POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um Natal nunca se esquece (Francisco Louçã)



 UM NATAL NUNCA SE ESQUECE

Talvez o Natal seja um dos dias mais felizes das nossas infâncias. Havia nele um encantamento que os nossos aniversários não têm, porque nestes pesa a responsabilidade: em contrapartida, por ser de todos e não só dela, o Natal de uma criança tem uma aura leve de magia, de lenda, de animação vermelha e dourada, de decoração festiva (o que são as bolas nas árvores?), de cheiros de pinheiros (onde estão agora os cheiros dos pinheiros?) e, sobretudo, de surpresa, que era sempre ansiosamente aguardada e vivida. Pela noite fora e pelo dia 25, o Natal era a espera dos presentes, o encontro da família – coisa que se vai fazendo rara – e o começo de um novo ano, porque era a 26, no arrumar da festa, que começava mesmo o ano novo.

Olhando para trás, olho para esses natais e revejo-os nas crianças que abrem os embrulhos ou que se sentam à mesa. Para uns, antes, e para outros, agora, o Natal foi talvez a primeira noção de festa comunitária que vivemos. E isso nunca se esquece.

Outras festas, noutros lugares, são mais alegres do que as nossas. As festas do Dia de Mortos, no México, ou, nas vésperas, o Halloween, nos Estados Unidos e por aí fora, são outro carnaval: as caveiras e os símbolos mais tétricos são disfarces de alegria e de fantasia, máscaras dentro de máscaras, religiões cruzadas entre as comemorações do calendário azteca e a mitologia cristã ou, no caso das tradições dos imigrantes para os Estados Unidos, sabe-se lá o quê mais. Iconoclastas, pagãos, religiosos, o caldeirão das culturas antigas faz a festa. Nós não temos nem essa alegria nem essa irreverência: a nossa é mais contida, mais caseira, mais mansa até. Talvez nas ruas se sinta mais o “White Christmas” do que a missa do galo, mas é certamente uma festa mais recatada. Só quem é ou foi criança pode então saber da imensa alegria que deve ser essa festa, porque é um saboroso segredo de cada um e portanto de todos.

E se as crianças são hoje a principal vítima da tristeza da austeridade, do empobrecimento empedernido, do isolamento e do silenciamento, dos cálculos sinistros das rendas financeiras, o Natal lembra que, mais do que a festa, há uma responsabilidade que todos partilhamos para com os nossos. Temos falhado demasiado para com eles. Merecem por isso não ser esquecidos, porque a infância precisa da sua festa e, se ela há-de ser no dia que a criança quiser, que seja também no dia 25.

Francisco Louçã


Lido no diário Público (27-12-2014)



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Com um grão de sal (Miguel Esteves Cardoso)




COM UM GRÃO DE SAL

Para quem gosta de sal, a noção de receber as coisas cum grano salis só as torna mais deliciosas. Um grão de sal – de preferência da flor do sal – faz muitas vezes a diferença entre um petisco apagado e outro dotado do sabor maravilhoso que só precisa de um grão de sal para se demonstrar, como um pavão precisa apenas da indiferença de uma pavoa para se abrir e lhe chamar a atenção.

Nunca fui a uma consoada. Não é um lamento nem um orgulho. Mas é – como sempre foi – um alívio. Tanto a minha mãe como o meu pai ensinaram-me (ou desviaram-me a pensar) que as famílias são perversões sanguíneas. Nem ele nem ela gostou dos pais que tiveram. Os amores e as fidelidades sanguíneas e genéticas, segundo os meus pais, eram estupidezes eugénicas que eram, para todos os efeitos práticos, nazis.

As consoadas também juntam membros familiares que, se não fosse o Natal, talvez não se juntassem. São unidos pelo mais verdadeiro (e pensado) dos amores. Mas não deixa de ser um frete para cada um.

Cada um vai à consoada pensando que faz o frete para bem daqueles que precisam daquela comparência. A verdade – democrática e humanitária – é que todos os que lá vão se sacrificam em nome de todos os outros que lá vão movidos pelos mesmos sacrifícios.

O grão de sal de cada movimento e de cada comparência é que as torna apetecíveis. Pensamos que as festas, por serem combinadas e previsíveis, vão ser sensaboronas. Mas não: temperam-nos, juntam-nos e dão-nos sal.

Miguel Esteves Cardoso 


Diário Público (24-12-2014)







sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O último poema de Manoel de Barros




Hoje, o poeta brasileiro Manoel de Barros teria completado 98 anos, mas faleceu no passado dia 13 de novembro. Foi-se embora mas ficam as suas palavras.

No blogue de poesia Poemblog lemos este "seu último poema". Com ele, despedimo-nos até ao regresso às aulas no próximo mês de janeiro.

Boas Festas com os versos deste poeta brasileiro.


A TURMA

A gente foi criado no ermo igual ser pedra.
Nossa voz tinha nível de fonte.
A gente passeava nas origens.
Bernardo conversava pedrinhas com as rãs de tarde.
Sebastião fez um martelo de pregar água na parede.
A gente não sabia botar comportamento
nas palavras.
Para nós obedecer a desordem das falas
infantis gerava mais poesia do que obedecer as regras gramaticais.
Bernardo fez um ferro de engomar gelo.
Eu gostava das águas indormidas.
A gente queria encontrar a raiz das palavras.
Vimos um afeto de aves no olhar de Bernardo.
Logo vimos um sapo com olhar de árvore!
Ele queria mudar a Natureza?
Vimos depois um lagarto de olhos garços
beijar as pernas da Manhã!
Ele queria mudar a Natureza?
Mas o que nós queríamos é que a nossa
palavra poemasse.

Manoel de Barros
(1916-2014)




terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Natal, e não Dezembro (David Mourão-Ferreira)

Av. António Augusto Aguiar, em Lisboa, sob a neve (1954)*



NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

De um livro de José Eduardo Agualusa



Lemos no livro Teoria Geral do Esquecimento, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, cujo título não nos deve enganar: é um romance e não um ensaio:


"Um homem com uma boa história é quase um rei"






terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Constrangimentos e vantagens de ter nascido numa ilha

A Rocha dos Bordões na Ilha das Flores (*)


Achei este interessante texto sobre a experiência de alguém que nasceu e cresceu numa ilha, nomeadamente a açoriana Ilha das Flores, num blogue cuja última mensagem foi publicada infelizmente em agosto de 2011: Luana - a Gabriela Silva das Flores. Lamento que assim fosse. Ficaria contente se alguém ler este artigo neste blogue, e daí passa para as outras mensagens de Luana - a Gabriela Silva das Flores.



