segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eugénio de Andrade - Rumor do mundo

 


Rumor do mundo

As palavras, vício
torpe, antigo.
As últimas? As primeiras?
Como os ouriços
abrem-se ao rumor do mundo:
o sol ainda verde dos limões,
os esquilos
doutras tardes, o latido
da chuva nas janelas,
os velhos em redor do lume
— nunca foram tão belas.

Eugénio de Andrade


Rente ao Dizer, 1992




(10 Pãezinhos [Fábio Moon & Gabriel Bá] - palavra, 2012)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Sublinhado a lápis: Mia Couto

 


Caminhava para lá onde o espaço sobrava.

Mia Couto



“A mancha”, in Cronicando, Caminho, 7ª edição





(Fotografia de Rosino, Entre Mutuáli e Gurué, Moçambique, 2009)


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Augusto de Campos - ferida




ferida

fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

Augusto de Campos




(Fotografia de Doeixo) 



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Manuel Bandeira - Bacanal


BACANAL

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Manuel Bandeira


Carnaval (1918)



(Foto: Jan Ribeiro / Secult PE - Fundarpe - Bloco Bacanal do Bandeira celebra o carnaval com poesia, 2018)



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Soledade Santos - Desesperança



DESESPERANÇA

A glicínia serpeia no tronco velho
e o dossel chama as abelhas na tarde quente.
Ninguém perturba o seu afã de insectos eficazes.
As rolas soltam arrulhos mas não convidam à sesta
e não caem coa calma aves nem bocas de amantes.
Tudo é mudo e branco. Nada significa.

Soledade Santos


Sob os teus pés a terra (2010)




(Fotografia de Robert Grant)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria - O vermelho e o verde



O VERMELHO E O VERDE

–De que cor é o vermelho?
–É verde.

–Quem é o teu pai?
–É o revisor do comboio para a lua.

–O que é a loucura?
–É um barco solitário sorrindo para os meninos.

–Quem é Deus?
–É um vendedor de gravatas.

–Como é a casa dele?
–É bicuda com uma maçaneta na ponta.

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria 
(1948)