Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Henrique Manuel Bento Fialho - Diário da quarentena #6

Fotografia de Ges mar


Diário da quarentena #6

Pensei que talvez fosse boa ideia contemplar o Atlântico depois de tantos dias fechados em casa. Temendo desrespeitar as regras do estado de emergência, ligámos para a PSP a indagar sobre direitos no usufruto de miradouros e belvederes. O senhor agente deve ter-nos julgado tontos, rematando prontamente a conversa com uma nega tonitruante. Somos um ajuntamento. Ainda pensei fintar a classificação distribuindo o mal por freguesias, que é como quem diz dois em cada viatura, mas logo a consciência pesou tanto sobre os ombros que a cervical voltou a resmungar. A quem mais ouvi dizer que este país precisava de um Salazar em cada esquina ouço agora protestos e divirto-me com as desculpas ensaiadas para fintar os mandamentos da autoridade. Acabámos a ver passar navios da varanda cá de casa. Não posso dizer que se esteja mal, apesar de ao fim de tantos dias confinados o ajuntamento começar a parecer uma multidão. Cabe a cada um a missão de tornar o espaço amplo respeitando os tempos do outro, imprimindo ritmos ao dia que não os desvirtuem da normalidade outrora contestada. «Se tivesse que viver um filme, ao menos que fosse um musical», desabafa a Ana, antes de eu enfiar os auscultadores nos ouvidos para escutar repetidamente a “Polonesa Heróica” de Chopin. Arruinada a pouca reputação que me restava com parvoíces nas redes sociais, socorro-me de um pianista polaco para recuperar alguma consideração. Leio na Wikipédia, inescrutável fonte de erudição, que o tal de Chopin morreu rodeado de amigos. Eu também estou rodeado de amigos, uns espalhados ao longo das paredes de casa, outros nas estantes atoladas de livros, e ainda aqueles que sem se fazerem notar neste modo material de estar vão dando conta de si rumorejando o desejo de um reencontro. Quando isto passar, dizem. E dentro de mim despontam personagens de quando e como isto era antes de ter começado a ser, o psicólogo de Arnaldo aconselhando-lhe vida própria, que o trabalho não podia substituir a vida, era preciso espairecer, estirar as pernas sobre a relva dos parques, desfrutar do convívio numa esplanada em tarde soalheira. E Arnaldo a olhar para a lista interminável de números no telemóvel sem encontrar um a quem achasse valer a pena ligar, hesitando, adiando, protelando para épocas de folguedo um simples “como tens passado?”. E o psicólogo a pensar na falta que lhe faz Arnaldo. Não se está mal na varanda, a espreitar a roupa dos vizinhos nos estendais e a contar gaivotas no céu. Há dias pareceu-me ter avistado um milhafre a pairar nas alturas, enquanto cá em baixo um láparo se ocultava entre as piteiras. Barrico-me na varanda como um gato a mirar melros, pintassilgos, pardais, pombos, rolas… Bem queria encontrar lesmas, Rita, mas para tanto basto eu.

Henrique Manuel Bento Fialho 

No seu blogue antologia do esquecimento (26 de março de 2020)



quinta-feira, 26 de março de 2020

Sobreviventes: João da Candonga



SOBREVIVENTES: JOÃO DA CANDONGA

Noutros tempos, entre a Guarda Fiscal e os Carabineiros ficava um Guadiana sereno, estrada de contrabandistas e engajadores como o João Afonso. Foi-se a fronteira e o João da Candonga trafica agora, do passado para o presente, memórias de prisões e noites em fuga, dos tempos da guerra de Espanha para uma amena conversa à beira do mesmo rio que o viu contrabandista.

Era o dia a pôr-se e o João Afonso mais meia dúzia de homens agachavam-se às sombras, descendo aos cerros para buscar a mercadoria que naquela noite passava para o outro lado. Café e tabaco, pois, mesmo em tempos de guerra civil, os espanhóis não abdicavam dos vícios, mas também roupa e até pregos para os sapatos eram guardados nas mochilas. Os olhos de um vigilante seguiam a rotina de passos dos soldados da Guarda Fiscal e dos Carabineiros do outro lado da fronteira, enquanto homens despidos esperavam um sinal para se lançar ao Guadiana. Depois do sinal, a aldeia ficava suspensa no silêncio da noite, ondulado por braçadas nervosas e dentes cerrados a puxar cargas proibidas. Dentro de oleados impermeáveis. Depois do rio, a serra ofegante, por entre veredas de estevas, peneiradas pela polícia, de onde um ou outro contrabandista acabava por ir acordar atrás das grades de uma cadeia espanhola. Desde os 25 anos que o João fazia da linha da fronteira o seu carreiro de sobrevivência, aprendendo as manhas de uma profissão que tornava as necessidades dos espanhóis o sustento dos portugueses, do lado de cá do rio. Começou por uns biscates ao fim-de-semana, entremeados pelo trabalho na estrada, então em construção. Com o tempo, passou também a seguir essa profissão que unia a aldeia de Monte das Laranjeiras nas noites em que os sonos se suspendiam na expectativa de ouvir um malfadado tiro certeiro. Ficaram por lá muitos, mas João e companhia sempre se desvencilharam de problemas maiores, sabendo que o silêncio dos guardas fiscais estava à venda por 50 escudos à carga. Já com os carabineiros, tinha-se de compensar os subornos com a imaginação, saindo do rio de costas, de modo a que as pegadas enganassem os espanhóis, ou trocando-lhes as voltas, passando sempre por caminhos diferentes. Depois do rio, o caminho do contrabando continuava até aldeias como Villa Blanca, algumas a mais de dois dias de caminhada. Do lado de lá da fronteira líquida do Guadiana e espinhosa das veredas, o João tinha um irmão que o ajudava nas lides da candonga, guardando a mercadoria enquanto a vendiam em onças ou a quilo aos espanhóis. Um negócio que chegava a valer quatro contos por carga numa altura em que o salário médio andava à volta de cem escudos por mês.

“Um dia estava a vender onças de tabaco a um estabelecimento do outro lado quando entrou um guarda civil e viu o que eu estava a vender. Perguntou ao comerciante: ‘Quem é que te vendeu esse tabaco?’ ‘Foi o português’, respondeu-lhe o outro. Fomos para a esquadra, mas o cabo era bom, de tal modo que me mandou ir sozinho buscar o resto da mercadoria... ainda hoje está lá à minha espera.”

Homem do mercado negro dos cafés e das artimanhas, não conseguiu escapar-se a ser peso um dia, quando alguém o encontrou escondido numa casa, acompanhado pela mercadoria que lhe dava riqueza e, desa vez, lhe deu desgraça. Dois meses e meio de prisão, algures em Huelva, à mistura com mais contrabandistas e muitos espanhóis acusados de robarem leitões, “tal era a miséria”, remata este traficante, em jeito de salvador de uma pátria em guerra, onde tudo escasseava. Olhos vivaços, entrincheirados por detrás das olheiras espessas, João Afonso negociava só bens escassos, de tal modo que, quando o tabaco faltou em Portugal, aí estava ele a trazê-lo para a sua aldeia, assim como as “águas-de-cheiro” espanholas, contrabandeadas para perfumarem a miséria suada dos portugueses. A mercadoria comprava-se em Mértola e ocultava-se algures nos montes, para se fugir às rusgas com que a polícia invadia as casas da aldeia. O João, homem levado da breca, não tinha assim tanto medo dos guardas, mesmo quando um dia se viu apanhando por um cabo da Guarda Fiscal enquanto acartava um saco de café. “Deixe lá o saco e vá-se embora que eu finjo que não vi”, disse o guarda, mas o contrabandista defendia o sustento e adiantou-se: “Se não pagar, não leva nada.”

“Uma vez estava numa casa, escondido com mais gente nova, que me ajudava a trazer a carga para a fronteira, e lá fora estava um jornalista [sic] a vender jornais (a farda do homem era parecida com a da polícia), o jornalista viu-os e pregou um grito: “Periódicos para hoy!”. Eles entenderam “hay que apanhá-los hoy”. Os novatos estavam cheios de medo.

