sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Manuel Bandeira - Bacanal


BACANAL

Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!

Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
- Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!

O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Manuel Bandeira


Carnaval (1918)



(Foto: Jan Ribeiro / Secult PE - Fundarpe - Bloco Bacanal do Bandeira celebra o carnaval com poesia, 2018)



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Soledade Santos - Desesperança



DESESPERANÇA

A glicínia serpeia no tronco velho
e o dossel chama as abelhas na tarde quente.
Ninguém perturba o seu afã de insectos eficazes.
As rolas soltam arrulhos mas não convidam à sesta
e não caem coa calma aves nem bocas de amantes.
Tudo é mudo e branco. Nada significa.

Soledade Santos


Sob os teus pés a terra (2010)




(Fotografia de Robert Grant)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria - O vermelho e o verde



O VERMELHO E O VERDE

–De que cor é o vermelho?
–É verde.

–Quem é o teu pai?
–É o revisor do comboio para a lua.

–O que é a loucura?
–É um barco solitário sorrindo para os meninos.

–Quem é Deus?
–É um vendedor de gravatas.

–Como é a casa dele?
–É bicuda com uma maçaneta na ponta.

José Artur Silva / Mário-Henrique Leiria 
(1948)




sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Mario Quintana - Elegia


ELEGIA

Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Uma velhinha sozinha numa gare.
Um sapato preto perdido do seu par: símbolo
Da mais absoluta viuvez.
As recordações das solteironas.
Essas gravatas
De um mau gosto tocante
Que nos dão as velhas tias.
As velhas tias.
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias.
Um cachorro anônimo que resolver ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta.
Este poema, este pobre poema
Sem fim...

Mario Quintana



(Fotografia de Luiz Filipe Varella, pelas ruas de Porto Alegre)



segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

António Quadros Ferro - «Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde…»


Nunca escrevi um poema sobre o jogo do berlinde mas quase que posso jurar que o último que joguei, entre pinhais, para sempre interrompido pela chuva, ainda se joga às metades.

António Quadros Ferro

(Lisboa, 1983)



em Ou a Empatia, Lisboa: Artes e Letras Atelier, 2015


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pedro Mexia - Identidade

 



IDENTIDADE

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

Pedro Mexia 


Duplo Império (1999)