POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Odeio poesia (Isabela Figueiredo)



ODEIO POESIA

Já não gosto de ouvir poesia. Antigamente, fazia sessões cá em casa com o meu amor, quando tive um amor. Agora gosto de a ler em silêncio. Ou mudou a poesia ou mudei eu. Talvez tenhamos mudado ambas.

Fujo de todos os recitais para que me convidam. Lê-se poesia com muita importância, como se a poesia tivesse mesmo muito importância. Para mim a poesia é estar aqui a teclar um texto no computador, meio cega, cheia de pressa porque dentro de 9 minutos tenho de estar no café com C., que me convidou para um projeto que vai mudar o mundo. Não gosto de interpretar poemas para outros, embora até leia bem, digam que leio. Gosto de ler poemas sozinha na minha cabeça.

Também já não aguento poemas muito eloquentes. Houve um tempo para isso. Hoje em dia devemos ser práticos, ir diretos à fruta, arrancá-la, mastigá-la e cuspir o caroço.

Não me venham, portanto, com poemas. Dizem que sou atávica.

Isabela Figueiredo 

(Novo Mundo, 3-03-2016)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Uma biografia multimédia de Manuel António Pina e dois poemas


Hoje há cinco anos que morreu Manuel António Pina, escritor, jornalista e poeta português, e para ficar a conhecer melhor a vida e obra dele vamos clicar neste link:



Artigo da Infopédia sobre Pina


E também, é claro, vamos ler, dois poemas dele: o primeiro, mais simples, e o segundo, com mais profundezas...

CAFÉ ORFEU

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.



OS OLHOS

O rosto que olha para trás,
o lado de fora do visível,
existe este rosto ou é apenas,
diante da infância, o olhar que se contempla?

Em ti, ó noite,
reclino a cabeça.
O que eu fui sonha,
e eu sou o sonho:

alguma coisa que pertence
a um desconhecido que morreu
que outro desconhecido (é este o meu rosto?)
fora da infância infinitamente pense.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Velha chácara (Manuel Bandeira)


O poeta brasileiro Manuel Bandeira morreu no Rio de Janeiro no dia 13 de outubro de 1968. Ele tinha nascido em 1886 na cidade de Recife, no estado nordestino de Pernambuco.


VELHA CHÁCARA

A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
– Mas o menino ainda existe.

Manuel Bandeira



Chácara (do quíchua chajra) é, no Brasil, uma pequena propriedade rural (ou uma grande propriedade urbana) com casa de moradia, criação de animais e cultivo de frutas e legumes para venda.

(Wikipédia)


Horta em chácara de Avaré, em São Paulo




segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O português devora-se a si mesmo (José Carlos Fernandes)



O PORTUGUÊS DEVORA-SE A SI MESMO


A ambição da língua portuguesa é poder ser falada sem necessidade de abrir a boca. A manter-se a tendência, chegará um tempo em que será incompreensível até para os próprios portugueses.

Os portugueses costumam estranhar que compreendam sem dificuldade o português falado no Brasil e o espanhol, mas que brasileiros e espanhóis não sejam capazes de perceber o português de Portugal. Esta falta de reciprocidade é, muitas vezes, atribuída, ao “jeito natural para as línguas” dos portugueses (um atributo imaginário que faz parte da nossa auto-imagem) e a uma suposta incapacidade congénita de brasileiros e espanhóis para compreenderem e se expressarem noutras línguas.

Mas se fizermos um pequeno esforço de abstracção e distanciamento e nos ouvirmos de forma analítica, emerge uma explicação mais plausível: a pronúncia do português falado tende a ser impenetrável. Em contraste com o português do Brasil e o espanhol, a maior parte das sílabas do português de Portugal são fechadas e os “s”, em vez de sibilarem, soam como “ch” e “j” (o que os brasileiros pronunciam como “áss óbráss”, nós pronunciamos como “ajóbraje”).

O website do Instituto Camões, ao comparar a fonética das pronúncias do português dos dois lados do Atlântico, indica que “a mais notória diferença em relação ao Português do Brasil diz respeito às vogais não-acentuadas que são muito mais audíveis no Português Brasileiro do que no Europeu, sendo, nesta variedade, muito reduzidas, o que leva, por vezes, à sua supressão. Esta característica do Português Europeu tem como consequência que os estrangeiros compreendem melhor a pronúncia de um brasileiro do que de um português, sentindo, neste último caso, que a língua parece ter só consoantes”. Como pode um brasileiro perceber que o som “froch” emitido por um português corresponde à palavra “feroz”, que do outro lado do Atlântico se pronuncia como “féróiss”?

Quando um grupo de portugueses se desloca ao estrangeiro, alguém que os ouça falar entre si e não tenha familiaridade com o português, é tentado a atribuir-lhes origem, não latina, mas eslava. A sugestão poderá parecer tonta, mas a inaudibilidade das vogais e a abundância dos sons “j” e “ch” explica a confusão.

José Carlos Fernandes


Observador (17-10-2015)



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

"Um dia não estarei. Custa..." (Egito Gongalves)




Um dia não estarei. Custa
escrever isto. A cidade ter-me-á
perdido, as coisas que chamei minhas
estarão dispersas,
algumas viverão ainda amadas
por quem amei. Penso nisso quando sei
que não subiria hoje as escadas
do Barredo. Nem sequer as da Vitória,
parando no patamar para um mergulho
na paisagem que o rio anima, o que
fiz tanta vez sem perder o fôlego.
Nem me proporia atravessar o Montemuro
para um cozido enxundioso na Gralheira.
Um dia não estarei. É o normal!
O meu lugar no café, o olhar
ausente da paisagem, deixarei
umas cartas, alguns inéditos
no Compaq (em tempos ficariam
na gaveta), coisas sem importancia
que só para mim a teriam. Estarei
em lugar nenhum, serei um retrato
na parede e não haverá lugar
para qualquer dor, ó Drummond!

Egito Gongalves


Poema inédito publicado na revista Hablar / Falar de POESIA. Revista hispano/portuguesa de poesía. Número 6. 2002.


José Egito de Oliveira Gonçalves (1920 - 2001), mais conhecido por Egito Gonçalves, foi um poeta, editor e tradutor português.

(Wikipédia)



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Sabedoria (José Régio)



SABEDORIA

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.

Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Poema pouco original do medo (Alexandre O'Neill)



POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos

Alexandre O'Neill


Tempo de fantasmas (1951)