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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Fernando Pessoa / Ricardo Reis - "Cada coisa a seu tempo tem seu tempo..."




Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

30-7-1914

Ricardo Reis / Fernando Pessoa


sexta-feira, 15 de junho de 2018

"Não batas palmas diante da beleza...." (Ricardo Reis / Fernando Pessoa)

Afrodita, cópia romana de um original grego de Praxíteles


Não batas palmas diante da beleza.
Não se sente a beleza demasiado.
           Saibamos como os deuses
           Sentir divinamente.

Ao ver o belo, lembra-te que morre.
E que a tristeza desse pensamento
           Torne elevada e calma
           A tua admiração.

E se é estátua ou de Píndaro alta estrofe
Em quem teus olhos são abandonados
           Não te esqueças de que essa
           Beleza não é viva.

Sempre ao belo uma cousa há-de faltar
Para que seja triste contemplá-lo
           E nunca se poder
           Bater palmas ao vê-lo...

Calma é a beleza. Ama-a calmamente.
Os dons dos deuses como um deus aceita
           E terás tua parte
           Do néctar dado aos calmos.

12-2-1915

Ricardo Reis / Fernando Pessoa


Poesia, de Ricardo Reis. Edição de Manuela Parreira da Silva. Assírio & Alvim, 2ª edição, Junho 2007




terça-feira, 13 de junho de 2017

Para ser grande, sê inteiro (Reis / Pessoa)




Para ser grande, sê inteiro: nada
         Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
         No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
         Brilha, porque alta vive.

14-2-1933

Ricardo Reis


Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). - 148.




segunda-feira, 11 de abril de 2016

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio (Reis / Pessoa)

Fotografia de Elizier Santos



Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e caricias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

12-6-1914

Ricardo Reis


Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa.




quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"Sábio é o que se contenta..." (Reis / Pessoa)



Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
                   E ao beber nem recorda
                   Que já bebeu na vida,
                   Para quem tudo é novo
                   E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
                   Ele sabe que a vida
                   Passa por ele e tanto
                   Corta à flor como a ele
                   De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
                   Que o seu sabor orgíaco
                   Apague o gosto às horas,
                   Como a uma voz chorando
                   O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
                   E apenas desejando
                   Num desejo mal tido
                   Que a abominável onda
                   O não molhe tão cedo.

19/06/1914

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa



O que são os heterónimos?



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tão cedo passa tudo quanto passa (Reis / Pessoa)

Ricardo Reis visto por Almada Negreiros



Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis / Fernando Pessoa


O que são os heterónimos?


Ricardo Reis - Tão cedo passa tudo quanto passa / Dito por Antônio Abujamra