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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Bolsonaro, o pirralho que fala fino com Trump e grosso com Greta (Kiko Nogueira)

Autor: César Krash


Bolsonaro, o pirralho que fala fino com Trump e grosso com Greta

Kiko Nogueira, 10 de dezembro de 2019

Fabio Porchat é autor de uma das melhores frases do ano.

“Bolsonaro não governa, ele se vinga”, disse o humorista do Porta dos Fundos.

A gestão bolsonarista se destaca por esse tipo de comportamento destrutivo com relação a velhos ressentimentos.

Chamado de racista a vida toda, ele escala um ativista negro que odeia o movimento negro para a Fundação Palmares.

No Meio Ambiente, um ministro acusado de fraude ambiental.

Na Educação, um sujeito que odeia as universidades a ponto de espalhar a fake news de que elas produzem metanfetamina e plantam maconha.

No caso de Greta Thunberg, o presidente da República agiu como Carluxo, uma criança mimada e burra.

“A Greta já falou que os índios morreram porque estavam defendendo a Amazônia. É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, falou numa coletiva.

Horas depois dessa estupidez, a sueca respondeu com classe alterando sua descrição biográfica no Twitter para “Pirralha”.

Greta havia postado um vídeo sobre a morte dos guajajaras no Maranhão e Bolsonaro não gostou.

“Indígenas estão sendo mortos por tentar proteger a floresta do desmatamento ilegal. De novo e de novo. É uma vergonha que o mundo permaneça calado sobre isso”, denunciou.

O adulto na sala é a garota de 16 anos.

O fedelho é o covarde de 64 que chupa o dedo e só briga com gente menor que ele.

Quando Donald Trump o humilhou prometendo, nas redes, taxar aço e alumínio brasileiros, Bolsonaro correu a explicar que “não via como retaliação”.

“Vou conversar com Paulo Guedes. Se for o caso ligo para o Trump. Tenho um canal aberto com ele”, mentiu, o rabo entre as pernas.

Flávio, Eduardo e Carluxo têm comportamento de moleque, mas como seria diferente tendo como exemplo a molecagem do pai?

Greta faria um favor à humanidade se desse em Jair umas palmadas no lugar onde guarda o intelecto.

Kiko Nogueira, em Diário do Centro do Mundo, 10-12-2019



segunda-feira, 3 de junho de 2019

Morreu Agustina Bessa-Luís




"Morreu Agustina Bessa-Luís, o nosso grande “mistério literário”" (Público, 3-06-2019)

"Morreu Agustina Bessa-Luís, a escritora que marcou a nossa literatura" (DN, 3-06-2019)


Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não saberemos onde elas nos podem levar. Hibernam por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor dos sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.

Antes do degelo (2004)

(Record)



quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque vence Prémio Camões 2019


Chico Buarque é o vencedor do Prémio Camões 2019

Chico Buarque fora já distinguido duas vezes com o prémio Jabuti, o mais importante prémio literário no Brasil, pelo romance "Leite Derramado", em 2010, obra com que também venceu o antigo Prémio Portugal Telecom de Literatura, e por "Budapeste", em 2006.

O músico e escritor foi escolhido pelos jurados Clara Rowland e Manuel Frias Martins, indicados pelo Ministério português da Cultura, pelos brasileiros Antonio Cícero Correia Lima e António Carlos Hohlfeldt, pela professora angolana Ana Paula Tavares e pelo professor moçambicano Nataniel Ngomane.

Escritor, compositor e cantor, Francisco Buarque de Holanda nasceu em 19 de junho de 1944, no Rio de Janeiro.

Estreou-se nas Letras com o romance "Estorvo", publicado em 1991, a que se seguiram obras como "Benjamim", "Tantas palavras" e "O Irmão Alemão", publicado em 2014.

Em 2017, venceu em França o prémio Roger Caillois pelo conjunto da obra literária.

O Prémio Camões de literatura em língua portuguesa foi instituído por Portugal e pelo Brasil em 1988, com o objetivo de distinguir um autor "cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento do património literário e cultural da língua comum".

Foi atribuído pela primeira vez, em 1989, ao escritor Miguel Torga. Em 2018 o prémio distinguiu o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, autor de "A ilha fantástica", "Os dois irmãos" e "O testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", entre outras obras.

Brasil e Portugal lideram a lista de distinguidos com o Prémio Camões, com 13 premiados cada, seguindo-se Angola, Moçambique e Cabo Verde, com dois laureados cada - contando com o luso-angolano Luandino Vieira.

A história do galardão conta apenas com uma recusa, a de Luandino Vieira, em 2006.

