POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Romances negros, noites claras (António Lobo Antunes)

José Cardoso Pires


ROMANCES NEGROS, NOITES CLARAS

À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. Os eucaliptos dos anos destroem tudo em tono de nós.

Em acabando este livro apetece-me escrever um romance policial, ou antes um romance negro. Trago esta ideia há anos e chegou a altura de o fazer. Lembro-me de falar nisso ao meu irmão de alma José Cardoso Pires

- Sabes do que tenho vontade, tu?

esperei que o silêncio retornasse suficientemente côncavo para as minhas palavras caberem lá dentro e esvaziei o púcaro Fazer um romance negro.

Recebi de resposta

- Ando a pensar nisso desde que comecei.

Demorámo-nos às voltas com o plano de fazer o tal romance negro a meias, em capítulos alternados, depois o Zé teve aqueles problemas que acabaram numa morte horrível e, mesmo sem ele, não abandonei a cisma. Se for capaz de o pôr em marcha dedico-lho, claro, nós que não dedicámos livros um ao outro:

- Porque é que a gente nunca dedicou um livro ao outro?

- Achas que é preciso?

e ficámos assim. Mas levas com o teu nome no romance negro que te lixas. E meto lá os teus bairros. E meto-te lá a ti, de personagem principal. Não todo, claro, certas coisas de ti. Fazes-me tanta falta, meu cabrão, há tanto para contarmos um ao outro. O fim de um amigo é um martírio, não páras de te agitar cá dentro, raios te partam. Tu e o Ernesto Melo Antunes: duas feridas abertas que não saram. Mas nunca tive uma intimidade assim com outro homem. Bom, adiante. O romance negro é uma promessa que te fiz e acabou-se. Continuo a não beber, continuo a gostar de comida de avião

- Como posso ser amigo de um sacana que gosta de comida de avião?

papava o meu tabuleiro, papava o teu, falávamos de bailes nos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, boxe, bilhar às três tabelas, chocos com tinta

(eu detesto)

não falávamos de literatura nem do que cada um estava a lavrar. Mostrava-se acabado o trabalho, num tonzinho distraído

-Queres ler isto?

e, sem mais palavras, suspendiamo--nos num pingo à espera da opinião do outro, que se resumia sempre a uma frase vaga. Percebia-se o julgamento pelo clima à volta da frase, não pela frase em si. E era tudo.

À medida que o tempo avança vai-se ficando despovoado. Os eucaliptos dos anos destroem tudo em torno de nós. Sobram cinzas, raízes, sombras, restos de pedras calcinadas, vozes ao rés da erva à procura da boca onde nasceram, a pedirem que as escutemos. O que se ganha em troca? Uma cor diferente no silêncio, aquilo a que chamamos sabedoria e não é mais que uma tristeza resignada. Outras pessoas habitarão aqui e a gente primeiro retratos nas cómodas, depois retratos nas gavetas, depois retratos na cave, depois nada.

Cartas numa caligrafia antiga que um vento defunto inclina. E a morte final com o esquecimento do nosso próprio nome. Ficam os livros

(ficarão os livros?)

ficam os livros. Em certo sentido é terrível que a criação dure mais que o criador: Flaubert enfurecia-se que a Bovary continuasse viva e ele não.

É curioso: agora é ela, a quem Flaubert deu vida, que lhe dá vida a ele. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se actividade mais nobre? E agora, não sei porque obscuro nexo, veio-me à ideia o Manuel da Fonseca a dar autógrafos na Feira do Livro, o sorriso dele. Esperava que eu acabasse, jantávamos juntos e deixava-o no cais para a outra banda, de madrugada. Cada autógrafo demorava dez minutos no caso de um homem, quinze ou vinte no caso de uma mulher. Dedicatórias intermináveis. Entre o fim do jantar e o cais uma rebaldaria feliz. Tinha assistido à chegada do General ou Marechal Gomes da Costa a Lisboa, depois do vinte e oito

(ou vinte e seis?)

de maio

(vinte e oito)

e o Manel, com a avó, a assistir ao desfile das tropas na Avenida da Liberdade, em que a avó lhe disse

- Olha, filho, devia haver um decreto que proibisse as revoluções.

