POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

"Cantarolar pela rua Assobiar..." (Mário Dionísio)


Cantarolar pela rua Assobiar
de mãos nos bolsos como quem tem dez anos ou cinquenta
Ter aberto um jornal que não se lê
Interromper sem razão uma conversa
Voltar ou não voltar e afinal voltar
Contagiar desta alegria toda até aqui submersa
os que não sabem nada disto ou disto riem
e só de ver sorrir assim também sorriem
confusamente sem saber porquê

isto é estar vivo é bom e não se explica
nem inventa

Mário Dionísio

Memória dum Pintor Desconhecido (1965)


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Nota. O professor chegou ao fim da sua vida laboral e é por isso que os outros dois blogues de português, Olá, como estás?  (1º e 2º de ESO) e Ao pé da Raia (3º e 4º), terminam hoje com uma despedida.

Pelo contrário, Um reino maravilhoso começa nestes frios dias um breve período de descanso e voltará na primavera com mais poesia, sobretudo, e algumas prosas, mas já desligado do IES M. Domingo Caceres.



quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Nada tão silencioso como o tempo..." (Fiama Hasse Pais Brandão)



Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

Fiama Hasse Pais Brandão

in Cenas Vivas






terça-feira, 14 de janeiro de 2020

admirável mundo novo (Rosa Pomar)


admirável mundo novo 

Hoje percorri o bairro dos meus pais como não fazia há muito. É um bairro que não é bem um bairro, entalado que fica entre a Madragoa e outro (o Alto). Nos últimos anos transformou-se quase beyond recognition e acho que só hoje percebi quão poucas lojas são as mesmas de quando lá chegámos. Em 1984, a menos de cinco minutos de casa tínhamos uma chapelaria (agora vazia), um correeiro (tornado loja de molduras de revigrés reluzente no chão), onde ia aplicar molas e ilhoses nos empreendimentos crafty da época, um grande armazém de louças e plásticos (agora loja de quinquilharias sazonais), várias lojas de pronto-a-vestir (agora lojas chinesas e dos 300), ourivesarias, padarias, inúmeras mercearias (umas mais especializadas que outras), sapatarias, duas drogarias (a que não fechou é a única loja da zona cujo interior ainda não foi destruído), farmácias, o fotógrafo do bairro (grande resistente), carpintarias, retrosarias, um alfarrabista (outro que sobrevive), barbearias, papelarias, confeitarias, etc. Na altura só a Chapelaria Royal parecia condenada. Tento recordar cada uma das novas lojas por onde passei hoje (produtos naturais, decoração, bijuterias, agência de viagens, loja dos trezentos, loja chinesa, loja chinesa, loja dos trezentos) e das velhas também (loja de roupa de homem em liquidação total, loja de roupa a fechar, loja fechada, loja fechada, electricista empoeirado, tasca, papelaria fechada, loja de velharias feita agência imobiliária, quinquilharia, loja chinesa) e perceber como pode ser que a maior parte daquele novo comércio tradicional seja agora o do absolutamente inútil (brindes, quinquilharia, decoração, fonte a pilhas, flor de plástico, peluche piroso, pastilha elástica).

Rosa Pomar


Publicado no seu blogue A Ervilha Cor de Rosa (02/02/2006)



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Luís Correia Carmelo conta "Matilde"



"Matilde" é uma das oito Contatinas apresentadas na Biblioteca Municipal de Oeiras, no dia 22 de Março de 2013. Contatinas é o 4º título da colecção "HOT - Histórias Oralmente Transmissíveis", através da qual a BOCA, em parceria com o IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, pretende registar e actualizar os vários géneros da literatura de tradição oral, homenageando os nossos melhores contadores.

Luís Correia Carmelo tem formação de actor, mas tornou-se um prodigioso narrador oral e um investigador das formas e conteúdos do seu ofício, com mestrado feito sobre a morte nos contos tradicionais e doutoramento em curso sobre as técnicas interpretativas da narração oral contemporânea.

Nuno Morão é músico, sonoplasta e editor boquense.




sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A cadeira de balanço (Alexandre O'Neill)

Balanço aqui, balanço ali. Fotografia de Leandertals


Para um teatrinho de armar

A cadeira de balanço

Menino (12 anos) - Vou sentar-me na cadeira de balanço.
Menina (mesma idade) - E se o teu avô aparece?
Menino - Saio da cadeira de balanço!
Menina - Mas tu gostas assim tanto da cadeira?
Menino - É bom. Dá me vontade de fechar os olhos e dormir
Menina - Nós somos miúdos. Não precisamos de dormir sentados, como as pessoas grandes.
Menino - Se eu ainda faço vaivém, à noite, na minha cama, porque não hei-de fazer balanço, de dia, nesta cadeira?
Menina - Bem… Isso é contigo!