Lista dos distinguidos com o Prémio Camões:

1989 -- Miguel Torga, Portugal

1990 -- João Cabral de Melo Neto, Brasil

1991 -- José Craveirinha, Moçambique

1992 -- Vergílio Ferreira, Portugal

1993 -- Rachel Queiroz, Brasil

1994 -- Jorge Amado, Brasil

1995 -- José Saramago, Portugal

1996 -- Eduardo Lourenço, Portugal

1997 -- Pepetela, Angola

1998 -- António Cândido de Mello e Sousa, Brasil

1999 -- Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal

2000 -- Autran Dourado, Brasil

2001 -- Eugénio de Andrade, Portugal

2002 - Maria Velho da Costa, Portugal

2003 -- Rubem Fonseca, Brasil

2004 -- Agustina Bessa-Luís, Portugal

2005 -- Lygia Fagundes Telles, Brasil

2006 -- José Luandino Vieira, Portugal/Angola

2007 -- António Lobo Antunes, Portugal

2008 -- João Ubaldo Ribeiro, Brasil

2009 -- Arménio Vieira, Cabo Verde

2010 -- Ferreira Gullar, Brasil

2011 -- Manuel António Pina, Portugal

2012 -- Dalton Trevisan, Brasil

2013 - Mia Couto, Moçambique

2014 - Alberto da Costa e Silva, Brasil

2015 - Hélia Correia, Portugal

2016 - Raduan Nassar, Brasil

2017 - Manuel Alegre, Portugal

2018 - Germano Almeida, Cabo Verde

2019 - Chico Buarque, Brasil


Informação publicada no DN (21 de maio de 2019)


Em "Poeta de canções, dramaturgo e romancista: Chico Buarque é mais do que Bob Dylan", de João Céu e Silva, no Diário de Notícias de ontem, podemos ler o seguinte:

"Quero ficar no teu corpo feito tatuagem" é o verso inicial de uma canção da peça Calabar - O Elogio da Traição que Chico Buarque escreveu com Ruy Guerra e subiu aos palcos em 1973. Pode dizer-se que só Calabar justificaria o Prémio Camões que Chico Buarque recebeu ontem após a escolha do júri porque reúne nessa canção - e outras como Anna de Amsterdam - a sedução capaz de pôr milhões a cantar enquanto pensam na condição humana da protagonista.

Mas Calabar não é só música porque nessa peça já estava tudo o que faz de Chico Buarque um dos maiores criadores da língua portuguesa, a razão pela qual Portugal e Brasil instituíram este prémio: além de compositor musical, é poeta e escritor de letras, autor de teatro e com meia dúzia de narrativas de ficção de fôlego.

A escolha de Chico Buarque implode pela primeira vez com a norma de atribuir o Camões a "especialistas" do clube da literatura, ficcionistas e poetas, uma orientação que vem desde a primeira escolha, Miguel Torga (1989), passou por Jorge Amado (1994), e no ano passado calhou a Germano Almeida.

(Artigo completo no link)

Página oficial de Chico Buarque


Tatuagem 
Chico Buarque - Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, a ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes




segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Clarice Lispector no doodle do Google




Clarice Lispector é homenageada por doodle do Google

Escritora completaria 98 anos nesta segunda-feira (10). Ilustração foi feita pela designer Mariana Valente, neta de Clarice.

Clarice Lispector é a homenageada do dia pelo doodle do Google. A escritora completaria 98 anos nesta segunda-feira (10). Para marcar a data, Clarice ganhou uma ilustração especial acima da caixa de buscas da ferramenta. Na imagem, o rosto de Clarice aparece entre livros e imagens que remetem tanto o Brasil, para onde migrou com a família aos dois anos de idade, quanto a Ucrânia, onde nasceu em 1920.

A ilustração foi feita pela designer Mariana Valente, neta de Clarice. Segundo ela, o processo de criação foi manual e começou com uma busca pelo acervo fotográfico da família.

“Digitalizei algumas imagens e texturas e tive a ideia de mostrar ela saindo com a família lá da Ucrânia e chegando ao Brasil, começando a trabalhar como jornalista, e depois se direcionando para o próprio trabalho de escrita”, contou.

Continua em Globo.

Fotografia de José Castello


Também em Globo:

Clarice Lispector: mais de 40 anos após morte, escritora desperta mais questões do que quando viva

Embora tenha recebido reconhecimento ainda em vida, a obra visceral da autora, segue pautando debates acadêmicos. Seria ela uma feminista? Um autora de olhar estrangeiro sobre o país? Talvez sim, mas ela recusaria qualquer rótulo.



quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Jornadas sobre Manuel António Pina

Fotografia de Adriana Miranda


Luís Miguel Queirós escreveu o seguinte artigo sobre Manuel António Pina no diário Público na passada segunda-feira, dia 22.


Desimaginar o mundo com Manuel António Pina

Assinalando os 75 anos do seu nascimento, um extenso programa de homenagem evocará, em São Paulo, no Brasil e no Porto e Lisboa, a figura humana e a obra literária de Manuel António Pina (1943-2012).

Chamam-se Jornadas Desimaginar o Mundo. Manuel António Pina. 2018 e são uma extensa e diversificada homenagem ao autor de Todas as Palavras, que passará por São Paulo, no Brasil, e pelo Porto e Lisboa, e que terá um dos seus momentos mais simbólicos no próximo dia 18 de Novembro, data em que o poeta faria 75 anos, com a abertura, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, de um programa que incluirá uma mesa-redonda com Pedro Mexia, Inês Fonseca Santos e João Paulo Cotrim, uma conversa entre amigos do autor, com Álvaro Magalhães, Germano Silva, João Luiz e Arnaldo Saraiva, a exposição Os Livros e, já no dia 19, um encontro com ilustradores e professores.

Esta homenagem portuense abrirá logo no dia 16, na estação de metro da Trindade, com a apresentação de um conjunto de fotografias que se relacionam com poemas de Manuel António Pina, aperitivo para a grande exposição colectiva de fotografia “… desimaginar o mundo, descriá-lo…”, que no dia seguinte se inaugura no Mira Fórum. E após os dois dias de jornadas na Biblioteca Almeida Garrett, o programa muda-se ainda para o palacete dos Viscondes de Balsemão, onde decorrerá um colóquio dedicado à obra de Pina, com convidados como Maria João Reynaud, Osvaldo Silvestre, Gustavo Rubim, Paola Poma, Pedro Eiras, Rui Lage ou Arnaldo Saraiva.

Artigo completo em Público (22-10-2018)



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Germano Almeida vence Prémio Camões 2018


O vencedor do Prémio Camões 2018 é o escritor cabo-verdiano Germano Almeida.

O prémio que este ano está na sua 30.ª edição foi anunciado, após reunião do júri, no Hotel Tivoli, em Lisboa. O escritor, que nasceu na ilha da Boavista, Cabo Verde, em 1945, tem a sua obra publicada em Portugal pela editora Caminho que acaba de editar o seu mais recente romance, O Fiel Defunto. Estreou-se como contista no início da década de 80 e o seu primeiro romance, O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo, teve os direitos vendidos para vários países e foi adaptado ao cinema por Francisco Manso.

A notícia completa no jornal Público.


Deste blogue:

Um trecho do seu romance O Testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo

Uma crónica de jornal, "O velho Malaquias morreu"



domingo, 26 de novembro de 2017

Faleceu Pedro Rolo Duarte

(RTP1)

O jornalista e radialista Pedro Rolo Duarte faleceu anteontem em Lisboa. Recordamo-lo hoje com um dos últimos artigos que escreveu.

Há mais informação nos links em baixo.


“Não me gritem!” 

Os estudos poderiam querer enganar-nos, mas a realidade ainda somos nós quem a faz todos os dias. E certamente todos os dias há menos um espectador clássico de televisão, e no seu lugar nasce o programador da sua própria emissão, vista na plataforma que entende, às horas que quer, e como quer. Os estudos reconhecem-no, por piores que estas noticias sejam para os seus principais utilizadores, que constitui toda a gama de intermediários que nasce no produtor e acaba no consumidor. Nunca como hoje fomos tão donos das nossas escolhas – com dinheiro, sem dinheiro, em espaço público ou privado – o que deve dar dores de cabeça a quem tem por obrigação vender-nos “coisas” em massa. Costumo dizer que o único lugar onde ainda me apanham a ver publicidade num ecrã é mesmo nas Caixas Multibanco, porque sou forçado a esperar pelas instruções do bonequinho...

Ainda assim, deve haver uns “chatos” profissionais cuja missão consiste em atazanar a cabeça dos publicitários, dos compradores de espaço, dos negociadores dos canais de TV, e que ainda não perceberam quão prejudicial pode ser a publicidade martelada para quem só aguarda pacientemente pelo bloco de notícias seguinte.

Falo por mim. Escolho os raros programas que me interessam nas TV’s generalistas e de cabo, e opto por gravar e ver mais tarde, ou agarrar-me ao comando a puxar “a fita” para trás (tão anos 80, não é?). Mas confesso que ainda sou um “viciado” em noticias e, além de um dos 3 telejornais dos canais generalistas (vou alternando, sem grande critério...), acabo por “perder” mais alguns bocados da noite no clássico zapping por entre os canais informativos especializados (incluindo a CMTV, não me envergonha dizê-lo...). Imagino que, desorientados e sem margem de manobra, os negociadores de espaço, depois do “discurso oficial” sobre os media, que não estão a saber adaptar-se ao digital (como se eles tivessem no bolso a chave do tesouro...), cedam ou convençam ou se convençam que chegam lá pela insistência.

O resultado é trágico: além de desligar o som quando sou apanhado na curva por um bloco publicitário de longuíssimos minutos, tenho um top de marcas e produtos que, de tantas vezes me chamarem atrasado mental, martelando na mesma mensagem e no mesmo discurso, como se tivesse cinco anos, estão riscados da lista de potencial cliente, mesmo que “de borla”. A memória é manhosa, mas nunca me verão tomar Memofante; talvez pague os mais caros seguros do automóvel do mundo, mas não me passa pela cabeça ligar à Tele-seguro; o nome Trivago causa-me urticária; recuso-me a entrar na Worten; só a tiro de caçadeira abrirei conta no Bankinyter; e fujo a sete pés das promoções da marca Finish. Não adianta falar de automóveis e de promoções do mundo das telecomunicações, porque a confusão e a tentativa de canibalizar mercados chegou ao ponto de já não distinguir um BMW de um Renault. Este conjunto pequeno daquilo a que chamo “marcas-melga” está a afastar-nos até dos produtos de que potencialmente seríamos compradores e a que ainda nos prendia alguma publicidade: a imaginação, a criatividade, a surpresa, o momento bem escolhido para entrar “no ar”. No desespero de vender um pouco mais pela insistência, pela martelada, pela falsa ideia de que somos moscas atrás do néon iluminado, causa repulsa e só consegue incomodar.

Nos (escassos) casos contrários, uma marca consegue criar empatia até com aqueles que a podem dispensar, por fazer efectivamente parte dos seus dias. Recordo agora – e é recente - a campanha que assinalou os 90 anos da cerveja Superbock. Os filmes históricos. Os vídeos virais. As edições com receitas antigas. As garrafas e os rótulos. Sem incomodar em demasia. Escolhendo os espaços e horários adequados.

