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quinta-feira, 12 de março de 2026

Anabela Mota Ribeiro entrevista António Lobo Antunes (2006)

 

António Lobo Antunes (2006)


António Lobo Antunes é o escritor que quer pôr a vida toda num livro, num gesto, numa expressão. Traduz, em livros inclassificáveis, a essência do humano, na sua grandeza e miséria. Nesta entrevista fala-se de generosidade, do medo, da atenção ao outro. Fala-se dos livros e das razões por que vale a pena viver. E da eternidade. Do silêncio. Da alegria. Da guerra. Da dificuldade em dizer o amor. Da necessidade de se apropriar do coração dos homens. Falámos da sua nudez, vulnerabilidade, da fé que tem nos homens. Eis o retrato de um homem que a mãe diz ter sido sempre assim.



Hoje folheei a sua fotobiografia para ver como era em pequeno. A expressão, o olhar, não mudou muito.

A minha mãe é que diz isso. Tem na sala uma fotografia minha com um ano e diz que não mudei. Que esquisito.

Pois é. Por isso queria lançar esta interrogação.

Não gosto de fotografias minhas, não gosto de me ver, nunca gostei. Tive sempre uma relação difícil com o meu corpo, com o meu aspecto físico [riso].

Está a rir-se porque está a fazer género?

Não, não, é verdade. Vi isso naquele livro das Cartas [de Guerra: d’este viver aqui neste papel descrito]. Tinha vinte e poucos anos e achava-me feiíssimo. Achava sobretudo que não era parecido comigo, que não tinha aquela cara, que era diferente daquela cara. Olhava para o espelho com uma estranheza. Nunca gostei de espelhos. Nem de relógios, não uso relógio.

O irreconhecimento passa por onde?

Era como se eu fosse outro. A sensação era sempre a mesma: não sou aquele, não sou este, não tenho fotografias minhas.

Nesse sentido, imagino que os livros sejam fotografias suas.

Agora já não. Ao princípio, sim. Continuo a achar que os livros deviam ser publicados sem o nome de autores. Havia uma data de problemas que desapareciam. Pelo menos ao nível de competição, inveja, ciúme (tudo isso que nada tem que ver com livros e que entendo mal). O Victor Hugo dizia que as obras de arte eram como os tigres: não se devoravam umas às outras. Descobrir um livro bom é uma alegria tão grande, um autor que a gente não conhece... é uma festa!

O sentimento de admiração é uma bênção.

Porquê?

Porque nos enriquece, faz-nos maiores.

Sinto-me grato por haver pessoas melhores. As que muitas vezes admiro são pessoas que ninguém sabe quem são, a não ser a família delas. Acho que sou uma pessoa humilde. Em relação aos livros: não percebo bem aqueles livros, tudo aquilo me escapa. Aquilo é novo e é diferente, mas ainda é muito cedo para se perceber o que é que eu trouxe. O meu medo é sempre o mesmo, é de desiludir as pessoas que tiveram em mim uma confiança que eu nunca partilhei. É tão difícil escrever. No entanto, por que é que há tantos livros, tanta gente a escrever? Recebo muitos manuscritos cheios de gloriosas certezas. Eles querem que eu leia na segunda, que na terça diga que são bestiais, que na quarta estejam publicados e na quinta sejam famosos. Mas escrever não é isto.

Também aos dezoito anos estava cheio de certezas quanto à literatura e quanto à vida — disse-o. A soberba da juventude é infinda.

Uma certeza eu tinha: se trabalhasse muito ninguém escrevia como eu. Mas fazia coisas muito más. Havia uma distância grande entre aquilo que eu sentia e os resultados, que eram pobres. Continua a haver.

Como se houvesse um desfasamento? Não entre o espelho e a imagem projectada, mas entre os livros e o que quer que eles sejam?

Estava à espera que falasse nisso. “Ainda não é isto, podia ter ido mais longe, podia ter trabalhado mais, podia ter corrigido mais, devia ter reescrito mais”. Devia ter publicado só a partir d’ O Esplendor de Portugal, devia ter lido primeiro o não sei quantos. Ainda eram romances, e não me interessa nada contar histórias. Queria pôr a vida inteira dentro de um livro. Claro que não é possível, mas é a única maneira.

A vida toda. Numa frase, num gesto, numa expressão.

Sim, tudo lá dentro. Escrever é como escrever.

Escrever é como escrever ou escrever é como viver?

Escrever é como escrever. O que é O Velho e o Mar? Ele sai para apanhar um peixe, gamam-lhe os peixes, chega à praia e não tem nada. O que é a Anna Karenina? Uma mulher, que se aborrece no casamento, arranja um amante, arrepende-se e mata-se.

Atira-se ao comboio. É preciso explicitar o modo como ela se mata.

A anedota não interessa nada, o problema é explicar como acontece isto. Eu fazia planos muito detalhados, depois percebi que não. Este livro que vou publicar, a única ideia que tinha era: como é que a noite se transforma em manhã. Não tinha mais nada na cabeça. O problema é o começar. Tem imensas falsas partidas, a gente faz uma, e duas, e cinco vezes, até o livro encontrar o seu caminho.

Antes arquitectava, e agora, ao contrário, quer desaprender de escrever para que a mão siga mais livremente, e o livro se revele ele mesmo.

O livro falhava o plano, ia em direcções completamente diferentes daquilo que tinha imaginado. Tornava-se um organismo vivo, com as suas ideias próprias, uma maneira de ser e uma fisionomia. Não eram as personagens sequer. Há pessoas que falam em livros polifónicos; a mim parece-me sempre a mesma voz. Que vem ao longo dos livros e vai ganhando modulações diferentes. Praticamente não há descrições de personagens, descrições físicas.

Os romances têm vários eus que comunicam?

Eles não são romances.

São solilóquios? Diários?

Não sei. Tenho que arranjar uma definição. Parecem sonhos, não é? O romance para mim implica uma história, uma determinada estrutura. Claro que A Memória de Elefante e O Fado Alexandrino são romances, nesse sentido. Estes não têm nada que ver com isso. São livros.

Tem falado do desejo de escrever (n)um estado que é “anterior à palavra”. Como se o que vai revelando nos livros, descobrindo com essa mão cega e mágica, fosse desconhecido para si e aflorasse no movimento da escrita. O que será que está antes? O que é anterior ao medo, à revelação? Como é a face da inocência? Por acaso, havia fotografias em que a sua inocência estava escancarada.

Também depende da maneira como se olha para as fotografias... É isso que esteve a dizer, sim. Não poderia dizer melhor, é isso. Ao mesmo tempo é uma tarefa impossível, porque é tentar transformar em palavras o que é intraduzível em palavras: emoções, impulsos, os próprios nexos. Gosto de adormecer a ler. E quando estou a adormecer, estou a ler o que não está lá. Depois a gente volta à tona e afinal nada daquilo estava ali escrito. Então, é conseguir esse estado. Consigo através do cansaço. As duas, três, primeiras horas são perdidas. É tudo muito lógico-discursivo dentro de mim, os bonecos são muito lógicos, quase cartesianos. (“Cartesianos” irrita-me por causa daquele tipo d’ O Erro de Descartes [António Damásio]. Descartes não era nada daquilo. Um homem que escreve sobre a estrutura dos flocos de neve era muito mais complexo que isso.) É isso, é tentar furar no coração, do coração. Não sei explicar bem.

Explique mais.

Só quando se está a escrever é que é isso. Vivo um pouco assim, mas demora muito tempo a viver assim. Agora é que eu estava bom para nascer.

O que é que quer dizer?

Tenho agora alguma virgindade. Virgindade no olhar, uma capacidade de surpresa muito maior do que tinha há dez ou quinze anos. E também no amor. Demorei muito tempo a aprender o que era o amor. Amor: estou a falar lato sensu. E o entusiasmo. Vivia muito autocentrado, levado pela minha timidez. A existência dos outros foi-me revelada a pouco e pouco. Durante anos era-me difícil conceber relações horizontais com as outras pessoas. Começou na guerra. De repente, percebi que havia os outros, que eram iguais a mim e que eu estava entre eles. É muito difícil ser homem. Uma das coisas boas que tenho em ser homem é que não tenho nenhum atrito em me relacionar amorosamente com homens.

Parece cada vez mais sensível à ternura e à alegria.

Da outra vez em que nos encontrámos [conhecemo-nos num almoço há um ano e meio], havia mais gente à volta e eu falo pouco. Gosto de ouvir e falo pouco. As pessoas estão tão ansiosas por falar... Eu não tenho ansiedade nenhuma. Quando a comunicação é boa, mesmo com um estranho, consegue-se um entendimento não verbal. Um entendimento visceral, vasos comunicantes.

Eu também começo a acreditar no entendimento epidérmico...

É o mais profundo, é tão fundo. Talvez a pele seja a coisa mais profunda que temos. Um crítico francês do século XIX dizia que “não há profundidade, há é uma infinidade de superfícies”. Tem razão. O problema é que, se calhar, temos medo, mas reparamos pouco nos outros. Esse aparelho [gravador] é horrendo.

Fala baixinho, se o puser longe não capta nada.

Sempre falei muito baixo. Detesto gritos e pessoas que gritam, pessoas veementes. É horrível, porque queremos dizer “gosto de ti” e temos vergonha. Eu tenho vergonha. Fica-se muito despido. Estou a falar de coisas que normalmente não falo.

Do quê, exactamente?

Da maneira de viver. A pessoa começa a perceber que a felicidade é possível. No sentido de não haver mal-entendidos entre nós. Entre nós e nós, entre nós e os outros, entre nós e a vida.

Como é que se consegue esse entendimento?

Ai, não sou nenhum sábio, vivo por instinto.

É uma conquista, o abandono de uma grelha racional.

Bom, eu era filho de um anatopatologista. Faz agora dois anos que morreu. Era um homem que quando um dos meus irmãos lhe perguntou o que é que gostaria de ter deixado aos filhos, respondeu: “o amor das coisas belas”. Seja o que for que isto quer dizer. Acho que nunca foi velho. Teve sempre uma capacidade grande de se apaixonar, até ao fim da vida. Por um livro, por músicas, pelo que fosse, por pessoas. A seguir vou deixar de fumar.

Bom projecto! Parece mais novo, agora que emagreceu.

Sinto-me leve. Entro no carro, saio do carro, corro, danço, se me apetecer, pulo. Não podia fazer nada disso e era uma estupidez. Sem me dar conta, estava a matar-me. Pequei muito contra mim mesmo. Agora pareço o Francisco de Assis, que dizia: “confesso que pequei muito contra o meu próprio corpo”.

Falando de São Francisco, lembrei-me de Santo António, e da sua viagem a Pádua.

Eram amigos. Era o único homem que ele tratava por “meu santo bispo”. Mas a gente lê Santo António e fica aterrado, aquela teologia...

Quer falar-me dessa viagem a Pádua?

Não me lembro de nada...

Na fotobiografia elege a viagem como um dos acontecimentos centrais da sua vida.

