Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Verão (Ferreira Gullar)

Fotografia de Lucas Landau


Não o verão desta beira, claro, mas da outra, a brasileira.


VERÃO

Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração — resiste.

Ferreira Gullar


Lido no blogue de Antonio Cicero, Acontecimentos.






terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Propriedade da Língua (Maria do Rosário Pedreira)



PROPRIEDADE DA LÍNGUA

Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias (23-11-2015)




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A "escola dos ciganos" está em que lugar no ranking? (Rita Ferreira)


A "escola dos ciganos" está em que lugar no ranking?

"Tem a certeza de que é esta a escola que quer pôr em primeiro lugar?" A pergunta da funcionária que recebia as matrículas veio assim de rajada, as sobrancelhas arqueadas à espera de um esgar que mostrasse o óbvio equívoco daquela encarregada de educação ao preencher os papéis. "Tenho", respondi.

A escola em causa é uma das três básicas de um agrupamento de um bairro de Lisboa. São três e aquela é a única que tem "os ciganos". É "a escola dos ciganos". Como é que uma mãe poderia querer que o seu filho fosse para "a escola dos ciganos"? Há aquela outra em que pais e mães se desunham para conseguir moradas - "funciona como uma privada" - e há a outra, a do meio, que é assim mais ou menos, mas não tem ciganos. Ninguém quer ir para "a escola dos ciganos".

O rótulo está dado, o retrato está feito, ponto final parágrafo. É preciso entrar nos portões da escola em causa para perceber o que se passa lá dentro. Porque podemos entrar, essa é a primeira vantagem.

O recreio é gigantesco, tem árvores que se pode trepar (bom, às vezes não, diz-me o pequeno que gosta de se esconder no meio das folhagens), tem um campo de basquetebol e outro de futebol, tem um relvado, tem um baloiço de pneu.

Tem filhos de professores universitários, de jornalistas, de economistas, de geólogos, tem meninos sem pai nem mãe que vêm de uma instituição próxima, tem sotaques brasileiros, franceses, chineses. Tem professores homens e mulheres, tem professores brancos e negros.

Tem pais que ajudam a tratar da horta - as alfaces já brotam e custam 20 cêntimos -, outros que tomam conta da biblioteca e desenham sereias às amigas que aparecem sempre juntas.

O diretor reúne-se com os representantes das turmas para saber como se pode resolver os problemas da escola - eles têm entre 6 e 10 anos e, por isso, excelentes soluções.

Na festa de final do ano juntamo-nos todos. Altos, baixos, magros, gordos, ricos, remediados, pobres, brancos, negros, indianos, chineses, ciganos. Nesta escola somos todos e por isso acredito que somos mais por causa disso. Que pena não haver um ranking para medir isto.

Rita Ferreira

Jornalista, no Diário de Notícias (16 de fevereiro de 2019)




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Sant’Ana do Mar (valter hugo mãe)



SANT'ANA DO MAR

Não existe, é um arquipélago imaginário ali para o Atlântico, a partir do qual o professor Eurico Lemos Pires propõe uma utopia. Gosto imediatamente da ideia de alguém, depois dos oitenta anos de idade, escrever o seu primeiro romance, e gosto que aconteça para corresponder a uma espécie de apelo, ou prova de sapiência maior, para a construção de uma sociedade melhor, mais justa. Não estamos nada em tempo de acreditar seja no que for, sobretudo no que disser respeito a acreditarmos uns nos outros, mas também já me passa pela cabeça que um destes dias alguém vai ser capaz de mobilizar a maioria para uma decência nunca vista. Um Gandhi ou um Mandela elevados à última potência. A utopia, afinal, parece ser o único caminho viável para a humanidade, tudo o resto, da razão ao coração, já falhou demasiado. A utopia é a única espécie de empreitada que, por maior ou menor consciência, pode mobilizar o colectivo. No condado de Sant’Ana do Mar a cidadania é obrigatória. A cada indivíduo corresponde uma representatividade concreta que o impede de se abster da participação e, em última análise, da consciência. Eurico Lemos Pires é muito empenhado na passagem desta ideia-chave, que acaba por ser a tese ideológica que justifica todo o propósito do livro. Um apelo a uma certa obrigatoriedade da opinião e sua divulgação, a obrigatoriedade do associativismo e sua elevação a modo enformador da sociedade. Importa que se alcance um poder poliárquico, algo que propenda para um certo governo virtuoso, capaz de se justificar em cada gesto ou decisão, efectivamente legitimado, legitimado a todo o tempo.