É um excelente exemplo para responder a esta espécie de esquizofrenia que tomou conta dos bocadinhos em que ainda “nos apanham” a ver televisão. Ninguém quer pensar nisto? Ou preferem continuar a perder tempo a dizer que os media estão perdidos e, nestas circunstancias, o melhor é assobiar para o ar e subir o volume do som quando gritamos, como a Mafaldinha, “não me gritem!”.

Nota – Todas as referências a marcas, produtos, e a escolha final dos anúncios, é pessoal, sem qualquer interferência de empresas de qualquer espécie, e inteiramente assumida como integrante de uma filosofia de vida onde a publicidade faz parte da comunicação e da informação. Aliás, nenhuma destas marcas foi sequer por mim contactada (ou me contactou) no âmbito desta ou de outra matéria. Infelizmente, no hipermercado da blogoesfera é preciso fazer estes tipo de "disclaimer"...

Pedro Rolo Duarte
(Crónica de hoje na plataforma Sapo24)

Lida no Blog de Pedro Rolo Duarte  (2 de novembro de 2017)


"Morreu o jornalista Pedro Rolo Duarte"
(Observador, 24 de novembro de 2017)

"Morreu Pedro Rolo Duarte, jornalista e cronista pop, mais do que um comunicador"
O jornalista, que trabalhou na imprensa, na rádio e na televisão, tinha 53 anos. Era uma "peça vital para se compreender este nosso mundo", "um comunicador", dizem os seus colegas.
(Público, 24 de novembro de 2017)



Pedro Rolo Duarte fundou a revista K, com Miguel Esteves Cardoso






quarta-feira, 14 de junho de 2017

Manuel Alegre é o vencedor do Prémio Camões




Manuel Alegre é o vencedor do Prémio Camões

8 de junho de 2017

Escritor é o 12.º autor português a receber aquele que é considerado o mais importante prémio literário destinado a autores de língua portuguesa.

O Prémio Camões de 2017 foi esta quinta-feira atribuído ao poeta e romancista Manuel Alegre, que se torna assim, aos 81 anos, o 29.º autor (e o 12.º português) a receber a mais importante consagração literária da língua portuguesa.

O prémio, no valor de cem mil euros, foi anunciado esta quinta-feira à tarde na sede da Biblioteca Nacional brasileira, no Rio de Janeiro, quando em Portugal eram cerca de 19h40. O nome de Manuel Alegre foi escolhido por um júri que integrou as ensaístas portuguesas Maria João Reynaud e Paula Morão, os académicos brasileiros José Luís Jobim de Salles Fonseca e Leyla Perrone Moisés, o poeta cabo-verdiano Jose Luiz Tavares e o especialista moçambicano em literaturas africanas Lourenço do Rosário.

Poeta, romancista e ensaísta, Manuel Alegre tem um longo percurso como lutador anti-fascista, é um dirigente histórico do PS e foi candidato à Presidência República em 2006.

(....)


Notícia completa no diário Público (8 de junho de 2017)


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AGORA MESMO

Está gente a morrer agora mesmo em qualquer lado
Está gente a morrer e nós também

Está gente a despedir-se sem saber que para
Sempre
Este som já passou Este gesto também
Ninguém se banha duas vezes no mesmo instante
Tu próprio te despedes de ti próprio
Não és o mesmo que escreveu o verso atrás
Já estás diferente neste verso e vais com ele

Os amantes agarram-se desesperadamente
Eis como se beijam e mordem e por vezes choram
Mais do que ninguém eles sabem que estão a despedir-se

A Terra gira e nós também A Terra morre e nós
Também
Não é possível parar o turbilhão
Há um ciclone invisível em cada instante
Os pássaros voam sobre a própria despedida
As folhas vão-se e nós
Também
Não é vento É movimento fluir do tempo amor e morte
Agora mesmo e para todo o sempre
Amen



Do seu livro Chegar Aqui



terça-feira, 7 de junho de 2016

Raduan Nassar, Prémio Camões 2016

Fotografia: Paulo Pinto


Raduan Nassar: o Prémio Camões que abandonou a literatura

Sem comentários, o brasileiro e ex-escritor Raduan Nassar recebeu a notícia de que lhe fora atribuído o grande troféu da língua portuguesa, o Prémio Camões. A chamada de Portugal encontrou-o em casa, na fazenda de Lagoa do Sino, a três horas de carro de São Paulo. Ali, onde seria errado dizer que se retirou, tem vivido nas últimas três décadas, dedicado à agricultura. O prémio que reclama a consagração de toda uma obra literária apanhou-o de surpresa. Recusou-se uma vez mais a dar entrevistas, como tem feito desde que se desinteressou da literatura, mas ainda revelou o seu espanto a um jornalista do Folha de S. Paulo: «Eu não entendi esse prémio, minha obra é um livro e meio!». E ficou por isso, rindo-se.

Continuou a repetir o mesmo a amigos e aos jornalistas... «Mas uma obra tão minguada...» E é. Um romance e uma novela – Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978) –, para lá disso só um pequeno volume de contos, Menina a Caminho (1997), reunido já longos anos após ter virado as costas à literatura. Depois há um ensaio que até hoje permanece inédito em português, ‘A Corrente do Esforço Humano’, publicado na Alemanha em 1987, e, na mesma situação, um conto isolado ‘O Velho’, que fez parte de uma antologia francesa (Des Nouvelles du Brésil) publicada em 1998.