Claro que sim. Oiça, para uma criança de sete anos... Um homem, como o meu avô, que me fazia festas, beijava lindamente (é tão difícil uma pessoa que sabe beijar), levar-me de carro pela Europa... Portugal, Espanha, França, Suíça, Itália. Foi a pessoa de quem mais gostei até hoje, o homem de quem mais gostei até hoje.

Ele dedicava-lhe uma atenção exclusiva?

Era daquelas pessoas que a fazia sentir-se única. A Anabela está com ela e sente que nada mais existe a não ser a Anabela. Tinha esse dom, essa capacidade. E era genuína, significava um interesse real pelas pessoas e pelas coisas. Eu era o filho mais velho do filho mais velho, tinha o nome dele. Não me pareço nada com ele. Era moreno, bonito, completamente sociável, falador. Eu sou introvertido, tímido, fechado, dou-me com muito pouca gente. Não vou a jantares. Naquele almoço onde foi [antes da entrevista], normalmente estou calado.

Achei normal que estivesse calado.

O que é que vou dizer? As palavras são tão desnecessárias, não é? Conhece melhor uma pessoa se falar com ela?

Tento.

As pessoas falam para si como personagens, quando estão a falar.

Eu estava consciente de que estava a compor uma personagem para mim e para aquele grupo de amigos. Pela minha parte, estava a compor a personagem da que não se deslumbra.

Não deslumbra ninguém, são pessoas que estão a comer.

É fácil esse deslumbramento se estamos com uma pessoa que admiramos. Queremos parecer luminosas aos seus olhos.

Há pessoas que têm uma estrela na testa. São raras. O nosso corpo vai para elas, sem nos darmos conta. Uma pessoa de quem gosto é aquela com quem estou bem em silêncio. Com o Ernesto Melo Antunes, passávamos horas calados e com a sensação de que tínhamos dito imensas coisas. Tenho um irmão com quem funciono assim, ele fala muito pouco. E, às vezes, depois do jantar, andamos ali em Benfica, a ver os sítios onde crescemos. Não é preciso falarmos, não é preciso tocarmo-nos. O Freud dizia que a maneira mais profunda de fazer amor era só com os olhos. Lembra-se de uma entrevista em que o Richard Burton dizia que ele e a Elizabeth Taylor se vinham só de olhar um para o outro? Aquilo parecia-me um exagero, mas é verdade.

Essa tirada é tão apoteótica quanto a entrada da Cleópatra em Roma!

Não vi esse filme. Mas vi uma das entrevistas que deram em conjunto, e a maneira como ela olhava para ele...

Há pessoas que têm uma comunicação fusional.

Se calhar, é a única que vale a pena.

É aquela que vale a pena perseguir?

Ou tem ou não tem. É como um berlinde na mão, é como o talento. O amor não é um fim, é um meio, é uma outra forma de falar. É uma maneira de estar mais perto, e mais perto, mais perto.

Falávamos de um estado anterior às palavras, dessa matéria intraduzível em palavras, que é onde quer chegar.

E depois tentar cercá-la com palavras. Só vale a pena começar um livro se estiver seguro de não ser capaz de o fazer. Torna-se um desafio intenso. Tenta transformar isso numa vitória: “não me vou deixar vencer por um livro”.

Goethe escreve na Viagem a Itália, a propósito do seu visceral entendimento com Nápoles: «Faltam-me os órgãos certos para falar de Nápoles». A relação não passa pelo cérebro nem pela palavra. São outros os canais. Lembrei-me disto enquanto o ouvia. Pensava na “sua” matéria informe, desconhecida, inapropriável, a que tenta chegar.

Agora estava a citar o Aristóteles quase seguido.

Eu?

Que depois o Camões glosa naquele soneto acerca do amor, quando diz: “como a matéria simples busca a forma”. Exactamente o que estava a dizer.

Não tinha a intenção. De qualquer modo, isto faz-me pensar na ideia de princípio. Vamos à ideia dos seus vários nascimentos. Fala de África, da guerra, como um nascimento: “aquilo que eu sou hoje nasceu lá, comecei a ser outro lá”.

No outro dia fui almoçar com eles todos, num almoço de companhia. Os militares falavam em camaradagem. Não é amizade, não é amor... É uma relação tão estranha, tão intensa. Talvez porque vivi com eles as horas mais amargas, mais duras, mais violentas que tive até hoje. Não sabia que estava tão ligado a eles. Era profundamente comovente. Sabe, os soldados tinham 19, 20 anos, os oficiais tinham 23. Não sei se éramos homens. Visto agora, parece-me que éramos miúdos. E, no entanto...

Nos seus livros, a marca deixada pela guerra continua a ser central.

Foi muito importante para mim e continua a ser. Eu era um miúdo precoce, assustava a minha família. E encontrar iguais... É sempre difícil falar disto, é sempre difícil falar de amor aos outros. [O encontro] foi em Torres Novas, o mês passado. A maior parte eram do Porto, de Trás-os-Montes, vinham do Norte, num autocarro, tinha um cartaz à frente que dizia “Os príncipes do António Lobo Antunes”.

“Os príncipes do António Lobo Antunes”?

Aqui há uns anos, o Arnaldo Saraiva, de quem eu gosto, apresentou um livro meu no Porto. Estavam lá vários soldados, furriéis, e ele disse: “Ele, que gosta de pessoas humildes...”. Eu fiquei furioso, disse-lhe: “Não são humildes, são príncipes! Não percebes que estes homens são príncipes?”. E são. Temos tendência a pensar que as pessoas humildes, modestas, ou que não têm aquilo a que chamamos cultura, não são capazes de uma delicadeza tão fidalga; e são. Como fomos educados numa sociedade estratificada, em que os vários níveis quase não comunicam, quase se percebe a origem de uma pessoa até pelo primeiro nome. Eram príncipes. De coragem. No fundo, a coragem é apenas uma forma de elegância. Quando o meu editor estava a morrer com um cancro (felizmente não morreu), viveu aquilo com imensa coragem. Eu disse à mulher: “O teu marido foi muito corajoso”. “Não, não foi corajoso, é um homem elegante.” Deu-me uma lição de vida. Ultimamente fico surpreendido: a maior parte das pessoas são melhores do que eu imaginava. Durante tantos anos fui injusto.

Por que é que esteve zangado com as pessoas durante anos?

Não era uma questão de zanga, era uma questão de um narcisismo idiota, da assunção de uma superioridade imaginária.

A sua superioridade baseava-se em quê? Esse fio narcísico passava por ser o “grande autor”?

Não era o autor de nada, era um miúdo. Baseava-se sobretudo em parvoíce, era um palerma. Estava convencido de que tinha nascido para grandes feitos, que não sabia bem quais eram. Para citar o seu querido Goethe (é um homem com aspectos que me agradam e outros que me repugnam): “a nossa única grandeza possível é não chegar. Não chegar nunca”. Não me apetece nada falar, acho que você percebe sem eu dizer as coisas.

Batota. Quer falar de quê então?

Não gosto de falar muito. Quero que justifique o dinheiro que lhe vão pagar. Acho que as perguntas acabam por ser redundantes.

Não se preocupe. Eu gostava de saber mais coisas.

Acho que já sabe.

Posso fazer perguntas idiotas para ver que reacções desconcertantes daí vêm.

Estou a ser completamente natural, como já viu. Pelo menos ainda não me perguntou se eu escrevo à mão ou no computador.

Já toda a gente sabe isso. Mesmo aqueles que nunca leram um livro seu, já viram uma fotografia dos seus manuscritos.

Não exagere. Não era capaz [de escrever no computador]. Eu não presto para nada, não tenho cartão multibanco, não tenho telemóvel. Deram-me um cartão, daqueles cartões de crédito especiais. Que não uso, porque não tenho a majestade do gesto. O meu irmão João tem razão quando diz que sou um noivo de província. Tenho alma de noivo de província, daquelas fotografias à la minuta. As coisas práticas da vida, não sei lidar com elas.

Gostava de perceber a relação de prazer, de descoberta, de espanto que mantem agora com a vida.

Não sei se mantenho: tenho, às vezes. Não sou muito expansivo para fora, e às vezes sou para dentro, mas é um bocado assustador.

Por que é que é assustador?

Porque uma pessoa fica vulnerável. Fica toda nua. Também acontece quando a gente olha para os outros. Olhar para ver. Faz-me impressão como é que as pessoas vivem tão mal.

Tão tristes ou tão miseravelmente?

Não depende da depressão. A depressão é quando você deixa de pensar e se deprime. Pensar com os sentidos. Quando comecei a dieta, tornei-me diferente. Implicou um sacrifício enorme, deixar as porcarias todas que gostava de comer. Quando estava a escrever a meio da noite e as coisas não me estavam a correr bem, mamava uma tablete de chocolate, inteira, bolachas e bolos.

Saboreava o chocolate ou anulava a frustração?

Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu.

Já me aconteceu ao ler um livro seu.

Mas são momentos raros, é uma alegria rara. Parece que é um anjo que está a fazer aquilo pela sua mão. Eu não sabia que sabia. Acontece com certas pessoas. Ontem, eram oito e meia, ainda era de dia e vinha um casal a descer a rua que eu estava a subir. E, caramba, a velhice é injusta, a decadência é injusta. Eles não mereciam ser aquilo. E depois, nessas caras, há de vez em quando um olhar, um gesto, e aparece a pessoa que elas são, que está escondida por baixo daquelas roupas, daquelas deformações dos ossos. O terrível não é ser velho, é envelhecer.

O que é envelhecer, é perder a ingenuidade?

A vida trata mal as pessoas. Agora tenho conhecido hospitais, tenho ido lá como doente. Olhamos para as pessoas e vemos o terror e a solidão, enormes, em todas as idades. Os médicos passam sem olhar. Quando era interno fazia a mesma coisa, passava com a bata por aquela gente que estava ali indefesa, à mercê. Quando eu era interno, na cirurgia, uma estagiária, de cada vez que aparecia uma pessoa com uma dor na barriga, abria para fazer currículo nos apêndices! Não sei se ainda se passa assim, não tenho nenhuma razão para pensar o contrário.

Quer dizer que estima cada vez mais a generosidade?

Eu não. A gente é que a vê cada vez mais à volta. As pessoas não são assim tão más. Os maus verdadeiros, puros, é raro encontrá-los.

E essa maldade corta.

Não sei. Às vezes entrelaçam as pernas nas nossas e ficamos muito espantados por não conseguirmos livrar-nos deles.

Porque é que começou a dieta?

Estava a desrespeitar-me demais. E apetecia-me voltar a ser bonito. É engraçado, agora vejo outra vez os olhos das mulheres na rua.

Olham para si porque sabem que é o António Lobo Antunes.

Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém me vê nunca nos sítios.

Está a posar.

Não. Estou a falar o mais sinceramente que há. Olhe para estes tipos da tasca onde costumo ir comer: eles não sabem quem eu sou, felizmente.

Porque é que procura o anonimato?

