quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria do Rosário Pedreira - "Dorme, meu amor, que o mundo já viu..."



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira


O canto no vento dos ciprestes, 2001, Gótica.



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eugénio de Andrade - Rumor do mundo

 


Rumor do mundo

As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.

Eugénio de Andrade


Rente ao Dizer, 1992




(10 Pãezinhos [Fábio Moon & Gabriel Bá] - palavra, 2012)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Sublinhado a lápis: Mia Couto

 


Caminhava para lá onde o espaço sobrava.

Mia Couto



“A mancha”, in Cronicando, Caminho, 7ª edição





(Fotografia de Rosino, Entre Mutuáli e Gurué, Moçambique, 2009)


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Augusto de Campos - ferida




ferida

fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

Augusto de Campos




(Fotografia de Doeixo) 



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Manuel Bandeira - Bacanal


BACANAL

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Manuel Bandeira


Carnaval (1918)



(Foto: Jan Ribeiro / Secult PE - Fundarpe - Bloco Bacanal do Bandeira celebra o carnaval com poesia, 2018)



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Soledade Santos - Desesperança



DESESPERANÇA

A glicínia serpeia no tronco velho
e o dossel chama as abelhas na tarde quente.
Ninguém perturba o seu afã de insectos eficazes.
As rolas soltam arrulhos mas não convidam à sesta
e não caem coa calma aves nem bocas de amantes.
Tudo é mudo e branco. Nada significa.

Soledade Santos


Sob os teus pés a terra (2010)




(Fotografia de Robert Grant)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026