POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Grande Sertão: Veredas (João Guimarães Rosa)


– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte.

João Guimarães Rosa

Início do seu grande romance Grande Sertão: Veredas (1956)


"O Sertão tá dentro da gente"
Fotografia de Jurandir Lima



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Projecto (Rui Costa)

  Fotografia de Rodrigo Uriartt


PROJECTO 

Fernando comprou um livro de poesia com oitocentas páginas
mas só conseguiu ler quinhentas

António sonhou com o Evereste na magnitude
mas só precisava de mudar uma lâmpada

Rita imaginou um poema para Fernando
mas só tinha que aceitar o jantar de quinta

A lâmpada pensou que era um poema
e fundiu-se sem iluminar a sala

Luís aproveitou a escuridão da sala
para dizer a Rita um poema com montanhas

Trezentas páginas que nunca foram lidas
arquitectam com a lâmpada a salvação do mundo

Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Dava pelo nome muito estrangeiro..." (Herberto Helder)



OS ANIMAIS CARNÍVOROS

I

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz – difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.

Herberto Helder
Do seu livro Poesia Toda (1979)



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Antigamente era (Agostinho Neto)



ANTIGAMENTE ERA

Antigamente era o eu-proscrito
Antigamente era a pele escura-noite do mundo
Antigamente era o canto rindo lamentos
Antigamente era o espírito simples e bom

Outrora tudo era tristeza
Antigamente era tudo sonho de criança

A pele o espírito o canto o choro
eram como a papaia refrescante
para aquele viajante
cujo nome vem nos livros para meninos

Mas dei um passo
ergui os olhos e soltei um grito
que foi ecoar nas mais distantes terras do mundo

Harlem
Pekim
Barcelona
Paris
Nas florestas escondidas do Novo Mundo

E a pele
o espírito
o canto
o choro
brilham como gumes prateados

Crescem
belos e irresistíveis
como o mais belo sol do mais belo dia da Vida.

(1951)

Agostinho Neto


Agostinho Neto (1922 — 1979) foi um médico angolano, que em 1975 se tornou o primeiro presidente de Angola até 1979. Foi também poeta e aqui podem ler mais versos e sobre a poesia dele: