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sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Manoel de Barros - Autorretrato falado



AUTORRETRATO FALADO

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto como que desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros


VIDEO_POEMA #36 em cinepovero2009:

Manoel de Barros (1916-2014) “Autorretrato falado” in «O Livro das Ignorãças», 1993 Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001



segunda-feira, 5 de maio de 2025

Manoel de Barros - Infância

 



INFÂNCIA

Coração preto gravado no muro amarelo.
A chuva fina pingando... pingando das árvores...
Um regador de bruços no canteiro.

Barquinhos de papel na água suja das sarjetas...
Baú de folha de flandres da avó no quarto de dormir.
Réstias de luz no capote preto do pai.
Maça verde no prato.

Um peixe de azebre morrendo... morrendo, em dezembro.
E a tarde exibindo os seus
Girassóis aos bois.

Manoel de Barros


Fonte: "Poesia Completa", Editora Leya, 2010. Originalmente publicado em: "Poesias", 1947.




(Fotografia de José Carlos Filizola)


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Manuel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo



TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros



(Hoje é o décimo aniversário da morte de Manoel de Barros)


terça-feira, 28 de maio de 2024

Manoel de Barros - O apanhador de desperdícios




O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros



(Fotografia de Rosa Gambóias)








sábado, 18 de novembro de 2023

Maria Bethânia lê Manoel de Barros



(Trecho extraído do DVD Língua de Brincar, direção Lúcia Castello Branco e Gabriel Sanna):


Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.

Manoel de Barros




segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Manoel de Barros - Tributo a J.G. Rosa

Corruíra-do-campo, fotografia de Bertrando Campos
 
 
TRIBUTO A J.G. ROSA

Passarinho parou de cantar.
Essa é apenas uma informação.
Passarinho desapareceu de cantar.
Esse é um verso de J. G. Rosa.
Desapareceu de cantar é uma graça verbal.
Poesia é uma graça verbal.

Manuel de Barros

Tratado das grandezas do ínfimo (2001)


João Guimarães Rosa 



domingo, 13 de novembro de 2022

Manoel de Barros - O menino que ganhou um rio


 

O MENINO QUE GANHOU UM RIO

Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore deu flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava piraputanga.
Era verdade, mas o que nos unia demais eram os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!

Manoel de Barros



https://m.youtube.com/watch?v=GTVGan927Z8


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Manoel de Barros - A boca

© Monica Silveira

 

A BOCA

"Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri sede.

Agora penso
nessa abertura
com que por anos
me envenenaste,
com que por anos
a minha infância
tornaste impura,
tornaste indigna
de andar ao lado
de outras infâncias...
Agora penso
deixar na fenda
de tua boca,
dissimulada,
todo o veneno
de que me inundas.
Porém és morta
resignada,
ó boca amarga
de namorada
nunca atingida,
sempre ane
boca perdida
para as saudades,
jamais beijada.

Dorme entre flores.

(Será dos anjos?)

Vai para os anjos
vai para os pássaros
do firmamento,
ó boca amarga,
que me enganavas
com aquele riso
posto no canto!

Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri quanto.

Estás no seio
da morte, quente
como na terra;
me conturbavas
como na rua
tu exibias
teus belos dentes...

Vai, grota rasa!

Flor obscura
na minha infância
desabrochada,
continuada
na adolescência
perto de casa,
na vizinhança,
solta na rua
como uma fruta
covil aberto
de mil acenos,
cobra na rua
que me mordia,
que me injetava
sutis venenos...

Vai, pesadelo,
noites de insônia,
pura miragem
de minha sede;
vai para o diabo
que te carregue,
não me persiga:
sai, boca morta!"

Manoel de Barros


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Manoel de Barros - "No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates..."


Fotografia de Xavier Donat

 

No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.

Manoel de Barros numa carta a José Castello



quinta-feira, 16 de julho de 2020

Manoel de Barros - “No descomeço era o verbo...”

Fotografia de Luis A. Florit


No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros





segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas / leituras..." (Manoel de Barros)

(*)

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

Manoel de Barros

VI poema de O Livro das Ignorãças

Notas
Bugre, s.m.: denominação dada a indígenas de diversos grupos do Brasil por serem considerados não cristãos pelos europeus.

Ariticum é um nome indígena que vem do Tupi e significa 'fruta mole'. Nativo dos cerrados brasileiros, sua distribuição é descontínua, aparecendo nos campos abertos, como no cerrado e cerradão onde a vegetação é mais densa. Pode ser encontrado em Goiás, Tocantins, no estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul. A árvore do ariticum cresce até 10 metros e possui tronco tortuoso de 20 a 40 cm de diâmetro.

Conhecida popularmente por Pinha, Ariticum, Araticum, Embira, araticum-cagão-macho, cortiça-amarela, araticum-do-morro, araticum-grande, pasmada-do-mato, a Rollinia sylvatica é uma árvore que, quando adulta, atinge o porte de 6,8 m de altura.


(*) Manoel de Barros (1916-2014) “Mundo pequeno, VII” in «O Livro das Ignorãças», 1993. Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001 Música: Virgina Astley, “With my eyes wide open I'm dreaming” in «From Gardens Where We Feel Secure», 1983


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A virgindade das palavras (Manoel de Barros)

Fotografia de Gogliardo Maragno


A VIRGINDADE DAS PALAVRAS

Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens.

Se for para tirar gosto poético vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichés. Subverter a sintaxe até à castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.

O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injectar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas isso é tão antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.

Se você prende uma água, ela escapará pelas frinchas. Se você tirar de um ser a liberdade, ele escapará por metáforas. No internato, longe de casa, eu não sabia o que fazer e fiz um aparelho de ser inútil. E comecei a brincar com ele. Um padre disse: - Não presta para nada; há-de ser poeta!

20/06/1997

Manoel de Barros



A fotografia de Gogliardo Maragno vai acompanhada dos três últimos versos deste poema de Manoel de Barros, que pertence a “Caderno de Apontamentos”, uma das partes do livro Concerto a céu aberto para solos de aves (1991)

 XIII.

Certas palavras têm ardimentos; outras, não.
A palavra jacaré fere a voz.
É como descer arranhando pelas escarpas de um
serrote.
É nome com verdasco de lodo no couro.
Além disso é agríope (que tem olho
medonho).
Já a palavra garça tem para nós um
sombreamento de silêncios…
E o azul seleciona ela!


Um jacaré


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema (Manoel de Barros)



Manoel de Barros (1916 - 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade

(Wikipédia)






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

"O mundo meu é pequeno, Senhor..." (Manoel de Barros)



O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Seu olho exagera o azul.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore .
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

Manoel de Barros




sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Difícil fotografar o silêncio (Manoel de Barros)




O poeta brasileiro Manoel de Barros faleceu a 13 de novembro de 2014 e lembramo-nos dele com estes versos que podemos ouvir depois na voz de Antônio Abujamra


Difícil fotografar o silêncio

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski -- seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros



Declama Antônio Abujamra




sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O último poema de Manoel de Barros




Hoje, o poeta brasileiro Manoel de Barros teria completado 98 anos, mas faleceu no passado dia 13 de novembro. Foi-se embora mas ficam as suas palavras.

No blogue de poesia Poemblog lemos este "seu último poema". Com ele, despedimo-nos até ao regresso às aulas no próximo mês de janeiro.

Boas Festas com os versos deste poeta brasileiro.


A TURMA

A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens.
Bernardo conversava pedrinhas com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços
beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.

Manoel de Barros
(1916 - 2014)




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Adeus a Manoel de Barros




O poeta brasileiro Manoel de Barros faleceu recentemente em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, no passado dia 13 de novembro. Tinha 97 anos e a 19 de dezembro teria completado 98 anos. Queríamos publicar versos dele aqui nesse dia do seu aniversário (e vamos publicar). É hoje, com pena, que trazemos este excerto de um documentário e uns versos. Ouvimos a voz dele. Adeus, Manoel de Barros, o Pantanal é seu para sempre! Nós continuaremos a ler seus poemas.

"O documentário, gravado no pantanal sul-mato-grossense, aborda a trajetória da vida e da obra do poeta Manoel de Barros, num exercício compartilhado entre o documentarista e o próprio poeta. Nele, um andarilho percorre os lugares onde o poeta nasceu e ainda vive. Ao longo da jornada, o andarilho tem encontros com outros personagens criados por Manoel de Barros. Direção: Arlindo Fernandez Co-produção: Arlindo Fernandez de Almeida / Leader Vídeo-Produtora Ltda TVE Regional-MS / Fundação Padre Anchieta - TV Cultura"




AGROVAL

Por vezes, nas proximidades dos brejos ressecos,
Quando as águas
Encurtam nos brejos, a arraia escolhe
Uma terra propícia,
Pousa sobre ela como um disco, abre
Abre com suas asas uma cama,
Faz chão úbere por baixo, e se
Enterra.

Por baixo de suas abas lateja um
Agroval de vermes, cascudos, girinos
E tantas espécies de insetos e
Parasitas, que procuram o sítio como
Ventre.
E a cabo de três meses de trocas e
Infusões,
A chuva começa a descer...e a arraia
Vai levantar-se.
Seu corpo deu sangue e bebeu.
Na carne ainda está embutido o fedor
De um carrapato.

É a pura inauguração de um outro
Universo.






Revista Bula: Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros






Despedida desde Portugal ao poeta brasileiro


ENCOMENDAÇÃO

Deus é uma grande aranha, pensou
manoel de barros. E agarrou um dos
fios da sua teia para subir, com
todo o cuidado de um tecedor
de palavras, até ao infinito. «E

onde está o deus que fabricou
tudo isto?», perguntou ao chegar
à floresta que nasce no cume
dos sonhos. E um dos pavões,
de sílabas coloridas com as tintas
vermelhas e roxas do crepúsculo,
respondeu: «Deus vive na rede
dos teus versos.» E abriu a sua
cauda onde as cores da madrugada
reflectiam, como num espelho
de ouro poliédrico, o rosto de deus.

Nuno Júdice

14-11-2014

Poema inédito cedido pela Casa da América Latina


(Fonte)


quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Manoel de Barros faz 97 anos

Cartoon de André Costa


O poeta brasileiro Manoel de Barros faz hoje 97 anos. Desejamos-lhe um ótimo dia, enquanto neste reino maravilhoso continuamos a ler os seus versos.


O PUNHAL

Eu vi uma cigarra atravessada pelo sol – como se um punhal atravessasse o corpo.
Um menino foi, chegou perto da cigarra, e disse que ela nem gemia.
Verifiquei com os meus olhos que o punhal estava atolado no corpo da cigarra
E que ela nem gemia!
Fotografei essa metáfora.
Ao fundo da foto aparece o punhal em brasa.

Manoel de Barros


Poesia Completa (Manoel de Barros). Editorial Caminho, Lisboa, 2010.


Poemas concebidos sem pecado, blogue em homenagem do poeta de Cuiabá.


Manoel de Barros na Wikipédia.





sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Poesia é voar fora da asa" (Manoel de Barros)

Manoel de Barros (Cuiabá, 1916)

Apenas um verso do poeta brasileiro Manoel de Barros, um fraco deste blogue. Podemos lê-lo no seu livro O Livro das Ignorãças:


Poesia é voar fora da asa.