Sou uma pessoa anónima. Não tenho nenhuma importância colectiva. Faço uns livros que espero que daqui a 500 anos ainda dêem trabalho aos críticos. Já cá não estou para ver. Como os Jerónimos. Entre o Camões e o Vasco da Gama! Vivemos em função de eternidades, de maneira que não morremos nunca. Quando temos 20 anos vivemos em função de eternidades que nunca vão passar. O que é tremendo é ver um muro no fim da estrada. E para a maior parte das pessoas, o muro pode estar a uma distância de três metros, mas esses três metros não vão passar nunca. Olhe, a Maria Antonieta no cadafalso, a dizer para o carrasco: “Só mais um minuto”. Aquele minuto era eterno. Aquele minuto era uma vida inteira.

Sonha com a sua morte?

Não. Ultimamente, desde esse almoço, ando a sonhar com a guerra. É muito desagradável. Em regra, não me lembro dos sonhos. Tenho tanta coisa dentro de mim... Agora, acabei um livro e não tenho nada dentro de mim. Estou aqui pobre como um morto. Vou-me aborrecer durante dois ou três meses. E ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada. É um medo constante.

O que é que o entretêm quando não está a escrever? Quando está a escrever, isso justifica as horas.

Mesmo quando estou a escrever faço outras coisas. Claro que faço outras coisas, também vivo. Quando estou sem fazer nada, sinto-me culpado, são muitas horas. É como se me tivessem dado uma coisa que eu tinha que transmitir, e sinto-me infiel. Tenho tempo para ler, mas a maior parte dos livros aborrecem-me. Dão-me vontade de começar a corrigir. Sei lá o que é que faço mais... Olho para as coisas. Não tenho os passatempos que as outras pessoas têm, não jogo cartas, nunca fui à Internet.

Teme a solidão?

A solidão não me custa, nunca me custou. Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho. E gosto muito da minha família, tive muita sorte. Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira. Não sei se era fácil ou não lidar comigo. Ao contrário dos outros, não era bom aluno, não ia às aulas, tinha um comportamento transgressivo. Disse ao meu pai que queria trabalhar numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Já viu o que era ter aqueles livros todos para ler?

Ele sentiria vergonha de o filho escolher um caminho assim?

Ele disse-me: “Ah, se tu queres ser escritor, o melhor é tirares um curso técnico, talvez te ensine a pensar ou te discipline o estudo”. Tinha razão. Os primeiros anos do curso [de Medicina] não gostei porque era cadáver, cadáver, cadáver. Nos últimos, quando comecei a ver as pessoas que sofrem, aí sim, tornou-se apaixonante.

O sofrimento dos outros desperta a ternura, que é um sentimento essencial em si.

Às vezes sentia-me indignado. No estágio de pediatria, em que me puseram ao serviço de crianças com doenças terminais: porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto? Qual o sentido disto? A pessoa zanga-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo e um dos pés saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Às vezes penso que escrevo para este pé. Chamava-se José Francisco, nunca mais esqueci. Sensação de impotência, não podia fazer nada por ele. E era tão alegre.

Houve um tempo em que foi “tão alegre”?

Sempre fui mais ou menos assim como sou agora. É preciso estar com atenção, porque manifesto pouco. É por pudor. É terrível as pessoas que têm um coração debaixo de cada objecto.

Existe uma expressão inglesa que diz: “I don’t wear my heart in my sleeves” (não uso o coração nas mangas”). Está a dizer que ainda não conseguiu pôr fora o pudor?

Ai, espero mantê-lo. Não quero dar às pessoas aquilo que elas não querem. Como quando deixa de gostar de alguém e dorme na beirinha da cama na esperança de que não lhe toquem. Nunca lhe aconteceu?

Não, felizmente.

Há-de acontecer.

Espero que não.

Já sabia que ia dizer isso.

Não gosto de ser aos seus olhos tão previsível. É a segunda vez que diz isso.

Ou os amigos que telefonam a dizer: “Há que tempos que não te vejo, anda almoçar comigo”, e não lhe apetece nada. E não quer ser indelicada. Levamos a vida a ser abandonados. Todos guardamos dentro de nós uma criança triste. A maior parte das vidas não tomamos atenção a esta criança, com uma sede inextinguível de amor, de atenção. Em todos nós existe a vontade de que gostem de nós incondicionalmente.

Faltava o incondicionalmente.

Mas é. Sem condições, até ao fim. Faça a gente o que fizer. Temos sempre a sensação de que as pessoas que gostavam de nós assim já cá não estão, já morreram e não é verdade. Estão, nós é que não olhamos. Temos medo disso.

De ficar presos, reféns desse amor incondicional e absoluto?

Como é que hei-de explicar? Eu chegava ao hospital bem-disposto, dizia ao porteiro: “bom dia”, e ele dizia-me: “hoje vem bem-disposto”, furioso. As pessoas sentem-se insultadas, como se o outro não tivesse o direito. E como se tivéssemos medo de ofender os outros com a nossa felicidade. Uma pessoa apaixona-se. Os amigos vêm logo com conversas do género: “Só te digo isto por ser teu amigo, toma cuidado, olha que ela, olha que ele”.

No fundo, é só um: “Que inveja tenho de não viver esse milagre”.

As pessoas não suportam vê-la bem. Não suportam o sucesso, seja ele qual for. Não estava a pensar na fama, que não vale um traque. As coisas importantes não são essas.

Porque é que há um desfasamento entre a sua imagem pública e aquilo que realmente é?

As pessoas inventam. A gente não conhece, inventa.

As pessoas inventam que é arrogante, que é muito vaidoso, que tem mau feitio.

Nunca me viu com mau feitio. Não sei o que é que pensam.

Sabe, com certeza.

A mim não me dizem. Não me dizem isso.

Digo eu: diz-se que está reconciliado com a vida e com as pessoas e que agora lhes dá oportunidade e espaço.

Eu não disse que estava reconciliado.

Houve um tempo em que estava recluso, misantropo, não falava com ninguém.

As pessoas não se preocupam connosco. Há um pequeno grupo de pessoas que gosta de nós. Deve haver um pequeno grupo de pessoas que não gosta de nós. Para a maior parte das pessoas somos completamente indiferentes.

O que está a dizer é que mesmo aquelas que se interessam pelo Lobo Antunes-escritor, que admiram, não se interessam pelo seu íntimo reduto.

Eu não vejo as caras das pessoas que me lêem. Vejo na Feira do Livro ou no estrangeiro quando assino livros. É muito agradável ver as caras das pessoas, vê-las, existem. Há uns anos, um homem pousou o livro e disse-me: “Ponha aí o seu nome porque sou eu que lhe pago para você viver”. Tinha toda a razão: se ele não comprasse os livros, eu não podia viver deles.

Houve um tempo em que as pessoas achavam que era outro: inacessível, maldisposto, vaidoso.

Sabe, as pessoas são muito especiais. Foram dizer à minha mãe que o meu irmão João operava bêbedo. Ele nunca bebeu. Antes de conhecer uma pessoa oiço falar dela, e, ao conhecê-la, é diferente. E se hoje três pessoas falarem, fico com três pessoas diferentes. Normalmente não falam para dizer bem. O Oliveira Martins dizia do Costa Cabral: “Pelo ódio que lhe tinham se media o seu tamanho”. Mas não há nenhum motivo para me odiarem.

A inveja é um grande motivo.

A inveja é um sentimento que se auto-destrói. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E sofre cada vez mais com aquilo que ele imagina que são os sucessos do objecto de inveja. E mal eles sabem que a maior parte das vezes o objecto de inveja está cheio de dúvidas e tem muito mais incertezas do que ele acerca de si mesmo.

Quando era novo, não tinha dúvidas. Impressionou-me o que há pouco disse: que não se reconhecia nas fotografias.

Eu não olho muito para fotografias. Gosto de ver fotografias de pessoas bonitas. Tenho inveja das pessoas que são capazes de fazer coisas boas: de pintar bem, de tirar fotografias, de tocar piano, de dançar como o Fred Astair. Não gostava de dançar com o Fred Astair?

Gosto mais do Gene Kelly.

São diferentes, não se pode comparar. Há uns anos o Liberation fez um inquérito para ressuscitar o célebre “Pourquoi écrivez-vous?”. Eu disse aquilo que era verdade: porque não sei dançar como o Fred Astair. Como é que ele consegue?

Aquela leveza?

Mais do que isso. É dizer aquilo que não somos capazes de dizer. Lembra-se quando a Cyd Charisse tem um chapéu na ponta dos pés? Meu Deus, se conseguisse escrever assim! Ou escrever como os Impromptus do Schubert em que o silêncio é mantido até ao insuportável, depois vem uma nota salvá-lo. Toda a arte tende para isso: para o silêncio. Conseguir encher os livros de silêncios. O silêncio visível. E depois, se a Emily Brontë fosse viva, estava apaixonado por ela, queria conhecê-la e estar com ela. Uma mulher que tem aquilo tudo nas tripas...

A Jane Austen, gosta?

Gosto. Mas a Emily tem mais tempestade. Gosto daquele vento imenso que há dentro dela, daquelas árvores. Na Jane Austen tudo é mais sereno.

É extraordinário quando descobrimos que temos tempestades dentro de nós, e não o sabíamos.

Uma guerra civil permanente. Cheios de cães que se mordem, que lutam uns com os outros, que se matam. E agora? Tem aí as perguntinhas todas [na folha que tenho no colo]?

Quais perguntas? Isto são coisas que disse e escreveu e que eu recolhi. Disse uma coisa espantosa: “Toda a nossa vida é como escrever sem borracha”.

Não pode voltar atrás e apagar. É uma pena. Então não é? A quantidade de asneiras que fiz, a mim e a outros.

O que é que gostaria de poder refazer?

Acho que teria vivido tudo da mesma maneira. Não sei. Não faço a menor ideia.

Agora é a minha vez de dizer que esperava que dissesse isso.

Não tinha fugido quando a minha avó me dava a mão e eu ficava todo hirto. Me fazia festas nas mãos e eu via as mãos dela, tinha rugas. Ficava aflito.

Aflito porquê e hirto porquê?

Porque quando nos dão a mão de uma maneira desinteressada desconfiamos sempre. Achamos sempre que há alguma coisa por trás. Ela, coitada, o que é que podia querer de mim? Não tinha nada para lhe dar, era um miúdo.

Já me tinha ocorrido a palavra gratuito.

Para ela era sempre sentido, era amor. E eu talvez me assustasse de tanto amor. Ficamos desprevenidos em face disso. A generosidade não é muito frequente e o amor também não. Quando o meu avô me abraçava na rua e me dava beijos, eu pensava: “Vão pensar que somos um casal de maricas”, e esperava que aquilo acabasse o mais depressa possível. E agora tenho saudades loucas de quando me punha a mão no pescoço. Dizia “António” de uma maneira tão boa. Ou de quando telefonava para o meu pai e o meu pai tinha uma voz maravilhosa.

Como é que era?

Muito bonita, sensual, perturbadora. A minha mãe diz que nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Servia-se da voz para seduzir. Era feio e muito sedutor. Tinha qualquer coisa que agradava às mulheres, isso a que as pessoas chamam charme. É evanescente e indefinível. Não tem que ver com as feições nem com a maneira de ser. Certas pessoas têm e outras não. Até às netas fazia charme. Se houvesse cinco netas na sala, fazia charme a seis.

