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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sermão de Quarta-feira de Cinzas (Padre António Vieira)



Eis um trecho do Sermão de Quarta-feira de Cinzas de Padre António Vieira:

Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.





quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sermão de Santo António (Padre António Vieira)




Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os credores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra.

Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós. Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus meis saturamini? (Job, 19): “Porque me perseguis tão desumanamente, vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?” Quereis ver um Job destes? Vede um homem desses que andam perseguidos de plei tos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, nã o o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

(...)

 Padre António Vieira

* * * * * * * * * * * * 

O "Sermão de Santo António aos Peixes" foi pregado no Maranhão, Brasil, em 13 de Junho de 1654, dia de anos de Santo António. Foi a metáfora utilizada pelo padre António Vieira contra a desumanidade com que os colonos portugueses tratavam os índios.

O sermão trata de um assunto intemporal: a variedade enorme de peixes que existem, o que fazem para se comerem uns aos outros e a sua ambição de poder.

No século XVI enquanto todos procuravam estrelas e planetas, o padre António Vieira procurou o mar para falar da espécie humana e do Brasil do seu tempo, onde os colonos escravizavam os nativos, e os homens se “devoravam uns aos outros”.

O “Sermão de Santo António aos Peixes”, inspirado em de Santo António de Lisboa, defensor dos pobres, é uma alegoria da alma humana, dos seus vícios e virtudes e, sobretudo, a defesa da humanidade nas relações entre os homens.

António Vieira, nasceu em Lisboa e partiu ainda criança para o Brasil. Estudou num colégio de jesuítas, tornando-se um aluno brilhante. Ingressou na Ordem de Jesus, foi professor de retórica e ordenou-se sacerdote. Foi diplomata e missionário.

Neto de avó africana, o padre António Vieira manifestou um grande interesse pela diversidade humana, seus hábitos e línguas e ficou conhecido junto das tribos como “Pai Grande”, por defender os índios e os escravos.

Numa época em que os pregadores concentravam em si todas as atenções e os sermões tinham um peso mediático na sociedade, o padre António Vieira notabilizou-se pelos seus sermões e pela sua capacidade retórica; foi «um imperador da língua portuguesa», como o chamou Fernando Pessoa.

Ensina RTP



segunda-feira, 4 de março de 2013

"O amor fino não há-de ter porquê nem para quê..." (Padre António Vieira)



O amor fino não há-de ter porquê nem para quê.
Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo.
Pois como há-de ser o amor para ser fino?
Amo porque amo e para amar.

Padre António Vieira



Padre António Vieira foi um notável prosador e o mais conhecido orador religioso português, o Padre António Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, filho primogénito de um modesto casal burguês, e faleceu na Baía em 1697. Quando tinha apenas seis anos, os seus pais mudaram-se para a Baía, no Brasil, tendo aí iniciado os seus estudos. 

(Infopédia) 


Padre António Vieira em Sal terrae.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Uma citação de Padre António Vieira



Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer o mundo.

Sermão de Santo António, Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, 1670, § IV

Padre António Vieira (1608-1697), religioso, filósofo, escritor e orador português da Companhia de Jesus.