segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria - O vermelho e o verde



O VERMELHO E O VERDE

–De que cor é o vermelho?
–É verde.

–Quem é o teu pai?
–É o revisor do comboio para a lua.

–O que é a loucura?
–É um barco solitário sorrindo para os meninos.

–Quem é Deus?
–É um vendedor de gravatas.

–Como é a casa dele?
–É bicuda com uma maçaneta na ponta.

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria 
(1948)




sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Mario Quintana - Elegia


ELEGIA

Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Uma velhinha sozinha numa gare.
Um sapato preto perdido do seu par: símbolo
Da mais absoluta viuvez.
As recordações das solteironas.
Essas gravatas
De um mau gosto tocante
Que nos dão as velhas tias.
As velhas tias.
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias.
Um cachorro anônimo que resolver ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta.
Este poema, este pobre poema
Sem fim...

Mario Quintana



(Fotografia de Luiz Filipe Varella, pelas ruas de Porto Alegre)



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

António Quadros Ferro - «Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde…»


Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde mas quase que posso jurar que o último que joguei, entre pinhais, para sempre interrompido pela chuva, ainda se joga às metades.

António Quadros Ferro

(Lisboa, 1983)



em Ou a Empatia, Lisboa: Artes e Letras Atelier, 2015


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pedro Mexia - Identidade

 



IDENTIDADE

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia 


Duplo Império (1999)


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Cecília Meireles - Retrato



RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles



Fotografia de Daniel Iglesias, Creuza - Estátua Viva, 2007)


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Maria do Rosário Pedreira - “Que guardarão de mim…?

 



Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?

Maria do Rosário Pedreira


Nenhum nome depois (2014)




(Fotografia de Marina Alfaya, Elos, 2009)


segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Isabel Nogueira - "Tirou do bolso o canivete..."



Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.
Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.
Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.

Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.
Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.

Isabel Nogueira


Peso pluma, Paralelo W, Lisboa, 2015.

(Fonte: Hospedaria Camões)