Claro que subjaz a esta ficção uma crítica às estruturas que hoje encontramos na realidade europeia e que, ditas democráticas, não representam absolutamente os cidadãos e não são por estes reconhecidos nem cabalmente entendidos. Este romance é uma proposta de mudança de paradigma. Mais do que procurar qualidades literárias, ele procura inquietar, provocar, para que sejamos deslocados da inoperância ou do conforto de onde se perpetuam os vícios e as injustiças.

O professor Eurico dizia-me que haveria de publicar as suas ideias num artigo em Inglaterra. Precisava muito de deixar expressas algumas ideias que pudessem realmente interferir nos modelos aplicados no futuro. Não vai perder nada e também não ganhará. Terá apenas a satisfação de se expressar, como quem, exactamente, procura a participação, essa qualidade de se representar a si mesmo e contar. O professor sorria como com a expectativa de uma malandrice. Quando sabemos algo que desarruma os poderes instituídos, sentimo-nos malandros. A coragem de o denunciar traz essa satisfação irresistível perante a qual revivemos. Depois, o professor Eurico explicava-me que casara há sessenta anos e que namorara mais sete. Estava preocupado com a esposa. Se não soubesse da esposa, também já pouco importava saber das outras coisas todas. A sociedade, na verdade, faz-se dessas prioridades. O amor tem de estar sempre em primeiro lugar. Ele não dizia amor, dizia: se não souber da minha mulher vou embora, não sei como, mas vou para casa cuidar dela.

Na fisiatria do Hospital de Santo António as utopias para o mundo são todas atropeladas por estas realidades mais simples. A demora da visita, ou a ausência da visita certa, descompõe tudo. Volta-se ao início. Primeiro, há que salvar o coração, que parece sempre mais difícil do que salvar o mundo.

Entretanto, o professor Eurico teve alta e estará em casa servido de afectos. Fico, por isso, à espera da notícia da publicação do seu artigo, a ver se esta Europa bafienta se regenera. Aos poucos, com sonhos de bons homens, excelentes homens que, no acumulado do pensamento, procuram ensinar que valeria a pena termos feito tudo de outra forma. Afinal, reconhecermos o lugar de cada um é bem possível e não há modo de isto ser pacificamente viável se não for assim.

Quando chegar aos oitenta e seis anos e me levarem a curar um braço ou uma perna, quero ser corajoso o suficiente para me denunciar. Se estiver certo de saber melhor do que sempre fiz, quero sonhar com algo maior, ainda que necessariamente seja algo que se pensa para depois do meu tempo, para depois do meu testemunho. Como um pensamento que, profundamente generoso, deixámos à consideração de quem também está de boa fé.

valter hugo mãe

Crónica publicada na Revista 2, edição de 9 Fevereiro de 2014.



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Uma fonte, uma asa... (Fernanda de Castro)



UMA FONTE, UMA ASA…

Os anos passam… Já vai sendo tempo
De pensar na Viagem.
Irei bem ou enganei-me? Este caminho
É verdade ou miragem?

Procuro em vão sinais. Em vão persigo
As horas silenciosas.
De olhos abertos, cega, vou andando
Sobre espinhos e rosas.

Errada ou certa é longa a caminhada,
Longo o deserto em brasa.
Ah, não fora, Senhor, esta esperança
De uma fonte, uma asa!

Fonte, Senhor, que mate a longa sede
Desta longa subida.
Asa que ampare o derradeiro passo
No limite da vida.

Ah, Senhor, que mesquinhas as palavras!
Vida ou morte, que importa?
Para entrar e sair a porta é a mesma:
Senhor, abre-me a porta!

Fernanda de Castro


Fernanda de Castro nasceu em Lisboa no dia 8 de Dezembro de 1900 e morreu na mesma cidade a 19 de Dezembro de 1994. Escreveu poesia, romance, teatro e até um livro de introdução à botânica. Criou e desenvolveu a Associação Nacional dos Parques Infantis, inaugurando o primeiro parque no dia 6 de Novembro de 1933. Traduziu Rainer Maria Rilke (Cartas a um Poeta), Katherine Mansfield (Diário), Pirandello (Uma verdade para cada um e Volúpia da honra) Ionesco (O novo inquilino, O Rei está a morrer), Valéry Larbaud (Divertimento Filológico), Sófocles (Electra), Henri Duveruois (A Fuga), Maurice Maeterlinck (O Padre de Setúbal), entre outros. Colaborou em diversas publicações periódicas, nomeadamente no Diário Popular e nas revistas Arte Peninsular, Panorama, Ilustração Portuguesa, Portugal Feminino, entre outras. Estreou-se na vida literária aos 19 anos, com a publicação do livro de poesia Ante-Manhã. Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio no concurso de originais do Teatro Nacional, com a peça Náufragos. Em 1922 participa na Semana de Arte Moderna de São Paulo e conquista a amizade e admiração de Tarsíla do Amaral, Anita Malffati, Osvald de Andrade, entre muitos outros. Com o romance Maria da Lua (1945) foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1969 é-lhe atribuído o Prémio Nacional de Poesia.