Só lendo as não muitas mas certamente bastantes páginas que este brasileiro de origem libanesa, hoje com 80 anos, deixou para se entender como não foi preciso mais para fazer dele um nome incontornável da nossa literatura. Entre as várias vozes que saudaram a escolha de Raduan Nassar, o escritor brasileiro Milton Hatoum – também de ascendência libanesa, e que recebeu a bênção do outro quando começou a publicar – talvez seja quem mais possa ter a dizer, uma vez que é em grande medida o mais notável dos herdeiros da influência literária daquele autor culto. «Foi um prémio merecido por sua obra plena e poderosa», disse Hatoum, lembrando que o mexicano Juan Rulfo também só publicou um romance e um livro de contos – Pedro Páramo e A Planície em Chamas, tendo sido publicado já postumamente a novela O Galo de Ouro (1980) – o que não o impediu de deixar um legado que transformou a paisagem literária sul-americana, sendo atribuída às suas pouco mais de 300 páginas um papel fundador do chamado realismo mágico. (...)


A notícia completa no semanário Sol (4-6-2016)


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Em maio de 2012 foi publicado neste blogue um trecho da obra prima de Raduan Nassuar, Lavoura arcaica.

Voltamos a esta obra. É assim que começa:


Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o vôo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; (...)







domingo, 13 de março de 2016

Agualusa e Nassar, semifinalistas do Man Booker International Prize 2016

José Eduardo Agualusa


José Eduardo Agualusa é um dos 13 semifinalistas do Man Booker International Prize 2016

Lisboa, 10 mar (Lusa) – O escritor angolano José Eduardo Agualusa é um dos 13 semifinalistas do Man Booker International Prize, anunciou hoje a organização.

A mais longa lista de sempre do Man Booker International Prize inclui ainda o escritor brasileiro, de origem libanesa, Raduan Nassar; completando-se com Elena Ferrante (Itália), Han Kang (Coreia do Sul), Maylis de Kerangal (França); Eka Kurniawan (Indonésia); Yan Lianke (China); Fiston Mwanza Mujila (República Democrática do Congo); Marie NDiaye (França); Kenzaburō Ōe (Japão); Aki Ollikainen (Finlândia); Orhan Pamuk (Turquia) e Robert Seethaler (Áustria).

(...)

Existe outro autor de língua portuguesa entre os nomeados: Raduan Nassar, o brasileiro de 80 anos, autor de poucos mas fabulosos livros como Lavoura Arcaica (1975) e Um Copo de Cólera (1978) – romance que foi agora editado em inglês pela Penquin Modern Classics e com o qual está nomeado para este prémio.


Notícia no Observatório da Língua Portuguesa



 Raduan Nassar


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Quarto (José Luís Peixoto)



No próximo dia 21 de janeiro, o escritor português José Luís Peixoto, que já esteve em março do ano passado na nossa cidade a apresentar o seu romance Galveias, lerá os seus poemas na Aula de Poesía Enrique Díez Canedo. Lá estarão os nossos alunos de "Bachillerato".

A maioria dos textos de Peixoto neste blogue são em prosa: trechos de romances, artigos de revistas ou jornais... Havía um só poema, publicado em setembro de 2010, que vamos ler antes de continuar com o de hoje. Intitula-se "na hora de pôr a mesa".

Na próxima semana, haverá mais dois poemas dele.



QUARTO

Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

José Luís Peixoto


[in Gaveta de Papéis, Prémio Daniel Faria 2008, Edições Quasi, 2008]



Este e mais quatro poemas em Bibliotecário de Babel.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Eduardo Lourenço, o cidadão preocupado com a perda do espaço privado



Eduardo Lourenço, o cidadão preocupado com a perda do espaço privado

O ensaísta de 92 anos junta, a partir de hoje, o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural a outros com que tem sido distinguido, como o Prémio Pessoa, em 2008, e o Prémio Camões, em 1995


O filósofo e ensaísta, que confessou, em 2014, nunca ter visitado a Internet, reconheceu "a felicidade nos jovens que encontram nesse espaço visibilidade", mas mostrou-se preocupado com a "transformação do espaço privado em espaço público".

Nascido há 92 anos, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Alta, frequentou a escola primária local e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.

Inscreveu-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, desistindo para prestar provas, mais tarde, em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da mesma instituição, licenciatura que concluiu em 1946, tendo apresentado uma tese sobre "O Sentido da dialética no idealismo absoluto", publicada mais tarde.

Em 1949, partiu para França, a convite do reitor da Faculdade de Letras da Universidade de Bordéus, com uma bolsa de estágio da Fundação Fulbright.

Em 1953, iniciou uma carreira académica, tendo lecionado em diversas universidades europeias e americanas, designadamente, nas de Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, Montpellier, Grenoble e Nice, em França, e na da Baía, no Brasil, entre outras.

Doze anos mais tarde, em 1965, fixou residência em Vence, na região dos Alpes Marítimos, no sudeste de França, mas manteve sempre ligação ao país de origem, refletindo sobre a sociedade portuguesa.

Professor jubilado da Universidade de Nice, em 1988, recebeu nesse mesmo ano o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon, pelo conjunto da obra, e, um ano depois, assumiu o cargo de conselheiro cultural junto da embaixada de Portugal em Roma, onde permaneceu até 1991.

