segunda-feira, 15 de junho de 2026

Baltazar Estaço - Cantigas às Serranas

 

CANTIGAS ÀS SERRANAS 

Donde vem Rodrigo, donde vem Gonçalo
De sachar o milho, de mondar o prado
Seja diligente quem amor semeia
Que quem não granjeia não colhe semente

Semeou Rodrigo, semeou Gonçalo
Haverão do milho se mondam o prato;
Quem de amor se perde no tempo de verde
Não colhe o que perde entre erva que cresce

Por isso Rodrigo, por isso Gonçalo
Vão sachar o milho, vão mondar o prado
Amor que aproveita, se antes de gradar
Cresce em seu lugar, ciúme e suspeita

Triste de Rodrigo, triste de Gonçalo
Mal por seu cuidado
Se não sacha o milho, se não monda o prado

Amor que ficou em terra deserta
Colhe quem acerta, não quem semeou
Semeou Rodrigo, semeou Gonçalo
Para haverem milho, cumpre haver cuidado

Em terra mimosa ninguém faça escolha
Vai-se o grão na folha de muito viçosa
Gonçalo e Rodrigo, cumpre ser lembrado
De sachar o milho, de mondar o prado

Baltazar Estaço



Padre Baltasar Estaço (1570-16--?) nasceu em Évora e foi cónego da Sé de Viseu. Dedicou-se à poesia e à filosofia escolástica.





quarta-feira, 10 de junho de 2026

Camões - “Quando de minhas mágoas a comprida…”


Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece,
Que para mi foi sonho nesta vida.

Lá numa soidade, onde estendida
A vista por o campo desfalece,
Corro após ela; e ela então parece
Que mais de mi se alonga, compelida.

Brado: − Não me fujais, sombra benina. −
Ela (os olhos em mi c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser)

Torna a fugir-me; torno a bradar: − Dina...
E antes que diga mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

Luís de Camões




(Desenho de Manuel San-Payo, Dinamene, 2012)


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Gilka Machado - "Embora dos teus lábios afastada..."

 


Embora dos teus lábios afastada
(Que importa? – tua boca está vazia…)
Beijo esses beijos com que fui beijada,
Beijo teus lábios, numa nova orgia.

Inda conservo a carne deliciada
pela tua carícia que mordia,
que me enflorava a pele, pois,
em cada beijo dos teus uma saudade abria.

Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:
Guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,
numa volúpia imorredoura e louca.

Em teus momentos de lubricidade,
beijarias outros lábios, com saudade
dos beijos que roubei de tua boca. 

Gilka Machado

(1893 - 1980)


(Fotografia de Francisca Ulloa, Calma en el alma)


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Mário Dionísio - Elegia ao companheiro morto

 

ELEGIA AO COMPANHEIRO MORTO  

Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã

Deitado para sempre às cinco da manhã

Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre

E era quase manhã E era quase amanhã


Mário Dionísio



segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ana Paula Tavares - “Devia olhar o rei…”

 


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo
Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.

Ana Paula Tavares


Manual para amantes desesperados. Lisboa: Editorial Caminho, 2007


(Lyrikline, e ouvimos a poeta dizer o poema) 



Fotografia de ©Marcos Freire



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Susana Menezes diz 'Portugal', de Alexandre O'Neill



PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

Alexandre O´Neill


Feira cabisbaixa (1965)