CONSTRANGIMENTOS E VANTAGENS DE TER NASCIDO NUMA ILHA

Nasci na ilha das Flores no ano santo de 1950 por alturas do Pentecostes. Dada a formação religiosa da minha mãe e a matriz profundamente cristã do povo açoriano, era quase inevitável que me tenha baptizado com o nome de José do Espírito Santo. Algumas vizinhas, dadas a crendices e coisas de bruxas arrepiaram-se pois alguns anos atrás tinha-se enforcado um tal José do Espírito Santo, natural das Lajes e a invocação deste Santíssimo nome, em vez de lhes lembrar a Trindade Divina sempre lhes trazia à memória e recordação do suicida e temiam que sobre mim viessem a cair anátemas de perdições e desgraça. Mas com o passar dos anos a lembrança do enforcado foi-se diluindo e o meu nome impôs-se. Como o do meu primo Moisés e dos meus amigos Abraão, Agostinho, Jonas, Job e Noé, entre outros. Nesse tempo nascer numa ilha dos Açores implicava pois, a possibilidade de ter um nome bíblico o que, só por si já diz muito sobre o quotidiano da época. Quase diria que o tempo era mais marcado pelo calendário litúrgico do que pelo calendário gregoriano – Quaresma, Páscoa, Pentecostes, Advento, Natal, Tempo Comum, eram as coordenadas de uma vivência fortemente marcada pelo que se passava no interior dos templos. Fácil é inferir a raiz matricial sobre que assentavam as nossas vidas. Até à morte de Pio XII aquelas intermináveis missas em latim, o conceito de que quase tudo era pecado a enlutar-nos a alma e a consciência, a divulgação de um Deus severo e castigador e as ilustrações horríveis das chamas do Inferno dos velhos catecismos foram bastante castradoras a todos os níveis. Com a chegada de João XXIII à cadeira de Pedro, o Concílio Vaticano II e a entrada nos anos sessenta com Mary Quant cá fora “Where the action is” a inventar a mini-saia, com os novos ritmos como o twist e depois a revolução que foram os Beatles e o Movimento Hippie deu-se uma revolução de mentalidades, até mesmo dentro da Igreja. Os padres passaram a ter um discurso mais aberto, mais voltado para os jovens e Deus passou a ser mais humanizado. Mas as marcas das primeiras catequeses ficaram para sempre com tudo o que isso tem de mau, nomeadamente com a obsessão do pecado, do proibido, da transgressão sobretudo quando chegado à puberdade e à adolescência tanto sonhava com a criada como com generosos decotes de Sara Montiel e a sua voz quente e sensual a interpretar as violetas imperiais.

Para além dos constrangimentos ligados à religião e que já aflorei, muitos outros existiam na época.

As estradas dentro da ilha eram poucas e más tal como os meios de transporte. Só havia telefone até às 20 horas dentro da ilha e para fora da ilha só se podia comunicar por telegrama. De certo modo as crianças e os jovens só interagiam com outros da sua idade dentro do universo limitado da própria freguesia. Exceptuavam-se os “dias de vapor” que vinha de mês a mês (e mais tarde de 15 em 15 dias) e as omnipresentes festas religiosas.

As dificuldades para estudar eram imensas pois só em Santa Cruz havia um Externato onde se leccionava até ao 5º ano do Liceu mas das Lajes para lá não havia transportes e aí só lográvamos chegar ao 5º ano com explicações particulares de gente muito amiga e com muito sacrifício pessoal já que, pessoalmente, fiz caminhadas diárias a pé Fazenda-Lajes-Fazenda como quem faz uma via-sacra.

A estreiteza de horizontes, a visão redutora do mundo e das coisas, a dificuldade ou ausência de comunicações a vários níveis criou-me sobretudo um problema posterior e que foi a adaptação à cidade de Lisboa quando para lá fui estudar medicina em 1969. Basta dizer que só no hospital de Santa Maria circulam diariamente mais pessoas do que a ilha das Flores tinha naquele tempo. Mas essa minha dificuldade de adaptação que, agora entendo, se manifestou com muita ansiedade e agorafobia, radicava certamente em questões de temperamento e personalidade de base pois havia muito boieiro semi analfabeto das Flores que vinha a Lisboa acompanhar as vacas no navio e não regressava sem ter ido ver jogar o Benfica, ir ao Jardim Zoológico, ao Aquário Vasco da Gama e outras coisas mais. Fez-me sempre impressão como é que eles se “amanhavam”.

Mas se o nascer e viver nas Flores até aos dezanove anos (excepto o período dos dezassete aos dezanove em que frequentei o 3º ciclo na Horta) criou limitações e constrangimentos, a verdade é que a coisa também teve as suas vantagens ou, melhor dizendo, teve as suas coisas boas.

Apesar de o meu pai ser funcionário público eu inevitavelmente tive uma grande comunhão com as coisas da terra e do mar. Venho do tempo da caça à baleia. Assisti à ansiedade, gritos e imprecações dos vigias, ao lançar da bomba como sinal de “baleia à vista” e, no dia seguinte, via-as serem desmanchadas com golpes hábeis de sopão no meio de grande “pivete” enquanto lá em baixo, no mar pintado de vermelho, a sargalhada e pequenos esqualos repartiam as carnes do cetáceo. Dos pescadores fiquei a saber tudo sobre a faina e do mar ensinaram-me a adivinhar-lhe as fúrias, as ressacas e os remansos. Com os meus primos aprendi a ordenhar uma vaca, vi nascer bezerros e vi os bois fecundarem a vaca à moda antiga e não como agora, artificialmente com esperma conservado em azoto líquido. Com os meus tios aprendi a sangrar um porco, desmanchá-lo, conhecer-lhe a anatomia.

 Sozinho vagueando pelos campos com ratoeiras para apanhar tentilhões aprendi quase tudo sobre plantas e ervas, frutos e árvores, aromas e sabores. Com os amigos, tomávamos banho “em coiro” na ribeira sem sombra de pecado ou culpa e sem constrangimentos ou vergonha na exposição cândida dos corpos.

E depois havia uma coisa excelente que era a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian. E uma das formas que tínhamos para combater a pasmaceira da ilha era ler. Ler compulsivamente. Ainda por cima o senhor Luís facultava-me os livros “malditos” (os de cinta vermelha) antes de ter a idade que o Governo de Salazar determinava como razoável. Li Crime e Castigo de Dostoievsky cerca dos 14 anos, o Crime do Padre Amaro um pouco mais tarde mas também Stefan Zeig, Nikos Kazantzaki, Vitor Hugo, Balzac. Os clássicos portugueses todos e alguma poesia. Julgo que essas leituras formataram o meu gosto pela escrita e daí que, desde os quinze anos, escreva para vários jornais. Actualmente vivo em Castelo Branco e tenho uma página quinzenal no semanário Reconquista. Acho que o acto de escrever impôs-me uma disciplina e um domínio do português que me têm sido muito úteis na profissão de médico onde, frequentemente, temos que elaborar relatórios, dar pareceres, fazer conferências, etc. Acho sinceramente que se tivesse nascido numa grande cidade, não teria lido tanto. Ficar-me-ia certamente pelos compêndios da praxe e pelas leituras obrigatórias de acordo com os programas escolares.

Chegado aqui tenho dificuldade em saber se nos pratos da balança onde se pesam as vantagens e constrangimentos de nascer e viver numa ilha para que lado pende o prato. Mais difícil ainda se torna pensar como teria sido em Lisboa, Viseu ou Freixo de Espada à Cinta. Melhor? Pior? Só Deus sabe. Uma coisa é certa. Teria sido diferente. Inclino-me, porém, a acreditar que, tudo espremido, foi bom nascer e viver nas Flores. E sobretudo assistir às enormes transformações e progressos da  minha terra nos últimos trinta anos.

