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terça-feira, 28 de julho de 2026

Rui Knopfli - Lembranças do futuro

 



LEMBRANÇAS DO FUTURO

Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.

O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:

só os poetas têm lembranças do futuro.


Rui Knopfli


Mangas Verdes com Sal (1969)



(Fotografia de CésarAugusto V. R. - Em tempo alheio, 2009)


segunda-feira, 16 de março de 2026

Reinaldo Ferreira - “Contente nunca estou; feliz não sei…”




Contente nunca estou; feliz não sei
Se existe alguém ou neste mundo ou noutro mundo.
Vou para o Nada, sou do Nada oriundo,
E entre dois Nadas desventura é Lei

Da cobarde esperança emancipei
A previsão do meu destino imundo.
Sou consciente do mal em que me afundo,
E consciente do mal continuarei.

Nem revolta me fica, apenas pressa
De me tornar por fim parada peça
No cósmico rolar nefasto e louco.

Depois quero dormir um sono enorme...
Que para uma aflição que nunca dorme,
A Morte, temo bem que seja pouco.

Reinaldo Ferreira




segunda-feira, 2 de março de 2026

Rui Knopfli - Certidão de óbito

 



CERTIDÃO DE ÓBITO

Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.

Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.

Rui Knopfli


Máquina de areia, 1964




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Sublinhado a lápis: Mia Couto

 


Caminhava para lá onde o espaço sobrava.

Mia Couto



“A mancha”, in Cronicando, Caminho, 7ª edição





(Fotografia de Rosino, Entre Mutuáli e Gurué, Moçambique, 2009)


sábado, 1 de novembro de 2025

Eduardo White - Há vezes em que nem é a morte que se teme


 

HÁ VEZES EM QUE NEM É A MORTE QUE SE TEME

Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.

Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.

E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.

Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.

Eduardo White




(Fotografia de DrkrainboW)


domingo, 4 de maio de 2025

Rui Knopfli - Telegrama

 


TELEGRAMA

Ao longo destes anos todos
nada temos dito - meia dúzia
de palavras trocadas para o ofício
difícil da vida diária
e quantas delas proferidas com azedume.
Não te roubou, a brancura dos cabelos,
a doçura que nos teus olhos mais
se acentua.
        Mãe,
este silêncio anda cheio de ternura.

Rui Knopfli


Mangas Verdes com Sal (1969)



(Fotografia de Amélia Monteiro - Mãos, 2014)

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Rui Knopfli - Frutos do mar (A morte em família)

 

5. Frutos do mar

Uma dúzia de ostras geladas
e café grego. Envelheço.
Ignoro se virei a usar
as calças arregaçadas em baixo
em fim de tarde por praias
agrestes. Bebo o café em golos
curtos, demorados, roubando
ao tempo, o que o tempo
não dá. Outra vez menino
enfrento, aos ombros de meu pai,
a carneirada mansa das ondas.
Mas meu pai partiu
e receando, sòzinho, o mar
entrincheiro-me sobre as ostras
e a espessura do café grego
no canto mais obscuro do botequim.

Rui Knopfli


De “A morte em família” [poema em cinco partes], in Mangas Verdes com Sal (1969)




segunda-feira, 15 de julho de 2024

Mia Couto - Sazonais eternidades

 



SAZONAIS ETERNIDADES

Abres-me, janela,
e antigas memórias
me salpicam o rosto,
chuvas ainda por desabar.

Escancaradas portadas,
devolvem-me o corpo,
esse mesmo corpo
que, para febre e desejo,
em outro corpo acendi.

Abres-me, saudade
e o tempo se descalça
pra atravessar
incandescentes brasas.

e quando,
de novo, me encerras
volto a dormir
como dormem os rios
em véspera de serem água.

A saudade
é o que ficou
do que nunca fomos.

Mia Couto


Tradutor de chuvas (2011)



(Fotografia de Carlos Reis - Janela, Maputo)


segunda-feira, 4 de março de 2024

Rui Knopfli - Progresso

 


PROGRESSO

Estamos nus como os gregos na Acrópole
e o sol que nos mira também os fitou.
Mas fazemos amor de relógio no pulso.

Rui Knopfli


De O Passo Trocado, em Mangas Verdes com Sal (1969)




(Fotografía de Natalie Goes - Acropolis, 2011)



quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Rui Knopfli - Invernal




INVERNAL

Corre já um arrepio pela crista
de Novembro. A imprevisível surpresa
da luz de inverno é a sua agressiva
doçura horizontal. Toma-se de frio

o ombro esquerdo, a moinha persistente
espreitando o coração cansado.
Subo devagar o Mall e a luz
fere-me os olhos frontalmente, filtrada,

fina e branca, quase paralela ao solo,
como em África nunca aconteceria.
Perpendicular, fita-me de frente,
rasante ao chão como se lhe pedisse

que, por fim, me receba. Novembro,
agora pressago, Novembro, agora
sobre o ombro esquerdo, baixando,
insidioso, sobre o lado dito fatal.

Rui Knopfli



(Fotografia de Tracey Tann)

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Noémia de Sousa - Súplica


SÚPLICA 

Tirem-nos tudo,
mas deixem-nos a música!

