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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria do Rosário Pedreira - "Dorme, meu amor, que o mundo já viu..."



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira


O canto no vento dos ciprestes, 2001, Gótica.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Maria do Rosário Pedreira - “Que guardarão de mim…?

 



Que guardarão de mim as casas que
deixei? O pó sobre o meu nome?

Maria do Rosário Pedreira


Nenhum nome depois (2014)




(Fotografia de Marina Alfaya, Elos, 2009)


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Maria do Rosário Pedreira - "Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram..."

Os amantes (1928), de René Magritte



                                                                                                para J.G.

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos

desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

Maria do Rosário Pedreira


Do seu livro A Casa e o Cheiro dos Livros (1996)





quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Maria do Rosário Pedreira - Língua madrasta



LÍNGUA MADRASTA

À procura de umas fotografias antigas em casa da minha mãe, fui dar com um desses caderninhos de significados em que escrevíamos, do lado esquerdo, uma palavra que não conhecíamos e, do direito (depois de consultarmos o dicionário ou perguntarmos a um adulto), um sinónimo ou a respectiva definição. E, tendo em conta que na capa estava escrito "3.ª Classe" a tinta permanente, fiquei admirada com o número de palavras lá registadas que hoje seriam consideradas difíceis para uma catraia de 8 anos: animosidade, baeta, comezinho, ícone, ninharia... De facto, desde que as novas tecnologias ditaram uma mudança de paradigma - e sobretudo por falta de leitura, mas também pela informalidade que se imprimiu à comunicação -, os jovens usam um léxico extremamente reduzido e estão cada vez mais longe de dominar a língua materna.

Não falo exclusivamente de Portugal. Na Nova Zelândia, num exame nacional de História realizado em Novembro passado, pedia-se aos alunos que comentassem a afirmação de Júlio César de que os acontecimentos importantes resultam muitas vezes de causas insignificantes ("Events of importance are often the result of trivial causes"). Ora, quando saíram as notas, eram inusitadamente baixas; e houve uma onda de indignação por parte dos estudantes até se concluir que a maioria (e estamos a falar de pré-universitários) não sabia o que queria dizer "trivial" ou, pelo menos, não conhecia o seu significado naquele contexto. (Um caderninho com a definição de "comezinho" e "ninharia" talvez os tivesse ajudado, mas julgo tratar-se de um instrumento pedagógico fora de moda.)

Se dantes praticamente só era mau aluno a História quem não pegava num livro, actualmente já não é bem assim, uma vez que o desconhecimento da língua afecta de forma decisiva a compreensão de qualquer matéria, incluindo as que, à primeira vista, dispensam a palavra. A este respeito, contaram-me, de resto, uma história curiosa. Num teste de Matemática, o enunciado de um problema começava assim: "Num aviário, os ovos são embalados em caixas de seis." Mal acabou de ler a frase, um dos alunos levantou-se para ir perguntar à professora: "De seis quê?" E, achando que o rapaz nem se dera ao trabalho de ler a frase com atenção, a senhora mandou-o para o lugar com uma resposta brincalhona: "De lagartixas, que havia de ser?" Porém, nos cinquenta minutos seguintes, acabou-se-lhe o sentido de humor: é que houve mais oito alunos a perguntar a mesmíssima coisa. Adeus, futuro.

Maria do Rosário Pedreira

Publicada no Diário de Notícias (30 de março de 2019)


(Fotografia de Marcos Ferreira da Silva)



terça-feira, 8 de março de 2022

Maria do Rosário Pedreira - "Chegam cedo demais..."

Paulo Moreira recita o poema de Maria do Rosário Pedreira


Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde - uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

Maria do Rosário Pedreira


O Canto do Vento nos Cipestres (2001)




segunda-feira, 27 de abril de 2020

Maria do Rosário Pedreira - “As meninas, sentadas sobre o muro...”

Fotografia de Robert Jackson


As meninas, sentadas sobre o muro,
trazem as mãos para a roda dos vestidos:
resguardam-se do vento e, sem saber,
escondem o corpo puro da violência do
amor. Têm boquinhas frescas e vermelhas,
mas nos seus lábios arrepiados de segredos
não pousaram ainda os nomes que as
levarão ao escândalo e à loucura. Nós

já fomos assim; já passamos as mãos
pelo nada dos sentidos e pousámos beijos nas
paisagens. E agora encosta-nos o vento
ao cansaço dos muros e conhecemos apenas
línguas mortas – nomes que, se buscarmos,
teimam em chegar cada vez menos.

Maria do Rosário Pedreira


A Ideia do Fim, livro inédito incluído em Poesia Reunida (2012)



segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Pai, dizem-me que ainda te chamo..." (Maria do Rosário Pedreira)

Fotografia de Aurélio Vasques

No próximo dia 4 de abril, Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo e será apresentada por alunos da nossa escola.


Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira

Nenhum Nome Depois (2004)


Aqui, "Mãe, eu quero ir-me embora..."



segunda-feira, 25 de março de 2019

"Mãe, eu quero ir-me embora..." (Maria do Rosário Pedreira)


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

In O Canto do Vento nos Ciprestes (2001)


En lyrikline.org podemos ouvir a autora ler este poema.





sexta-feira, 15 de março de 2019

'Poesia reunida' de Maria do Rosário Pedreira (2012)


Programa Ler Mais, Ler Melhor sobre a publicação de Poesia reunida, de Maria do Rosário Pedreira (2012).

Recordamos que Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos em Badajoz no próximo 4 de abril. Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo.




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Propriedade da Língua (Maria do Rosário Pedreira)



PROPRIEDADE DA LÍNGUA

Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias (23-11-2015)




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Em queda (Maria do Rosário Pedreira)


EM QUEDA

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem). Depois de, na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma agente literária alemã me ter dito que a Alemanha (a Alemanha?) perdeu seis milhões de leitores em quatro anos, ouço agora um testemunho do professor responsável pelo mestrado em Edição na Sorbonne num podcast do site da revista profissional Livres Hebdo e fico de boca aberta: a França teve a sua maior queda de vendas de livros dos últimos dez anos – 45 milhões de exemplares em 2018 contra 54 milhões em 2017. A França, que foi sempre o símbolo do país livre e educado a que aspirávamos (sobretudo, antes do 25 de Abril) está em declínio há já muitos anos (por isso já tão pouca gente aprende francês), mas os resultados da Frente Nacional de Marine Le Pen de há uns tempos para cá e as mais recentes manifestações dos coletes amarelos mostram bem que as coisas vão pior do que gostaríamos. E, sem leitura, a tendência é mesmo para bater no fundo…

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias (13-02-2019)



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher



Chegam cedo demais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escreve,
cartas mais tarde ― uma ou duas para se aliviarem dessa espada.
E nós fiamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.

Maria do Rosário Pedreira






segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

"Adeus, futuro": Poesia e cifrões (Maria do Rosário Pedreira)





"Adeus, futuro": Poesia e cifrões

Os meus pais quase nunca cantavam (o meu pai até dizia que só conhecia duas músicas: o hino e as outras); mas, em compensação, sabiam de cor dezenas de textos - e é, portanto, plausível que me tenham embalado com poemas (mesmo quando eu não passava de um embrião).

O bicho da literatura mordeu-me cedo e, por isso, aprendi a ler e escrever com uma febre que não pus em mais nada o resto da vida: fui sempre um zero a Matemática, nunca tracei duas paralelas que não se encontrassem, sou uma nódoa (literalmente) na cozinha, só passei no exame de condução com 40 anos e mesmo nas coisas do amor fui bastante trôpega, só conseguindo que alguém se casasse comigo aos 45 (a minha poesia, aliás, fala muito disto).

Da aprendizagem da leitura guardo, porém, recordações muito vivas, como a da primeira frase que li em voz alta numa aula («Pela vila vai movimento desusado»), de um texto intitulado «Tourada à vara larga» (hoje decerto banido de qualquer manual escolar), num livro de capa verde que dizia nas costas «Ó Pedro, que é do Livro de Capa Verde que te deu o Avô a guardar?» e estava cheiinho de poemas (quase todos de João de Deus).

Além de aos meus pais, devo, pois, à escola primária a minha escrita mais bonita - e não estou a falar de caligrafia (embora não me esqueça daquele calo azul por causa da caneta de tinta permanente), mas de aprender a dar música e emprestar imagens às palavras, o que se revelou de extrema utilidade quando, por ser a última da ninhada e nunca ter tempo de antena, fiz umas quadras que impressionaram os adultos e os levaram a conceder-me um nadinha mais de atenção. (Mal eu sabia que inaugurava então a minha carreira nas letras.)

Hoje contam-me que a poesia é um bicho-de-sete-cabeças para qualquer estudante, mesmo no Secundário. Recentemente, um professor pediu-me que fosse explicar aos seus alunos do 11.o ano que a poesia não é nenhum papão. Tentei, juro. Mostrei-lhes como se podia dizer uma coisa banalíssima com a máxima beleza e, vendo-os sem reacção, avancei com o golpe baixo de que um poema até serve para seduzir ou, em caso de tampa, lamber feridas, lendo vários exemplos com o cuidado de evitar a palavra «seios», que habitualmente dá azo a risinhos. A seguir, passei-lhes a bola: que perguntassem o que lhes apetecesse. Pois só quiseram saber quanto se ganhava com a poesia, se o trabalho que se tinha a encontrar rimas compensava e porque não passava eu a escrever em inglês, podendo assim vender livros em todo o mundo e receber mais dinheiro. Adeus, futuro.

Maria do Rosário Pedreira

Editora e escritora, escreve de acordo com a antiga ortografia.


Publicado no Diário de Notícias no dia 2 de outubro de 2018



Nota. nódoa (Infopédia) 3. coloquial pessoa que não sabe nada ou é incompetente.




sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Adeus, futuro: "copy-paste" (Maria do Rosário Pedreira)



Adeus, futuro: "copy-paste"

Trabalhei alguns anos numa editora que, além de publicar livros para o mercado tradicional, produzia, para vender nos quiosques, obras enciclopédicas em pequenos volumes ou fascículos, escritas por uma equipa de jornalistas recém-licenciados. Um dia, o director pediu a uma das raparigas que lhe redigisse com rapidez um verbete de 15 linhas sobre João de Deus, urgência à qual ela correspondeu sem qualquer problema. Porém, quando o director foi ler o texto, era sobre o apóstolo favorito de Jesus... A autora explicou que fora ao Google e São João lhe aparecera no topo das opções. Depois fizera copy-paste e... asneira.

Além da ignorância generalizada (e às vezes arrogante, o que é mais perigoso, porque a vergonha de não saber sempre levou as pessoas a procurarem informação), hoje muitos dos jovens não sabem, pura e simplesmente, pesquisar: não entram numa biblioteca e, se abrirem um livro ou dois, já é uma sorte. Está aí para quem a queira consultar a maravilhosa Wikipédia e portanto, mesmo sabendo que o que circula na internet nem sempre é fiável, para quê levantar o rabo da cadeira? E o pior é que as escolas também não ensinam os alunos a desconfiar e a comparar informações, aceitando inclusivamente os seus trabalhos cuspidos de uma impressora em vez de manuscritos (e, assim, como ter a certeza de que foram eles a fazê-los?).

Conta numa entrevista a escritora Alice Vieira (que já correu as escolas do país a falar dos seus livros) que uma professora lhe pediu que ouvisse os alunos lerem umas biografias suas que tinham preparado. E a coisa não andou muito mal até que um "rapaz já crescidote" se referiu à autora de Rosa, Minha Irmã Rosa como natural de Braga (e ela é alfacinha), mãe solteira de cinco filhos, a trabalhar numa banca de peixe e - pasme-se! - cega de nascença... Enfim, Alice Vieira perguntou ao autor de semelhante dislate se achava que aquela descrição correspondia à pessoa que tinha à sua frente, ao que o rapaz respondeu que se limitara a copiar o que estava na net. (Na verdade, confundira a escritora com uma antiga dirigente da ACAPO, Maria Alice Vieira Gomes da Silva.) Mas o mais grave nem foi o facto de este erro se ter repetido em outras escolas, foi Alice Vieira ter perguntado à professora porque não tinha corrigido aquele conjunto de disparates e ela lhe ter respondido que não tivera coragem porque o rapaz, coitadinho, tinha tido tanto trabalho. Com o copy-paste? Adeus, futuro.

Maria do Rosário Pedreira

Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.


Publicada no Diário de Notícias no dia 4 de novembro de 2018



segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Dois poemas de Maria do Rosário Pedreira

Fotografia de Aurélio Vasques

Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos na Aula de Poesia Díez-Canedo da nossa cidade no dia 4 de abril do próximo ano, e na parte da manhã será apresentada por alunos da nossa escola.

Alguns dados biográficos, retirados da Infopédia, em cujo link podem ler completos:

Escritora portuguesa, Maria do Rosário Pedreira nasceu em 1959, em Lisboa. Fez os estudos superiores na Universidade Clássica de Lisboa, onde se licenciou, em 1981, em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Franceses e Ingleses. Fez ainda o curso de Língua e Cultura do Instituto de Cultura, em Portugal. Como bolseira do governo italiano, esteve em Perugia a frequentar um curso de verão, na Universidade. Foi também aluna do Goethe Institut.



ARTE POÉTICA

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena – que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão – por onde eu
bebo o mundo, em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
aonde nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira

in Revista Relâmpago nº 22





Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.





segunda-feira, 29 de outubro de 2018

"Adeus, futuro": um clássico (Maria do Rosário Pedreira)



"Adeus, futuro": um clássico

Ao dobrar a esquina de uma rua da infância, havia uma papelaria que desempenhava também as funções de livraria e loja de brinquedos. Era ali que, quando eu estava doente, a minha mãe me comprava umas bonecas de papel com guarda-roupa para recortar (Barbies a duas dimensões) e uns livros com desenhos que ganhavam cores quando se passava um pincel molhado pelas respectivas páginas.

As duas pessoas que atendiam ao balcão estavam tão familiarizadas com a cola Cisne, os guaches Pelikan, o papel Cavalinho e umas borrachas muito ásperas a milhas de cheirarem a morango como com o Ford Anglia em miniatura que faltava na colecção de Dinky Toys do meu irmão ou o escafandro do Action Man que acabara de chegar; e, quando a minha avó, na vizinhança de um aniversário, lhes perguntava por um livro que fosse bom para um rapazinho de 9 anos, também não tinham hesitações em aconselhar um dos volumes daquela colecção de biografias com capa dura que incluía Lincoln, Pasteur, Marie Curie e muitas outras personalidades. Mesmo não se tratando de gente de letras, as pessoas que então vendiam livros sabiam, regra geral, o que estavam a vender.

Já eu era estudante universitária, e de letras, quando tive de responder a um apertado inquérito sobre as minhas leituras numa livraria-galeria das Avenidas Novas para conseguir trazer para casa Comunidade, de Luiz Pacheco. Ao que parece, era o último exemplar que existia na loja, e o livreiro decidira que só o venderia a quem o merecesse (ufa!). Mas essa atenção informada deteriorou-se muito com a industrialização da edição e a substituição das livrarias independentes por hipermercados e cadeias de lojas despersonalizadas. Hoje em dia, não é assim tão raro termos de soletrar o nome de um autor (mesmo conhecido) para o funcionário da livraria o introduzir no computador e nos dizer se, afinal, tem ou não o livro que procuramos. E a ignorância grassa: um dia destes, mandaram-me procurar Octavio Paz na estante dos autores portugueses (lá soar soa) e há uns tempos, numa livraria do centro da capital, um senhor ao meu lado perguntou à funcionária se tinha alguma coisa de Charles Dickens e a reacção imediata dela foi: "Isso é o quê?"

Ainda apalermado com a pergunta, o cliente lá replicou: "Ó minha senhora, é um clássico." E, diante daquela explicação, a rapariga apontou então uma mesa próxima e disse-lhe: "Procure ali." Não resisti a ver o que havia na mesa: Sófocles, Ovídio, Lucrécio, Platão... Adeus, futuro.

Maria do Rosário Pedreira

Editora e escritora, escreve de acordo com a antiga ortografia.


Publicada no Diário de Notícias no dia 21 de outubro de 2018