Agora, por aqui, o contrabando já não dá sustos nem empregos a ninguém. Foi-se a profissão com a linha rígida da fronteira que o Guadiana marcava, há coisa de 10, 12 anos. Agora o rio é o caminho do tráfico de droga, entre o Norte de África, Portugal e Espanha. “Já não andam agora cá com mochilas às costas e ganham uns valentes mil contos”, comenta o João, herói de contrabando, sublinhando que o fazia para matar a fome dele e a dos outros, ao contrário do tráfico da droga. E mais uma vez João salta para o rio, num olhar que se afunda em histórias antigas, contadas ainda com algum calejado receio de contrabandista.


Texto: José Miguel Sardo


(Magazine Pública, 2 Junho 1996)



"O antigo contrabandista Inácio Vitória e o ex-guarda José Rosado são hoje bons amigos", fotografia de António Carrapato num artigo do jornal Público (14-06-2014): "Um encontro com um contrabandista e um guarda-fiscal já é turismo"


segunda-feira, 23 de março de 2020

Manuel Bandeira - Vou-me embora pra Passárgada



VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


Para uma melhor compreensão do poema, leiamos as palavras do próprio autor em Itinerário de Pasárgada:

Quando eu tinha os meus quinze anos e traduzia na classe de grego do Pedro II a Ciropedia fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia, para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar e eu vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada..

Mais de vinte anos depois, num momento de profundo cafard e desânimo, saltou-me do subsconsciente este grito de evasão: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em “Vou-me embora pra Pasárgada”, elas não passam de acidentes. Não construí o poema, ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizando as reminiscências da infância – as história que Rosa, a minha ama-seca mulata, me contava, o sonho jamais realizado de uma bicicleta, etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as atividades que a doença me impedia.

“E como eu farei ginástica... tomarei banhos de mar!” A esse aspecto Pasárgada é “toda a vida que podia ter sido e que não foi”.




sábado, 21 de março de 2020

... e Ana Salomé também

Fotografia de J.C. Duarte


LUME

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

Ana Salomé 

(2009)

Lido em As folhas ardem


Emanuel Jorge Botelho para o Dia Internacional da Poesia...

Fotografia de Felipe Reis

A situação tem mudado muito nos dois meses e pouco em que este blogue esteve a usufruir de um estranho descanso, estranho devido à minha chegada à reforma. Espero que os poucos leitores que por cá passam possam deixar de pensar no assunto de que toda a gente fala, tão grave, e encontre nos versos publicados um pouco de conforto...

Como já disse naquele dia 17 de janeiro, voltaríamos com a primavera, que chegou ontem, e hoje é o Dia Internacional da Poesia. Leiamos os versos de Emanuel Jorge Botelho, com quem se inicia esta nova época de Um Reino Maravilhoso, já desligado da escola onde fui professor de Português durante quase dez anos, o IES “M. Domingo Cáceres”, de Badajoz.


NAQUELE TEMPO ÉRAMOS DONOS…

Naquele tempo éramos donos
das palavras,
não pagávamos tributo ao dicionário.

Naquele tempo fazíamos dos actos
factos,
ignorávamos os agiotas da decência.

Éramos dragões vomitando fogo,
lava,
origem,
trigo e
irreverência.

Éramos libertinos, libertários,
vagabundos
sentados nas sarjetas da
inocência.

Naquele tempo éramos donos
naquele tempo éramos
naquele tempo...

Emanuel Jorge Botelho


Lido no blogue da luz & da sombra


quarta-feira, 18 de março de 2020

Armindo Trevisan - A carícia

Fotografia de Gabriella di Massa


A CARÍCIA

Há no corpo uma carícia
que ele mesmo a si se nega
a mão a aguarda por dentro,
jóia magra e deliciosa.

Se no banho, se na pressa,
ninguém a arranca, ciosa
só se pertence a si mesma
vazia de dimensão e agrado

Dá-se gratuita no raro,
no momento impessoal
no aperto da mão perdida
no recolher em pleno sono

Ninguém experimentará jamais
esse afago onipresente,
contudo subtraído
ao contato, à doação.

Talvez no estremecer
da pupila que alça vôo,
ela se dê – a deus, ao diabo
total, linda, inacessível.

Armindo Trevisan


Armindo Trevisan é um poeta brasileiro nascido no estado de Rio Grande do Sul (1933).