terça-feira, 14 de julho de 2026

Adília Lopes - Cidade branca

 


CIDADE BRANCA

Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás

Cidade dourada
semeada
de igrejas

Cidade prateada semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba


Adília Lopes



(Fonte: Cais do olhar)




(Fotografia de Silvia Sánchez Muñoz)


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Paula Rego - No grotesco há muita ternura (sobre Adília Lopes)

 


No grotesco há muita ternura

“Só no verão passado é que li a poesia da Adília Lopes, o editor enviou-me alguns livros para que eu ilustrasse a ‘Obra’. Comecei a ler e fiquei pasmada por haver alguém que escrevia aquelas coisas. Era inesperado. Passei a andar com os livros dentro da mala, não calculam o prazer intenso que me dava ler aquilo. De tanto reler já quase sabia os poemas de cor, e mesmo assim eram sempre uma surpresa. Quando fiz a ilustração das ‘Nursery Rhymes’ costumava de ler à noite e, de manhã, vinham-me as imagens, mas estes poemas fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotectoras. Lembro aquele poema em que a menina vai passear com a mãe e vê um cão e uma cadela a fazerem amor e a mãe não deixa a menina ver. Tudo o que queria estava nos poemas e acabei por fazer vários desenhos para escolher apenas três. A imagem da capa, reprodução de uma grande litografia a cores, ilustra as meninas a brincar às missas, a menina a brincar com a Joaninha ladra do moinho (ver Sete rios entrecampos’. E dá uma hóstia à outra. É sempre a minha modelo, a Lila, claro. Gostei muito do poema do vestido cor de salmão feito em pedaços que serve para vestir uma boneca e depois outra mais pequena que cai a um poço [ver ‘O decote da rainha de espadas’ ]. Aos poemas de “A continuação do fim do mundo” fui buscar a imagem da contracapa, é a avó a beijar a menina na boca, no sofá do atelier [e que é o mesmo onde se senta Dionísia, a tecedeira de anjos, em ‘O Crime do Padre Amaro’].. Adília Lopes é de um grande romantismo - por exemplo, diz: ‘Ah, quem me dera um vestido que me queimasse’ - e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes. Para mim, o grotesco é belo, o grotesco é de uma grande ternura. E ela está cheia de ternura e de compaixão, mas não é lamechas. A maldade é reconhecida mas não é praticada, sem ser maledicente reconhece o que é importante no mal. A maldade é o outro lado das coisas boas. Dizer que é uma tímida que se desenrasca é uma boa definição para a Adilia Lopes. Tal como Mário Cesariny, ela é cândida e culta, leu tudo, e ao mesmo tempo tem inspiração. Tenho muito trabalho e estive a ler outros livros, mas não me consigo libertar da poesia da Adília Lopes. Gostei muito”.

PÚBLICO, MIL FOLHAS, 10 de Fevereiro de 2001


A Obra de Adília Lopes, desde 1985 até ao inédito O Regresso de Chamilly, é publicada num só livro, ilustrado e aplaudido por Paula Rego.


(Lido en Arlindo Correia)



terça-feira, 7 de julho de 2026

João Miguel Fernandes Jorge - “Os lábios estão semelhantes…”

 

Os lábios estão semelhantes aos meus.
Os olhos imitam a cor
os erros, as lágrimas e a mentira.
Já sei o que me queres dizer.

João Miguel Fernandes Jorge



Pelo Fim da Tarde, Quetzal, 1989


terça-feira, 30 de junho de 2026

Jorge de Sena - «Aos cinquenta anos…»

 



«AOS CINQUENTA ANOS…»

Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc.
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.

                                             Junho 15, 1970


Jorge de Sena



«Tempo de Exorcismos» (1970-1972), em 40 Anos de Servidão, Moraes, 2ª edição, Setembro de 1982.




segunda-feira, 29 de junho de 2026

José Eduardo Agualusa - Ando a ler um dicionário

 



ANDO A LER UM DICIONÁRIO

Há poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, um homem parou diante de mim, e depois de me cumprimentar apresentou-me o filho, um menino dos seus onze anos: “Este é o António. Diga-lhe alguma coisa que o faça ler. Lá em casa todos nós temos a paixão pelos livros, há livros em toda parte, mas ele não se interessa por nenhum. O que fazer?”

