Eu sabia que a via e ao vê-la a perdia.
Ruy Belo
“Encontro de Garcilaso de la Vega com dona Isabel Freire, em Granada, no ano de 1526”, em Toda a Terra (1976). Obra poética de Ruy Belo, volume 2. Organização e prefácio de Joaquim Manuel Magalhães. Editorial Presença, 1981
UM REINO MARAVILHOSO
POESIA (e mais) de que gosto
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Sublinhado a lápis: Ruy Belo
segunda-feira, 30 de março de 2026
Sá de Miranda - Antre tremor e desejo
Antre tremor e desejo,
Vã esperança e vã dor,
Antre amor e desamor,
Meu triste coração vejo.
Nestes extremos cativo
Ando sem fazer mudança,
E já vivi d'esperança
E agora vivo de choro vivo.
Contra mi mesmo pelejo,
Vem d'ua dor outra dor
E d'um desejo maior
Nasce outro mor desejo.
Sá de Miranda
(Fotografia de Mariusz Sacharz, Humanitas, 2010)
segunda-feira, 23 de março de 2026
Paulo Leminski - "Abrindo um antigo caderno..."
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Paulo Leminski
(Fotografia de Agência Senado)
sábado, 21 de março de 2026
António Cardoso - Viagem
VIAGEM
Nos meus tempos de criança,
no meu musseque distante,
lançava barcos de papel
em viagens de três metros…
- Era o mar da bonança
e a vida não tinha fel!
António Cardoso
(Lido em Voar fora da asa)
(Fotografia de Bianca B. Nascimento)
quarta-feira, 18 de março de 2026
Carlos Drummond de Andrade - Liberdade
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
Carlos Drummond de Andrade
Farewell. Rio de Janeiro, Record, 1996.
(Fotografia de Przemek Strzelecki)
segunda-feira, 16 de março de 2026
Reinaldo Ferreira - “Contente nunca estou; feliz não sei…”
Contente nunca estou; feliz não sei
Se existe alguém ou neste mundo ou noutro mundo.
Vou para o Nada, sou do Nada oriundo,
E entre dois Nadas desventura é Lei
Da cobarde esperança emancipei
A previsão do meu destino imundo.
Sou consciente do mal em que me afundo,
E consciente do mal continuarei.
Nem revolta me fica, apenas pressa
De me tornar por fim parada peça
No cósmico rolar nefasto e louco.
Depois quero dormir um sono enorme...
Que para uma aflição que nunca dorme,
A Morte, temo bem que seja pouco.
Reinaldo Ferreira
sexta-feira, 13 de março de 2026
Guilherme de Almeida - Como essas coisas começam
COMO ESSAS COISAS COMEÇAM
Era uma vez...Mas eu nem sei como, onde, quando,
por que foi isso. Eu sei que ela estava dançando.
O jazz-band esgarçava o véu de uma doidice.
Ela olhou-me demais - e um amigo me disse:
- "Cuidado! É sempre assim que essas coisas começam!"
Estas frases banais, vazias, me interessam,
porque elas sempre têm, à flor de certas bocas,
a ressonância musical das coisas ocas.
Deixei meu sonho ecoar dentro daquela frase:
e senti, sem querer, necessidade quase
de começar alguma coisa...
Ontem o amigo
- o precioso banal - encontrou-se comigo.
Ele pôs num sorriso esta frase indiscreta:
- "Então, quando é que acaba essa história, meu poeta?"
Guilherme de Almeida
Guilherme de Almeida (1890 - 1969) foi um advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro





