sexta-feira, 1 de maio de 2026

José Luis Peixoto - Uma Casa na Escuridão

 

”(…) Quando eu era pequeno, a casa era antiga. Era a casa de muitas pessoas que lá tinham vivido antes de nós, mas era nossa, porque essas pessoas eram gente que tinha gostado de nós. Porque os pais do meu pai tinham gostado dele e ele gostava de mim. (…)

Quando eu era pequeno, brincava com carrinhos à volta da mesa da cozinha. Fazia corridas e, embora fosse eu contra mim, os carrinhos que eu queria que ganhassem ganhavam sempre. (…) Quando eu era pequeno, a minha mãe gostava muito de mim. Na sua voz de mãe, chamava-me por um nome d menino e apertava-me muito contra o peito. A minha mãe queria que eu dormisse a sesta e contava-me histórias que sabia de cor. A minha mãe era minha amiga e contava-me muitas histórias. A minha mãe era muito nova e bonita. Eu podia fazer as piores maldades, que a minha mãe, depois de se zangar um pouco, depois de me ralhar um pouco, continuava sempre a preocupar-se comigo e a dizer-me tens de comer tudo para seres grande. Quando íamos à cidade, eu andava de mão dada com a minha mãe nas lojas de roupas e depois, a minha mãe comprava-me um carrinho ou uma corneta de plástico. Eu gostava muito de a ver feliz e, às vezes, ia ao jardim e arrancava uma flor para lhe dar.

Quando eu era pequeno, fazia coisas e a minha mãe ria-se. No Inverno, íamos para a sala de baixo. Sentava-me no chão a brincar em cima de uma manta de retalhos e a minha mãe, sentada à lareira, contava-me histórias da família dela e coisas verdadeiras como se eu fosse grande. (…) Quando eu era pequeno, soube-o mais tarde, a minha mãe não tinha ninguém com quem conversar. (…) Quando eu era pequeno, era feliz e, só mais tarde percebi, a minha mãe sofria muito. Nunca ninguém me contou nada. Nunca ninguém falou nisso. Nunca ninguém me contou nada. Só depois do dia em que fiz dezoito anos (…) reconstruí a minha memória, pensei e percebi que a minha mãe sofria muito. Quando a minha mãe chorava. Quando a minha mãe me abraçava. A minha mãe, a pessoa de quem eu gostava com a ingenuidade e a beleza toda do amor das crianças, a minha mãe sofria muito. (…)

José Luís Peixoto


Uma Casa na Escuridão (2022)


(Lusografias)


segunda-feira, 27 de abril de 2026

Egito Gonçalves - "Nenhum amor é total..."

 


Nenhum amor é total,
nenhum amor desenha a latitude
e longitude como linhas ideais;
na massa em fusão
há sempre uma impureza,
todo o amor tem as suas fissuras
a vigiar constantemente.
O dia, raro atinge a sua ponta extrema.


Egito Gonçalves



(Lido em Rua das Pretas)


(Xeh - Mis pesares, 2010)


segunda-feira, 20 de abril de 2026

Miguel Martins - Sou eu


SOU EU

São as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres
sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver
sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária
sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral
sou eu agora em espasmos, assemelhando-me a um campo de minas
sou eu agarrando-me aos poucos que me disseram alguma coisa
eu tentando não cair, não sabendo como vim parar a esta copa
sou eu com a morte nos olhos que trago dentro dos meus olhos
eu, fidelíssimo traidor, não entendendo porque me achei só
eu a fugir de encontrar-me e sempre na exaustão de me encontrar
eu em cada vivo, em cada morto, em cada esquina da cidade
sou eu não conseguindo adormecer e, adormecendo, não dormindo
sou eu sem saber fugir a uma luxúria que jamais me faz feliz
eu a habitar um corpo doloroso, como semáforo amarelo
eu vendo outra coisa em cada coisa e em tudo palavras de papel
eu carregando o peso do passado sobre um futuro inexorável
eu mais mortal que os mortais e defrontando a imortalidade
sou eu com a cara e a alma à venda nos escaparates insensíveis
eu pedindo esmola a quem despreza o que lhe posso dar
sou eu rindo-me de mim para evitar chorar por tudo o mais
sou eu irremediavelmente sozinho para toda a eternidade
sou eu sem música de fundo, vendo-me num espelho desbotado
sou eu a fumar como se me defumasse para me poder comer
sou eu silenciando um grito por minuto e escrevendo no mel
eu vestindo toda esta nudez, só para só amar a verdade do amor
e se isto é difícil de entender, dizendo-te outra coisa não seria eu.

Miguel Martins


Abro páginas




quinta-feira, 16 de abril de 2026

Adélia Prado - Uma pergunta




UMA PERGUNTA

Vede como nossos filhos nos olham,
como nos lançam em rosto
uma conta que ignorávamos.
Não caridosos, convertem em pura dor
a paixão que os gerou.
Por qual ilusão poderosa
nos veem assim tão maus,
a nós que, tal como eles,
buscamos a mesma mãe,
concha blindada a salvo de predadores.

Adélia Prado





segunda-feira, 13 de abril de 2026

Cecília Meireles - "Cântico 06 - Tu tens um medo..."



CÂNTICO 06 - TU TENS UM MEDO

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles


Cânticos (1982), publicação póstuma 



(Fotografia de Children at Risk Foundation, Brazil)


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Maria Gabriela Llansol - “Eu estava habituada a vir para casa…”


Eu estava habituada a vir para casa com um velho amigo
Que me punha a mão nos ombros. Eu raramente tropeçava
Porque dele irradiava o calor das macieiras e a paz das
Tílias. Era a árvore dos meus passos. E, regressando a casa,
Regressava à Paisagem que humana me fazia.

Maria Gabriela Llansol





(Fotografia de Renan Luna, 2016) 



quarta-feira, 1 de abril de 2026

Cristovam Pavia - «O poema que hei-de escrever para ti…»

 



O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!),
                                                                   [meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência 
                                                                    [e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

Cristovam Pavia



(Fotografia de V. Mestre Santana)