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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Ana Hatherly - Auto-retrato

Fotografia de arquivo. Museo Vostell



AUTO-RETRATO

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

Ana Hatherly




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Rui Knopfli - Auto-retrato

Rui Knopfli


AUTO-RETRATO

De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

Rui Knopfli

Mangas Verdes com Sal (1969)


segunda-feira, 13 de maio de 2019

Auto-retrato (Maria Teresa Horta)

Fotografia de Daniel Rocha no diário Público (14-03-2012)



AUTO-RETRATO

Eu sou outra em mim mesma
e sou aquela

Sou esta
dançando sobre as lágrimas

Sou o gozo
no gosto de ser espelho
e me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

Sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

Eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

E se na história desta me confirmo
na vida da outra não me traio

Feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em Maio

Maria Teresa Horta

Poesia Reunida (2009)

(Lido aqui: Ler para ser)


Pode ser lida esta entrevista de Helena Vasconcelos com Maria Teresa Horta no diário Público: "A luz incandescente de Maria Teresa Horta" (14-03-2012)


Entrevista de Anabela Mota Ribeiro



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Auto-retrato (Mário Dionísio)



AUTO-RETRATO

publicado no jornal Diário de Lisboa, 2 de Fevereiro de 1990

É um fulano digamos que intratável, não porque trate mal a gente, pelo contrário, mas por nos deixar sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar. Das várias actividades a que sempre se dedicou, qual é a principal? Como julgar as suas contradições, que acabam por se revelar confirmações?

Diz-se indiferente ao que os outros pensem dele, mas sentimo-lo infeliz quando o acham, por exemplo, intransigente ou passam pelo que fez e faz como cães por vinha vindimada. Chega a sofrer com isso, o pobre, não tanto por vaidade ferida como porque, então, talvez não tivesse valido a pena. A velha ideia fixa da utilidade, do dever. Uma seca. Contudo, só muito lá por dentro.

Meão de altura, como o outro, de cabelo mais escasso do que quem quer gostaria de ter, prognatismo muito acentuado, talvez pelo uso do cachimbo a toda a hora durante anos, é afinal um sujeito bem menos austero do que os que o conhecem mal geralmente supõem. Por baixo daquela exigência toda de rigor e de coerência (perante tudo e to­dos, a começar por si próprio), uma criança espreita.

Daí decerto o tal vício maior de gostar de brincar com o lume, ou seja, uma actividade permanente em desafio a si próprio e em senti­dos diferentes, com a mesma paixão ou teimosia: professor (44 anos!), militante político, que continuou a ser, mesmo depois de, por discordâncias de metodologia, se ver ou julgar sozinho, ensaísta de pendor polemizante, ficcionista, poeta – antes e depois de tudo, melhor: em tudo – pintor, agora a tempo inteiro.

Tinetazinha incurável: um desejo de per­feccionismo quase doentio. Escreveu sempre cada página dezenas de vezes, pintou e repin­tou cada uma das suas telas até à saturação. Além das que destruiu, uma montanha. É um chato em certas coisas: come porque tem de ser e só bebe água, detesta demorar-se à mesa, gostando de conviver, lamenta-se de que haja tão pouca gente com que (lhe) valha a pena fazê-lo.

Os historiadores da cultura do futuro (que os de agora estão próximos de mais) terão algumas surpresas – veleidade dele - com uma ou outra coisa que disse ou fez antes de ninguém, muito particularmente na concepção e prática do neo-realismo (um bradar no deserto!), que ajudou a fundar e defendeu até lhe parecer possível e ainda útil fazê-lo. Ag­ora foge quanto pode a refalar no assunto. O repisar enerva-o.

Bibliografia activa, resumida­mente: entre muitos escritos, palestras, entrevistas dês carácter ensaístico, «A Paleta e o Mundo», que teve o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escri­tores no ano da publicação do último volume (1962); cinco livros de poesia, desde 1941, in­cluídos no volume «Poesia Incompleta» (1966), a que se tem de acrescentar «Le Feu qui Dort» (1967) e «Terceira Idade» (1982), prémio ex-aequo, da Associação Internacional dos Críti­cos; Literários; três livros de contos: «O Dia Cinzento» (1944), reescrito e reeditado, a partir de 1967, com o título de «O Dia Cinzento e Outros Contos», «Monólogo a Duas Vozes» (1988), um romance: «Não há Morte nem Princípio» (1969); uma pequena «Autobiografia» (1987).

Viajou pela Europa, teve duas ou três doenças graves, morrerá breve ou daqui a muitos anos. A propósito da sua primeira exposição individual de pintura aos 73 anos, terminou uma entrevista na TV desta maneira: «Aos cem anos aqui estarei de novo».

Todavia, de há tempos para cá, começou a dizer-se velho, sobrevivente, etc., porque não consegue fazer tanto quanto quer, passou a detestar deslocar-se e escabuja com a invasão da literatura pelo marketing.

Não perdoa o festim. Que com coisas sérias não se brinca e outros propósitos desactualizados. Mas a tal criança ri-se e lá o vai puxando alegremente.

No catálogo da sua exposição na Nasoni (Out./Nov. de 1989), escreveu isto: «Vou caminhando sem destino e sem repouso. Gostando sempre pouco do que pinto, precisando sempre muito de pintar. Assim foi, certamente assim será. Não ambiciono mais».

Resta saber se sim. O mais prudente é esperar.

Mário Dionísio 


Lido aqui: Centro Mário Dionísio




sexta-feira, 7 de abril de 2017

Auto-retrato (Alexandre O'Neill)

Alexandre O'Neill


Depois da leitura do auto-retrato de Bocage, toca a ler o de Alexandre O'Neill, inspirado nele e com o toque de humor tão característico dele.


AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill, in 'Poemas com Endereço'






Auto-retrato (Bocage)




AUTO-RETRATO

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Bocage


Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765 - 1805)

Imagens achadas aqui




quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Auto-retrato (Manoel de Barros)



AUTO-RETRATO

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outro, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.


Manoel de Barros, advogado de formação, "fazendeiro por necessidade e poeta por ócio".

Manoel de Barros nasceu em 1916 e ainda é vivo! No dia 16 de dezembro fez 94 anos. Parabéns para ele.