Em 1999, foi nomeado administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entre condecorações e distinções, recebeu as ordens de Grande Oficial de Santiago e Espada (1981), a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1992), a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada (2003) e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (2014).

França distinguiu-o com a Ordem Nacional de Mérito (1996), a Ordem das Artes e das Letras (2000) e a Legião de Honra (2002).

Em 2008 recebeu a medalha de Mérito Cultural do Governo Português e a Ordem de Mérito Civil de Espanha.

Recebeu, entre outros, os prémios PEN Clube (1984), António Sérgio (1992), D. Dinis, Casa de Mateus (1996), Vergílio Ferreira (2001) e Universidade de Lisboa (2012).

Em 2013, a Associação Portuguesa de Críticos Literários atribuiu-lhe o Prémio Jacinto do Prado Coelho, pela obra "Tempo da música. Música do tempo", galardão que já tinha conquistado em 1986, com "Fernando, Rei da nossa Baviera", ensaio pioneiro sobre Fernando Pessoa.

São, aliás, muitas as distinções que têm destacado o percurso de Eduardo Lourenço, no plano intelectual, no académico e no plano de cidadania.

Eduardo Lourenço é doutorado Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro, de Bolonha, de Coimbra e pela Nova de Lisboa.

Sob a égide do Instituto Camões/Universidade de Bolonha, foi criada, em finais de 2007, nesta universidade italiana, a cátedra Eduardo Lourenço, por ocasião do seu doutoramento Honoris Causa, em Literaturas e Filologias Europeias.

O Centro de Estudos Ibéricos, na Guarda, instituiu em 2005, em sua homenagem, o Prémio Eduardo Lourenço, destinado a distinguir personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, da cidadania e da cooperação ibéricas. Em 2015, o galardão foi atribuído à escritora Agustina Bessa-Luís.

A Câmara Municipal de Coimbra, que em 2001 lhe atribuiu a Medalha de Ouro da cidade, inaugurou, em finais de novembro, a Sala Eduardo Lourenço na Casa da Escrita, que recebeu cerca de 3.000 livros do intelectual.

Na ocasião, Eduardo Lourenço referiu-se ao livros como "filhos" e ao facto de se separar deles, como quase ter morrido.

"Estar-se sem livros, é já ter morrido", disse o autor de "O labirinto da saudade", para acrescentar que "a [sua] alma" se encontra "dividida por todos esses livros".

Na sua obra destacam-se ainda títulos como "Heterodoxia I e II", "O Fascismo nunca Existiu", "Nós e a Europa ou as duas razões" ou, entre os mais recentes, "Do colonialismo como nosso impensado" e "Do Brasil, fascínio e miragem".


Publicado no DN - Artes (3 de janeiro de 2016)


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 Página de Eduardo Lourenço




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

"Quando vieres..." (Maria Eugénia Cunhal)

Maria Eugénia Cunhal (Fot. de Bruno Castanheira)



Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o seu cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.

Maria Eugénia Cunhal (1927 - 2015)


Poema retirado desta mensagem do blogue antologia do esquecimento: "Maria Eugénia Cunhal (1927 - 2015)"

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Morreu Maria Eugénia Cunhal

PÚBLICO e Lusa

10/12/2015 - 15:35

Irmã de Álvaro Cunhal, militante do PCP, jornalista e escritora tinha 88 anos.





quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A morte de Fernando Pessoa no 'Diário de Notícias', de 3 de Dezembro de 1935



Morreu Fernando Pessoa – Grande poeta de Portugal

A notícia necrológica do «Diário de Notícias» com as palavras proferidas por Luís de Montalvor

Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da «Mensagem», poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.
A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho – estes dois já mortos para a vida – lançou o «Orpheu», que tão profunda influência exerceu no nosso meio literário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua «tertúlia», a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.
Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte e à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente – Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagão como só os artistas sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino – levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram, que, anos passados, apresentava aos «cercles» literários da serena Albion quatro livros de poemas - «English Poems», I, II, III, IV; «Antinous» e «35 Sonnets». E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.
Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na «Águia», onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super-Camões da literatura portuguesa.
1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no «Centauro», «Exílio», «Portugal Futurista», «Contemporânea». Começa a ser amado e compreendido.
1924. Funda com Rui Vaz a revista «Athena». Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como «Presença», «Momento» e, há um mês ainda, no «Sudoeste», que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.
Da capela do cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo «Orpheu», Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela «Presença», João Gaspar Simões; pelo «Momento», Artur Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telino Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queiroz, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.
O sr. capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de 24 anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».
E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem enunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.
«Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos, do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam, repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobre a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.
«Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.
O resto é com o génio de Fernando Pessoa.»

Os serviços fúnebres estiveram a cargo da Agência Barata.(1)


(1) – A notícia tal como foi publicada no Diário de Notícias, de 3 de Dezembro de 1935. 




sábado, 21 de novembro de 2015

Uma notícia sobre os "retornados" 40 anos depois

Fotografia dos contentores dos "retornados" feita em 1975 pelo fotojornalista Alfredo Cunha


O “retorno” foi há 40 anos mas volta a ser agora

Vanessa Rato

20/11/2015

Nos anos 1970, os caixotes de madeira dos “retornados” subiam alto junto ao Padrão dos Descobrimentos. Agora, no mesmo local, uma fotografia reactiva o passado. Há muito trabalho a fazer na digestão de um dos maiores traumas nacionais


A 25 de Julho de 1977 o jornal O Dia publicava um pequeno anúncio de canto de página emitido pelo IARN. O Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais fazia saber que nos armazéns da Standard Eléctrica, em Lisboa, se encontrava por reclamar bagagem chegada das antigas colónias ao longo dos anos de 1975 e 1976.