(Dados, aqui)











Poema lido no blogue Insónia



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Manual de despedida para mulheres sensíveis (Filipa Leal)



MANUAL DE DESPEDIDAPARA MULHERES SENSÍVEIS

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

Filipa Leal




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Em queda (Maria do Rosário Pedreira)


EM QUEDA

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem). Depois de, na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma agente literária alemã me ter dito que a Alemanha (a Alemanha?) perdeu seis milhões de leitores em quatro anos, ouço agora um testemunho do professor responsável pelo mestrado em Edição na Sorbonne num podcast do site da revista profissional Livres Hebdo e fico de boca aberta: a França teve a sua maior queda de vendas de livros dos últimos dez anos – 45 milhões de exemplares em 2018 contra 54 milhões em 2017. A França, que foi sempre o símbolo do país livre e educado a que aspirávamos (sobretudo, antes do 25 de Abril) está em declínio há já muitos anos (por isso já tão pouca gente aprende francês), mas os resultados da Frente Nacional de Marine Le Pen de há uns tempos para cá e as mais recentes manifestações dos coletes amarelos mostram bem que as coisas vão pior do que gostaríamos. E, sem leitura, a tendência é mesmo para bater no fundo…

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias (13-02-2019)



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O amor bate na aorta (Carlos Drummond de Andrade)



O AMOR BATE NA AORTA

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Amor violeta (Adélia Prado)



AMOR VIOLETA

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

Adélia Prado






terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

[Soneto do sobressalto] (José Carlos Barros)

Fotografia de Luiz Felipe Sahd


[Soneto do sobressalto]

É fácil no amor o ser feliz
se a tanto se resume o que buscamos
jurando a eternidade com o giz
das coisas que escrevemos e apagamos

conforme nasce o dia ou anoitece.
Mas eu, amor, exijo o sobressalto,
a dor, o lume, o vento que enlouquece,
o medo, a cicatriz, o passo em falso.

E arrisco-me a ter frio e a ter sede.
E ouso o fogo, a areia da tristeza,
o voo no trapézio sem a rede,

o abismo, um precipício, uma ravina
a pique desenhada de surpresa.
Do mundo eu temo apenas a rotina.

José Carlos Barros


(Lido em Amadeu Baptista)



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O rapaz da camisola (Manuel de Freitas)

Fotografia de Edu G.F.


O RAPAZ DA CAMISOLA

                                                                                                 para o Manolo

O rapaz da camisola era espanhol e tinha
a minha idade (fumámos juntos
alguns charros, se é que isso vos interessa).
Estava lá, no dia em que finalmente
comprou a t-shirt do bar onde julgava
encontrar amigos, rebaixas de amor e música.
Deixou-me então uns discos, o sorriso
de sempre, truques de Pradera que incertamente
o reconduziam ao volante do pai e à
infância que passou, nos arredores de Cáceres.

Tinha vindo trabalhar, por poucos meses.
Não ganhava mal e eu, sem nunca
o dizer, talvez perdesse ainda melhor. Mas apaixonou-se
pela cidade (eu entendo). Morava na Graça,
sorria de facto muito, tornava mais próximos e comuns
os amigos que não tenho. A Ibéria, a desoras,
parecia subitamente possível – embora
a rapariga, loura, insistisse em dizer que não.

São tristes aqueles que partem e reduzem Lisboa
à vaga rotina dos escombros, ao despovoamento
dos afectos. Talvez um dia o rapaz da camisola
me telefone para que falemos de tudo
menos de poesia. Para já, gostava de lhe dedicar
um poema melhor, sem custos alfandegários, simples
como os copos que nos encostaram juntos ao balcão.

Manuel de Freitas


Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral, Alambique, Lisboa, 2015.


 (Fonte: Hospedaria Camões)


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Auto-retrato (Mário Dionísio)



AUTO-RETRATO

publicado no jornal Diário de Lisboa, 2 de Fevereiro de 1990

É um fulano digamos que intratável, não porque trate mal a gente, pelo contrário, mas por nos deixar sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar. Das várias actividades a que sempre se dedicou, qual é a principal? Como julgar as suas contradições, que acabam por se revelar confirmações?

Diz-se indiferente ao que os outros pensem dele, mas sentimo-lo infeliz quando o acham, por exemplo, intransigente ou passam pelo que fez e faz como cães por vinha vindimada. Chega a sofrer com isso, o pobre, não tanto por vaidade ferida como porque, então, talvez não tivesse valido a pena. A velha ideia fixa da utilidade, do dever. Uma seca. Contudo, só muito lá por dentro.