Sente muitas saudades dele?

Não. Nem sei o que sinto por ele. Alguma inveja porque era um homem que nunca se aborreceu e tinha uma grande capacidade de entusiasmo. É evidente que foi importante para mim. Escrevi uma crónica quando morreu que diz exactamente o que sinto por ele, e não mudou. A palavra amor não sei se é uma palavra que possa aplicar. Deixou-me muitas coisas escritas sobre ele. Fez-me impressão porque nunca tínhamos conversado. Na minha família não se falava das coisas íntimas. É tudo...

Tácito?

Sim, undersaid. O sofrimento..., era uma coisa de que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há. Ou então há e temos medo de lá pôr a cabeça. Ou que ponham a cabeça no nosso. [hesitação]

O que é ia dizer?

Parvoíces. Isso não pode aparecer nos jornais.

Porque?

Porque as pessoas têm direito aos livros, não têm direito a mim. Isto não parece uma entrevista, parece um namoro, é impublicável.

Está a tentar namorar comigo?

Não. Sei lá. Acho que não se tenta namorar, ou se namora ou não se namora.

Eu não entendo isto como um namoro.

As pessoas não são para se cercar como fortalezas sem víveres. São para se entrar lá dentro. Não é ficar à espera que morram à fome dentro da cidade. Quando estava a falar em namoro estava a falar em dizer coisas que normalmente não se dizem para os jornais.

Li algumas entrevistas, preparando-me para esta, e tenho ideia de que progressivamente se tem exposto mais.

Isto é uma exposição?

Na entrevista há momentos em que vai falando cada vez mais baixo, cada vez mais baixo; e existe uma coincidência entre o tom e a interioridade daquilo que vai dizendo.

Sempre falei baixo porque cresci num sítio em que se gritava muito. Não devo ter gritado mais do que três ou quatro vezes na vida.

O que é que foi tão grave que o fez gritar e perder a cabeça?

A vez em que me enfureci mais foi na guerra. Por causa de um oficial aconteceram coisas más. Eu pensava que a expressão “borrar-se de medo” fosse uma figura de retórica, e afinal é verdade. O espectáculo da cobardia física é horrível. Claro que tinha medo, tinha medo que me fartava. A certa altura deixei de ter medo de ter medo e as coisas passaram a correr melhor. Houve uma altura em que éramos bombardeados às onze da noite. Comia-se às cinco. Às seis era noite naquele sítio, perto do Equador. Até às onze, até começar a metralhadora a que a gente chamava a costureirinha, taque-taque-taque, era uma ansiedade muito grande. Depois era uma calma enorme. Esses momentos de espera eram terríveis. Acho que gritei essa vez, pouco mais. A pessoa, quando grita, fica feia. Os olhos desorbitam.

E fica-se cansado. Exaurido, mesmo.

É uma experiência que não tenho. Cresci num bairro pobre, portanto havia muita gritaria. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais. Esses ainda os oiço, esses gritos.

Essas mães queriam os filhos com fúria? Imagino que isso contrastasse com a sua experiência.

Na minha família também gritavam que se fartavam, do lado do meu pai; do lado da minha mãe, as pessoas eram mais calmas. Tenho uma memória mais ou menos vaga disso.

Se tem uma memória de elefante, como é que essa é vaga?

A minha memória é muito selectiva. Sei tantas coisas de cor, que tantas pessoas fizeram, e não sei de cor uma linha que tenha escrito. Quando acabo quero é esquecer o livro para poder começar outro.

Outra frase sua: “Inquieta-me o tempo que tenho à frente. [Sinto] uma angústia que tento preencher com trabalho”.

A gente não diz as coisas assim. As entrevistas são situações muito peculiares, artificiais. Há sempre uma tendência para posar de perfil, dar uma imagem boa ao jornalista e, através do jornalista, às pessoas que irão ver ou ler. É muito difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é. É uma representação constante. De parte a parte. E, por vezes, um jogo de poder. A arte da entrevista é muito difícil. Para haver uma boa entrevista a corrente tinha que passar entre as pessoas. Provavelmente, só ao fim de vários dias é que era possível. Até apanhar a pessoa demora muito tempo, porque ela esgueira-se e foge o tempo inteiro. Deve ser divertido estar no lugar do jornalista e ver o outro a espernear como uma lagartixa. E o entrevistado tenta dar a impressão de que não foge e tenta mostrar só aspectos agradáveis, ou que na ideia dele são agradáveis.

Queremos sempre que gostem de nós, no fim de contas.

Não sei bem se é gostar... Acaba por ser, mas é um tipo de gostar que é pouco importante.

Eu achei que íamos falar sobre inocência e medo.

Então fale.

Também falámos disso. Gosta de falar disso?

Se gosto? Não. Desde que começámos estou ansioso que isto acabe.

É assim tão desagradável?

É. Não é a vida. A Anabela a fazer o papel de jornalista e eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo.

Então acabámos.

Acho óptimo. 




Partes da entrevista foram publicadas nas revistas Espiral do Tempo e Selecções do Reader’s Digest, em 2006.


(Entrevista retirada de Anabela Mota Ribeiro)



segunda-feira, 3 de junho de 2024

Rui Caeiro - Sabem que mais?



SABEM QUE MAIS?

Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas
e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar
ou morrer: voar é que é muito mais improvável

Sou um homem de áridas certezas e uma esperança
a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas
paro escuto e olho antes de atravessar

com ela. E não lhe sei o nome. E não me preocupo


Rui Caeiro



Lido em de tanto bater o meu coração parou


Para saber um pouco sobre Rui Caeiro (Vila Viçosa, 1943 - Oeiras, 2019), veja-se o link do excelente blogue modo de usar & co. revista de poesia e outras textualidades conscientes, onde se podem-se ler mais versos dele.


Entrevista com Rui Caeiro em Jogos florais (Setembro 2018)



segunda-feira, 27 de março de 2023

Paulina Chiziane




A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo mas volta á superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada...


************


Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar: A vida é uma grande dança.

Paulina Chiziane

(Manjacaze, 1955)


"Os anjos de Deus são brancos até hoje", entrevista a Paulina Chiziane (Buala)




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Última entrevista a Alexandre O’Neill e Alfredo Barroso sobre O'Neill

 

 

Publicado no blogue O funcionário cansado (1.09.08):

"Está quase a fazer 23 anos, a 21 de Setembro de 1985, foi publicada no Expresso a última entrevista de Alexandre O’Neill, feita por Clara Ferreira Alves. Deixo-a aqui:"

E agora deixo eu aqui: Alexandre O'Neill: a última entrevista


Mais um artigo de Alfredo Barroso no Jornal i (14-03-2018):

"Se há poeta do século XX que tenha compreendido a “patriazinha” foi Alexandre O’Neill. Mas a “patriazinha” não gosta de se ver ao espelho"

Alexandre O’Neill, o grande poeta “esticalarica e caixadóculos”


terça-feira, 7 de maio de 2019

Entrevista a Dulce Maria Cardoso (DN, 17-08-2016)

Fotografia de Gustavo Bom / Global Imagens


Entrevista a Dulce Maria Cardoso realizada por Fernanda Câncio, e publicada no Diário de Notícias no dia 17 de agosto de 2016.


Dulce Maria Cardoso: "O que me fez pensar no que andamos aqui a fazer foi o olhar de um cão"

O passado é o sítio mais perigoso, diz a autora de O Retorno, que também por isso - e por causa do regime - nunca voltou a Angola. Conversa sobre quase tudo, do amor ao veganismo a deus. E à escrita, claro.


Comeu muitas cerejas neste ano?

Em maio fui convidada para ir ao festival da Gardunha e uma das coisas que me levaram a aceitar foram as cerejas. No ano passado, disseram-me, era toda a gente com cestas de cerejas. Mas este foi um ano mau, nem uma. Pensei: qualquer dia são mesmo mitológicas.

É a sua fruta mítica, por não haver em África. Quem lhe falou delas?

A minha irmã, cinco anos mais velha. Dizia que era uma coisa pequenina, redonda, muito docinha. E nos casamentos e batizados, quando queriam ser mesmo finos, arranjavam umas cerejas. Chegavam lá todas mirradas mas as pessoas olhavam para aquilo com um ar de maravilhamento. Já teria uns 8 anos quando finalmente comi uma. E achei aquilo terrível. Pensei: porque é que andam a falar disto? Quando cá cheguei comi e continuei sem achar piada. Tinha muitas saudades era das mangas, dos abacates, do abacaxi. Agora como os frutos todos. Sendo que se estiver doente ou mais triste procuro as comidas mais de lá. E há coisas que sinto... Por exemplo a primeira vez que fui ao Brasil e vi um homem a cortar um coco com uma catana. Sabia os gestos. Nunca mais tinha visto mas quando vi, eu sabia. E depois foi o sumo de caju. Também nunca mais tinha bebido, deram-me, estavam mais portugueses e ninguém identificou e eu disse: é caju. A memória dos sabores e dos gestos... Fica tudo marcado. Se tiver 100 anos bastar-me-á muito pouco para estar outra vez nas ruas cheias de terra vermelha e aquele calor e aquilo tudo...

Ruas onde nunca mais foi.

Nunca mais.

Porquê?

Ao princípio era por razões óbvias: era miúda, havia guerra, não tinha dinheiro, etc. Quis muitas vezes voltar, mais não seja que para confirmar. E uma das coisas piores é que não posso confirmar nada - dizer era aquela rua, era aquela escola, era assim. Perdeu-se para sempre. Mas quando comecei a publicar surgiram convites e tive de decidir. E aí pensei que eu, que critico tanto o regime angolano, não podia aceitar o convite desse mesmo regime. Não faz sentido aceitar para ir dizer mal das pessoas que te convidam.

Podia ir de férias.

Isso ainda não consegui achar que se justifica.

Tem medo?

Sim. O passado é um sítio muito perigoso. É talvez o sítio mais perigoso de todos. Não conheço sítio mais perigoso. Tem muitas armadilhas. E podes modificar o passado, que é uma coisa que não sabia até há pouco tempo. Refazê-lo. Podes ficcionar de tal maneira que o teu passado passa a ser outro. Aconteceu-me agora. À força de ter ficcionado a escrever O Retorno e de ser partilhado com tanta gente, o meu passado angolano já inclui aquela ficção. Mas também tenho muito pudor em visitar sítios onde se praticam coisas contra os direitos fundamentais. Muitas dúvidas sobre a fronteira entre ser cúmplice e ser testemunha. Ao ver os números assustadores de Angola - de mortalidade infantil, de assimetria social, de corrupção, etc., acho que conhecendo-me como me conheço não ia para o Mussulo [zona de praia perto de Luanda] banhar-me. Não teria prazer nisso. Se me sinto mal no Brasil, sinto-me mesmo mal, apesar de gostar muito da temperatura, da beleza... As babás, aquela coisa das fardas, dos carros de vidros fumados, das favelas, é tão agressivo que a não ser que tenhas umas palas gigantescas... Agora, há uma coisa: temos muita dificuldade em abrir mão do que nos sabe bem, do que nos dá conforto. E as pessoas têm a ingenuidade de pensar que não lhes vai chegar. E às vezes não chega, porque as vidas são curtas. Mas chegará aos filhos, aos netos. Porque a injustiça, a fome, as torturas que infligimos aos que têm menos poder... há uma altura em que a coisa muda. E é terrível. Como sucedeu com o nosso processo de independência. Há uma altura em que é tarde de mais. E em Angola não pode haver dúvida, por mais que a filha do presidente diga que começou a trabalhar muito cedo, ela não pode ter dúvida alguma de que os números da fortuna dela, num país em que a mortalidade infantil é o que é, são obscenos. Não pode haver dúvida sobre isso, não há anestesia nenhuma que te impeça de ver. Mas tens esse poder e não abres mão.

