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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Fernando Pessoa - Ó sino da minha aldeia


Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

s. d.

Fernando Pessoa



Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 93. 1ª publ. in Renascença. Lisboa: Fev. 1924.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Andrea Paes - Tenho saudades




TENHO SAUDADES

Tenho saudades
do tempo em que
o mundo era pequeno.

Era só ali.

E eu cabia nos ramos
das acácias

e não sabia do longe que existia.

Só do perto
que sentia.

Andrea Paes



(Fotografia de zug55 - Cabaceira Grande, Moçambique)



segunda-feira, 28 de março de 2022

Gilka Machado - Saudade

Fotografia de Gianni A.F.


SAUDADE

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?

Gilka Machado

(Velha poesia, 1965)



quinta-feira, 18 de março de 2021

Vitorino Nemésio - “Tenho uma saudade tão braba..."

Ilha Terceira, Acores - © Viaje-Comigo


Tenho uma saudade tão braba
Da ilha onde já não moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
Há-de decidir se posso
Morrer lá com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz «Seja feita»
Eu sentirei na garganta
A mão da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Vitorino Nemésio


Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga (2003) - Póstumo


A palavra brabo no dicionário Priberam

"Bravo ou brabo" (Dúvidas de Português)




quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Cecília Meireles - Da saudade



DA SAUDADE

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como “delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem , como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

Cecília Meireles



segunda-feira, 13 de abril de 2020

José Craveirinha - Jacarandás da saudade

Jacarandá em flor em Moçambique (Foto de Patrícia Caldeira)


JACARANDÁS DE SAUDADE

Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.

Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.

...

Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.

Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria.

José Craveirinha



suruma
[Moçambique] folhas de cânhamo utilizadas para fumar, marijuana.
Do maconde chirima, «idem»


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os portugueses não gostam que os brasileiros falem português (Marco Neves)


Este artigo de Mário Neves foi publicado a 8 de dezembro de 2013 em Medium:


Os portugueses não gostam que os brasileiros falem português
Pronto, estou a exagerar. Mas às vezes parece!

Há poucas horas encontrei um post num grupo do Facebook sobre tradução em que uma tradutora portuguesa partilhava um post duma empresa de tradução brasileira, afirmando-se insultada.

O que dizia o tal post? Simplesmente isto (atentem no insulto):

“Saudade”, uma palavra genuinamente brasileira.

O autor brasileiro é bem capaz de ficar a coçar a cabeça… “Mas que disse eu de errado?” Por que razão se sentiu a tradutora portuguesa insultada por esta declaração tão inócua?

Os comentários ao post são também curiosos. Houve quem acusasse o autor de ignorância ou de querer afirmar que “saudade” é uma palavra de origem brasileira, etc. A indignação foi muita, a surpresa de qualquer brasileiro que por ali parasse seria maior ainda.

Tentei argumentar um pouco, dizendo que erro seria dizer que “saudade” é uma palavra “exclusivamente” brasileira. No entanto, muito do que disse caiu em saco roto. A frase era incomodativa para muitos, e houve quem lembrasse, out of the blue, o acordo ortográfico, que é a bête noire dos portugueses no que toca à língua portuguesa. Tudo por causa duma palavra que não pode ser genuinamente brasileira! Nem pensar!

Mas que raio?…

Ora bem, o que se passou foi o seguinte (digo eu—que posso estar errado):

1. O autor brasileiro estava a falar duma palavra da sua língua, que é uma palavra que sente como genuína dessa língua (portuguesa) e da sua cultura (brasileira) e é, portanto, uma palavra genuinamente brasileira.

2. Os portugueses que comentaram a frase fazem uma outra associação. Desde pequenos ouvem dizer que “saudade” é uma palavra portuguesa, o que é obviamente verdade. Ouvem também dizer que é uma palavra que só existe em português e da qual devemos ter orgulho. Sendo o nome da língua indistinto do adjectivo que nos caracteriza enquanto povo, não fazemos convenientemente a distinção entre o que é uma palavra em português e uma palavra portuguesa. Se dizemos que “saudade” só existe em português, no nosso íntimo associamo-la, em exclusivo, à cultura portuguesa. Ouvir um brasileiro dizer que é uma palavra genuinamente brasileira enche-nos de estranheza, de confusão—e consideramos a coisa quase tão insultuosa como um espanhol dizer que a “saudade” é genuinamente espanhola.

Para destrinçarmos toda esta confusão, convém atentarmos na palavra “português”. Esta palavra tem vários significados, entre eles:

1. (n.) pessoa com nacionalidade portuguesa.
2. (n.) língua românica oficial em oito países.
3. (adj.) relativo a Portugal e aos portugueses [tal como “brasileiro” significa “relativo ao Brasil e aos brasileiros”].
4. (adj.) relativo ao português e à língua portuguesa [falada por portugueses, brasileiros, angolanos, etc.].

O brasileiro que escreveu a frase sabe distinguir entre os vários significados. Há, claro, uma associação entre todos, mas não deixam de ser significados separados. Um brasileiro pode dizer, sem qualquer dificuldade, que uma palavra é portuguesa, no sentido 4., sem querer com isso dizer que não é brasileira. Pode ainda dizer que uma palavra é brasileira (no sentido de “relativa aos brasileiros e ao Brasil”) sem deixar de defender que é portuguesa (no sentido 4.). “Saudade”, para um brasileiro, é uma palavra portuguesa (“em português”) e brasileira (“relativa ao Brasil e aos brasileiros”).

Já para um português, os sentidos estão misturados. Achamos que uma palavra portuguesa [4.] (=“em português”) é sempre uma palavra acima de tudo portuguesa [3.] (=“relativa aos portugueses”). Para nós, “saudade” é uma palavra portuguesa e, por isso, pertence, acima de tudo, aos portugueses e a Portugal. Ficamos irritados quando os brasileiros dizem que essa mesma palavra é também muito brasileira.

Claro que isto não faz sentido: se acharmos que os brasileiros só podem chamar genuinamente brasileiras as palavras que não sejam partilhadas com os portugueses, estaríamos a dizer que, no fundo, falam uma língua estrangeira desde a nascença e que pouco há de genuinamente brasileiro. E que os americanos também falam uma língua estrangeira desde a nascença e pouco têm de genuíno. O mesmo diríamos dos escoceses, dos argentinos, dos belgas, dos suiços, etc.

Não faz sentido, mas é uma reacção imediata (“gut reaction”) genuinamente portuguesa... Está associada à forma como muitos portugueses dizem “brasileiro” para descrever a língua falada pelos brasileiros, como muitos portugueses ficam admirados quando um estrangeiro diz que aprendeu português mas desata a falar com sotaque brasileiro, como muitos portugueses dizem que existe um sotaque brasileiro mas não existe um sotaque português, etc. No fundo, muitos portugueses acham que os brasileiros falam uma língua emprestada e deviam ter respeitinho a quem lhes emprestou essa língua. (Alguns vão mais longe e acham que os brasileiros andaram a estragar a língua…)

Ora, para um brasileiro, a língua portuguesa é sua. Pode ser doutros também, incluindo os portugueses, mas é, indubitavelmente, sua. Que tenha um nome “estrangeiro” não importa muito. Sempre aprendeu português e sempre associou a língua portuguesa ao Brasil de forma tão íntima como os portugueses associam a língua portuguesa a Portugal. Um brasileiro não está constantamente a lembrar-se de que há uma ligação a outros países com a mesma língua, da mesma forma que os portugueses também não fazem essa associação sempre que falam da língua portuguesa. Para um brasileiro, uma palavra em português é, por definição, uma palavra brasileira, porque o português é a língua dos brasileiros. Claro como água—mas estranhíssimo, e até ofensivo, para ouvidos portugueses.

Para os portugueses a língua portuguesa é acima de tudo portuguesa. Que os brasileiros a falem é um pormenor de somenos importância. E, atenção, dentro desta forma de pensar, os brasileiros deviam lembrar-se que falam uma língua dos portugueses sempre que se atrevem a falar de palavras da sua língua!

Confesso que este problema é um problema que tem consequências negativas acima de tudo para os portugueses, que assim revelam uma visão limitada e mais pobre da sua própria língua. Sim, fomos nós que pegámos num dialecto da zona do Minho (falado entre a Galiza e o Norte do que é hoje Portugal) e lhe demos estatuto de língua oficial. Fomos nós que desenvolvemos essa língua nos primeiros séculos—e fomos nós que pegámos nela e a levámos a outros locais, que assentámos arraiais no outro lado do Atlântico e nos misturámos com outras raças e culturas e criámos o Brasil—e por lá ficámos. Não se esqueçam que os brasileiros não importaram o português: os brasileiros são os descendentes dos portugueses que levaram o português até àquelas paragens.

E não se esqueçam que as línguas são de quem as fala, desde a nascença, conhecendo o sabor particular que cada palavra tem na língua de cada um, um sabor que muda de lugar para lugar, de época para época, mas que não é propriedade de ninguém. Porque o português é mesmo de todos nós— genuinamente de todos nós.

Marco Neves 

Gestor na Eurologos-Lisboa. Docente Universitário na FCSH/NOVA. Formador na área da tradução

Certas Palavras - Página de Marco Neves sobre línguas, livros e outras viagens


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Sazonais eternidades (Mia Couto)



SAZONAIS ETERNIDADES

Abres-me, janela,
e antigas memórias
me salpicam o rosto,
chuvas ainda por desabar.

Escancaradas portadas,
devolvem-me o corpo,
esse mesmo corpo
que, para febre e desejo,
em outro corpo acendi.

Abres-me, saudade
e o tempo se descalça
pra atravessar
incandescentes brasas.

E quando,
de novo, me encerras
volto a dormir
como dormem os rios
em véspera de serem água.

A saudade
é o que ficou
do que nunca fomos.

Mia Couto

Do seu livro Tradutor de chuvas (2011)


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Saudade (João Guimarães Rosa)



SAUDADE

Saudade de tudo!...

Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez ainha hoje espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano,
afogado no fundo de si mesmo...

 João Guimarães Rosa



segunda-feira, 20 de maio de 2019

Linha de rumo (Ruy Cinatti)

Fotografia de José Carlos Filizola


LINHA DE RUMO

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

Ruy Cinatti




sexta-feira, 17 de maio de 2019

Saudades (Florbela Espanca)

Florbela Espanca


SAUDADES

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?...
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

 Livro de Sóror Saudade (1923). V. Wikipédia sobre este livro


Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de dezembro de 1930)

Artigo sobre a poeta e contista na Infopédia



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Manual de despedida para mulheres sensíveis (Filipa Leal)



MANUAL DE DESPEDIDAPARA MULHERES SENSÍVEIS

Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.

Filipa Leal