“Ficam os respectivos proprietários avisados de que devem proceder ao seu levantamento, com a maior brevidade possível, chamando-se a atenção para o facto de que a longa permanência dos volumes em armazém poderá ocasionar a sua danificação e deterioração, pelas quais o IARN não pode responsabilizar-se”, lê-se no aviso.

Quem abandonaria os seus poucos bens ao longo de mais de dois anos? Na maioria dos casos, provavelmente, nacionais a viver em hotéis, pensões, quartos em casa de familiares e amigos, em camaratas de colónias de férias e parques de campismo.

Eram aos milhares os que dois anos volvidos sobre o êxodo dos antigos territórios ultramarinos não tinham conseguido começar a reconstruir as suas vidas, mergulhados no desenraizamento e precaridade simbolizados pelas centenas de contentores de madeira deixados a apodrecer à chuva junto ao Padrão dos Descobrimentos.

Mobílias e electrodomésticos, livros, roupas, loiças, brinquedos, fotografias de família – vidas inteiras: as torres de caixotes abandonados e alguns esventrados e pilhados no porto de Lisboa tornaram-se na imagem emblema do chamado “retorno” que a partir do 25 de Abril de 1974 fez entrar em Portugal mais de meio milhão de nacionais até ali residentes em África. É a imagem invocada pela intervenção que Retornar – Traços da Memória tem agora no mesmo local junto ao rio – uma série de contentores com uma grande fotografia ampliada tirada ali mesmo, em 1975, pelo fotojornalista Alfredo Cunha.

Iniciativa da EGEAC, a empresa de equipamentos e animação cultural de Lisboa, Retornar é um evento transdisciplinar com actividades a decorrer ao longo dos próximos quatro meses. A intervenção junto ao Padrão dos Descobrimentos faz parte da exposição com que, dentro desse programa, a EGEAC inaugura uma nova galeria municipal – a Galeria Avenida da Índia (no número 170, em Belém).

O aviso publicado no jornal O Dia é um entre muitos recortes de imprensa que, nessa exposição documental, ajudam a compor o complexo puzzle da narrativa social por detrás de um dos maiores traumas nacionais.

Comissariada pela antropóloga Elsa Peralta, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a mostra formaliza parte do trabalho desta investigadora sobre a representação do Portugal pós-colonial e a constituição de uma pós-colonialidade a partir da década de 1980, no quadro europeu. Dentro da investigação geral para a exposição, a investigação de media – em centenas de notícias de jornais nacionais e das antigas colónias – foi feita por um dos doutorando do instituto, Bruno Góis.

É a secção através da qual mais facilmente acedemos hoje à psicologia colectiva da época – à forma como os diversos acontecimentos sociopolíticos foram integrados no discurso público e, através dele, na opinião pública.

“Uma das preocupações era tentar perceber como tantas pessoas diferentes nunca tinham pensado que acabariam por ter de voltar”, explica o investigador. Refere-se à precipitação da Ponte Aérea que nos breves meses do Verão Quente de 1975 terá feito aterrar em Portugal mais de 200 mil pessoas em cerca de 900 voos de emergência. A maior parte não trazendo nada ou muito pouco da sua vida anterior.

Através de testemunhos directos, sabe-se como em Angola e Moçambique, por exemplo, a maior parte dos residentes ultramarinos urbanos viviam, em grande medida, alheios à guerra em volta, acontecimentos das distantes províncias interiores que a vastidão territorial, na maior parte dos casos, transformava em ecos minorados ou distorcidos. Grande parte dessa faixa populacional não estava também especialmente informada sobre a realidade política metropolitana e acreditava na possibilidade de uma transição de regime, tanto na metrópole como nas colónias. Por outro lado, através da documentação oficial, sabe-se também como a deslocação dessas populações para Lisboa era desincentivada e em muitos casos dificultada pelo Governo. De acordo com a investigação feita para Retornar a comunicação social contribuía para essa névoa.

(...)

A notícia completa no jornal Público


terça-feira, 6 de outubro de 2015

"Arquitectos Aires Mateus vencem concurso para museu suíço e batem três prémios Pritzker"



Arquitectura
Arquitectos Aires Mateus vencem concurso para museu suíço e batem três prémios Pritzker


Joana Amaral Cardoso 05/10/2015

Projecto de 85 milhões de euros para novo pólo cultural de Lausanne bate propostas assinadas por três prémios Pritzker.

A dupla de arquitectos portugueses Manuel e Francisco Aires Mateus venceu esta segunda-feira o concurso internacional para criar a nova casa de dois museus - o Museu da Fotografia de Elysée e o Museu de Design e Arte Contemporânea (Mudac) - em Lausanne, na Suíça. A sua solução, escolha unânime do júri, foi criar “um museu que não é um museu, são dois”, como disse ao PÚBLICO Francisco Aires Mateus: um único edifício que estará construído em 2020 e cuja obra está orçada em 85 milhões de euros.

