Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

sábado, 1 de maio de 2021

Ruy Belo - A Margem da Alegria

Robert Grant - Tília, Jardim Botânico da Universidade de Coimbra



quando o mínimo gesto era um gesto criador
e as coisas começavam e o mundo sempre em simples sons se descobria
quando ninguém ainda se movia na periferia da necessidade ou da conveniência
e havia gigantescas tílias que nos davam sombra em troca do cansaço
e a formosura das mulheres se notava até na violência do silêncio
junto às folhas recentes das amigas amoreiras perto de ameixieiras encarnadas
quando as águas do mar eram ainda águas sem medida revolvidas
e não como hoje são domésticas e mansas
quando os homens viviam na intimidade da sensibilidad e dilatavam
as narinas para aspirar profundamente o cheiro do suor
das mulheres quando após o esforço principiava a arrefecer
e todas as palavras eram relativamente novas e caíam como pétalas
e não havia tantas miudas minudências rodeando os corpos

Qando as raparigas punham todo o peso da sua esmagadora juventude
no pé e o pé no pó das antigas estradas a caminho das fontes
onde a água corria pelos vagarosos dias desse tempo


Ruy Belo

Excerto de A margem da alegria (1974)


terça-feira, 27 de abril de 2021

Paulo Henriques Britto - Geração Paissandu




GERAÇÃO PAISSANDU

Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951) é um poeta, professor e tradutor brasileiro.


"A geração Paissandu" em Digestivo Cultural e em Setaro's Blog.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

Sá de Miranda - Comigo me desavim

Sá de Miranda, por Elvira Palma. Évora. Foto de Jaime Silva


Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo,
Não posso viver comigo,
Não posso fugir de mim.

Com dor, de gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda



Meio: Mais 

Imigo: Inimigo.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Filipa Leal - "Talvez por causa da Luísa..."

Filipa Leal


Talvez por causa da Luísa,
não guardei do colégio amigos de infância.
Cresci entre as minhas primas,
na quinta dos avós.
Um dia fizemos o nosso esconderijo
na pocilga já vazia de animais.
Numa parede pintámos o sol,
na outra a lua,
e fechávamo-nos naquele cubículo,
a fumar cigarros roubados aos pais,
como quem começa a preferir a arte
à natureza.

Filipa Leal


 


sexta-feira, 9 de abril de 2021

Mário de Andrade - "Na rua Aurora eu nasci..."

Casa em que M. de Andrade nasceu, em São Paulo, rua Aurora nº320* 


Na rua Aurora eu nasci
Na aurora da minha vida
E numa aurora cresci.

No largo do Paissandu
Sonhei, foi luta renhida,
Fiquei pobre e me vi nu.

Nesta rua Lopes Chaves
Envelheço, e envergonhado
Nem sei quem foi Lopes Chaves.

Mamãe! me dá essa lua,
Ser esquecido e ignorado
Como esses nomes da rua.

Mário de Andrade

Lira Paulistana (1945)

https://www.culturagenial.com/poemas-de-mario-de-andrade/



terça-feira, 6 de abril de 2021

Miguel Torga - Dies Irae

Fotografia de André Pipa

 

DIES IRAE

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Miguel Torga 



domingo, 4 de abril de 2021

António Reis - "É domingo hoje..."

Fotografía de Gonçalo Filipe
 


É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

não como quem
de ilusão
precisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis