POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cântico Negro (José Regio)

José Régio

O poema "Cântico Negro", do livro Poemas de Deus e do Diabo (1925), obra de José Régio, é uma obra-prima da literatura portuguesa.


CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista Presença, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — Poemas de Deus e do Diabo (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.




O poema na voz do autor




terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Ensinamento (Adélia Prado)



ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado


Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 1935) no Projeto Releituras.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

As margens da alegria (João Guimarães Rosa)



ESTA É A ESTÓRIA. Ia um menino, com os Tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele produzia-se em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de cheiros desconhecidos. A Mãe e o Pai vinham trazê-lo ao aeroporto. A Tia e o Tio tomavam conta dele, justinhamente. Sorria-se, saudava-se, todos se ouviam e falavam. O avião era da Companhia, especial, de quatro lugares. Respondiam-lhe a todas as perguntas, até o piloto conversou com ele. O vôo ia ser pouco mais de duas horas. O menino fremia no acorçôo, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha a cair. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de segurança virava forte afago, de proteção, e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao mais. Assim um crescer e desconter-se –certo como o ato de respirar–o de fugir para o espaço em branco. O Menino.

E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades. Davam-lhe balas, chicles, à escolha. Solícito de bem-humorado, o Tio ensinava-lhe como era reclinável o assento–bastando a gente premer manivela. Seu lugar era o da janelinha, para o móvel mundo. Entregavam-lhe revistas, de folhear, quantas quisesse, até um mapa, nele mostravam os pontos em que ora e ora se estava, por cima de onde. O Menino deixava-as, fartamente, sobre os joelhos, e espiava: as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga, o chão plano em visão cartográfica, repartido de roças e campos, o verde que se ia a amarelos e vermelhos e a pardo e a verde; e, além, baixa, a montanha. Se homens, meninos, cavalos e bois–assim insetos? Voavam supremamente. O Menino, agora, vivia; sua alegria despedindo todos os raios. Sentava-se inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso. Ainda nem notara que, de fato, teria vontade de comer, quando a Tia já lhe oferecia sanduíches. E prometia-lhe o Tio as muitas coisas que ia brincar e ver, e fazer e passear, tanto que chegassem. O Menino tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente. A luz e a longa-longa-longa nuvem. Chegavam.

João Guimarães Rosa


Início de "As margens da alegria", incluído no seu livro Primeiras Estórias (1962). Nesta estória um menino descobre a vida, em ciclos alternados de alegria (viagem de avião, deslumbramento pela flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore).

João Guimarães Rosa (Cordisburgo,  Minas Gerais, 1908 - Rio de Janeiro, 1967), foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi também médico e diplomata.

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Um adeus português (Alexandre O'Neill)

Alexandre O'Neill jovem


UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Inquérito sobre a imagem de Portugal


Conjuntura: Portugueses com imagem muito negativa de Portugal - inquérito Marktest

Lisboa, 14 dez (lusa) -- Os portugueses têm uma imagem muito negativa do seu país, segundo um inquérito ao estado da Nação hoje divulgado, que destaca a corrupção, a justiça e a economia nacional como os indicadores com avaliação mais negativa.

Lusa - Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico

11:47 Terça feira, 14 de Dez de 2010


Lisboa, 14 dez (lusa) -- Os portugueses têm uma imagem muito negativa do seu país, segundo um inquérito ao estado da Nação hoje divulgado, que destaca a corrupção, a justiça e a economia nacional como os indicadores com avaliação mais negativa.

Das 2400 entrevistas, efetuadas pela empresa de estudos de mercado Marktest, resultou uma nota média de 7,2, numa escala de 20, a 14 temas: saúde, justiça, segurança, democracia, conflitualidade, economia nacional, corrupção, economia pessoal e familiar, jornalismo, imigração, qualidade de vida, imagem de Portugal, meio ambiente e educação.

"A corrupção, a justiça e a economia nacional foram os três indicadores que receberam uma avaliação mais negativa. O primeiro indicador com 2,6 e os outros com 3,3. Este valor resulta do facto de 47,6 por cento dos inquiridos considerarem que o atual estado da corrupção é mau e 37,5 por cento que é muito mau", conclui aquele estudo, segundo uma nota hoje distribuída pela empresa de estudos de mercado.

(Revista Visão)


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Das palavras (Eduardo White)



DAS PALAVRAS

Não mordas assim as palavras para que não te surpreendas, não as decepes. Não deixes a espada vil da mentira roubar-lhes a alegria. Quando as disseres aperta-as contra o peito. Faz um esforço por senti-las. Nas palavras cabem sempre o que para isso for preciso. Entra dentro delas como um milagre, como se uma pedra, de repente, se tornasse numa cigarra, como se o mar inteiro não te afogasse. Não as fites para as afastar. Não as rejeites. Pensa-as muitas vezes. As palavras não podem acordar com essa intenção de magoar. Distingue-as, toca nelas lentamente. Deixa que sejam limpas, que tenham chão, que façam vento. Dá-lhes a frescura de um limão, o êxtase que nelas se pode demorar. Não as digas, beija-as. As palavras povoam o que tu não podes povoar.