“Desenhem-me dois museus” foi o pedido do Cantão de Vaud, cuja capital é Lausanne. “Um museu, dois museus, um espaço” foi a resposta da dupla Aires Mateus, que com a sua proposta deixou para trás no concurso três arquitectos que já receberam o prémio Pritzker: o japonês Shigeru Ban, a dupla japonesa Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa (do atelier Sanaa) e o francês Jean Nouvel.

A escolha do atelier português foi unânime, lê-se no texto de apresentação do projecto vencedor assinado por Olivier Steimer, presidente do júri, que classifica a ideia dos arquitectos como “fabulosa”. Um único edifício, “maravilhosamente engenhoso”, composto por duas partes, uma dedicada à fotografia e outra ao design e à arte contemporânea. “Cada uma no seu espaço, unidas por uma formidável área de recepção e ponto de encontro, formando uma extensão natural” ao espaço público, lê-se no documento apresentado pelo júri que, no outro extremo de uma grande praça, albergará o também futuro museu Museu do Cantão de Belas-Artes (MCBA).


A notícia completa no diário Público

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O que é o Prémio Pritzker?


O Prémio Pritzker é um prémio internacional de arquitetura. Foi criado em 1979 pela Fundação Hyatt, gerida pela família Pritzker, sendo muitas vezes chamado de "o Nobel da arquitetura".

É atribuído anualmente ao arquiteto, ainda em vida, que melhor cumpra os princípios enunciados por Vitrúvio: solidez, beleza e funcionalidade.





segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Hélia Correia, Prémio Camões 2015



Lamentamos dar esta notícia com atraso.


Hélia Correia vence Prémio Camões 2015
17/6/2015

A vencedora foi escolhida por unanimidade pelo júri, que reuniu hoje no Rio de Janeiro. É um dos mais importantes prémios literários em português e já foi atribuído a Miguel Torga e Jorge Amado.

 A escritora portuguesa Hélia Correia é a vencedora do Prémio Camões de 2015. O anuncio foi feito esta quarta-feira, pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC).

Hélia Correia nasceu em Lisboa em 1949. Licenciada em Filologia Românica, foi professora do ensino secundário, dedicando-se atualmente à tradução e à escrita. É poetisa, dramaturga e ficcionista. Estreou-se na poesia com O Separar das Águas, em 1981, e O Número dos Vivos, em 1982. Mas tem sido na ficção que se tem revelado “um dos nomes mais importantes e originais da sua geração”, escreve o gabinete de Barreto Xavier.

Hélia Correia já recebeu várias distinções, entre as quais o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela obra Lillias Fraser, e o PEN de poesia 2013 pelo livro A Terceira Miséria. Neste regresso à poesia, a escritora prestou homenagem “à sua Grécia” e aos problemas económicos e sociais que está a enfrentar desde o início da crise financeira.

(A notícia completa no Observador)


A notícia no diário Público: "Hélia Correia é a vencedora do Prémio Camões" (17-junho-2015)


Hélia Correia: "Não estou interessada em famas, em dinheiro ou em admirações" (Diário de Notícias, 20 agosto 2015)


Hélia Correia na página da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas



Vários postes sobre Hélia Correia no blogue Bibliotecário de Babel, de José Mário Silva


O que é o Prémio Camões?



Dois dos poemas deste livro:


Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

* * * * * * * * * * * * * *

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
A ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.   




terça-feira, 24 de março de 2015

Morreu Herberto Helder


Morreu Herberto Helder, o poeta dos poetas

O maior poeta português da segunda metade do século XX morreu aos 84 anos.

Herberto Helder morreu esta segunda-feira, aos 84 anos, em Cascais. O poeta, nascido em 1930 no Funchal, morreu em casa, e as causas da morte não foram reveladas. Era considerado por muitos o maior poeta português da segunda metade do século XX. A cerimónia fúnebre realiza-se na quarta-feira e vai ser reservada à família, segundo comunicado da Porto Editora.

No ano passado, em Junho, publicou A Morte Sem Mestre, pela chancela da Porto Editora — numa edição que incluía um CD com cinco poemas ditos pelo autor. Em 2013 havia publicado Servidões. Desde a publicação de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, tornou-se um caso de consenso crítico quase absoluto. Tal como os anteriores livros de Herberto Helder, A Morte Sem Mestre teve apenas uma edição, tendo esgotado rapidamente.

A notícia completa no jornal Público


O mito de Herberto Helder

António Guerreiro - 24/03/2015 - 17:34

A poesia de Herberto Helder obriga a colocar esta questão: será que ainda é possível a poesia num mundo completamente secularizado?

Artigo completo no jornal Público




No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.

Herberto Helder



quinta-feira, 19 de março de 2015

José Luís Peixoto presenta en Badajoz su última novela "Galveias"



José Luís Peixoto presenta en Badajoz su última novela "Galveias"

El próximo día 24 de Marzo, a las 11:30, en la Biblioteca Pública de Badajoz


El próximo día 24 de Marzo, a las 11:30, vendrá a la Biblioteca Pública de Badajoz José Luís Peixoto, un escritor portugués y uno de los nombres más destacados de la literatura contemporánea a hablar sobre su obra y, aprovechando el evento, presentar su última novela "Galveias".


Panorama-Extremadura