Tirem-nos a terra em que nascemos,
onde crescemos
e onde descobrimos pela primeira vez
que o mundo é assim:
um labirinto de xadrez…

Tirem-nos a luz do sol que nos aquece,
a tua lírica de xingombela
nas noites mulatas
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota ̶ humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor de lume
(que nos é quase tudo)
̶ mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
levar-nos
para longes terras,
vender-nos como mercadoria,
acorrentar-nos
à terra, do sol à lua e da lua ao sol,
mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!
Que onde estiver nossa canção
mesmo escravos, senhores seremos;
e mesmo mortos, viveremos.
E no nosso lamento escravo
estará a terra onde nascemos,
a luz do nosso sol,
a lua dos xingombelas,
o calor do lume,
a palhota onde vivemos,
a machamba que nos dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
ainda que cadeias nos pés
e azorrague no dorso…
E o nosso queixume
será uma libertação
derramada em nosso canto!
̶ Por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
Tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a música!

Noémia de Sousa




(Na fotografia, a cantora moçambicana Lenna Bahule)

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Rui Knopfli - Mangas verdes com sal

 



MANGAS VERDES COM SAL

Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.

Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido, na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.

Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo, à boca ardida,
à crista do tempo,ao meio da vida.

Rui Knopfli


Mangas verdes com sal (1969)




Capa e ilustração de António Quadros (1933-1994)


segunda-feira, 27 de março de 2023

Paulina Chiziane




A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo mas volta á superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada...


************


Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar: A vida é uma grande dança.

Paulina Chiziane

(Manjacaze, 1955)


"Os anjos de Deus são brancos até hoje", entrevista a Paulina Chiziane (Buala)




segunda-feira, 20 de março de 2023

Rui Knopfli - Baldio


BALDIO

O menino que eu fui debruça-se furtivo
de meus olhos sobre o recanto da paisagem.
Entre a dureza austera dos prédios
e o largo sorriso colorido das vidraças
aquele recanto que sobrou da paisagem
pertence intacto ao menino que eu fui outrora
e o menino que eu fui outrora desce
alvoraçado de meus olhos, desliza
entre o capim, atira pedras aos galagalas
e salta sobre as velhas folhas de zinco
apodrecido, num cenário querido de girassóis
antigos. Então parto dali
e o menino que fui regressa extenuado
e adormece na sombra de meus olhos.

Rui Knopfli


Mangas Verdes com Sal (1969)



(Fotografia de Nuno Ramos, Galagala, Ponta de Ouro, Moçambique)



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Andrea Paes - Tenho saudades




TENHO SAUDADES

Tenho saudades
do tempo em que
o mundo era pequeno.

Era só ali.

E eu cabia nos ramos
das acácias

e não sabia do longe que existia.

Só do perto
que sentia.

Andrea Paes



(Fotografia de zug55 - Cabaceira Grande, Moçambique)



segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Reinaldo Ferreira - Receita para fazer um herói




RECEITA PARA FAZER UM HERÓI

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Ferreira




(Fotografia de Léo Eloy)


segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Paulina Chiziane




Celebro o amor e a vida. Danço sobre a vida e a morte. Danço sobre a tristeza e a solidão. Piso para o fundo da terra todos os males que me torturaram. A dança liberta a mente das preocupações do momento. A dança é uma prece. Na dança celebro a vida enquanto aguardo a morte. Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar. A vida é uma grande dança.

Paulina Chiziane






(Fotografia de Luca Gargano, Moçambique, 2008)


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Rui Knopfli - Sem nada de meu

Rui Knopfli



SEM NADA DE MEU

Dei-me inteiro. Os outros
fazem o mundo (ou crêem
que fazem). Eu sento-me
na cancela, sem nada
de meu e tenho um sorriso
triste e uma gota
de ternura branda no olhar.
Dei-me inteiro. Sobram-me
coração, vísceras e um corpo.
Com isso vou vivendo.

Rui Knopfli


Mangas Verdes com Sal (1969)



sábado, 31 de julho de 2021

Rui Knopfli - Ilha dourada



ILHA DOURADA

A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio
As gentes calam na
voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da "Amizade"
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento
 
Rui Knopfli


E para além dos versos, este brevo texto do próprio Knopfli:

Ter-se nascido ou vivido em Moçambique é uma doenca incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuínamente portugueses mascara-se a doenca, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo.

 
(Fotografia de António Alfarroba: Um adeus português, Ilha de Moçambique)


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Rui Knopfli - Estrada

 

Na estrada para Cobue, Moçambique. Fotografía de Carlos Reis


ESTRADA

Súbito apercebo-me:
Segue a viagem dos anos.
Passou o tempo das amoras
e das laranjas furtadas,
a flor da chuva de ouro
para sugar o gostinho a açúcar.

Sonho com uma comprida paisagem de cedros
que nunca vi.
Apetece-me deixar o corpo adormecido
junto ao rádio
e ir passear pelos galhos das árvores
e sobre os fios telefónicos.

Nada feito,
pesada de agruras e desertos
segue a viagem dos anos.

Rui Knopfli


O País dos Outros (1959)