sábado, 31 de agosto de 2024

Adélia Prado - Tempo



TEMPO

A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

Adélia Prado



quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Jorge de Sena - «Deuses, quem mos dera…»

 



«DEUSES, QUEM MOS DERA...»

Deuses, quem mos dera
acessíveis fraternos
divinos o bastante
e corpóreos físicos cheirosos
à carne e o mais.

Não há. Só por miragem
por ilusão vontade
ou desespero ou sonho
nocturno e solitário
alguém agora os vê.

Antes não ser capaz destas visões. Ou
ter perdido o dom
de imaginá-los — que supor

haver quem se degrade a ser divino 
apenas por instantes.

       1967


Jorge de Sena


Peregrinatio ad Loca Infecta (1969)



(Fotografia de Dan Diffendale - The Aphrodite of Capua)


segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Ana Salomé - Ode ao Castigo


ODE AO CASTIGO

Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.

Ana Salomé


Odes (2008)




(Fotografía de Fernando Moital)


segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Fernando Echevarría - A Velhice é um Vento

 



A VELHICE É UM VENTO

A velhice é um vento que nos toma
no seu halo feliz de ensombramento.
E em nós depõe do que se deu à obra
somente o modo de não sentir o tempo,
senão no ritmo interior de a sombra
passar à transparência do momento.
Mas um momento de que baniram horas
o hábito e o jeito de estar vendo
para muito mais longe. Para de onde a obra
surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Fernando Echevarría

Figuras (1987)



Fernando Echevarría Ferreira (Cabezón de la Sal, Santander, Espanha, 1929 - Porto, 2021) foi um poeta português (Wikipédia) e segundo a Infopédia, "Poeta espanhol de origem portuguesa":

"Poeta espanhol de origem portuguesa, Fernando Ferreira Echevarría nasceu a 26 de fevereiro de 1929, em Cabezón de la Sal, Santander, Espanha. Veio para Portugal ainda muito novo, tendo cursado Humanidades em Portugal, e Filosofia e Teologia em Espanha. Optou pela carreira docente, primeiro no Porto e depois, já exilado em Paris, onde passou a residir desde meados de 1966, após ter estado em Argel entre 1963-1966. Escreveu sempre em português, só ocasionalmente nas línguas castelhana e francesa, e colaborou em várias revistas como: Graal, Eros, Colóquio/Letras e Limiar."


José Luis Puerto: "Fernando Echevarría, (en memoria)", Astorga Redacción, 8 de agosto de 2021



segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Manuel Bandeira - Evocação do Recife

Rua da União, no Recife


EVOCAÇÃO DO RECIFE

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
p Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União... A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.

                                       Rio, 1925


Manuel Bandeira



Libertinagem (1930)


quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Manuel da Fonseca - Segundo dos poemas da infância



Poemas da infância


Segundo

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, bricar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


Manuel da Fonseca



(Fotografia de Chiara Boschi)


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Manuel da Fonseca - Poema da infância


 

POEMA DA INFÂNCIA

Uma tarde
o Tóino
chegou ao largo
com um vidro extraordinário
Segurava-se
Entre o polegar e o indicador,
Virado para o Sol. E do outro lado
Chispavam as sete cores do arco-íris!
E nós
Em volta,
Esquecidos do jogo do pião…

Manuel da Fonseca




(Fotografia de Sergio)


quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Vinicius de Moraes - Jogos e folguedos: Maria Mulata




JOGOS E FOLGUEDOS: MARIA MULATA

Aos coros infantis
Sempre preferia
Os jogos de Maria
Mexendo os quadris.

- Maria, levanta a saia
Maria, suspende o braço
Maria, me dá um cheirinho
Do capim do teu sovaco.

Maria sempre tinha
Dó de mim.

- Bento-que-o-bento-frade
- Frade!

Na boca do forno
De manhãzinha
Eu e Maria.

- Tá quente, Maria...
(Maria estava sempre quente)

- Pique, Maria...
(E a luta arfante, úmida, silenciosa)

Dou-lhe uma
Dou-lhe duas
Dou-lhe três...

Vinicius de Moraes




(Fotografia de Jairo)