Eu estava habituada a vir para casa com um velho amigo
Que me punha a mão nos ombros. Eu raramente tropeçava
Porque dele irradiava o calor das macieiras e a paz das
Tílias. Era a árvore dos meus passos. E, regressando a casa,
Regressava à Paisagem que humana me fazia.
Maria Gabriela Llansol
(Fotografia de Renan Luna, 2016)
UM REINO MARAVILHOSO
POESIA (e mais) de que gosto
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Maria Gabriela Llansol - “Eu estava habituada a vir para casa…”
quarta-feira, 1 de abril de 2026
Cristovam Pavia - «O poema que hei-de escrever para ti…»
O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!),
[meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência
[e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.
Cristovam Pavia
(Fotografia de V. Mestre Santana)
Sublinhado a lápis: Ruy Belo
Eu sabia que a via e ao vê-la a perdia.
Ruy Belo
“Encontro de Garcilaso de la Vega com dona Isabel Freire, em Granada, no ano de 1526”, em Toda a Terra (1976). Obra poética de Ruy Belo, volume 2. Organização e prefácio de Joaquim Manuel Magalhães. Editorial Presença, 1981
segunda-feira, 30 de março de 2026
Sá de Miranda - Antre tremor e desejo
Antre tremor e desejo,
Vã esperança e vã dor,
Antre amor e desamor,
Meu triste coração vejo.
Nestes extremos cativo
Ando sem fazer mudança,
E já vivi d'esperança
E agora vivo de choro vivo.
Contra mi mesmo pelejo,
Vem d'ua dor outra dor
E d'um desejo maior
Nasce outro mor desejo.
Sá de Miranda
(Fotografia de Mariusz Sacharz, Humanitas, 2010)
segunda-feira, 23 de março de 2026
Paulo Leminski - "Abrindo um antigo caderno..."
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Paulo Leminski
(Fotografia de Agência Senado)
sábado, 21 de março de 2026
António Cardoso - Viagem
VIAGEM
Nos meus tempos de criança,
no meu musseque distante,
lançava barcos de papel
em viagens de três metros…
- Era o mar da bonança
e a vida não tinha fel!
António Cardoso
(Lido em Voar fora da asa)
(Fotografia de Bianca B. Nascimento)
quarta-feira, 18 de março de 2026
Carlos Drummond de Andrade - Liberdade
O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
Carlos Drummond de Andrade
Farewell. Rio de Janeiro, Record, 1996.
(Fotografia de Przemek Strzelecki)





