terça-feira, 15 de setembro de 2026

Inês Lourenço - Os nomes novos

 

OS NOMES NOVOS

Na primeira manhã da revolução
todos os nomes mudaram. As tuas mãos
eram pássaros os teus braços asas
os teus lábios átrios de canções que sobrevoavam
alegrias irrecusáveis. Os milagres sucediam-se
sem qualquer comando divino. Os desapossados
de tudo eram providos da maior esperança. As flores
não murcharam. Os peixes multiplicavam-se
na brasa diária dos afectos. Nas manhãs seguintes.
acordávamos sempre à espera da queda
de mais um velho costume repressivo. A garganta
habitava todas as palavras que lutavam
contra os velhos saberes quantitativos
que só perguntavam quantos dólares tem um lucro
ou quantos litros tem um almude. Trocámos o nome
das praças das pontes e das avenidas. Levantámos
as cabeças curvadas com vozes ao alto. A Utopia
do Bem e da Equidade invadia-nos o peito
e nenhuma morte se atrevia a silenciar
este novo país contaminado de Futuro.

Inês Lourenço





segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Sophia de Mello Breyner Andresen - Ode à maneira de Horácio

 



ODE À MANEIRA DE HORÁCIO

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida

Sophia de Mello Breyner Andresen


O Búzio de Cós e outros Poemas, 1997




(Fotografia de Robert Grant)


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Manuel Bandeira - Nu

 


NU

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
— Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos —

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua...

Manuel Bandeira


De Estrela da Tarde (1963)



(Fotografia de Heloísa Pellegrini)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Adélia Prado - Casamento



CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado


Terra de Santa Cruz (1981)


terça-feira, 28 de julho de 2026

Rui Knopfli - Lembranças do futuro

 



LEMBRANÇAS DO FUTURO

Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:

só os poetas têm lembranças do futuro.


Rui Knopfli


Mangas Verdes com Sal (1969)



(Fotografia de CésarAugusto V. R. - Em tempo alheio, 2009)


segunda-feira, 20 de julho de 2026

Carlos Drummond de Andrade - O procurador do amor




O PROCURADOR DO AMOR

Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(não sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite
As mulheres vão para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

E faço este verso perverso
inútil, capenga e lúbrico.
E possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.

Ora viva o amendoim.

Carlos Drummond de Andrade


Brejo das Almas (1934)



(Fotografia de Maxwell Mariano)