UM REINO MARAVILHOSO
POESIA (e mais) de que gosto
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Adélia Prado - Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado
Terra de Santa Cruz (1981)
terça-feira, 28 de julho de 2026
Rui Knopfli - Lembranças do futuro
LEMBRANÇAS DO FUTURO
Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.
O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.
Rui Knopfli
Mangas Verdes com Sal (1969)
(Fotografia de CésarAugusto V. R. - Em tempo alheio, 2009)
segunda-feira, 20 de julho de 2026
Carlos Drummond de Andrade - O procurador do amor
O PROCURADOR DO AMOR
Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.
Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.
Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?
O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(não sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.
Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.
O dia se emenda com a noite
As mulheres vão para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.
Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.
E faço este verso perverso
inútil, capenga e lúbrico.
E possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.
Ora viva o amendoim.
Carlos Drummond de Andrade
Brejo das Almas (1934)
(Fotografia de Maxwell Mariano)
terça-feira, 14 de julho de 2026
Adília Lopes - Cidade branca
CIDADE BRANCA
Cidade branca
semeada
de pedras
Cidade azul
semeada
de céu
Cidade negra
como um beco
Cidade desabitada
como um armazém
Cidade lilás
semeada
de jacarandás
Cidade dourada
semeada
de igrejas
Cidade prateada
semeada
de Tejo
Cidade que se degrada
cidade que acaba
Adília Lopes
(Fonte: Cais do olhar)
(Fotografia de Silvia Sánchez Muñoz)
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Paula Rego - No grotesco há muita ternura (sobre Adília Lopes)
“No grotesco há muita ternura”
“Só no verão passado é que li a poesia da Adília Lopes, o editor enviou-me alguns livros para que eu ilustrasse a ‘Obra’. Comecei a ler e fiquei pasmada por haver alguém que escrevia aquelas coisas. Era inesperado. Passei a andar com os livros dentro da mala, não calculam o prazer intenso que me dava ler aquilo. De tanto reler já quase sabia os poemas de cor, e mesmo assim eram sempre uma surpresa. Quando fiz a ilustração das ‘Nursery Rhymes’ costumava de ler à noite e, de manhã, vinham-me as imagens, mas estes poemas fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotectoras. Lembro aquele poema em que a menina vai passear com a mãe e vê um cão e uma cadela a fazerem amor e a mãe não deixa a menina ver. Tudo o que queria estava nos poemas e acabei por fazer vários desenhos para escolher apenas três. A imagem da capa, reprodução de uma grande litografia a cores, ilustra as meninas a brincar às missas, a menina a brincar com a Joaninha ladra do moinho (ver Sete rios entrecampos’. E dá uma hóstia à outra. É sempre a minha modelo, a Lila, claro. Gostei muito do poema do vestido cor de salmão feito em pedaços que serve para vestir uma boneca e depois outra mais pequena que cai a um poço [ver ‘O decote da rainha de espadas’ ]. Aos poemas de “A continuação do fim do mundo” fui buscar a imagem da contracapa, é a avó a beijar a menina na boca, no sofá do atelier [e que é o mesmo onde se senta Dionísia, a tecedeira de anjos, em ‘O Crime do Padre Amaro’].. Adília Lopes é de um grande romantismo - por exemplo, diz: ‘Ah, quem me dera um vestido que me queimasse’ - e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes. Para mim, o grotesco é belo, o grotesco é de uma grande ternura. E ela está cheia de ternura e de compaixão, mas não é lamechas. A maldade é reconhecida mas não é praticada, sem ser maledicente reconhece o que é importante no mal. A maldade é o outro lado das coisas boas. Dizer que é uma tímida que se desenrasca é uma boa definição para a Adilia Lopes. Tal como Mário Cesariny, ela é cândida e culta, leu tudo, e ao mesmo tempo tem inspiração. Tenho muito trabalho e estive a ler outros livros, mas não me consigo libertar da poesia da Adília Lopes. Gostei muito”.
PÚBLICO, MIL FOLHAS, 10 de Fevereiro de 2001
A Obra de Adília Lopes, desde 1985 até ao inédito O Regresso de Chamilly, é publicada num só livro, ilustrado e aplaudido por Paula Rego.
(Lido en Arlindo Correia)
terça-feira, 7 de julho de 2026
João Miguel Fernandes Jorge - “Os lábios estão semelhantes…”
Os lábios estão semelhantes aos meus.
Os olhos imitam a cor
os erros, as lágrimas e a mentira.
Já sei o que me queres dizer.
João Miguel Fernandes Jorge
Pelo Fim da Tarde, Quetzal, 1989