José do Espírito Santo Câmara de Freitas Silva

Castelo Branco-Julho de 2002


Publicado em Luana - a Gabriela Silva das Flores



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Mau tempo no canal (Vitorino Nemésio)

Ilha do Pico vista da Fajã Grande, Calheta, ilha de São Jorge.


Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro no encalço de uma senhora a galope:
Slowly! Let go him alone ...
Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma na barriga e sinal de sangue num ilhal. O de Margarida, enxuto, meteu a passo.
― Ah, não posso mais ... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale ...
― Largaste-te logo ... Eu bem te disse: prender e folgar ... prender e folgar ... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado. That’s dangerous! ...
Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia a sobrinha; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.
― Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalhado da charrette ...
― Quê? A égua de teu pai, o peru? ... Half-bred ... Já lhe disse que tem de vendê-la.
― Ah! Se o tio conseguisse! ...
― Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.
Margarida sorriu; mas mostrou-se reservada, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedra da Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal. Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes ... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.
Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos ... Vinte velas a arder diante do seu talher!
― Estás velha, hem? ...
― Velha, não; mas enfim ... o tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera! ...
― Viajar ou envelhecer?
― Talvez as duas coisas ...
Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.
... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta ... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente ... gaivotas ... sem ninguém.
O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.


Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, Lisboa, IN-CM,1999

(excerto do cap. IX)


Vitorino Nemésio (Praia da Vitória, 1901 — Lisboa, 1978) foi um poeta, escritor e intelectual de origem açoriana que se destacou como romancista, autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(Wikipédia)


A caminho do Corvo, um poema de Vitorino Nemésio.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Adeus a Manoel de Barros




O poeta brasileiro Manoel de Barros faleceu recentemente em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, no passado dia 13 de novembro. Tinha 97 anos e a 19 de dezembro teria completado 98 anos. Queríamos publicar versos dele aqui nesse dia do seu aniversário (e vamos publicar). É hoje, com pena, que trazemos este excerto de um documentário e uns versos. Ouvimos a voz dele. Adeus, Manoel de Barros, o Pantanal é seu para sempre! Nós continuaremos a ler seus poemas.

"O documentário, gravado no pantanal sul-mato-grossense, aborda a trajetória da vida e da obra do poeta Manoel de Barros, num exercício compartilhado entre o documentarista e o próprio poeta. Nele, um andarilho percorre os lugares onde o poeta nasceu e ainda vive. Ao longo da jornada, o andarilho tem encontros com outros personagens criados por Manoel de Barros. Direção: Arlindo Fernandez Co-produção: Arlindo Fernandez de Almeida / Leader Vídeo-Produtora Ltda TVE Regional-MS / Fundação Padre Anchieta - TV Cultura"




AGROVAL

Por vezes, nas proximidades dos brejos ressecos,
Quando as águas
Encurtam nos brejos, a arraia escolhe
Uma terra propícia,
Pousa sobre ela como um disco, abre
Abre com suas asas uma cama,
Faz chão úbere por baixo, e se
Enterra.

Por baixo de suas abas lateja um
Agroval de vermes, cascudos, girinos
E tantas espécies de insetos e
Parasitas, que procuram o sítio como
Ventre.
E a cabo de três meses de trocas e
Infusões,
A chuva começa a descer...e a arraia
Vai levantar-se.
Seu corpo deu sangue e bebeu.
Na carne ainda está embutido o fedor
De um carrapato.

É a pura inauguração de um outro
Universo.






Revista Bula: Os 10 melhores poemas de Manoel de Barros






Despedida desde Portugal ao poeta brasileiro


ENCOMENDAÇÃO

Deus é uma grande aranha, pensou
manoel de barros. E agarrou um dos
fios da sua teia para subir, com
todo o cuidado de um tecedor
de palavras, até ao infinito. «E

onde está o deus que fabricou
tudo isto?», perguntou ao chegar
à floresta que nasce no cume
dos sonhos. E um dos pavões,
de sílabas coloridas com as tintas
vermelhas e roxas do crepúsculo,
respondeu: «Deus vive na rede
dos teus versos.» E abriu a sua
cauda onde as cores da madrugada
reflectiam, como num espelho
de ouro poliédrico, o rosto de deus.

Nuno Júdice

14-11-2014

Poema inédito cedido pela Casa da América Latina


(Fonte)


domingo, 30 de novembro de 2014

Liberdade (Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa visto por nuvem



Fernando Pessoa morre em Lisboa no dia 30 de novembro de 1935.




LIBERDADE
(Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 








segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pastelaria (Mário Cesariny)




PASTELARIA

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tantas maneiras de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.

Mário Cesariny



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Porta-retrato (Caio Fernando Abreu)




PORTA-RETRATO

Tinha secado: esse era talvez o ponto. Não a palavra exata, que já não tinha essas pretensões, mas a mais próxima. Sabia pouco a respeito de árvores, ou sabia de um jeito não-científico, desses de tocar, cheirar e ver, mas imaginava que o processo interno de ressecamento começasse bem antes da morte aparecer no verde brilhante das folhas, na polpa dos frutos ou na casca do tronco. Não era evidente nem externo ou explícito o que padecia. E padecia? perguntava-se detalhando os traços com as pontas dos dedos, nada que revelasse na umidade da boca ou num contorno de nariz — uma dor? Não era assim. Gostaria de voltar atrás, com sentimentos curtos e claros feito frases sem orações intercaladas, iluminar aos poucos, um mineiro, uma lanterna, o poço fundo, uma linguagem? A unha batia contra o dente. Contatos assim: uma coisa definida chocando-se com outra definida também. E não só contatos, emoções, linguagens. Quase analfabeto de si mesmo, sem vocabulário suficiente para explicar-se sequer a um espelho. Não queria assim, esses turvos. Não queria assim, esses vagos. Sem nenhum humor. Sem nada que pulsasse mais forte que o frio cuidado com que desordenava-se, um gole disciplinado de vodca quando alguma corda do violino rebentava em plena sinfonia e, no meio do palco, impossível deter o acorde. Unicamente imagens assim lhe ocorriam, essa coisa das árvores, das gramáticas, das minas, dos concertos. Elegantemente, sempre. As luvas brancas, as longas pinças esterilizadas com que tocava sem tocar o todo, o tudo e o si. Um vício que lhe vinha quem sabe da mania de ouvir música erudita, mesmo enquanto apenas vivia, antes os fones nos ouvidos que os gritos na vizinhança. E por mais que afetasse um ar de quem lentamente cruza as pernas em público, puxando com cuidado as calças para que não amarrotassem, saberia sempre de sua própria farsa. Tão conscientemente falsa que sua inverdade era o que de mais real havia, e isso nem sequer era apenas um jogo de palavras. A grande mentira que ele era, era verdade. Ou: a mentira nele nunca fora fraude, mas essência. Seu segredo mais fundo e mais raso, daí quem sabe a surpresa branca de quando ouvira um quase-amigo dizer que não passava de uma personagem. Prometera-se sentimentos sem intercalados, mas sentia agora uma necessidade de explicar ao ninguém que superlotava sua constante platéia, com ele sempre fora assim: quase-amigos, nada de intimidades. Mas voltando atrás no ir adiante: uma surpresa quê. Não, não uma surpresa quê. Uma não-surpresa surpreendida, pois como e porque se fizera visível e dizível naquele momento o que nem sequer alguma vez escondera? Perdia-se, não eram teias. Nem labirintos. Fazia questão de esclarecer que sua maneira torcida não se tratava de estilo, mas uma profunda dificuldade de expressão. Por esse lado, quem sabe? As emoções e os pensamentos e as sensações e as memórias e tudo isso enfim que se contorce no mais de-dentro de uma pessoa — tinham ângulos? Havia lados mais como direi? Fragmentava-se: era os pedaços descosturados de uma colcha de retalhos. Pedia atenção aqui, por favor, mais por gestos, entonações ou simplesmente clima, e regirava: era os retalhos, um por um, não a colcha, ele. Desde o xadrez vermelho ao cetim roxo sem estampa, e assim por diante, todos. Quase parava de aborrecer-se então, como quem troca súbito uma peça para violino e cravo por um atabaque de candomblé. O leve tédio suspenso como poeira espanada logo voltava a desabar. O bocejo era a compreensão mais amarga que conseguia de si mesmo. E posto isso, cabia a seguir qualquer atitude desesperada como casar, tentar o suicídio, fazer psicoterapia ou um concurso para o Banco do Brasil. Localizava-se, mais fácil assim, dando nome às coisas. Um entusiasmo tênue como o gosto de uma alface. Isso, estar, ser. Uma vontade de interromper-se aqui, paladar estragado pelo excesso de cigarros tentando inutilmente dar um nome ao gosto que fugia entre os dentes. Em algum quarto, há muito não sabia de línguas no seu corpo, ou tão sabidas tinham se tornado que. Vacilava entre a certeza quase absoluta de estar alcançando qualquer coisa próxima de uma sabedoria inabalável, alta como um minarete, gelada como um iceberg — melhor assim: uma montanha de compreensão sem dor de todas as coisas. Ou, talvez o ponto, nem icebergs, nem minaretes — mas árvore. Inventava com os olhos no ar vazio à sua frente um verde copado de sumarentos frutos, como se diria num outro tempo, se é que alguma vez se disse, dizia sim, dizia agora, desavergonhado e frio. Verde copado de sumarentos frutos. Folhagem de seda lustrosa. Tronco pétreo ancestral. O seco invisível como verme instalado no de dentro. Impressentível, sob a casca, caminhando lento, questão de tempo, apenas, e semente contendo o galho crispado, mão de bruxa, roendo. Tinha dois olhos duros. Dois olhos grandes de quem vê muito, e não acha nada. Tinha secado, era certamente esse o ponto. Nunca a palavra exata, esclarecera de início. Já não tinha mais essas pretensões.


Caio Fernando Abreu


Caio Fernando Abreu (1948-1996) pode ser considerado um dos mais emblemáticos escritores brasileiros. As suas prosas, poesias e crônicas retrataram, ora com delicadeza ora com agressividade, as angústias e a identidade da geração dos anos 80.





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Catão (Eugénio Lisboa)




CATÃO

A pátria é triste. Sofro. Estou calmo.
Único honesto, entre deshonestos, clarividente,
entre os cegos, a indignação há muito acalmo.
Estou só. Sofro quando alguém sente.
A honestidade – que solidão! A coragem cansa.
Em breve, cadáver que a outros mortos fala,
penso em Atenas, plena de alegria mansa,
e no coração afogo palavras que o pudor cala.
Estou cansado de prever o negro acontecer.
Algo nasce. Algo morre. Com quem perde, estou.
Honestidade é pátria de quem outra não sabe ter.
Ao abismo das causas perdidas, quieto, vou.
Melhor do que ocupar-me da minha pobre vida,
agora que os pássaros a cantar começam,
na espada pego, com mão há pouco ferida
– o vento rasgo. Percebo que meus pés tropeçam.

Eugénio Lisboa


Lourenço Marques, 7.2.75



Eugénio Lisboa (Moçambique, 1930) é um ensaísta e crítico literário português.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A caminho do Corvo (Vitorino Nemésio)

Ilha do Corvo (*)


A CAMINHO DO CORVO

À Maria Gabriela e ao Rodrigo,
primos filiais

A minha vida está velha
Mas eu sou novo até aos dentes.
Bendito seja o deus do encontro,
O mar que nos criou
Na sede da verdade,
A moça que o Canal tocou com seus fantasmas
E se deu de repente a mim como uma mãe,
Pois fica-se sabendo
Que da espuma do mar sai gente e amor também.
Bendita a Milha, o espaço ardente,
E a mão cerrada
Contra a vida esmagada.
Abençoemos o impossível
E que o silêncio bem ouvido
Seja por mim no amor de alguém.

25.7.1969

Vitorino Nemésio








Mais poemas dele no Citador.





segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Desemprego e emigração (António Correia de Campos)


Opinião

Desemprego e emigração

António Correia de Campos 

03/11/2014 - 02:55

Nos três anos de vigência do actual governo, entre emigrantes permanentes e temporários, saíram do País 350 mil portugueses, sempre em crescendo.


Saíram agora os números do desemprego e da emigração relativos a Setembro. O Governo canta vitórias. Em termos oficiais a taxa de desemprego baixou de 15,7 em Setembro de 2013 para 13,9 em Setembro deste ano. Continuamos no 5º pior lugar da Europa a 28, tendo apenas abaixo de nós o Chipre, a Croácia, a Espanha e a Grécia.

Pouco importaria que o desemprego fosse mais elevado, hoje, que quando o actual governo iniciou funções (12,5%), se estivéssemos a sair consistentemente da crise. Infelizmente tal não acontece e teremos que saber se o governo canta de júbilo ou se canta para seus males espantar.

Em relação a Setembro de 2013, tivemos menos 81 mil desempregados registados. Mas os “ocupados” em programas activos de emprego aumentaram de 115 mil há um ano, para 155 mil (+35%, neste ano e +495%, desde o início deste governo). Tais programas são por definição transitórios, levando o trabalhador a saltitar entre lugares desfocados vocacionalmente e induzem empregadores a deles abusar, evitando criar novos empregos. Estágios, acções de formação e outras medidas, multiplicados nestes três anos e meio de governo, dir-me-ão, foi melhor que o desemprego. Mas não deixa de ser uma cosmética que esconde a dura realidade.

Em pior situação se encontram os desencorajados ou desistentes, pessoas que apesar de desempregadas já não diligenciam procurar trabalho. Eram 256 mil no 2º trimestre deste ano, tendo aumentado em quase 110 mil desde o início deste governo. Ou seja, contamos um pouco mais de um milhão de cidadãos activos que não têm emprego, entre desempregados registados (616,6 mil), os “ocupados” em medidas activas de emprego (155 mil) e os desempregados já desiludidos ou desmotivados (256 mil, aproximadamente). Mas não é tudo. Falta contar os que saíram do País.

Nos três anos de vigência do actual governo, entre emigrantes permanentes e temporários, saíram do País 350 mil portugueses, sempre em crescendo: 101, 121 e 128 mil, respectivamente, em 2011, 2012 e 2013. Os 128 mil emigrantes registados em 2013 pouco nos dizem, se não os compararmos ao longo do tempo. Quando chegou o 25 de Abril, em 1973, emigravam 140 mil portugueses. Um ano após o 25 de Abril, com o fim da guerra colonial e o optimismo da mudança, o número de emigrantes caiu drasticamente para 40 mil, situando-se, por três décadas, sempre abaixo desse patamar, só voltando a mais de 100 mil em 2011.

Deste novo surto migratório, cerca de 42% são emigrantes permanentes e 58% são temporários. A distribuição por idades não engana quanto à saída dos trabalhadores em idade activa: 112 mil (88%) situavam-se entre os 20 e os 64 anos e 55 mil (49%), entre os 20 e os 49 anos. Concentremo-nos apenas nos emigrantes permanentes com idades entre os 20 e os 49 anos. Em três anos somam 110 mil activos. Cidadãos portugueses em idade activa que não encontrando emprego em Portugal, saíram para trabalhar no Estrangeiro.

Em resumo, mesmo descontando os “ocupados” em medidas activas de emprego, a perda de actividade sofrida pelos recursos humanos no País, devido a desemprego directo, desemprego desiludido e a emigração dos três últimos anos, em 2013 quase atinge o milhão de habitantes (983 mil).

Com a notável diferença de, antes do 25 de Abril, a emigração ser constituída por jovens adultos com escassa literacia e quase nula preparação profissional; enquanto agora estamos a atirar para fora das fronteiras, enfermeiros, médicos, engenheiros, arquitectos, gestores, técnicos de formação superior, excelentemente preparados, indispensáveis ao nosso processo de desenvolvimento.

Eis por que se exige paciência de santo, para ver e ouvir o Dr. Portas, o seu ministro do desemprego e o Dr. Passos Coelho cantarem louvores à sua excelente governação e afixarem cada décima destas contas complexas, como perdizes ao cinto. Só a eles próprios se conseguem iludir.

António Correia de Campos

Professor catedrático reformado


Publicado no diário Público



sábado, 1 de novembro de 2014

A menina de doze anos (Marcos Donizetti)



A menina de doze anos

Eu tinha uns 11 anos naquela época, e ela tinha 12. Talvez tenha sido a primeira menina que durante um bom tempo tomou todos os meus pensamentos. Ela era muito bonita, cabelos castanhos longos e lisos e um sorriso daqueles que só encontramos em crianças e em alguns raros adultos que souberam crescer sem deixar morrer a criança que eram.

A conheci porque naquele ano minha família frequentou bastante o local onde ela morava. Sempre passávamos perto dela e desde a primeira vez ela me chamou bastante atenção. Na verdade estou mentindo quando digo que a conheci, porque tudo o que fiz naquele ano e durante alguns anos depois foi olhar para ela de longe.

Passava horas a observando e pensando sobre quem eram seus amigos, do que ela gostava de brincar e que músicas ela gostava de ouvir. Ficava imaginando até como ela havia comemorado a vitória do Brasil na Copa do Mundo.

Boa parte das minhas brincadeiras consistia em inventar países, cidades, programas de TV, enfim, todo um universo no qual eu poderia ser um herói e não me sentir tão sozinho. Será que ela também se sentia solitária? Eu duvidava. Parecia animada e comunicativa demais para ser assim…

Mas eu não tinha como saber. Na verdade eu apenas a conhecia por foto. Uma foto bastante amarelada e maltratada pelo tempo. Já não lembro o nome dela, mas lembro das datas em sua lápide: 1958 - † 1970. Ela morrera pouco depois da Copa.

Foi um ano difícil para minha família. Um grande número de pessoas próximas morreu em 1987 e as idas àquele cemitério eram constantes. Com o tempo eu não sentia mais medo e até achava, como acho até hoje, um lugar bastante dava uma escapada para percorrer as áreas onde estavam os túmulos mais antigos. Gostava de imaginar quem era filho de quem, esposa de quem, como era a vida daquelas pessoas.

Sempre acabava passando mais tempo mesmo junto ao túmulo daquela menininha de 12 anos, que estava tão sorridente e feliz que nem parecia morta há tanto tempo. Eu achava que teríamos sido bons amigos, não fosse o fato de estarmos em mundos diferentes.


Originalmente publicado no Me, Myself And I, por Marcos Donizetti




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Consolo na praia (Carlos Drummond de Andrade)



Recordamos o Dia D, de Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro nascido na cidade de Itabira, no estado de Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902.


CONSOLO NA PRAIA

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drumond de Andrade recita o seu próprio poema



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A minha esplanada (Carlos Moura Carvalho)

Parque Eduardo VII. Vê-se a estátua do Marquês de Pombal
e o Rio Tejo ao fundo



A minha esplanada

Uma das minhas esplanadas favoritas em Lisboa é no Parque Eduardo VII. Gosto da calma, da localização, da arquitectura, idealizada por Keil do Amaral. Nos últimos anos, por muitas razões, que não são difíceis de compreender, está (quase) totalmente ao abandono. O restaurante que serve de apoio é muito pouco atractivo, o ambiente é decadente, os chapéus de sol com publicidade variada, o lago sujo, o piso levantado, as plantas por cuidar. Incúria, esquecimento, incompetência, falta de dinheiro e de capacidade, são seguramente as razões para tal estado. Como em tantos outros exemplos, quem decide gosta mais de fazer de novo, do que de recuperar. Prefere construir a reconstruir. Talvez por isso, um pouco mais acima, no Jardim Amália Rodrigues, existe uma esplanada moderna, um ambiente sofisticado, equipamentos de vanguarda, caros e "de autor". A incapacidade financeira é explicação para muitas opções, mas nem sempre é a determinante. A falta de dinheiro cada vez nos acompanha mais no dia a dia, provocando situações a que nem sempre estamos preparados para enfrentar, mas muitas vezes o que falta mesmo é vontade.

Na esplanada do Parque, num recente final de tarde de agosto, depois de ter pedido, como habitualmente, um Ginger Ale com limão e duas pedras de gelo, de ter sentido o momento, observado os cisnes e folheado uma revista, aconteceu algo que não acontecia há muito, provavelmente desde os tempos de estudante, em que partilhava uma garrafa de leite com chocolate com uma antiga namorada: verifiquei que não tinha dinheiro suficiente para pagar a despesa. Procurei 1,20€ na carteira, por todos os bolsos e não tinha mais do que 80 cêntimos. Propus pagar com cartão multibanco, mas não era possível. Foram segundos complicados. Mas, com simpatia, o empregado aceitou apenas o dinheiro disponível dizendo que o resto era por "conta dele". Agradeci e comprometi-me na próxima oportunidade a pagar o que faltava.

Um feliz exemplo de falta de dinheiro, compensada por uma demonstração de educação e vontade. O que nem sempre acontece. Mas que acaba por constituir mais uma razão (embora não fosse necessária) para preferir a minha esplanada, e mais um pretexto para voltar lá muito em breve. É sempre bom voltar aos locais de que temos boas memórias e que nos tratam bem. Mesmo quando existem adversidades.


Carlos Moura Carvalho



segunda-feira, 20 de outubro de 2014

"Sacudiam as crianças a areia das sandalias..."(Mário Cláudio)




Sacudiam as crianças a areia das sandalias,
como austeros profetas que uma cidade amaldiçoasse,
e tomavam o caminho de regresso a casa.

Um grão de sal ardia em sua pele,
o balde chocalhava, de encontro às paredes,
dormiam, enfim, até o dia seguinte.

Que nautas se concebiam, ao nadar!
Que países divisavam, na neblina!
Que infantes, que lusitanos, que esquecidos que eram!