Meão de altura, como o outro, de cabelo mais escasso do que quem quer gostaria de ter, prognatismo muito acentuado, talvez pelo uso do cachimbo a toda a hora durante anos, é afinal um sujeito bem menos austero do que os que o conhecem mal geralmente supõem. Por baixo daquela exigência toda de rigor e de coerência (perante tudo e to­dos, a começar por si próprio), uma criança espreita.

Daí decerto o tal vício maior de gostar de brincar com o lume, ou seja, uma actividade permanente em desafio a si próprio e em senti­dos diferentes, com a mesma paixão ou teimosia: professor (44 anos!), militante político, que continuou a ser, mesmo depois de, por discordâncias de metodologia, se ver ou julgar sozinho, ensaísta de pendor polemizante, ficcionista, poeta – antes e depois de tudo, melhor: em tudo – pintor, agora a tempo inteiro.

Tinetazinha incurável: um desejo de per­feccionismo quase doentio. Escreveu sempre cada página dezenas de vezes, pintou e repin­tou cada uma das suas telas até à saturação. Além das que destruiu, uma montanha. É um chato em certas coisas: come porque tem de ser e só bebe água, detesta demorar-se à mesa, gostando de conviver, lamenta-se de que haja tão pouca gente com que (lhe) valha a pena fazê-lo.

Os historiadores da cultura do futuro (que os de agora estão próximos de mais) terão algumas surpresas – veleidade dele - com uma ou outra coisa que disse ou fez antes de ninguém, muito particularmente na concepção e prática do neo-realismo (um bradar no deserto!), que ajudou a fundar e defendeu até lhe parecer possível e ainda útil fazê-lo. Ag­ora foge quanto pode a refalar no assunto. O repisar enerva-o.

Bibliografia activa, resumida­mente: entre muitos escritos, palestras, entrevistas dês carácter ensaístico, «A Paleta e o Mundo», que teve o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escri­tores no ano da publicação do último volume (1962); cinco livros de poesia, desde 1941, in­cluídos no volume «Poesia Incompleta» (1966), a que se tem de acrescentar «Le Feu qui Dort» (1967) e «Terceira Idade» (1982), prémio ex-aequo, da Associação Internacional dos Críti­cos; Literários; três livros de contos: «O Dia Cinzento» (1944), reescrito e reeditado, a partir de 1967, com o título de «O Dia Cinzento e Outros Contos», «Monólogo a Duas Vozes» (1988), um romance: «Não há Morte nem Princípio» (1969); uma pequena «Autobiografia» (1987).

Viajou pela Europa, teve duas ou três doenças graves, morrerá breve ou daqui a muitos anos. A propósito da sua primeira exposição individual de pintura aos 73 anos, terminou uma entrevista na TV desta maneira: «Aos cem anos aqui estarei de novo».

Todavia, de há tempos para cá, começou a dizer-se velho, sobrevivente, etc., porque não consegue fazer tanto quanto quer, passou a detestar deslocar-se e escabuja com a invasão da literatura pelo marketing.

Não perdoa o festim. Que com coisas sérias não se brinca e outros propósitos desactualizados. Mas a tal criança ri-se e lá o vai puxando alegremente.

No catálogo da sua exposição na Nasoni (Out./Nov. de 1989), escreveu isto: «Vou caminhando sem destino e sem repouso. Gostando sempre pouco do que pinto, precisando sempre muito de pintar. Assim foi, certamente assim será. Não ambiciono mais».

Resta saber se sim. O mais prudente é esperar.

Mário Dionísio 


Lido aqui: Centro Mário Dionísio




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Adeus Avó (Blogue enfado)

Fotografia de Renata F. Oliveira


Texto publicado no blogue enfado a 17.09.2011

Adeus Avó

Vinhas calmamente perguntar-me o que queria para o almoço. Qualquer coisa, avó. Com um sorriso: queres um bife com batatas fritas e ovo estrelado? Sim, sorria eu também.

Era nos dias em que os pais não estavam, o que dava a todo o ritual contornos de segredo, como se estivéssemos a fazer uma traquinice.

Pouco depois comíamos. Eu, extasiado, principalmente com o ovo estrelado e as batatas fritas. Tu, sorridente, com os legumes cozidos. Raramente falávamos e eu nunca encontrava palavras certas para te dizer. Comíamos em silêncio.

Mas eu sempre soube que aquela refeição sofregamente devorada, as batatas fritas, o ovo estrelado, o bife, o arroz meio malandro, tinha mais afecto que todas as palavras que me pudesses dizer.


Escrito em Díli, a 15 de Março de 2004


Blogue enfado, de Guilherme Cartaxo



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher



Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escreve,
cartas mais tarde ― uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós fiamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

Maria do Rosário Pedreira