Custa abrir mão quando se tem o poder. Numa entrevista fala da invisibilidade dos negros cá: não se veem na TV, na rua. E fala da "não oportunidade" como a mais grave das discriminações, pior do que chamar preto. Como é que ainda estamos assim, tantos anos depois?

Não são muitos anos. São muitos mas não são muitos. Comparados com outros países são muito poucos. Há 40 e tal anos ainda estávamos, nós, mulheres, com autorização para sair do país. Isto evoluiu muito mas estávamos muitíssimo atrasados. Sou uma otimista, vivemos muito melhor agora. Mas há muito ainda para fazer.

Os EUA nos anos 1960 ainda tinham a segregação racial na lei.

Mas ainda hoje nos EUA há sítios de um racismo absoluto, o Sul... Em termos formais não, porque são muito vigiados. Há o problema de brutalidade policial... Não acho que o facto de haver um presidente negro queira dizer que a questão está resolvida. Sempre achei que não estava. E o fenómeno Trump veio dar-me razão.

Não está resolvida mas fala-se dela. Aqui nem se fala do assunto, como se o problema não existisse.

Mas existe, claro. Há quem diga que aquelas pessoas são invisíveis porque não querem ser visíveis. Mas então porque é que vivem em grupo, em sítios que são dos piores? Porque é que não vão os brancos para lá? Se é igual, não percebo. Mas no outro dia estive num debate sobre racismo na RTP com um negro a dizer que nunca sentiu racismo, nunca se sentiu discriminado.

Também há mulheres que dizem que nunca sentiram o machismo.

Pois. Muitas vezes as vítimas não querem ser vítimas. Sentem-se envergonhadas, que assumir ser vítima é passarem-se um atestado de menoridade. Uma coisa engraçada a propósito de machismo: dizem-me muitas vezes que os meus livros parecem escritos por homens. Que há uma maneira de pensar masculina. E isto tem a ver com o quê? Dizem que há crueza. A maneira como abordo o sexo, por exemplo.

Sim, pode ser muito crua, até cruel. Como em Os Meus Sentimentos, o seu segundo romance.

Mas a vida é cruel. Gostava de não ter matéria para que aquilo fosse tão cruel. Que não fosse assim.

No caso do Retorno, porém, deixou muito do horror fora do livro. Houve um amigo seu - o protagonista do livro é masculino por causa dele - cujo irmão foi morto, uma grávida violada e esventrada. Não usou nada disso.

Porque quando cozinhas, o mais é... Se tens todos os ingredientes à tua disposição e puseres as especiarias todas no prato fica intragável. Aquilo já é um pano histórico único. Os hotéis são a solução mais aberrante que podes imaginar para pôr as pessoas. Já era tão violenta aquela deslocação de meio milhão, se depois ainda puseres uma violada, um morto... Quis mostrar que a perda foi sobretudo afetiva. E que não havia lados. Não houve lados. Aquilo que os negros fizeram depois do 25 de Abril é perfeitamente natural. O decurso de acontecimentos era perfeitamente natural.

Natural no sentido de refluxo, de violência vai, violência vem?

Sim. Era tarde de mais. Fomos agressores e vítimas à vez.

Atribui o sucesso do livro também a não ser um ajuste de contas.

Há uma coisa que não se pode esquecer. Quando o escrevi não imaginava que o tema retornados ia tornar-se tão presente. O que eu tinha dos retornados era um estigma enorme. Fui ver uma casa para comprar em 2009, pouco antes de escrever o livro, e a dona disse: "Sabe, isto está em muito mau estado porque estiveram cá retornados." E eu disse "não, não sei". O estigma estava ainda muito presente. Por exemplo a minha irmã, que sofreu muito mais do que eu, por ser mais velha, só quando publiquei o livro é que pessoas que trabalham com ela há mais de 30 anos souberam que é retornada: nunca disse. A primeira coisa que ouvimos aqui, e ela desatou a chorar, foi "vocês estão todas furadas pelos pretos". Nem percebi o que era aquilo. E é bom lembrar que os brancos que foram para lá, tirando uma minoria, uma casta de fazendeiros, foram em busca de uma vida melhor para os filhos, como iam para França ou para outro lado qualquer.

Foi o caso dos seus pais?

Eles foram por uma história diferente. Porque o meu pai subscreveu a lista de Humberto Delgado e ficou sem direito de voto e zangou-se muito com isto. E porque a minha mãe fugiu com o meu pai... Sou filha de um grande amor. Ela fugiu com o meu pai aos 17 anos. Era filha de uns lavradores muito ricos, quase latifundiários de Trás-os-Montes. E o meu pai não tinha, como dizia o meu avô, onde pendurar a panela. Era um pobretanas.

Como se conheceram?

Era empregado do meu avô. E 11 anos mais velho. Já tinha deixado duas noivas no altar, tinha esse lado doidivanas. E a primeira frase que trocaram - contavam a história à vez - foi o meu pai a pedir-lhe uma faca. A minha mãe tinha ido levar a comida aos trabalhadores. Foi amor à primeira vista. Depois namoraram por cartas, daquelas de pôr debaixo da soleira... Ele pediu a minha mãe em namoro e o meu avô pegou numa caçadeira e disse que o matava. Andaram anos escondidos até que o meu avô arranjou casamento à minha mãe com outro lavador e ela resolveu fugir com o meu pai para a aldeia dele. Um escândalo...

O seu avô não foi buscá-la?

Não, então já estava desonrada. Ela foi de uma coragem... Viveu amancebada muitos anos, porque só se podia casar aos 21, antes disso só com autorização dos pais e o meu avô não deu. Só quando a minha irmã nasceu, para não ser bastarda, o meu avô foi à conservatória dar autorização. E não se viram.

Conheceu esse avô?

Sim. Quando voltei. Não sei se é por isso que gosto de criar personagens, mas consigo sempre compreender. Na estrutura dele aquilo não fazia sentido nenhum. Ele próprio se tinha casado com um arranjo, com a não sei quantas das terras para juntar, era a lógica. Porque é que a minha mãe queria fugir por estar apaixonada? Que era isso de estar apaixonada? Pensava que aquilo era uma paixoneta que passava...

Não tinha lido Shakespeare.

Não, não tinha. Nem os meus pais, que ao princípio nem romantizavam muito isso, era só um facto da vida deles. A minha mãe aliás tinha muita vergonha, medo de nós repetirmos. Já o meu pai, e estou-lhe muito grata, o primeiro conselho que nos deu foi "vocês têm de estudar para não dependerem de ninguém". Isto num homem nascido em 1929 em Trás-os-Montes, de uma família muito remediada, que tinha só a 4.ª classe. E quando viemos para cá, não considerou ficar nem um dia em Trás-os-Montes, porque tinha de ficar em Lisboa para irmos para a universidade. Podíamos não ter pão, não ter roupas, nada - escola connosco.

E lá foi estudar Direito. Porquê ?

Porque já queria ser escritora. E não havendo um curso de escritora percebi que quanto mais me afastasse da literatura... Porque não quis ter uma abordagem técnica, isso eu sabia. Ainda fui advogada três ou quatro anos. E gostava. Podes ser várias pessoas ao mesmo tempo.

Decidiu ser escritora quando, como?

Por causa de Trás-os-Montes. Porque os meus pais, como era a mais nova, tiveram a brilhante ideia, quando chegámos, de me mandarem para casa desses avós que não conhecia. O meu pai ainda não tinha chegado, a minha mãe estava com a minha irmã num hotel, havia pouco dinheiro... E achavam que era para me proteger, que eu tinha mais capacidade de adaptação. Mas foi um erro. Enorme, irreparável.

Deve ter sido brutal.

Foi inimaginável. E em 1975, sozinha. Foi um choque. Frio, as pessoas todas de preto, a viverem com os animais... A palha, o vento. A realidade tornou-se insuportável. Depois não tinha nem pais, nem amigos, nem ninguém. Só tinha aqueles avós que ainda por cima, como a vida nunca faz sentido, estavam doentes os dois. Portanto era feios, porcos e maus no seu esplendor. E eu a filha da filha fugida. Foi tal o choque que eu, que toda a gente dizia que ia ser enorme, não cresci mais. E descobri que era branca. Porque eu era morena e de repente comecei a ver-me branca branca. Ainda fico muito morena quando apanho sol. Mas não sabia que era branca. Não sabia a minha cor.

E começa a escrever lá?

Não. Passei pela fase de chorar todos os dias e depois pensei assim: tenho de tornar a vida melhor. E então comecei a inventar histórias como as de Os Cinco. O meu quotidiano deixava de ser tão violento, porque inventava que um tinha escondido um tesouro na fonte, que havia um crime...

Escrevia-as?

Não, era tudo de cabeça. Tinha um mundo, que se calhar já tinha em Luanda mas não dei conta dele, completamente paralelo, onde acontece quase tudo e é tudo possível. E depois percebi, ao ler outra vez Os Cinco, que era assim que se construíam as histórias. Então quando cheguei cá abaixo à escola (estive lá em cima sete meses e praticamente não havia escola, havia uma carrinha e a telescola) uma das primeiras perguntas que fiz à professora foi qual era o curso para ser escritora. E a professora, lembro-me perfeitamente, com aquele ar bovino, disse "acho que não há curso nenhum. Pode ser qualquer um, ou até nenhum". Fiquei desorientada: então tudo, médico, engenheiro, advogado, tinha curso e a minha vocação tão grande não? Até que vejo num filme um escritor a escrever à máquina. E pensei: é isto. E então comecei uma guerra que me durou um ano e tal com o meu pai para me pagar um curso para aprender a escrever à máquina com os dedos todos. Insisti, insisti e o meu pai caiu no erro de me dizer que se a dona da escola me fizesse um desconto ele pagava. Fui à escola, com muita lata, explicar que precisava de um curso de datilografia e o meu pai não tinha dinheiro. A senhora, que não devia ter muitos alunos e deve ter achado graça, anuiu. Passei o meu verão dos 14 anos, em vez de estar na praia como os outros miúdos todos - morávamos em Cascais -, na escola de datilografia a aprender o meu futuro. E as senhoras muito mais velhas, a estudar para secretárias, perguntavam: que estás aqui a fazer? E eu: quero ser escritora. Toda a gente se ria, mas nem com toda a gente a rir achava que aquilo podia ser ridículo. Só depois percebi que mesmo assim não sabia escrever livros. E foi então que tive a brilhante ideia de ir à biblioteca aprender. Achei que se lesse alguns possivelmente apanhava o jeito. Cheguei lá e vi tantos livros, tantos livros que disse "agora como é que escolho". Ainda por cima não tinha de ser um livro de que gostasse, tinha de ser um que me ensinasse a ser escritora. Estava um grupo de senhoras, possivelmente empregadas da limpeza, a comentar um livro e a chorar e tal. E quem era a escritora? A Corín Tellado, a de cordel. Achei que era a melhor do mundo, porque era a mais requisitada. E comecei a copiar a Corín Tellado.