Mário Cláudio


Do seu livro Dois Equinócios (1996)




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Balada do caixão (António Nobre)




BALADA DO CAIXÃO

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte.
Ponteia e cose o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá ontem: (era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
– Olá, bom homem! Quero um fato,
Tem que me sirva? – Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
– Eis aqui um e bem barato.
– Está na moda? – Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
– Quando posso mandar buscá-lo?
– Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo ao ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)
Ó meus Amigos! Salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai!, do que eu!

Paris, 1891

António Nobre

António Pereira Nobre (1867 — 1900), mais conhecido como António Nobre, foi um poeta português cuja obra se insere nas correntes ultra-romântica, simbolista, decadentista e saudosista (interessada na ressurgência dos valores pátrios) da geração finissecular do século XIX português.

A sua principal obra, (Paris, 1892), é marcada pela lamentação e nostalgia, imbuída de subjectivismo, mas simultaneamente suavizada pela presença de um fio de auto-ironia e com a rotura com a estrutura formal do género poético em que se insere, traduzida na utilização do discurso coloquial e na diversificação estrófica e rítmica dos poemas. Apesar da sua produção poética mostrar uma clara influência de Almeida Garrett e de Júlio Dinis, ela insere-se decididamente nos cânones do simbolismo francês. A sua principal contribuição para o simbolismo lusófono foi a introdução da alternância entre o vocabulário refinado dos simbolistas e um outro mais coloquial, reflexo da sua infância junto do povo nortenho. 




sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Publicado um romance inacabado de José Saramago: 'Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas'



Quando José Saramago falou sobre o seu último livro

Na sessão de lançamento de Caim, na Culturgest, em Lisboa, em Outubro de 2009, José Saramago falou sobre o livro que estava a escrever na altura e que hoje [23-09-2014] foi lançado agora para as livrarias.


“Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas” nas livrarias portuguesas – dossier de imprensa (Fundação José Saramago)

Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, o romance inacabado de José Saramago, encontra-se a partir de hoje [23-09-2014] nas principais livrarias de Portugal. Para além dos capítulos escritos pelo Nobel português de Literatura, a edição portuguesa inclui um texto do escritor italiano Roberto Saviano e outro do espanhol Fernando Gómez Aguilera.

Na capa e no seu miolo são reproduzidas ilustrações do escritor alemão Günter Grass, Prémio Nobel de Literatura.




“Vai à merda”, diria ela no fim. Assim queria Saramago

A obra começou por se chamar Belona (nome da deusa romana da guerra), passou a ser Belona S.A., depois Produtos Belona, S.A. e, por fim, chegou esta terça-feira às livrarias portuguesas com o título Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas, que é retirado da tragicomédia Exortação da Guerra de Gil Vicente.

A notícia completa no jornal Público (23-09-2014)






quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Passemos, tu e eu, devagarinho (Reinaldo Ferreira)



Passemos, tu e eu, devagarinho
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.

Reinaldo Ferreira


Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (Barcelona, 1922; Lourenço Marques, 1959) foi um poeta português que realizou toda a sua obra em Moçambique. 

Recordemos que o nome da capital de Moçambique mudou para Maputo aquando da independência de Portugal.

Mais textos de Reinaldo Ferreira





segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Cabelo branco é... saudade



Cabelo branco é... saudade

Era uma vez, numa tarde de Verão, daquelas que só existem mesmo em terras mouriscas bem a Sul... e onde a minha mais que amiga Dani descobriu o meu 1.º cabelo branco.

Também uma vez numa aula de teatro o Professor Roberto Merino pediu-me que simulasse o aparecimento da minha 1.ª ruga... tinha eu nessa altura 18 anos e o o Professor disse-me que havia feito um retrato bastante realista. Ora, a descoberta do 1.º cabelo branco deveria dar resultado semelhante ao já fingido... nada disso. A sensação que tive não foi boa. Mas depois também não foi má. E depois foi nada. O dia-a-dia. O quotidiano. A coisa simples que acontece e pronto... como tantas outras.

Porém, fez-me pensar no tal fado : Amar demais, é doidice / Amar de menos, maldade / Rosto enrugado, é velhice / Cabelo branco é saudade... E saudade, disse-me a minha avó, um dia, quando ainda não tinha tantas saudades dela: é um fiozinho apertado ao coração que às vezes alguém puxa e dói pouquinho...

O meu 1.º cabelo branco só me diz que esse fiozinho já foi puxado muitas vezes. Então eu fecho os olhos, sinto o cheiro ... e dói menos!

Mafas



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dia de anos (João de Deus)




DIA DE ANOS

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

João de Deus


João de Deus de Nogueira Ramos (São Bartolomeu de Messines, 8 de Março de 1830 — Lisboa, 11 de Janeiro de 1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico e pedagogo, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objecto das mais variadas homenagens.




A Cartilha Maternal é uma obra de natureza pedagógica, escrita pelo poeta e pedagogo João de Deus e publicada em 1876, que se destinava a servir de base a um método de ensino da leitura às crianças. A Cartilha Maternal é uma das obras mais vezes reimpressas em Portugal, tendo sido extensivamente usada nas escolas portuguesas por quase meio século, ainda mantendo alguns seguidores.







sexta-feira, 13 de junho de 2014

"Criança desconhecida e suja..." (Caeiro / Pessoa)


Alberto Caeiro visto por Almada Negreiros


Este blogue despede-se até ao próximo ano letivo, 2014-15, com um poema do heterónimo pessoano Alberto Caeiro, no aniversário do nascimento do poeta Fernando Pessoa, a 13 de junho de 1888.



Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

Alberto CaeiroFernando Pessoa



quarta-feira, 11 de junho de 2014

Adeus (Miguel Torga)

Fotografia de Alessandro Calabrese



ADEUS

É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga






terça-feira, 10 de junho de 2014

Início de 'Os Lusíadas' (Luís de Camões)

Camões e as Tágides (estudo), óleo sobre tela, 1893-1894.
Obra de Columbano Bordalo Pinheiro


As cinco primeiras estrofes de Os Lusíadas, a grande epopeia escrita por Luís de Camões, hoje, 10 de junho, "o seu dia".


As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.

Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.




segunda-feira, 9 de junho de 2014

A definição do amor (Jorge Reis-Sá)

É mar de amor, menina - Fotografia de Amanda Oliveira


dantes escrevia poemas de amor. para viver com o amor nos poemas, sempre. depois disseram-me que já toda a gente o fez, que nada mais havia a escrever sobre o amor. que o amor já estava em demasiados poemas. eu aceitei o conselho e passei a escrever poemas de morte. escrevi muitos poemas sobre o meu pai, até ao dia em que percebi que a morte é sinónimo de amor, como tudo é sinónimo do amor. e voltei a escrever o que nada havia a dizer. porque até o poema é sinónimo de amor.


 'A definição do amor', Jorge Reis-Sá, em 'biologia do homem'



(Lido aqui: Inverno em Lisboa)



sexta-feira, 6 de junho de 2014

A Carta do achamento do Brasil



Pero Vaz de Caminha, filho de Vasco Fernandes de Caminha e de Isabel Afonso, cresceu à sombra da Casa de Bragança em data desconhecida. Foi cavaleiro da Casa real. Do seu casamento com Catarina de Caminha nasceu uma filha, Isabel Caminha. Morreu na Índia ao serviço de Portugal, deixando como prova da sua presença nos tempos mais gloriosos de Portugal, uma carta: carta que enviou ao rei de Portugal, narrando a passagem da expedição de Pedro Álvares Cabral que levou por acidente ao achamento da Terra de Vera Cruz.