(O Menino senta-se na cadeira de balanço. Adormece. A Menina, ao lado, observa-o. A Menina e o Menino transformam-se no Velho e na Velha. Continuam na mesma situação e no mesmo decor da acção anterior)

Velho (acorda e olha em volta) - Que horas são ?
Velha - As que tu quiseres. Escolhe uma hora qualquer. Tens fome?
Velho - Tenho
Velha - Então é hora de comer.
Velho - Quero chocolate e fatias de pão com manteiga.
Com manteiga não…. Com margarina!
Velha - Margarina, sim. Chocolate, não! Bem sabes que o teu fígado não anda bom!
Velho - Há sessenta anos que não dizes outra coisa…
Velha - Quanto é sessenta anos?
Velho - É as cinco meninas que há em ti. Quando te conheci tinhas doze anos. Cinco vezes doze, sessenta!
Velha - Brincávamos aos solteiros e casados, lembras-te?
Velho - Não. Aos polícias e ladroes. E agora estamos a brincar aos velhos!
Velha - Nunca vi um velho pedir chocolate e pão com manteiga!
Velho - Com margarina, com margarina!

(o Velho e a Velha transformam-se no menino e na menina do começo da acção, sempre na situação e no mesmo decor)

Menino (acordando) - Que horas são?
Menina - São horas de lanchar. Queres café com leite e pão com margarina?
Menino (levantando-se bruscamente da cadeira, que fica a balançar) - Não gosto de cadeiras de balanço! Não me deixes mais dormir em cadeiras de balanço, ouviste?
Menina (rindo) - Pois sim….

Alexandre O' Neill




quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

O quadro do futuro (Filipa Leal)



Aproveito a primeira mensagem de 2020 para comunicar que a poeta portuguesa Filipa Leal lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo, em Badajoz, no dia 14 de maio, e será apresentada na parte da manhã por alunos da nossa Escola.


O QUADRO DO FUTURO

Havemos de ir ao futuro
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar no sofá os nossos pais
a cuidar dos sonhos que nos deram
Os nossos avós a encher de luzes a árvore de natal
Os nossos filhos, e os filhos deles
espantados e atrevidos como nós
Havemos de ir ao futuro
e quando lá chegarmos
hão-de estar todos juntos numa festa à nossa espera
mesmo os amigos que perdemos no caminho
Hão-de lá estar todos com balões de várias cores, bolo-rei
e ao fundo da sala um cartaz do tamanho da nossa idade
onde se lê: ainda bem que vieram
Havemos de ir juntos ao futuro
ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo
havemos de nos encontrar lá
Havemos de ir ao futuro e, no futuro,
estará finalmente tudo, como dantes.

Filipa Leal


“O quadro do futuro” in «Vem à quinta-feira», Assírio & Alvim, 2016

Dito pela própria no programa “A Vida Breve”, dirigido por Luís Caetano (Antena-2).

Desde setembro de 2013, todos os poemas lidos aqui pelos seus autores se encontram disponíveis on-line em RTP-Play.



sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Natal (Manuel António Pina)



NATAL

Quando eu era criança, o Natal entristecia-me. A desusada agitação dos adultos, a mãe metida na cozinha, o cheiro a fritos (as filhoses, as rabanadas, os sonhos) pela casa, as prendas, que me pareciam apenas uma rotina cabisbaixa (e porquê não poder abri-las antes da meia-noite?), o desolador menu da ceia (bacalhau!, eu que imaginava a felicidade sob a forma de um bife com batatas fritas!), tudo me fazia detestar o Natal. Só a construção do presépio me animava; com musgo e com algodão em rama imaginava campos e colinas cobertos de neve; um sinuoso caminho de serradura subia até à gruta, onde o Menino jazia deitado num ninho de pintarroxo (ainda hoje o tenho, a esse ninho); a vaca e o burro eram desproporcionados em relação ao tamanho do Menino, mas os meus pais sempre se recusaram a comprar outros; e o Rei Mago preto tinha-se partido noutro Natal e, no seu lugar, estava agora um jogador do Sporting, com bola e tudo!

Como a infância, o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal é próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como construímos um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial: que o Menino da manjedoura éramos nós.

Manuel António Pina