Copiar?

Punha lá uns pormenores da minha vida, se estava arremelgada por um rapazito punha o nome do rapazito, mudava umas coisas, mas era uma cópia. Durante muito tempo andei a copiar aquelas exclamações, "Meu deus, o que estás aqui a fazer?", todas aquelas coisas muito enfáticas. Mas como era muito pequeno e com letras muito grandes copiava num instante. E então para poupar idas à biblioteca decidi escolher um mais grosso. Quis o acaso que trouxesse para casa o Dostoiévski. O primeiro que li foi Os Demónios. E inquietou-me imenso, aquele vício e aquela realidade que não conhecia. Cheguei a isto de uma forma tão ingénua, à literatura, que quando a senhora da biblioteca me perguntou se gostava dos russos, achei que era dos bolos [ri]. E pensei: como é que ela sabe que gosto muito de russos? Nem sabia que estava a ler um russo. E a senhora resolveu dar-me franceses. Deu-me o Flaubert.

A Bovary.

Sim. E além de começar a vigiar a minha mãe e as vizinhas, porque aquilo abriu-me um mundo - antes achava que namoros eram coisas de solteiras, não me passava pela cabeça que as casadas pudessem andar naquilo -, acho que me definiu também afetivamente.

Como?

Acho que aquela humilhação da Emma me impressionou tanto que há um limite nas relações amorosas que não consigo passar. Ninguém pode pedir a outro que o ame. Nem podes ficar à espera de que te amem. Por muito que tu gostes. Não se pode. E acho que se não tivesse lido aquele livro naquela altura, e não me tivesse impressionado tanto, seguiria mais esse caminho. Há aqui um pé sempre. E situo-o no livro. Se calhar era igualzinha sem o ter lido. Mas a primeira vez que marquei um encontro e o rapazinho não compareceu a primeira coisa em que pensei foi na Emma. Mas lia tudo, nessa altura. O Crime e Castigo, tudo. E não percebia nada.

Há quem ache que Crime e Castigo é sobre o encontro com deus. Escreveu sobre si numa biografia: "tem fé". Que fé?

Eu tenho fé, tenho fé. Mas uma vez numa entrevista escreveram que tenho fé em deus, no sentido católico. Não é isso. Tenho uma educação católica, os meus pais eram católicos, iam à missa ao domingo. Mas dificilmente teria essa fé. Porque a missa é extremamente desagradável, os padres a maioria das coisas que dizem são injustas e iníquas, e sendo uma pessoa tão crítica dificilmente me abeiraria sequer. Tudo isso que é ritual não gosto. E da igreja católica discordo de quase tudo. Mas fiz catequese e até fui catequista. Num bairro de exclusão, o das Marianas, a ensinar crianças a ler.

Aí acreditava no deus católico?

Acreditava no deus em que acredito agora. Que não somos o topo da hierarquia, que somos criatura, e que há uma ideia de bem que me é exterior. A minha ideia de deus é essa. É uma construção minha, que tentei replicar no Retorno. Ele faz esse jogo: se existes, prova que existes. E faz um acordo: o pai vai voltar; se não voltar até ao dia da independência morreu. O pai não volta e ele prefere matar o pai do que matar a ideia do parceiro com quem fez o acordo. Foi mais ou menos o que me sucedeu quando tive um grande acidente aos 15 anos.

Que acidente?

Foi uma parede que me caiu em cima e me partiu toda. Estive muito tempo no hospital e fiquei muito incapacitada. E isso tornou-me uma outra pessoa. É como se tivesse duas vidas. Várias vidas até. Uma vida muito cortada às fatias. E estávamos em 1980, tinha 15 anos, estava a habituar-me aos poucos a estar cá e fiquei toda desfigurada.

Não ficaram marcas visíveis disso. E como é a relação com esse deus? Fala com ele?

Não, não, é só saber que existe. É uma coisa que existe e impõe limites. Porque sendo uma pessoa medianamente inteligente se não acreditasse em deus acho que era a maior criminosa deste mundo.

Há a ideia de um castigo?

Não, não é pelo castigo. É por aspirar a essa coisa. Por me sentir compelida a chegar o mais perto possível. O meu objetivo na vida é causar o menos de sofrimento possível.

Por isso é vegan: não come qualquer produto de origem animal. Quando é que decidiu isso?

De um dia para o outro. A minha vida é sempre assim, antes e depois. E foi uma coisa que até podia ser literária. O olhar de um cão. O que me fez pensar no que andamos aqui a fazer foi o olhar de um cão. Era um cão abandonado que os meus pais recolheram e trataram, e a certa altura o veterinário disse que era impossível. Decidiu-se eutanasiá-lo. E eu, claro, não queria ir. O cão não me era muito próximo, tenho uma memória que nunca mais apaga e sabia que ia ficar com aquilo. Mas por qualquer motivo começou a encostar-se a mim e decidi que ia com ele até ao veterinário e depois não assistia. Mas lá, pior, pôs a cabeça sobre o meu colo, de forma impositiva. Tentaram tirá-lo e ele insistia. E eu disse: fico. Foi muito pacífico, muito belo mas naquele momento entre levar a injeção e morrer ele inclinou a cabeça para mim, com um olhar... O olhar dos cães é muito expressivo, mas era um olhar inquietante. E eu, durante um ano, dois, fiquei com o olhar do cão. Intrigou-me. E um dia estava naquelas minhas defesas - das mulheres, dos negros, dos ciganos, de todos os excluídos - e percebi: "Há aqui um grupo enorme de desprotegidos que nem sequer considero, que são os outros animais." E de repente o olhar do cão fez-me sentido. Como se um ser não falante me dissesse: nós existimos, estamos aqui. E percebi, que por mais que adorasse a carne assada da minha mãe, por mais que adorasse queijo...

Mas é um esforço, ser vegan.

Não é difícil, difícil é ser animal. E a minha vida está cada vez mais facilitada, já há tofu no Pingo Doce. Há 12 ou 13 anos não havia. Já não sou uma lunática, pertenço a um grupo identificado. Mas é muito agressivo socialmente. Porque quando dizes que não comes determinadas coisas por razões éticas está implícito que os outros são trogloditas. Não sei como dizer de outra maneira [ri]. Portanto digo "é uma decisão, é pessoal..." Sou extremamente tolerante, toda a minha família come carne.

Mas que sente quando vê comerem carne ao seu lado?

Que não há prazer que justifique. Aquilo não é um pedaço de carne, é um pedaço de sofrimento que ali está cristalizado. A carne é um vício. E o queijo. Tudo isso são vícios. Agora, foi a decisão da minha vida que me fez mais feliz. Porque de tudo aquilo de que falámos - exclusão, etc. - não podes fazer mais nada a não ser denúncia ou evitar determinados comportamentos. Em termos gerais não podes fazer nada. Nisto podes fazer uma diferença: podes dizer "não consumo". E é eficaz. Dá-te um poder. Além de achar que de facto é a revolução que está por fazer.

Voltando à escrita: quando começa a escrever coisas suas?

Muito tarde. Na faculdade ainda copiava. Tive a minha fase do realismo mágico, a fase do surrealismo francês [ri]. Ia evoluindo. Depois comecei a escrever. Mas como lia muito, quando lês muito tudo o que fazes é bastante desinteressante.

Hoje consegue viver da escrita?

Viver da escrita é muito relativo. Se for só com os livros, não. Mas consegues viver de atividades conexas, como eles dizem. Conferências, bolsas, residências. E algumas vendas lá para fora, também. Mas infelizmente é tudo no estrangeiro. Somos um país pequeno, somos poucos. Claro, se tivesse decidido ser advogada, ou ter filhos, teria uma vida completamente diferente. Por isso é que na autobiografia digo que há muitos anos matei uma mulher.

Tem essa vertigem de olhar para trás, pensar nas pessoas diferentes que podia ter sido?

Tenho. Acho que me tornei adulta quando percebi que já não teria tempo para ser tudo o que queria ser, que tinha de me focar, ser só uma coisa. Quando percebi que isto era finito, que íamos morrer. Mas tenho muito esse problema da escolha. Que é como se escolhe com a mínima margem de erro. Porque para o passado todos sabemos escolher - que era evidente que era mesmo para ali.

Ou que não era. Pode-se até achar que se errou tudo.

Nos momentos em que penso que errei quase tudo também julgo que acertei muito. E espero. É a espera: quando estou muito feliz nunca fico muito feliz porque penso sempre que vai acabar, não vai durar, não vai ser assim para sempre. Quando estou muito triste também não fico muito triste porque penso: isto não vai durar. Como é o ditado?

Nem há bem que sempre dure nem mal... Diz que a escrita é uma forma de chegar aos outros. E que o "a grande batalha deste ofício de estarmos vivos é a batalha contra a solidão".

Acho que existimos para ser amados. E a minha maneira de ser amada - que eu acho mais eficaz de chegar a que me amem - é através da escrita. No outro dia estava a dizer isso e disseram-me: os livros que escreves são tão violentos, quem é que vai amar-te?[ri] Teve graça essa conversa, eu muito lírica e o interlocutor muito bruto. Mas acho que os meus livros são redentores. Admito que são violentos...

Os Meus Sentimentos, redentor?

Não é que acabe bem, mas há um esforço do bem. Tanto que nos capítulos há um caminho pelas trevas e um caminho pela luz. E aquele fim luminoso na estalagem é uma coisa de paz, não é uma coisa de tristeza. Ainda que as pessoas achem que é a morte. Mas para mim a Violeta não morreu. E há sempre a ideia de que o bem é possível. Isso basta-me como redenção. O que não é possível é modificarmos o que já passou. E aborrece-me cada vez mais a crítica constante ao passado por quem não o viveu: como é que é possível os nazis, como é que é possível não sei quê. É possível porque não são marcianos. E continua a ser possível, não percebo o espanto.

As pessoas gostam de crer que fariam diferente.

Pois, a questão é essa: quando tens de agir. O passado permite-te só criticar, porque não tens responsabilidade nenhuma. É nesse sentido que falo na redenção: o de ter presente que pode ser diferente. Pode parecer lírico, mas é muito sincero: o objetivo da minha vida é mesmo causar o mínimo de sofrimento possível. E não é só na questão dos animais. Mas isso implica uma atenção chata, um desprazer. E por muito que chateie a minha vida e a dos que estão comigo, agradeço não ter essa indiferença. Porque é acima de tudo a indiferença que permitiu todos os crimes com os quais toda a gente se indigna. É o "estamos aqui na nossa vida, temos a nossa casinha, o pãozinho, olha os comboios a passar, que é que levam lá dentro...."

