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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Luíza Neto Jorge - As Casas (I)

 


AS CASAS

I



As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

Luíza Neto Jorge



(Fotografia de César Augusto V.R.)


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Luiza Neto Jorge - O poema ensina a cair




O POEMA ENSINA A CAIR

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós numa homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge

O Seu a Seu Tempo (1966)



(Ilustração de Fernando de Castro Lopes)


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Luíza Neto Jorge - Minibiografia





Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

Luíza Neto Jorge

in A Lume (1989)




Luiza Neto Jorge, tradutora e poetisa portuguesa, nasceu em Lisboa, no dia 10 de maio de 1939.

Foi fundadora do Grupo de Teatro de Letras, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Desistiu do curso para ir viver para Paris (1962-1970).

Integrou o grupo de poetas que se reuniu em torno do movimento Poesia 61, antologia poética, organizada em fascículos, que reúne textos de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz e Maria Teresa Horte, no âmbito do qual publicou Quarta Dimensão. O seu primeiro livro foi Noite Vertebrada, publicado em 1960.

Traduziu obra, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro, de autores como Céline, Sade, Marguerite Yourcenar, Garcia Lorca, Boris Vian, entre outros. Recebeu, em 1987, o Grande Prémio de Tradução Literária pela tradução da Obra “Mort à Crédit” de Lous-Ferdinand Céline.

Fez adaptações de textos para teatro e colaborou com alguns cineastas.

Encontra-se representada em quase todas as antologias de poesia portuguesa contemporânea (editadas em Portugal e no estrangeiro) e tem grande parte dos poemas traduzidos para diversos idiomas.

Morreu em Lisboa, no dia 23 de Fevereiro de 1989, vítima de doença pulmonar.

A Editora Assírio & Alvim lançou, em 1993, ‘Poesia’, uma edição que reúne toda a poesia de Luiza Neto Jorge.

(escritores.online)