Ama as palavras, a possibilidade que são de poderes sonhar. Diz: Lua, grave, animal, gravura, diz verbo, teia, largura, diz pedra, luz água, jardim, planeta, unha, diz as palavras límpidas e transparentes, como amarelo, tremor, invenção, como clarão, erva, ou pão e verás como as palavras são fábulas, enredos, e as forças da língua em que vives e do chão de onde as dizes.

Eduardo White


Eduardo White é um poeta moçambicano. Nasceu em Quelimane em 1963.




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Quer saber porque acabaram os bonecos do Contra-Informação?



Quer saber porque acabaram os bonecos do Contra-Informação?

O melhor programa de sátira e humor da história da nossa televisão chegou ao fim. A crise e os cortes orçamentais dizem uns. Um programa incómodo para o established, sem dúvida. Mas a razão só pode ser uma. Saiba qual.


Acabar com um programa como o Contra-Informação nunca poderia passar por um motivo de contenção ou corte orçamental. Isto porque não consigo admitir que numa estação pública se pague vinte mil euros por mês a alguns apresentadores de concursos para dizerem baboseiras e depois se alegue que não há dinheiro para manter um programa que presta um verdadeiro serviço público, há anos a fio, mantendo sempre níveis de qualidade irrepreensíveis. Ou a RTP acha que serviço público passa pelos telespectadores saberem que A e B já foram muitos felizes atrás de uma moita na praia de Mira? Não me parece.

Outro motivo poderia ser a alergia que um programa deste género causa. Terrivelmente assertivo, com uma capacidade de satirizar inteligentemente a actualidade como nenhum outro, tornando-se cada vez mais incómodo para uma sociedade e actual classe política que já deu mostras de ter pouco poder de encaixe. O grau de desenvolvimento de um país também pode ser medido pela capacidade que este tem ou não de se rir de si próprio, e pela liberdade que quem cria ou humoriza tem de o poder fazer livremente e sem espartilhos. E nesse aspecto estamos a anos-luz de muitos outros países. Temos muito que aprender. Basta pensarmos no humor Inglês.

Somo o país dos Malucos do riso, Maré Alta e outros "fenómenos" do género, programas "fáceis" que conquistam com facilidade audiências. Mas mesmo este espartilho mental não parece ter sido a causa. Até porque o Contra-Informação, quando passado em horário decente (coisa que já não acontecia), sempre foi bem recebido pelo público.

Por tudo isto o único motivo plausível para se acabar com um programa como a Contra-Informação apenas poderá ser o de os bonecos terem sido ultrapassados pelos personagens reais que caricaturavam. Ou seja, isto está de tal forma de pernas para o ar que começámos a não perceber quem na verdade é o boneco. Se o próprio boneco ou a figura real. Quando a realidade é mais caricata e divertida que o humor que a recria e procura satirizar, a essência de um programa deste género morre. Exemplo: há muito que José Sócrates fez "José Trocas-te" perder a piada. Isto porque o original faz rir muito mais do que o boneco. Até admira o boneco não ter pedido a demissão à Produtora Mandala por se sentir ultrapassado e se estar com uma depressão profunda. Mas há mais: Madaíl, Queiroz e tantos, tantos outros...

Se olharmos para tudo o que se tem passado nos últimos tempos verificamos que vivemos num país de figurinhas, fantoches, bonequinhos e muitas personagens verdadeiramente hilariantes, difíceis por isso de recriar com mais humor do que o seu natural, o que as próprias emanam. A nossa realidade é cada vez mais um episódio do contra-informação. O noticiário das 20:00 suplanta qualquer programa de humor negro. Os bonecos ganharam vida própria. Ou o contrário.

PS: parabéns a toda equipa do Contra, à produtora e aos argumentistas pelos excelentes momentos televisivos que proporcionaram. Catorze anos, 170 bonecos. Um grande programa.

Tiago Mesquita

(Expresso, 13-Dezembro-2010)


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O livro único (João Manuel Mimoso)



O LIVRO ÚNICO

Naquela manhã de Outubro de 1958 vi-me pela primeira vez como um anónimo na multidão. Daí nasceu a minha aversão (que ainda hoje mantenho) por todas as actividades de grupo.

Na parede o Presidente Salazar e o General Craveiro Lopes olhavam benignamente a sala. Quando a professora entrou, dois alunos repetentes (conheciam-se pelo facto de terem o dobro da nossa altura) levantaram-se e esticaram o braço direito. Confusos, todos os imitámos...

Do meu primeiro dia na Escola Oficial 78 guardo uma lembrança de paredes brancas e frases exemplificando consoantes e ditongos: “ao, ão, a tua mão, tanta mão, tanta mão” (ilustrado por meninos da Mocidade com o braço estendido); “L, l, lálarilálá, alto, altar, Lusitos! Viva Salazar! Viva Salazar!” (crianças cantando); F, f, os gatitos estão zangados e fazem f... f... f... f...” (gatos assanhados )...

Na página 55 (atingida por altura do Natal) começavam os textos. Um dos meus preferidos é “Quando eu for grande ” (pg. 84): “... O Carlos: Eu queria ser padre, ter uma igreja, um altar, dizer missa e pregar sermões. E eu, disse a Clarinha, gostava de ser missionária, ir para muito longe ensinar doutrina aos pretinhos. Pois eu, gritou a Filomena batendo palmas, quero ser dona de casa como a nossa mãe!”.

O último texto era o “Milagre das Rosas” e (inevitavelmente) havia que fazer uma redacção sobre o assunto. A minha preferida é a de um garoto que explicou: “A rainha levantou a saia e mostrou tudo. O rei disse: Senhora, nunca tal vi. O povo gritou em coro: Milagre, milagre!” (Não sei que nota teve).

Ao fim da tarde fazia os exercícios de cópia e de caligrafia (com caneta de tinteiro) sentado na mesinha ao canto da sala do velho 4º andar da Rua do Ouro. Só interrompia o trabalho quando os eléctricos para a Estrela desciam a rua com um tramm-tramm irritante. Há uns dias voltei à casa da Rua do Ouro e (chamem-lhe criancice ) sentei-me na sala a rever o livro por onde aprendi a ler. Gostava que a minha mesinha ainda existisse ao canto e que os eléctricos ainda partissem do Rossio – o seu tramm-tramm teria sido música para mim.

 João Manuel Mimoso

Lido na revista Kapa (anos noventa)



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Quando era criança (Fernando Pessoa)

O menino Fernando Pessoa

Quando era criança...

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

É hoje que sinto
Aquilo que fui
Minha vida flui
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Fernando Pessoa



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Era de inverno em Vila Real..." (Joaquim Manuel Magalhães)

 Vila Real sob a neve (Fotografia de Carlos Correia Neto)


Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo de vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesas indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.

Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do ceú.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar a neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

Joaquim Manuel Magalhães


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Aqueles dois (Caio Fernando Abreu)



Eram dois moços sozinhos. Raul tinha vindo do norte, Saul tinha vindo do sul. Naquela cidade, todos vinham do norte, do sul, do centro, do leste — e com isso quero dizer que esse detalhe não os tornaria especialmente diferentes. Mas no deserto em volta, todos os outros tinham referenciais, uma mulher, um tio, uma mãe, um amante. Eles não tinham ninguém naquela cidade — de certa forma, também em nenhuma outra —, a não ser a si próprios. Diria também que não tinham nada, mas não seria inteiramente verdadeiro.

Além do violão, Raul tinha um telefone alugado, um toca-discos com rádio e um sabiá na gaiola, chamado Carlos Gardel. Saul, uma televisão colorida com imagem fantasma, cadernos de desenho, vidros de tinta nanquim e um livro com reproduções de Van Gogh. Na parede do quarto de pensão, uma outra reprodução de Van Gogh: aquele quarto com a cadeira de palhinha parecendo torta, a cama estreita, as tábuas do assoalho, colocado na parede em frente à cama. Deitado, Saul tinha às vezes a impressão de que o quadro era um espelho refletindo, quase fotograficamente, o próprio quarto, ausente apenas ele mesmo. Quase sempre, era nessas ocasiões que desenhava.

Caio Fernando Abreu

Excerto do conto Aqueles dois, do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu.


Um sabiá laranjeira em liberdade

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Teseu, ao telefone (David Mourão-Ferreira)

Fotografia de Paula Walker

TESEU, AO TELEFONE

Labirinto de néon e de vento,
noite por estas ruas, sob a chuva...
Na cabina telefónica procuro,
entre milhares de fios, um somente.

Com seu corpo de touro, a tempestade,
com seu rosto de gente, a tentação,
já nas esquinas lóbregas travaram,
comigo, corpo-a-corpo, tal combate

que somente encontrando aquele fio,
o da voz de Ariana, poderei
reconduzir-me inteiro ao meu destino.

E através deste círculo de números
vou tentando o acesso ao parapeito
- que daqui se não vê, porque está escuro.

David Mourão-Ferreira