Olha os barcos a naufragar.

Exatamente. Olha, há uns que se afogaram, pois é, coitadinhos, vamos lá para a nossa sopinha. Não podes escolher a indiferença. Dizer "vou ver isto e não vou ver aquilo". Ou vês ou não vês.

A expressão "os meus sentimentos" diz esse dilema e essa ironia.

Sim. E é só da língua portuguesa. Não podes fazer esse trocadilho em mais nenhuma língua. Por exemplo os italianos puseram "as condolências", Holanda, França e Colômbia o nome da Violeta. Fui muito aconselhada a não usar a expressão porque parecia diário de menina parva. Mas acho que calha bem ao livro. Que me deu um trabalhão... Porque não tem condicionais, não tem presentes, não tem futuros. Excluí não sei quantos tempos verbais. E determinou o meu método criativo, que é o mais maluco. Porque o perdi.

Então?

Foi em 2004, para aí. Recebi um e-mail com um palhaço e cliquei no nariz. No dia seguinte tinha o computador todo preto. Chamei um técnico, ele disse que era impossível, e eu, que ainda era casada na altura, disse ao meu marido: ou esqueço isto, esqueço a Violeta de vez, ou reescrevo de memória, enquanto está fresco. Porque nunca mais vou ser capaz de estar aos bocadinhos a escrever a Violeta, porque agora já sei tudo, passei anos com este livro. Como com o que estou a escrever agora. E como vivia com alguém conseguia ter as coisas todas asseguradas e fechei-me a escrever durante um mês.

Como se fosse uma história que viveu e a rememorasse.

Exatamente. E depois pensei: gosto mais disto assim. Porque toda a palha de que não me consigo livrar, as metáforas pirosas, quando estás a escrever de memória esqueces, porque não é importante. E agora faço sempre isso: apago tudo. Já tentei não o fazer, mas não fica bem. É horrível, mas assim só fica o que me parece essencial.


Entrevista de Fernanda Câncio


(Diário de Notícias, 17 Agosto 2016)



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Entrevista a Dulce Maria Cardoso (Público, 17-09-2015)

Fotografia de Enric Vives-Rubio


Entrevista a Dulce Maria Cardoso realizada por Kathleen Gomes, e publicada no diário Público, Cultura - Ípsilon no dia 17 de setembro de 2015.


"Há retornados que acham que sou uma traidora"

O romance de Dulce Maria Cardoso sobre a chegada dos retornados a Portugal não pára de ser reeditado. Era de esperar que esse sucesso editorial se devesse sobretudo a quem passou pela experiência descrita em O Retorno. Mas muitos retornados nem conhecem o livro.


Dulce Maria Cardoso não consegue estar muito tempo ao sol. A pele é tão clara que ela parece alguém que precisa de ser salva. Perdeu “a cor toda” há 40 anos quando veio de Angola, rapidamente e em força. “Era muito morena, estava sempre ao sol. Quando cá cheguei fiquei branca. Sou muito branca, que era uma coisa que desconhecia acerca de mim.”

Aconteceu-lhe outra coisa quando chegou a Portugal. “Toda a gente dizia que eu ia ser enorme. Cheguei cá e nunca mais cresci”, ri-se. “Fiquei convencida durante muito tempo que foi o frio da metrópole que me impediu a ascensão. Fez aquela coisa que acontece aos bolos quando saem do forno.”

Sem o frio da metrópole, e sem toda essa experiência de ser levada pelos acontecimentos como uma enxurrada, talvez não se tivesse tornado escritora. “Tinha 11 anos. Fui a minha primeira personagem. Achei sempre: vou contar isto, vou contar isto.”

Publicado há quatro anos, O Retorno tornou-se “um pequeno monstro”, diz a autora, como se o êxito editorial ainda hoje a surpreendesse. O romance vai na nona edição. “É um livro que estamos sempre a vender e a reimprimir”, diz Bárbara Bulhosa, editora da Tinta-da-China, que publicou O Retorno. “É um daqueles livros que vai ficar. Tornou-se um bocado obrigatório.”

Não era previsível. A literatura sobre o tema – o retorno dos colonos a Portugal durante um processo de descolonização mais improvisado do que preparado – era praticamente inexistente. “Porque é que há tão pouco material escrito sobre estes retornados? Foram meio milhão de pessoas, com os seus descendentes todos, uma coisa que foi certamente traumática para a maior parte”, diz Dulce Maria Cardoso. “Meio milhão é muita gente para um país desta dimensão. Toda a gente lidou com retornados. Quanto mais não seja, ouviu falar. Achei que era um tema que não tinha interesse nenhum, já que ninguém tratava dele.”

O livro foi editado pela Tinta-da-China, que até então nunca tinha publicado ficção. “Era mais do que normal a coisa não correr bem.”

Há um antes e um depois de O Retorno no percurso literário de Dulce Maria Cardoso. Apesar do reconhecimento crítico, apesar dos prémios, apesar da sua inclusão em antologias estrangeiras, antes do quarto romance não era uma escritora muito lida. Antes, não era abordada no supermercado. “Desculpe estar a olhar tanto para si, mas gostei muito do seu livro.” Isto passou-se num Pingo Doce.

“Os retornados tinham sido muito mal recebidos [em Portugal]. Ser retornado era um estigma. Nunca imaginei que o estigma, de repente, pudesse passar a ser uma mais-valia”, diz Dulce Maria Cardoso.

O passa-palavra foi determinante para o êxito de O Retorno. “As pessoas gostaram muito e depois ofereceram o livro. No outro dia, conheci um leitor que me disse: ‘Gostei muito, mas já recebi três. Chega.’”

Seria de esperar que a popularidade se devesse sobretudo a quem passou pela experiência descrita no livro – uma ficção inspirada na história pessoal de Dulce Maria Cardoso, mas que de maneira nenhuma se reduz a ela – e se reconheceu (“a questão da solidão: alguém viveu o mesmo que eu”).

A realidade é mais complexa. “Acho que o livro fez muita diferença para as pessoas que não sabiam o que se tinha passado. Pessoas que têm agora 30 anos, que não eram vivas no 25 de Abril, ficaram muito agradecidas. Tenho recebido muitas mensagens”, diz a autora.

Existe um outro grupo de leitores, “não muito grande”, como a mulher, uma retornada, que comprou três exemplares do livro para oferecer aos filhos. “Ela disse-me: ‘Nunca consegui explicar aos meus filhos o que eu passei e este livro diz exactamente como foi, portanto quero oferecer um a cada um.’ Como uma espécie de herança. Isso comoveu-me”, conta Dulce. O Retorno permitiu a algumas pessoas, filhos de retornados, compreenderem a raiva dos pais. Reacções que chegaram à autora: “Percebi finalmente por que é que o meu pai era tão amargo.” Ou: “Agora percebo porque é que a minha mãe detestava tanto a metrópole.”

“Fico contente por o livro ter apaziguado pessoas”, diz Dulce Maria Cardoso.

Nem sempre. “Há retornados que acham que sou uma traidora. Porque eu ponho os dois lados. E eles não têm dois lados. No livro somos todos bons e maus à vez. Para eles, não: havia os maus e os bons.”

Muitos retornados nem sequer leram ou conhecem o livro. Bárbara Bulhosa, editora de O Retorno, conta que uma amiga lhe disse que a mãe “não pode ler este livro” porque seria demasiado doloroso.

“Essas pessoas perderam uma coisa, um modo de viver, querem é tentar resgatar esse modo de viver”, diz Dulce Maria Cardoso. “Eu não quero resgatar esse modo de vida, felizmente ou infelizmente já sei que é impossível o resgate. O colonialismo não devia ter existido, nada daquilo devia ter acontecido. Mas essas pessoas continuam a querer aquilo. Acham que era possível ter-se resolvido de outra maneira. Não são más pessoas, são só pessoas postas em circunstâncias… É o que eu digo: se eu tivesse sido alemã na década de 30 e 40 possivelmente era nazi. A maioria era, porque é que eu não seria?”

Não se pode ter nostalgia de África sem a nostalgia do império ou do colonialismo?

“Não. Aquela era a realidade onde foram mais felizes e mais prósperos. Investiram muito. Também foram vítimas. Quando Salazar disse ‘para Angola, rapidamente e em força', estas pessoas foram e trabalharam muito, construíram muito. Sentiram-se muito lesadas depois. Compreendo a raiva, compreendo o desespero, compreendo isso tudo. Por isso é que foi tão difícil escrever O Retorno. Ainda por cima sendo eu filha dessas pessoas, que perderam tudo de um momento para o outro.”

Dulce não fez pesquisa para o livro, não procurou outros retornados, nem sequer falou com a sua própria família. “Sou a mais nova da família, mas sou eu quem se lembra de mais coisas. A minha irmã, durante 20 anos ou mais, negou que era retornada. Por isso é normal que não se lembre, que tenha apagado tudo. A minha mãe lembra-se de ter perdido tudo mas também não se lembra de mais nada.” O pai já não era vivo quando escreveu O Retorno. “Eu era muito miúda, tinha uma idade que me permitia decorar sem julgar. Portanto, pude congelar tudo.”

Foi só depois de publicar O Retorno que soube da existência de grupos de retornados, comunidades revivalistas forjadas no Facebook, onde partilham fotografias e memórias pessoais. Dulce chegou a frequentar encontros de confraternização de alguns grupos, eventos com a duração de um dia inteiro, incluindo almoço, jantar, baile, desfile de trajes com panos africanos. Em 200 pessoas, quatro ou cinco saberão da existência de O Retorno. Durante um período, Dulce Maria Cardoso pensou fazer um livro baseado nas memórias dessas pessoas. “Depois desisti desse projecto porque comecei a ficar muito farta do tema. Por outro lado, não tinha testemunhos que pudessem fazer uma grande diferença. Dizem quase todos a mesma coisa: Que a vida era maravilhosa lá. Falam ainda como se estivessem lá. Sem perceber que estava tudo errado desde o início. Conversas absolutamente colonialistas, racistas. ‘Ficaram lá com aquilo e estragaram tudo, nunca souberam fazer nada’. Quando me perguntam se havia racismo em Luanda, eu digo: ‘Mas se há racismo em 2015 em Lisboa, como é que em 1975 não havia?’”

Passados 40 anos, é comum falar-se do retorno como um processo positivo, elogiando a capacidade do país para integrar meio milhão de pessoas de um dia para o outro. “Depende do que estamos a comparar”, sublinha a escritora. “Não houve mortos nem sangue, ou poucos houve, porque os que se suicidaram e os que enlouqueceram não fazem parte dos números. Desse ponto de vista, foi pacífico. Agora, sermos bem recebidos no sentido de haver igualdade de oportunidades, de haver curiosidade em relação ao outro? Isso não houve, de todo”, diz.

Os retornados foram recebidos com desconfiança e hostilidade. “Houve retornados que se integraram muito silenciosamente e sem problema algum. O estigma não era tanto ser retornado. O estigma era a pobreza. Os que vieram sem nada. Havia em Cascais uma família de retornados que tinha uma grande vivenda no bairro do Rosário, que faziam festas ao fim-de-semana com merengues. E eram exóticos. Eram maravilhosos. Porquê? Porque tinham bastante dinheiro. Faziam festas enormes. Eram altos, morenos. As raparigas andavam sempre de fato de banho a passear-se ao pé da piscina. Fumavam. Toda a gente queria ser amiga daqueles retornados. Os retornados de que eu falo e o estigma associado são os retornados dos hotéis, das filas da Caritas, das filas da Cruz Vermelha. Os retornados foram meio milhão ou mais, mas foram realidades diversas. Houve funcionários públicos que até ficaram numa situação melhor cá. A única coisa era: não tinham o clima, não tinham as lagostas, não tinham o pôr-do-sol de lá, aquelas coisas que eles inventam e que também não são verdade. Havia imensas enxurradas, havia imensa lama.”

Quando foi para a escola em Portugal, Dulce Maria Cardoso foi colocada numa fila à parte, juntamente com outras crianças que tinham vindo das ex-colónias, que supostamente tinham problemas de aprendizagem. “Durante um ano lectivo inteiro, houve uma professora de matemática que nunca chamou um de nós pelo nome. Passou o ano todo a dizer: ‘Um dos retornados que responda.’”

Lembra-se de ter sido convidada pela primeira vez para uma festa de aniversário três anos depois de chegar a Portugal. “Havia festas constantes. Eu nunca ia. E não era porque não quisesse. Não era porque não fosse afável. Eu era muito afável e muito sorridente. Era muito boa aluna. Era muito concorrida para os trabalhos de grupo, por exemplo. Mas continuava a não ir às festas. Isso diz muito sobre a integração.”

Se a integração foi um “sucesso”, isso “partiu da vontade dos retornados”, defende. “Acho que houve uma decisão do género: ‘Nós temos de viver cá e somos menos.’” Ao contrário das matrículas de automóveis portuguesas, com duas letras, as matrículas das ex-colónias continham três letras.

“Quando passávamos, os carros com as três letras, buzinávamos uns aos outros. ‘Estamos aqui, estamos aqui…’ Era um sinal de reconhecimento. Depois deixámos. E depois as conversas já não eram no sentido de ‘eles’ e ‘nós’. Até porque os retornados queriam montar negócios e sabiam que tinham de contar com os consumidores de cá.”

Não é um discurso de vitimização. “Se daqui a 20 ou daqui a 40 anos uma ucraniana escrever um livro sobre como foi difícil a integração em Portugal, eu sou uma da metrópole. Não conheço nenhuma ucraniana. As únicas que conheço são empregadas de amigas. Não tenho uma amiga que tenha uma amiga ucraniana. Mas eles existem, estão cá, têm negócios.”

Uma sociedade que se recusa a olhar criticamente para o passado – e que ainda não passou da infância dessa discussão – está condenada a perpetuar os erros. Ao fim de 40 anos, começa a deixar de haver atenuantes. “Qualquer dia temos tantos anos de democracia como de ditadura. E o mundo mudou muito.”


Entrevista de Kathleen Gomes (Público, 17-09-2015)




domingo, 5 de maio de 2019

De uma entrevista com Clarice Lispector


[De uma entrevista dada por Clarice Lispector à Marisa Raja Gabaglia]

-Você tem paz, Clarice?

-Nem pai nem mãe.

-Eu disse “paz”.

-Que estranho, pensei que tivesse dito “pais”. Estava pensando em minha mãe alguns segundos antes. Pensei - mamãe - e então não ouvi mais nada. Paz? Quem é que tem?



(Fonte: Pensador)



quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"Há o risco de se perder a língua portuguesa em Cabo Verde" (Germano Almeida)




"Há o risco de se perder a língua portuguesa em Cabo Verde"

"Eu quero contribuir para as pessoas tomarem consciência que a lingua portuguesa é tanto vossa como nossa. Temos de assumir como património nosso que temos de valorizar e de vender".

Germano Almeida, escritor cabo-verdiano galardoado com o Prémio Camões este ano, cresceu numa casa onde o pai falava em português e a mãe falava crioulo. Mas não encontra essa facilidade de expressão nas duas línguas, que sempre teve na sua família, no seu país natal."A sociedade cabo Verdiana decorre em crioulo". O escritor esperava que o surto do crioulo abrandasse após a independência mas tal não aconteceu. Por isso diz que a língua portuguesa está em risco em Cabo Verde mas que há consciência do perigo. "O português já está a ser ensinado nas escolas como língua segunda".

Sobre o seu último livro "O Fiel Defunto", mais uma história contada com humor em torno dos costumes das ilhas, o personagem do escritor que é assassinado, Miguel Lopes Macieira, é inspirado nele próprio. "Pensei em mim próprio, se não brinco comigo não tenho o direito de brincar com os outros".

Como foi celebrado o prémio Camões em Cabo Verde, nas ilhas, como foi a festa?

Muito bem, eu próprio fiquei admirado com a maneira como as pessoas em geral receberam o prémio. Porque nós cabo-verdianos temos essa mania: tudo o que de bom acontece a um cabo-verdiano acontece a Cabo Verde. As pessoas fartaram-se de cumprimentar dizendo: "o dinheiro pode ser para ti mas o prémio é nosso".

É muito lido em Cabo Verde, também pelos jovens ou é mais lido fora de Cabo Verde?

Sou bastante lido em Cabo Verde também e nem sempre tão vendido como sou lido porque em Cabo Verde há muito a tradição de troca de livros, empréstimos, alguém compra um livro, acaba de ler, empresta a outra pessoa e o livro vai passando d mão em mão e às vezes esquece-se de quem é o livro. O livro tem valor em si mas não tem, digamos, um valor económico. Eu vejo isto pela quantidade de jovens que falam comigo mas acho interessante que quando me perguntam:"Você é Germano Almeida?"Sou". "Ah, pensei que fosse morto". Mas porquê,? claro que estão a falar em crioulo e eu estou a traduzir em português. "Eu estudei no liceu e li os seus livros na escola. Pensavam que eu era colega do Baltasar [Lopes da Silva], do Aurélio Gonçalves e companhia, que são os doutores que eles estudam no liceu.

E eles quando falam consigo, os jovens, as pessoas das ilhas, falam sobretudo em crioulo?

A língua, a vida em Cabo Verde decorre em crioulo

Está-se a perder a língua portuguesa ou não há esse risco?

Há. Antes da independência era praticamente proibido falar crioulo. No liceu não se podia falar crioulo e mesmo na vida comum desencorajava-se. Bem, com a independência houve um surto de crioulo, todo o mundo já falava crioulo. Eu sinceramente esperava que abrandasse. Não, não abrandou, antes pelo contrário intensificou-se. Eu vejo pela minha filha que vai fazer agora 30 anos, cresceu numa casa onde se fala crioulo, tanto eu como a minha mulher falamos pouco crioulo, falamos crioulo obviamente, mas ela com a empregada e com os vizinhos fala sempre crioulo. E nós nunca tentamos impedir que falasse a língua que quisesse falar por uma razão muito simples: eu tenho a experiência pessoal da minha família. O facto de o meu pai falar sempre português e a minha mãe falar sempre o crioulo, nunca nos terem imposto falar uma ou outra língua, permitiu que desenvolvessemos livremente. Eu digo isto porque parentes meus que foram obrigados a falar português ficaram a odiar a língua. Mas há muitas famílias que nunca ouviram ou não estavam habituadas a ouvir falar o português. E Cabo Verde não é de facto uma sociedade bilingue.Nos últimos tempos, nos anos seguintes à independência, começou-se a sentir de facto essa fraqueza dos alunos cabo-verdianos em sair para ir estudar para o exterior, não dominando a língua em que tinham de estudar obtinham péssimos resultados. Isto durou alguns anos. Por exemplo, para nós, começámos a sentir que era uma vergonha nacional quando o Brasil começou a exigir, antes de aceitar dar bolsas, que os alunos prestassem uma prova de domínio da língua portuguesa., quer dizer, isto em Cabo Verde para nós é absurdo. Neste momento já se tomou consciência que é um risco grande que estávamos a correr e já se começou a ensinar o português como língua segunda, isto é, desde a escola as pessoas aprendem o português.

Como língua estrangeira?

Eu estou a dizer segunda porque quando defendi isto num artigo de jornal, a necessidade de ensinar o português como língua estrangeira, as pessoas caíram sobre mim: "Não é língua estrangeira que se diz". Eu quero lá saber, eu quero saber é que não é nossa, seja segunda ou estrangeira. Mas parece que a regra que se diz é língua segunda e não estrangeira. Eu penso que o que é necessário é efetivamente tomarmos consciência da importância que a língua portuguesa tem para nós. Não é saudosismo, é um instrumento de trabalho importantíssimo. Amílcar Cabral já dizia que a língua portuguesa foi a maior herança que os portugueses nos deixaram e é verdade. Uma vez numa entrevista aqui em Portugal permiti-me dizer "bom, com o crioulo não vamos longe". As pessoas caíram sobre mim, atacaram-me ferozmente. Quero contribuir para as pessoas tomarem consciência de que a língua portuguesa é tanto vossa como nossa.

Plataforma
(03.07.2018)
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Comentário de Raymond Halles, como resposta a esta entrevista em Plataforma:

 Ô môss! Um tá podê dzêb um c’zinha? Não entendo como é que a vida em Cabo Verde se processa em criolo e tenho grande dificuldade em acompanhar essa afirmação. O criolo na variante do sotavento é tão diferente da de barlavento e ainda se tem de contar com a variante de Santo Antão. Como é que é possível sequer pensar que se pode unificar estas variantes numa só? O Português era e de certa forma continua a ser a língua veicular do território. Aliás se antes da independência era a língua do Liceu (primeiro o Gil Eanes, de boa memória e mais tarde o Liceu da Praia) era porque no Mindelo se encontravam alunos desde Santo Antão à Brava e era necessário não só que estes alunos tivessem o mesmo grau de formação mas também que formassem entre si uma verdadeira comunidade escolar. Não por acaso muita literatura criola foi escrita em Português e que alguns dos seus criadores estiveram intimamente ligados ao Liceu, como o Baltazar Lopes da Silva ou o Roque Gonçalves, isto já para não fale nos Claridosos, Manuel Lopes, etc.

O Português não será assim língua estrangeira, como é óbvio, não é segunda língua, no sentido em que é uma lingua de menor uso, mas uma língua veicular, aquela que nos permite entender em todas as ilhas sem engulhos semânticos, gramaticais ou lexicais, e assim deveria continuar. Juntamente com a valorização das diferentes variantes do criolo, que a tentativa de normalização pelo criolo do sotovento está a matar e que ainda por cima é uma normalização destinada ao fracasso. Ainda há dias vindo da Baía das Gatas para o Mindelo o meu jovem condutor me dizia que por vezes trazendo pessoas de Santiago ou do Fogo utiliza o Português para melhor se entenderem do que cada um na sua variante do criolo. Penso que este facto é bem demonstrativo de que não foi a colonização que tornou o Português veicular (através do ensino e da administração) mas que a sua qualidade de língua veicular foi uma emergência derivada da necessidade de um entendimento comum. Mantenha!