Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

E tudo era possível (Ruy Belo)



E TUDO ERA POSSÍVEL 

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio o não sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

(27 de fevereiro de 1933, São João da Ribeira - 8 de agosto de 1978, Queluz)


Homem de Palavra(s) (1ª edição, 1969)

Alguns dados em  escritas.org


Voz de Elizabete Caramelo



À memória de Ruy Belo (Eugénio de Andrade)


Embora este poema de Eugénio de Andrade foi escrito depois da morte de Ruy Belo em Queluz a 8 de agosto de 1978, recordamos que o poeta nasceu num dia como hoje de 1933, há oitenta e cinco anos.


À MEMÓRIA DE RUY BELO

Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis do império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

Eugénio de Andrade


Do seu livro Epitáfios (1974 - 1979)



Mário Viegas lê o poema





segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

"Discretamente. Cultivar a palavra..." (Ana Luísa Amaral)

Antonio López García, La mesa (1971-1980)


Discretamente. Cultivar a palavra.
Arte de dispor flores por longa mesa,
prazer de dispor quadros por paredes
em critério de escolha pessoal

Discretamente: aqui uma pequena
haste a lembrar o sol, ali a folha
resolvendo o lugar, o espaço certo
(ligeiro afastamento necessário

para o conjunto articulado em cores).
O quadro mais azul naquele sítio,
o mais cinzento e largo a distrair-se

sobre a nudez de uma parede clara.
Discretamente. E a palavra nascida
De tela (ou terra) resolvida. Agora.

Ana Luísa Amaral


De Nossa Senhora de Quê (1990), o seu primeiro livro.


Ana Luísa Amaral, lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo, de Badajoz, no dia 15 de março.



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Memórias de um Craque (Fernando Assis Pacheco)



Memórias de um Craque. 30 crónicas de Fernando Assis Pacheco gravadas por Nuno Moura para a BOCA (www.boca.pt). A edição (livro+2 CDs) inclui fotografias inéditas e textos de Mário Zambujal, José Carlos Vasconcelos, Nuno Costa Santos e Nuno Moura. O arranjo gráfico é de Pedro Serpa, a gravação e edição de Oriana Alves e a mistura e masterização de António J. Martins.

(2016)









segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Depois das 7 (António Reis)



DEPOIS DAS 7

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis,

Poemas Quotidianos


António Reis (Valadares, 1927 — Lisboa, 1991) foi um cineasta e poeta português que se distingue pelo sentido poético da sua obra (ver filmografia). É um dos representantes no filme documentário do movimento do Novo Cinema, que explora as técnicas do cinema directo. Com contemporâneos seus, usando esses meios, empenha-se na prática da etnografia de salvaguarda.

(Wikipédia)



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Ana Luísa Amaral diz um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Já lemos aqui este poema de Sophia de Mello e o ouvimos na voz da atriz Rita Loureiro. Hoje é a poeta e escritora Ana Luísa Amaral que o lê. Ela estará connosco na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo no dia 15 de março


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA
SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

Nunca mais
a tua face será pura limpa e viva,
nem teu andar como onda fugitiva
se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
do teu ser. Em breve a podridão
beberá os teus olhos e os teus ossos
tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
sempre,
porque eu amei como se fossem eternos
a glória, a luz e o brilho do teu ser,
amei-te em verdade e transparência
e nem sequer me resta a tua ausência,
és um rosto de nojo e negação
e eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.

Sophia de Mello Breyner Andresen 



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Não: não digas nada!" (Fernando Pessoa)

Fotografia de Will Burgdorf




Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada : sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa



Quem ora soubesse (Luís de Camões)

Camões por Júlio Pomar



Quem ora soubesse
Onde o Amor nasce,
Que o semeasse!

De Amor e seus danos
Me fiz lavrador;
Semeava Amor
E colhia enganos;
Não vi, em meus anos,
Homem que apanhasse
O que semeasse.

Vi terra florida
De lindos abrolhos,
Lindos pera os olhos,
Duros pera a vida;
Mas a rês perdida
Que tal erva pasce
Em forte hora nasce.

Com tanto perdi,
Trabalhava em vão:
Se semeei grão,
Grã dor colhi.
Amor nunca vi
Que muito durasse,
Que não magoasse.

Luís de Camões



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

"Neste carnaval da vida..."



1

Neste carnaval da vida,
Anda a malta divertida,
Com a máscara que lhe convém.
Uns disfarçam-se em anjinhos,
Outros fingem ser ceguinhos,
Para que tudo corra bem.


2

Tudo canta tudo dança,
Há serpentinas de esp’rança,
E no meio dos foliões
Há fadas e há piratas,
Os chamados magnatas,
E os engravatados burlões.


3

E ao som do acordeão,
Rebola-se a corrupção,
Numa salsa de alegria.
Há Pierrots, há coristas,
Há palhaços e há fadistas,
E assim vai o dia-a-dia.


4

Há doutores e há banqueiros,
Malabaristas e enfermeiros,
Músicos e contorcionistas.
Pode não haver dinheiro,
Mas o povo que é ordeiro,
Sorri para dar nas vistas.


5

Mas a máscara mais caricata,
Para a qual é preciso lata,
É de Rafael Bordalo Pinheiro.
E entregue à sua sorte,
O Zé-Povo é bobo da corte
Sempre alegre e brejeiro.


O Seringador
Reportório crítico-jocoso e prognóstico diário para 2017 (e 152º ano da sua publicação)


(Ilustração: Paródia de Carnaval, gravura, meados do século XIX, Lisboa - Arquivo Municipal de Lisboa - M. Teixeira Gomes)




quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"Ler Mais, Ler Melhor" - Livros da vida de Ana Luisa Amaral



"Ler Mais, Ler Melhor" - Livros da vida de Ana Luisa Amaral, Emily Dickinson, O Rei Lear, de William Shakespeare, Canções de Inocência e de Experiência, de William Blake.



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Perguntas à Língua Portuguesa (Mia Couto)



Perguntas à Língua Portuguesa

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.

A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.

Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.

Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.

Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.

No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.

Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?

Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:

Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?

No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?

A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?

O mato desconhecido é que é o anonimato?

O pequeno viaduto é um abreviaduto?

Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?

Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?

Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?

Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?

O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?

Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?

Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?

Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?

Mulher desdentada pode usar fio dental?

A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?

As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?

Um tufão pequeno: um tufinho?

O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?

Em águas doces alguém se pode salpicar?

Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?

Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?

Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?

Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?

Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.

Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.

11.04.1997


Mia Couto  (moçambicano)




quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Trégua (Adélia Prado)

Adélia Prado



TRÉGUA

Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.

Adélia Prado

 


Adélia Prado nasceu a 13 de dezembro de 1935 em Divinópolis, estado de Minas Gerais.