(Portugal em Linha)

* * *

SENHOR

Posto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei tambem de dar disso a minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba pior que todos fazer. Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo cria que, por aformosentar nem afear, haja aqui de por mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singarduras do caminho nao darei aqui conta a Vossa Alteza, porquanto o não saberei fazer e os pilotos devem ter esse cuidado. E portanto, Senhor, do que hei-de falar começo, e digo que a partida de Belem como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março.

E sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três ou quatro léguas.

E dominhgo, 22 do dito mês, às dez horas pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, isto é, da Ilha de São Nicolau, segundo dito de Pero escolar, piloto.

E a noite seguinte, a segunda-feira, quando amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataide com sua nau, sem haver aí tempo forte nem contrário para poder ser. Fez o capitão suas diligências para o achar, a umas e a outras partes e não apareceu mais.

E assim seguimos por este mar de longo até que, terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de Abril, cerca de 660 ou 670 léguas da dita ilha, segundo diziam os pilotos, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas a que os mareantes chamam botelho assim como outras a que tambem chama rabo-de-asno.

E, quarta-feira seguinte pela manhã topamos aves a que chamam fura-buxos.

E neste dia, às horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente dum grande monte mui alto e redondo e doutras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã, com grandes arvoredos, ao qual monte o capitão pôs nome - O Monte Pascoal - e à terra a Terra de Vera Cruz.

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças; e, ao sol posto, a cerca de seis léguas de terra, surgimos âncoras, em dezanove braças: ancoragem limpa. Ali ficamos toda aquela noite.

E à quinta feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos a terra indo os navios pequenos diante por dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças até meia légua de terra, onde todos lançámos âncoras no enfiamento da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos. E dali houvemos vista de homens que andavam pela praia, cerca sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. Ali lançamos fora os bateis e esquifes e vieram todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor e aqui falaram. E o capitão mandou no batel em terra Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir para lá acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que quando o batel chegou a boca do rio eram ali dezoito ou vinte homens pardos, todos nus, sem nenhuma coisa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijos para o batel. Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos e eles os pousaram.

Ali não pode deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, pelo mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeca e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena e penas vermelhas e pardas como as de papagaio; e outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas miudas, que querem parecem aljaveira, as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder deles haver mais fala, por causa do mar.

Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus, e especialmente a capitaina.

E na sexta pela manhã, às oito horas pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa em direcção ao norte, para ver se achàvamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos para tomar água e lenha. Não porque já nos faltasse, mas para que nos precavêssemos aqui.

Quando fizemos vela, seriam já na praias sentados, junto ao rio obra de sessenta ou setenta homens, que a pouco e pouco se haviam ali juntado. Fomos ao longo da costa e mandou o capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E sendo nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do local donde tínhamos levantado ferro. Um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro e com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles e um pouco antes do sol posto amainaram obra de uma légua do recife e ancoraram em onze braças.

E sendo Afonso Lopes nosso piloto, num daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou numa almadia dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos; e um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas, mas não se serviram deles. Trouxe-os logo, já noite, ao capitão, sendo recebidos com muito prazer e festa na sua nau.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.

Andam nus, sem nenhuma cobertura, e é-lhes indiferente cobrir ou mostrar suas vergonhas. E procedem nisso com tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e neles metidos seus ossos brancos, verdadeiros, com o comprimento de uma mão travessa e da grossura dum fuso de algodão, e agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço, e o que lhes fica entre o beiço e os dentes é feito como roque de xadrez, e de tal maneira o trazem ali encaixado que não lhes faz doer nem lhes estorva a fala, o comer ou o beber. Os seus cabelos são corredios e andavam tosquiados, de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para trás uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera, embora não o fosse, de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O capitão, quando eles vieram, estava sentado numa cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço e, aos pés, uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e nós outros que aqui na nau com eles vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas e entraram. Mas não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém, um deles pôs olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que a dizer-nos que ali havia ouro. Também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como se lá também houvesse prata.

Mostraram-lhe um papagaio pardo que o capitão tem aqui, e tomaram-no logo na mão e acenaram para terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhe uma galinha: quasi tiveram medo dela e não lhe queriam pôr a mão; depois a tomaram como que espantados.

Deram-lhes ali de comer pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada. E, se alguma coisa provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça: mal lhe puseram a boca e não gostaram nada, nem o quiseram mais. Trouxeram-lhes água numa albarda, e, tomando alguns bocados, não beberam, somente lavaram as bocas e lançaram-na logo fora.

Viu um deles umas contas brancas de rosário. Acenou que lhas dessem, folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como que dizendo que dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque não lhos havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem llhas dera.

Então estiraram-se de costas na alcatifa a dormir, sem buscarem maneira de cobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins, e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um nanto em cima e eles consentiram, ficaram quietos e dormiram.

Ao sábado pela manhã mandou o capitão fazer vela e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis a sete braças. Entraram todas as naus dentro e ancoraram em cinco ou seis braças. A ancoragem lá dentro é tão grande, tão formosa e tão segura que podem ficar dentro dela mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus ficaram ancoradas, todos os capitães vieram a esta nau do capitão-mor. E daqui mandou o capitão a Nicolau Coelho e a Bartolomeu Dias que fossem em terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas, mandando dar a cada um sua camisa nova, sua carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que eles levavam nos braços, seus cascavéis e suas campaínhas. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, que chamam Afonso Ribeiro, para andar lá com eles, e saber de seu viver e maneira. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho.

Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo obra de duzentos homens todos nus e com arcos e setas nas mãos Aqueles que nós levávamos acenaram-lhes que se afastassem e pousassem os arcos; e eles os poisaram, mas não se afastavam muito. Mal pousaram os arcos, os que nós levávamos e o mancebo degredado com eles, os quais, assim que saíram não pararam mais nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a ver quem mais correria. E passaram um rio de água doce que por ali corre, de muita água que lhes dava pela braga e outros muitos com eles. E foram assim correndo, além do rio, entre umas moitas de palmas onde estavam outros e ali pararam. Entretanto foi-se o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram para nós, e com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças. Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam e traziam cabaços de água e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem à borda do batel. Mas junto a ele lançavam os barris que nós tomávamos e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascáveis e manilhas, a um dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que homem lhes queira dar.

Dali se partiram os outros dois mancebos, que os não vimos mais.

Muitos deles ou quase a maoir parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Andavam aí outros quartejados de cores, a saber, metade da sua própria cor e metade de tintura negra, a modos que azulada; e outros quartejados de escaques. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha.

Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.

