto!”, costumava exclamar-se. “Vamos embora, João Maria!”, grita-se agora. Estais dispostos a reaver conjugações antigas? Se sim, contactai-me. Tentemos organizar um grupo de gente saudosa deste modo de falar, e decidida a devolver-lhe o uso. Já houve iniciativas piores, não diríeis?

Ricardo Araújo Pereira

(Publicado na revista Visão, 15-12-2016)


Dois comentários lidos no blogue Entre as brumas da memória, onde parte deste artigo foi também publicado:

"O RAP é obviamente um tipo do Sul. Se andasse pelo Norte do país e ouvisse as pessoas de lá ficaria a saber que uma grande parte do portugueses usa a 2ª pessoa do plural, apesar do efeito massificante (e também estupidificante) da televisão que difunde, quase em exclusivo, o que Vital Moreira chama lisboetês. No meu limitado entendimento da questão parece-me que o uso progressivo do "vocês" resultou de um certo "acriolamento" da língua e, sobretudo, da dificuldade da conjugação verbal do "vós" em frequentes situações.. NG"

"Também deveria ser dito ao RAP que um grande número de portugueses distingue claramente a fonética de "voz" com a de "vós" ao contrário do que está imp´lícito no seu trocadilho. Que que viaje pelo interior-norte do País a partir de Tancoso e poderá constatá-lo... NG."






segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O ruço (António Lobo Antunes)




O RUÇO

A saudade é, para mim, um sentimento estranho.
Sempre ouvi dizer que diminui com o tempo, que nos vamos habituando, que nos vamos esquecendo mas, no meu caso, aumenta, surge quando menos espero, instala-se ao meu lado, dói. É estranha a dor da saudade porque, para mim, é física. Sinto-a na cabeça, nos músculos, no corpo todo. Por exemplo saudades da tia Madalena a chamar-me
- Filho
da tia Bia a chamar-me
- Antoninho Cravo Roxo
da Gija enquanto me coçava as costas à noite, antes de deitar-me
- menino, menino
e eu tão pequeno quando a saudade dela chega e, quando os seus dedos me tocam, tão contente. Saudades da casa grande de Benfica, saudades do lago. Até saudades do Marciano a regar os canteiros. Saudades dos rebanhos a passarem à tarde num tinir de badalos. Saudades da chuva de abril, tão leve. Saudades do avô, de casaco de linho branco, a sorrir. Não consigo lembrar-me da voz dele, por mais que tente não consigo lembrar-me da voz dele, lembro-me que dizia
- O meu morgado, o meu morgado
porque o Brasil continuava nele. Isto em Belém do Pará, lá em cima. Porque não voltámos nunca, porque ficámos aqui? Saudades de canções
Mamãe
diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai
Não vás meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?
de poemas que escandalizavam a minha avó
Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.
Diz-lhe um amigo que louco
para que queres isso tu?
É para alegrar um pouco
o triste olho do cu.
E a minha avó a abanar a cabeça, consternada.
A minha bisavó que não conheci, morreu nova, chamavase Leopoldina como tantas raparigas da sua geração: era o nome da Imperatriz. O meu pai tinha em cima de uma mesa a fotografia dela. A avó Leopoldina
(saudades)
e o bisavô João, de cabelos brancos e corrente de relógio no colete. Saudades dos doces do Brasil da minha tia avó Isabel, cocada, rebuçados de ovos e o tempo, nessa época, compridíssimo. Tia Biluca, tia Mimi, tia Marocas, avó Chuta, senhoras de peitos imensos, com buço. O trisavó Bruno Álvares Lobo cuja família saiu de Portugal para a Holanda e da Holanda para o Brasil, séculos antes, por serem judeus. Isto explicou-me, no dia da entrega do Prémio Jerusalém, em Israel, um velhote especialista em genealogia, que estivera nos campos de concentração nazis e se foi informar da história da família. A minha pequena costela judia era um orgulho para ele. O meu avô, aliás
(tantas saudades de si, avô)
possuía uma cara chapada de judeu, igualzinha à da sua mãe, que morreu de pneumonia. Lembro-me do meu pai, muitas vezes
- Vou morrer de pneumonia como a minha avó
e assim foi. Tio Joaquim, médico, que vinha às vezes de barco e falava com sotaque carioca, carregado de doces e de livros, magro, ao contrário do meu avô que pesava mais de cem quilos. Mostrava-me o anel ao lado da aliança
- É o anel do morgado, é para ti
e a minha avó entregou-mo no dia em que ele morreu.
Essa vinha de alemães: tantos sangues no meu. Cartas em alemão do tio Rudolf mandadas aos pais da Guerra da Crimeia. Herdei isso tudo, cartas, documentos, papelada vária, fotografias de sujeitos de bigodes loiros e olhos azuis. Quando estive num hospital em Londres o director para mim
- Você não parece português mas também não parece inglês
e logo a seguir, com uma expressão zangada
- Parece um alemão
numa espécie de ódio que me confundiu. Na escola os meus colegas chamavam-me Ruço. Há séculos que não me chamam Ruço. Saudades disso, também. Não só os colegas, pessoas crescidas que não conhecia
- Sacana do miúdo é ruço
e não pareciam especialmente alegres por isso. Esta crónica é escrita por um ruço. Os ruços e os ruivos, a quem chamavam Estás A Arder, eram olhados com uma curiosidade desgostosa. Até disso sinto saudades, olha, que me observem com uma curiosidade desgostosa.
- São manhosos, os russos
dizia-me o senhor da carvoaria
- São manhosos
se calhar com medo que eu lhe pinasse uns briquetes, embora o meu pai fosse doutor.
- Não é verdade que o teu pai é doutor ó ruço?
e uma olhadela curiosa, entre a desconfiança e o respeito.
Quando fui treinar para o Futebol Benfica um dos rapazes anunciou ao grupo
- O pai do ruço é doutor
e levei menos encostos por isso. O treinador, da idade do meu pai, que jogara contra ele
- O pai do ruço foi aos campeonatos da Europa e tudo porque o pai do ruço fez parte do Time Maravilha,
no Benfica, e lá estava ele, com os colegas, numa parede, emoldurados. Isto já no Benfica, que era outra loiça.
O meu pai todo penteadinho, com a águia na camisola.
Havia uma caixa de lata cheia de medalhas, que os meus irmãos e eu às vezes púnhamos ao peito. Medalhas de campeão nacional e tudo. Às vezes ia jantar com os antigos colegas e davam imensas palmadas uns aos outros.
Os colegas também me chamavam ruço. Depois, com o tempo, o ruço desapareceu. Continua apenas, meio apagado, no meu rol de saudades.


António Lobo Antunes

(Revista Visão, 21-12-2016)