segunda-feira, 1 de junho de 2026

Mário Dionísio - Elegia ao companheiro morto

 

ELEGIA AO COMPANHEIRO MORTO  

Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã

Deitado para sempre às cinco da manhã

Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre

E era quase manhã E era quase amanhã


Mário Dionísio



segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ana Paula Tavares - “Devia olhar o rei…”

 


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo
Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.

Ana Paula Tavares


Manual para amantes desesperados. Lisboa: Editorial Caminho, 2007


(Lyrikline, e ouvimos a poeta dizer o poema) 



Fotografia de ©Marcos Freire



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Susana Menezes diz 'Portugal', de Alexandre O'Neill



PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

Alexandre O´Neill


Feira cabisbaixa (1965)


segunda-feira, 4 de maio de 2026

Orides Fontela - Errância




ERRÂNCIA

Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

a busca
a coisa
a causa
da procura

só porque
erro
acerto: me
construo.

margem de
erro: margem
de liberdade

Orides Fontela



Lido em mar à vista da ilha



(Fotografía de Scipione Semeraro, Labirinto)



sexta-feira, 1 de maio de 2026

José Luis Peixoto - Uma Casa na Escuridão

 

”(…) Quando eu era pequeno, a casa era antiga. Era a casa de muitas pessoas que lá tinham vivido antes de nós, mas era nossa, porque essas pessoas eram gente que tinha gostado de nós. Porque os pais do meu pai tinham gostado dele e ele gostava de mim. (…)

Quando eu era pequeno, brincava com carrinhos à volta da mesa da cozinha. Fazia corridas e, embora fosse eu contra mim, os carrinhos que eu queria que ganhassem ganhavam sempre. (…) Quando eu era pequeno, a minha mãe gostava muito de mim. Na sua voz de mãe, chamava-me por um nome d menino e apertava-me muito contra o peito. A minha mãe queria que eu dormisse a sesta e contava-me histórias que sabia de cor. A minha mãe era minha amiga e contava-me muitas histórias. A minha mãe era muito nova e bonita. Eu podia fazer as piores maldades, que a minha mãe, depois de se zangar um pouco, depois de me ralhar um pouco, continuava sempre a preocupar-se comigo e a dizer-me tens de comer tudo para seres grande. Quando íamos à cidade, eu andava de mão dada com a minha mãe nas lojas de roupas e depois, a minha mãe comprava-me um carrinho ou uma corneta de plástico. Eu gostava muito de a ver feliz e, às vezes, ia ao jardim e arrancava uma flor para lhe dar.

Quando eu era pequeno, fazia coisas e a minha mãe ria-se. No Inverno, íamos para a sala de baixo. Sentava-me no chão a brincar em cima de uma manta de retalhos e a minha mãe, sentada à lareira, contava-me histórias da família dela e coisas verdadeiras como se eu fosse grande. (…) Quando eu era pequeno, soube-o mais tarde, a minha mãe não tinha ninguém com quem conversar. (…) Quando eu era pequeno, era feliz e, só mais tarde percebi, a minha mãe sofria muito. Nunca ninguém me contou nada. Nunca ninguém falou nisso. Nunca ninguém me contou nada. Só depois do dia em que fiz dezoito anos (…) reconstruí a minha memória, pensei e percebi que a minha mãe sofria muito. Quando a minha mãe chorava. Quando a minha mãe me abraçava. A minha mãe, a pessoa de quem eu gostava com a ingenuidade e a beleza toda do amor das crianças, a minha mãe sofria muito. (…)

José Luís Peixoto


Uma Casa na Escuridão (2022)


(Lusografias)


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Egito Gonçalves - "Nenhum amor é total..."

 


Nenhum amor é total,
nenhum amor desenha a latitude
e longitude como linhas ideais;
na massa em fusão
há sempre uma impureza,
todo o amor tem as suas fissuras
a vigiar constantemente.
O dia, raro atinge a sua ponta extrema.


Egito Gonçalves



(Lido em Rua das Pretas)


(Xeh - Mis pesares, 2010)