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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Joaquim Manuel Magalhães - “Chego onde fui novo um dia...”

 



Chego onde fui novo um dia.
As cidades pertencem à cal velha,
às paredes com nomes indeléveis.
A nós não, nem às árvores que morrem.

Tenho frio.
Alguns poetas visitam-me,
ouço-os com os olhos.
A inteligência está nas mãos,
digo-lhes, nenhum
iguala o que lhes peço.

De outro lado quem nos chama?


Joaquim Manuel Magalhães


De Envelope (1974), em Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987




(Fotografia de Marcio Meirelles)

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Joaquim Manuel Magalhães - Nada consentia




NADA CONSENTIA

Nada consentia ainda o nosso amor.
Eu punha sobre os teus ombros os meus braços
anulado da gente mais agreste
e descobria o riso ao pé do teu.

Era o que sou e sabia cantar-

te, queria que visses em redor
toda a cinza a que tu não pertencias.
Tu vias. Eu cantava. Era o amor.

Joaquim Manuel Magalhães 


Lido no blogue Canal de poesia



(Fotografia de Patricia Chumillas)


quarta-feira, 1 de abril de 2020

Joaquim Manuel Magalhães - “Juntamos toros e gravetos...”

O arder do tempo - Américo Meira


Juntamos toros e gravetos
para a lareira. Na mata
flutua o crepúsculo.
Marcos de luz a findar.

Vagas de zimbro, escórias
o arpão do esquecimento.
A súbita melancolia da casa.

As janelas abrem para o rio
e a barra e a ilha com névoa.
Podias ser tu de céu a céu.

A inquieta certeza da poesia
não admite questões. Descobre-se
ao virar da vinha, quando chegamos
ao tanque e não há ninguém.

Joaquim Manuel Magalhães


Uma luz com um toldo vermelho. Editorial Presença, 1990



sexta-feira, 7 de junho de 2019

Para o Ruy Belo (Joaquim Manuel Magalhães)

O poeta Ruy Belo (1933 - 1978)


Duas versões de um mesmo poema de Joaquim Manuel Magalhães: a publicada originalmente em segredos, sebes, aluviões, e a reescrita anos depois, como fez com grande parte da sua obra já publicada. Essas novas versões são consideradas definitivas por Magalhães.



PARA O RUY BELO

1.

Levanto-me para a cruz de claridade da janela.
Vejo afastar-se ao nevoeiro o corpo.
Pelo mais improvável dos caminhos
a natureza responde-me:
dentre os ramos das flores caídas.


A esperança de sobreviver ao inverno que vem
estende-me na areia deste verão mortal.
Uma rajada de cinza bate no crepúsculo
contra os rubros nimbos sobre um lago.


2.

Não sei bem quem morre quando morrem os mortos.
Os guizos dos outros voltados sobre nós
apostam se valemos bastante a despedida.
As supostas mágoas somam dividendos
aos tempos vários e felizes em que permanecemos.
A morte somos nós a calcular a palmo
o choro organizado e o que vamos fingir a seguir.
O nosso punhal sobrevivente dispara
que também somos, que bom, grandes face ao que morreu.
Na putice das letras morre-se sempre a jeito
para a momentânea maior glória dos vivos.


In segredos, sebes, aluviões. Presença, 1981.

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PARA O RUY BELO

1.

Levanto-me para a cruz de claridade da janela.
Vejo afastar-se ao nevoeiro o corpo.
Pelos mais improváveis dos caminhos
a natureza responde-me:
dentre os ramos das flores caídas
a ironia da sombra sobre o peito deitado.

A esperança de sobreviver ao inverno que vem
estende-me ao sol de areia deste verão mortal.
Uma asa de cinza corre no crepúsculo
branca e difícil contra os rubros
nimbos abatidos sobre o mar.


2.

Não sei bem quem morre quando morrem os mortos.
Os olhares dos outros voltados sobre nós
apostam se valemos bastante a despedida.
As supostas mágoas somam dividendos
aos tempos vários e felizes em que permanecemos.
A morte somos nós a calcular a palmo
o choro organizado e o que vamos fingir a seguir.
O nosso revólver sobrevivente dispara
que também somos, que bom, grandes face ao que morreu.
Na putice das letras morre-se sempre a jeitoh
para a momentânea maior glória dos vivos.


Texto no blogue O melhor amigo




domingo, 1 de novembro de 2015

Columbário (Joaquim Manuel Magalhães)

Fotografia de Ángel Valencia



COLUMBÁRIO

Cada ano que passa traz-me a lenha.
São já muitos quando a camioneta chega
com as três ou quatro toneladas de mistura.
Assim chama às várias espécies derribadas
que chegam para cada Inverno que lhe pago.
Agora já digo ao Sr. Antunes: mais um ano.
E ele ignora-me. Que se gasta a lenha
mas é um conforto. Que é um pecado lamentar.
Com o seu santo na medalha pendurado
nem lhe digo que também por cada ano,
mais que a lenha, ardemos e ardemos.

Jardins abertos. Em várias ruas
ao longo do anoitecer
distinguia-se quem lançava rápidos sinais
e para um outro lado nos dispunha.
Ainda nem eram precisos bares.
Um autocarro, o metro, qualquer mesa
de um café
ensinava-nos o caminho de elevadores,
as janelas de onde se via,
depois,
a cidade adormecida.

Um holofote amarelo contra o quarto que me alberga,
toda a noite uma sobreluz de hotel que demolia
as tentativas de sono detrás do tempo sem blackout.
Só na segunda noite me lembrei de pendurar
edredões das sanefas e o escuro me recuperou.
Ouvia no rádio postos que não sei que transmitiam,
de vez em quando devia cair no torpor dos barbitúricos
que nenhum efeito tinham já. O ar
abafado e seco pelas tubagens que não desligavam,
as pernas entumesciam com as alergias cutâneas
debaixo de tecidos talhados com acrílicos.

Atira os troncos cortados contra a parede
da arrecadação, os pequenos toros caem
com um baque, tropeçam uns nos outros,
julgamos que repousam.
Mas depois vamos buscá-los para a segunda morte,
além da árvore donde os abateram
e nunca mais um pássaro lhes cantará.
Também vai às outras árvores que me serra,
algumas quase rente ao chão. Fazem
sombra de mais, começam a ficar
secas e com musgo. Parece que tudo
fica límpido quando tombam e as leva
para um sumidouro que não sei.

Nesse tempo o receio era tão pouco.
Bastava estar atento ao mover dos olhos,
à qualidade do sorriso, e todos éramos
a grata euforia da entrega,
a ejaculação que parecia nunca mais findar.
Sempre outro corpo mais
connosco seguiria. Jardins abertos.
Chuveiros com o mais forte abraço,
um odor diferente em cada alegria.
Talvez nos julgassem clandestinos
mas não findavam
as viagens súbitas para um novo leito.

A noite despeja-me na noite, semi acordado,
semi adormecido, num entre estado sem nome,
como devem estar
os cães encostados aos sem abrigo nos recantos
com os faróis contínuos do trânsito nocturno.
Levanto-me no rumor de todos os ares condicionados
atirados do hotel para o seu saguão, e lembro
a moto-serra do Sr. Antunes a desbravar o jardim fechado,
a deitar por terra o vento que batia nos ramos,
ficava tudo coalhado de um serrim pacífico
e os arbustos atrofiados pela capa sombria
logo se sentiam reerguer, alargar,
ao contrário desta noite que pesa cada vez mais.
Horas abauladas, procuro fugir-lhes no terror
das imagens nocturnas que numa outra luz
podem subor ao cérebro para despedaçá-lo.

Mais tarde haverá novos rebentos, demoram algum tempo,
vou-os arrancando a um por um
nos sítios onde não quero que mais nada cresça.
Outros sobem de novo cada vez mais alto, marcam
com os seus dias os meus dias
num sem retorno que também sou eu.

Depois nem já clandestinos.
A música dos novos bares
atenuava um pouco
a pretérita euforia das ruas.
Pareciam barcas donde se ouvia
clamores,
a corrente fulgurava entre a sombra
de cada corpo
e da margem acenavam-nos
com caminhos felizes
que podiam ser logo abandonados.
Ninguém já perseguia?
Um clarão fulminante
cruzava o céu de cada peito.

O terreiro agora ficou sem os ramos
piores, os de folhagem que enlameia a relva,
partiu a camioneta tão enchida
desses sítios que já tiveram ninhos
que só com muitas aselhas nos cordames
se consegue rebaixar, pequenos braços
vigorosos, resistem, não querem
enterrar-se uns pelos outros, procuram
permanecer, divago eu, como nós
ao deus inútil tanta vez pedimos.
Mas depois da nuvem de gasóleo da partida
logo me recolho e penso que na felicidade
é que julgamos inútil o que nos ajuda.

Mesmo assim os sonhos do passado morto
(morto, alguma vez morre tudo aquilo?)
um por um vêm e calcam com a sua verdade inteira,
pesistem nos pequenos rolos de cérebro derramado,
seguem a sua astuta reconstituição, da infância
para cima, de mais tarde para baixo,
até conspurcarem todo o terreno parado do presente,
sem ameaça, só com a certeza do que não volta atrás,
do que ficou definitivamente assim.
A lenha precisa ainda de secar, repetia o Sr. Antunes,
durante um ano, são árvores de seiva matreira, todas
feitas para a falsidade, abrem um oco dentro da copa,
só na extremidade fazem bolas de verdura opaca,
fingem ser paisagem, amarelecem verdes ainda,
morrem sem dor, com uma longuíssima resignação,
tão longa que parece apenas um esquecimento.

Jardins abertos. Ninguém
os atravessa agora. Bares para o aturdimento
de músicas. Tudo passou a história.
Hoje há o cuidado. E se o amor
ultrapassa o prazer, restam
os testes e as suas repetições.
Só quis lembrar esta barra de fogo
apagada.
A vã duração do tempo.

Escrevo estes versos de memórias
alheado já.
Cada palavra mistura-se com todas.
Mas lembra-te que pensei sempre,
leitor, jardim aberto,
de algum modo em ti.
Deixa estar por uns segundos contigo
estas histórias. Dá-lhes
algum cuidado. Havia o Sr. Antunes. Pode ser
que voltes um dia a ter um tempo
para de novo te sentares com elas.
Dei-lhes o meu pensamento ameaçado
por um holofote tenaz.
Se encontrares nisso algo que te sirva
recorda-o no teu espírito
mesmo que nada se possa repetir.

Eu digo para mim que é esta
a utilidade da poesia,
a lembrança.
E que podes ainda, se parecem vãos
todos os meus efeitos,
largá-la de ti e haver proveito
em não seguires comigo todos os caminhos
onde ressoam passos do meu precipício.

Joaquim Manuel Magalhães

Alta Noite em Alta Fraga (2001)




terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Era de inverno em Vila Real..." (Joaquim Manuel Magalhães)

 Vila Real sob a neve (Fotografia de Carlos Correia Neto)


Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo de vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesas indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.

Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do ceú.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar a neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás-de lembrar.

Joaquim Manuel Magalhães