Copinhos no balcão de cada bar, discotecas manhosas, nem uma palavra sobre literatura, claro. O Manel recrutava umas pequenas e, pelo retrovisor, assistia-lhe às manobras no banco de trás: quem começa o Cerromaior assim

Antigamente o largo era o centro do mundo

merece tudo. E um punhado de poemas de alta qualidade, ai as coisas incríveis que eu te contava assim misturadas com luas e estrelas e a voz vagarosa como o andar da noite. Mesmo posto corrido é do camandro. E a voz do Manel vagarosa como o andar da noite. Nunca tinha pressa, nunca o vi triste. Adorava andar à pancada. O Zé dizia que ele se fingia cobarde para os outros aumentarem e a seguir era um arraial de porrada que dava gosto. Para o Zé se exprimir assim, ele que sob esse aspecto não devia a ninguém, era de certeza. Manel. Só tenho pena que o Zé não se reconciliasse contigo por uma asneira velha, muito feia, que nunca te perdoou. Eu também não perdoei

(não perdoo)

mas esqueço sempre.

- O Zé não vem conosco?

perguntava o Manel, ansioso, e eu por dó Não pode a ver-lhe a aflição na cara. Deixa lá: antigamente o largo era o centro do mundo. E a quem foi capaz de dizer isto aceita-se tudo. Eu, pelo menos, aceito. E o Zé há-de aceitar, vais ver, é uma questão de tempo.

António Lobo Antunes


Publicado na revista Visão


 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Memórias do cárcere (Graciliano Ramos)

Graciliano Ramos

No começo de 1936, funcionário na Instrução Pública de Alagoas, tive a notícia de que misteriosos telefonemas, com veladas ameaças, me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças: ordinariamente o indivíduo que tenciona ofender outro não o avisa. Mas os telefonemas continuaram. Mandei responder que me achava na repartição diariamente, das nove horas ao meiodia, das duas às cinco da tarde. Não  era o que pretendiam. Nada de requerimentos: queriam visitar-me em casa. Pedi que não me transmitissem mais essas tolices, com certeza picuinhas de algum inimigo débil, e esqueci-as: nem um minuto supus que tivessem cunho oficial. Algum tempo depois um amigo me procurou com a delicada tarefa de anunciar-me, gastando elogios e panos mornos, que a minha permanência na administração se tornara impossível. Não me surpreendi. Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. Eu conseguira agüentar-me ali mais de três anos, e isto era espantoso. Ocasionara descontentamentos, decerto cometera numerosos erros, não tivera a habilidade necessária de prestar serviços a figurões, havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos, e isto se considerava impatriótico. O aviso que me traziam era, pois, razoável, e até devia confessar-me grato por me haverem conservado tanto tempo.

Graciliano Ramos

Excerto de Memórias do cárcere,  um livro de memórias de Graciliano Ramos, (1892-1935) publicado postumamente (1953) em dois volumes. O autor não chegou a concluir a obra, faltando o capítulo final.

O autor havia sido preso em 1936 por conta de seu envolvimento político, exagerado por parte das autoridades após o pânico insuflado com a chamada Intentona Comunista, de 1935. A acusação formal nunca chegou a ser feita.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"Começa a haver meia-noite e a haver sossego" (Campos / Pessoa)



Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino!
—Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dói-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa...

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa



O que são os heterónimos?


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Terras do Demo (Aquilino Ribeiro)



Os longes esfarelavam-se num luaceiro grisalho, como de moinha ao vento; mas, a todo o largo da mirada, a terra descobria-se com os mouchões das leiras a reluzir prateados ao luar e os regos coalhados de tinta negra.

Nas leiras onduladas de morro para morro, o centeal dormia debaixo do codo, a meio as pedras intonsas e impressionantes como cabeças mortas saindo debaixo dum lençol.

As giestas projectavam uma sombra muito escura, o que o levou a notar que a sombra que o seu vulto também projectava era tão retinta e desengonçada como se levasse um fantasma à mão direita.

Não se enxergava vivalma nem de homem, nem de bicho, nem de ser nado que fosse.

Mas, pela lua que caminhava sempre, o sete-estrelo muito rútilo, a rija imobilidade da planície, sentia-se a terra presa a amarras que não quebram nem se rendem.

Aquilino Ribeiro (1885-1963)

Do seu livrro Terras do Demo (1919) 

Aquilino Ribeiro no Instituto Camões e em Vidas Lusófona