Tentei, um tanto assustado, fugir ao desafio. Dei uma resposta qualquer, evasiva, mas depois que eles se foram embora pus-me a pensar naquilo. Como foi que eu próprio descobri a literatura? Devia ter a idade do António quando encontrei na biblioteca dos meus pais uma belíssima enciclopédia ilustrada, do início do século vinte, em dois volumes. Procurava-se a palavra “aves”, por exemplo, e havia uma ou duas páginas com preciosas estampas coloridas de aves de todo o mundo. Tinha, além disso, imensas mulheres nuas — um deslumbramento! Lembro-me em particular da famosa tela de Rubens, “O Julgamento de Paris”, talvez o primeiro concurso de misses de que há notícia. Paris, Príncipe de Tróia, tem de decidir quem é a mais bela: Hera, Atena ou Afrodite. São três mocetonas bem nutridas, três deusas clássicas, de rijas e luminosas carnes brancas. A bem dizer foi por causa das mulheres que eu me apaixonei pelos livros. Descobri que por detrás daquelas imagens, por detrás de cada mulher, mais ou menos despida, havia um enredo, e passei a interessar-me por essas histórias.

Nunca mais deixei de ler. Leio de tudo um pouco, romances, ensaios, poesia, e, é claro, continuo a interessar-me por enciclopédias e dicionários. Gosto particularmente de ler dicionários. A minha última paixão, em matéria de dicionários, chama-se Houaiss. Esperei por ele uns bons seis anos. Sempre que ia a uma bienal do livro, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, perguntava pelo Houaiss. “Sai para o ano”, respondiam-me imperturbáveis os responsáveis pelo projecto, e, para manterem aceso o meu interesse, agitavam factos e números: mais de 228 mil verbetes, extensos grupos de sinónimos e antónimos, levantamentos de homónimos, parónimos, colectivos, informações de gramática e uso, bem como da origem de cada palavra; é o primeiro dicionário a registar a data em que a palavra entrou na língua, etc. e tal. Finalmente, há alguns meses, o embaixador do Brasil em Berlim, Roberto Abdenur, ofereceu-me um exemplar (três quilos e seiscentos gramas em papel bíblia!), e pude assim confirmar a justeza da publicidade. Mais recentemente pedi a uma amiga que me enviasse, de São Paulo, a versão electrónica do Houaiss. Não me desiludiu.

Conheci o António Houaiss há muitos anos, numa ocasião em que veio a Lisboa defender o Acordo Ortográfico. Fiquei imediatamente seduzido pelo esplendor do seu português, o rigor, a riqueza, o entusiasmo com que aquele frágil velhinho carioca, filho de imigrantes libaneses, falava a nossa língua. Ouvir o António Houaiss discursar era uma alegria para a alma. Lembro-me de Natália Correia (a falta que ela faz a Portugal!), aos gritos, numa das salas da Assembleia da República:

“Ajoelhem-se! Ajoelhem-se diante da erudição deste homem! Aprendam como se fala a nossa língua!”

O dicionário em que António Houaiss trabalhou durante tantos anos, e que acabou por ser concluído, com o apoio de uma vasta equipa de especialistas, brasileiros, portugueses e africanos, já após a morte do seu mentor, é o melhor monumento à memória do grande lexicógrafo. Por incrível que pareça, porém, não vi na Feira do Livro nenhum exemplar à venda — e refiro-me à edição brasileira, da Editora Objetiva, porque (ó escândalo!) não existe ainda uma versão portuguesa.

O velho Houaiss teria sabido, certamente, o que dizer ao outro António, de onze anos, de forma a cativá-lo para a literatura. O que quer que ele dissesse parecia ser sempre novo. As palavras saíam-lhe dos lábios vigorosas e polidas, a brilhar, como se tivessem sido estreadas naquele mesmo instante. Suspeito que o pequeno António iria à procura dos livros, depois de ouvir António Houaiss, apenas no afã de descobrir neles, uma outra vez, a luz da nossa língua.

José Eduardo Agualusa


(Revista Pública, 20 de Janeiro de 2009)


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Mário Cláudio - Descalço

 


DESCALÇO   

Só o descalço deixa marcas no caminho.
De lés a lés percorre a cidade, e ninguém o vê.
A todo o instante atravessa o medo, e ninguém o segue.
Em cada esquina estende a mão, e ninguém o louva.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Só o descalço deixa marcas no caminho.
Diante do sol inventa a manhã, e ninguém o ajuda.
À sombra da árvore abraça a tarde, e ninguém o entende.
Sem eira nem beira edifica a cidade, e ninguém o copia.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Só o descalço deixa marcas no caminho.
Até à loucura conhece as pedras, e ninguém o escuta.
À volta da cidade desdobra o canto, e ninguém o acolhe.
No fundo da noite rasga uma ferida, e veste-se de luz.
Só o descalço deixa marcas no caminho.

Mário Cláudio


Doze Mapas: Poesia Reunida, 1969-2019, prefácio António Carlos Cortez, Edição Glaciar, Lisboa, Outubro de 2019


(Lido em A espessura do tempo)


(Fotografia de Mar_Bea)


quinta-feira, 18 de junho de 2026

Paulo Leminski - Lápide 1 e Lápide 2

 



LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.



LÁPIDE 2
epitáfio para a alma

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces


Paulo Leminski