Ah, quem me dera um vestido
que me queimasse
Adília Lopes
(Fotografia de Laura Gommans)
POESIA (e mais) de que gosto
ELEGIA
Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Uma velhinha sozinha numa gare.
Um sapato preto perdido do seu par: símbolo
Da mais absoluta viuvez.
As recordações das solteironas.
Essas gravatas
De um mau gosto tocante
Que nos dão as velhas tias.
As velhas tias.
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias.
Um cachorro anônimo que resolver ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta.
Este poema, este pobre poema
Sem fim...
Mario Quintana
Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde mas quase
que posso jurar que o último que joguei, entre pinhais, para
sempre interrompido pela chuva, ainda se joga às metades.
António Quadros Ferro
(Lisboa, 1983)
em Ou a Empatia, Lisboa: Artes e Letras Atelier, 2015
IDENTIDADE
A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.
Pedro Mexia
Duplo Império (1999)
Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?
Maria do Rosário Pedreira
Nenhum nome depois (2014)
(Fotografia de Marina Alfaya, Elos, 2009)