Acenamos-lhes que se fossem e assim o fizeram e passaram para além do rio. Saíram três ou quatro homens nossos dos batéis e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornámo-nos às naus. E vindo nós assim, acenavam-nos que tornássemos. Tornámo-nos e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles. Este levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá dar ao senhor, se o lá houvesse. Não cuidaram de lhe tirar cousa alguma, antes o mandaram com tudo. Então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, ordenando que lhes desse aquilo. E ele o deu, à vista de nós, àquele que o agasalhara da primeira vez. Logo voltou e nós trouxemo-lo. Este que o agasalhou era já de idade e andava por louçainha todo cheio de penas pegadas pelo corpo, que parecia assetado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas, outros de vermelhas e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que as muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, fizera vergonha por não terem a sua como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós. E com isto nos tornámos e eles foram-se.

À tarde saiu o capitão-mor em seu batel com todos nós e com os outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía frente à praia. Mas ninguém saiu em terra, porque o capitão o não querer, sem embargo de ninguém nela estar. Somente saiu ele com todos nós num ilheu grande que na baía está e que na baixa-mar fica mui vazio. Mas é cercado de água por todas as partes, de modo que ninguém lá pode ir a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele e todos nós outros bem uma hora e meia. Alguns marinheiros que ali andavam com um chinchorro pescaram peixe miúdo, não muito. Então volvemo-nos às naus, já bem noite.

Ao domingo de Pacoela pela manhã, determinou o capitão de ir ouvir missa e pregação naquele ilhéu e mandou a todos os capitães que aprestassem os batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou naquele ilhéu armar um esperável e dentro dele um altar mui bem corregido. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual foi dita pelo padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que eram todos ali. A qual missa sendo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção. Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a esteve levantada da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do evangelho, e no fim dela tratou de nossa vinda e achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção. Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles e tocaram corno ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço. E alguns deles se meteram em duas ou três almadias que ali tinham, as quais não são feitas como as que eu já vi: somente são três traves atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé. Acabada a pregação, encaminhou-se o capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcámos e fomos todos em direcção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para lho dar. E nós todos, obra de tiro de pedra, atrás dele.

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos, e muitos deles os iam logo pôr em terra, mas outros os não punham.

Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não que a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espáduas e pelos quadris, coxas e pernas até abaixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era assim vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelha.

Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre eles, sem implicarem nada com ele para fazer-lhe mal, antes lhe davam cabaças de água e acenavam aos do esquife que saíssem em terra.

Com isto volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às naus a comer tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão. E eles tornaram a sentar-se na praia e assim por então ficaram. Neste ilhéu onde fomos ouvir missa e pregação a água espraia muito, e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto aí estávamos, alguns de nós foram buscar marisco, mas não o acharam. Acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso camarão, que em tempo algum vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por mandado do capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que nós agora podíamos saber, por irmos de nossa viagem. E entre muitas alas que no caso se fizeram, foi por todos, ou pela maior parte, dito que seria muito bem, e nisto concluiram. E tanto que a conclusão foi fomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por força um par destes homns para os mandar a Vossa Alteza, e deixar aqui por eles outros dois destes degredados. Quanto a isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali tudo o que lhe perguntam, e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homns destes degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar. E que portanto não cuidassem de tomar ninguém nem fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui partíssemos. E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado.

Acabado isto, disse o capitão que fôssemos nos batéis em terra e ver-se-ia bem o rio quejando era, e também para folgarmos.

Fomos todos nos batéis em terra, armados e a bandeira connosco. Eles andavam ali na praia à boca do rio para onde nós íamos. E, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos e acenavam que saíssemos. E tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais largo que um jogo de mancal. Mal desembarcámos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram para o meio deles. E alguns aguardavam, outros afastavam-se, mas era a coisa de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andavam assim misturados com eles que eles se esquivavam e afastavam-se. E alguns deles iam-se para cima onde estavam outros.

Então o capitão fez que dois homens o tomassem ao colo, passou o rio e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que a costumada. E tanto que o capitão fez tornar a todos, vieram a ele alguns daqueles, não por o conhecerem por senhor, pois me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava já para aquém do rio.

Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas já ditas e resgatavam-nas por qualquer cousa, em tal maneira que os nossos trouxeram dali para as naus muitos arcos e setas e contas.

Então tornou-se o capitão aquém do rio e logo acudiram muitos à beira dele. Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, pareciam assim bem.

Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, também nuas que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até ao quadril e a nádega, toda tinta daquela tintura preta, e o resto todo da sua própria cor; Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés. E suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia nenhuma vergonha.

Também andava ali outra mulher moça com um menino ou menina no colo atado com um pano (não sei de quê ) aos peitos, de modo que não apareciam senão as perninhas. Mas as pernas da mãe e o resto não trazia nenhum pano.

Depois andou o capitão para cima ao longo do rio, que anda sempre diante da praia, e ali esperou um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Estando o capitão com ele, falou perante todos nós sem nunca ninguém o entender, nem ele a nós, quantas cousas se lhe demandava acerca de ouro, que nós desejávamos saber se o havia na terra.

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe caberia pelo furo um grande dedo polegar e metida nele uma pedra verde, ruim, que cerrava por fora aquele buraco. O capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do capitão para lha meter dentro. Estivemos sobre isso um pouco rindo e então enfadou-se o capitão e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não por ela valer alguma coisa, mas por amostra. Depois houve-a o capitão, creio que para, com as outras cousa, a mandar a Vossa Alteza.

Andámos por ali vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos.

Colhemos e comemos deles muitos. Então tornou-se o capitão para baixo para a boca do rio, onde havíamos desembarcado.

Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita, e meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito. E, conquanto com aquilo os muito segurou e afagou, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

E então o capitão passou o rio com todos nós outros e fomos pela praia de longo, indo os batéis, assim, ao longo da terra. Fomos até uma lagoa grande de água doce, que está junto com a praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai água por muitos lugares.

E depois de passarmos o rio foram uns sete ou oito deles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão, que Bartolomeu Dias matou, lhes levou e lançou na praia.

Bastará dizer que até aqui, como quer que eles um pouco se amansasse, logo duma mão para a outra se esquivavam, como pardais, do cevadoiro, e homem não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais; e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar. O capitão, ao velho com quem falou, deu uma carapuça vermelha, e com toda a fala que com ele passou e com a carapuça que lhe deu, tanto que despediu e começou a passar o rio, logo se foi recatando e não quis mais tornar de lá para aquém. Os outros dois que o capitão teve nas naus a que deu o que já dito é, nunca mais aqui apareceram.

Disto tiro ser gente bestial e de pouco saber, e por isso são assim esquivos. Porém e com tudo isto, andam muito bem curados e muito limpos. Nisto me faz ainda mais julgar que são como aves ou alimárias monteses, às quais o ar faz melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque seus corpos são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser. Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos nenhumas casas nem maneira delas.

Mandou o capitão àquele degredado Afonso Ribeiro que se fosse outra vez com eles. Ele foi e andou lá um bom pedaço e à tarde tournou-se, que o fizeram eles vir e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas e não lhe tomaram nenhuma coisa do seu, antes, disse ele, que um deles lhe tomara umas continhas amarelas que levava, e fugia com elas, e ele se queixou, os outros foram logo após ele e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar. E então mandarm-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes como de Entre-Douro-e-Minho.

E assim nos tornámos às naus já quase noite, a dormir.

À segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como nas outras vezes e já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de nós e depois a pouco e pouco misturavam-se connosco e abraçavam-nos e folgavam, e alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha. E em tal maneira se passou a cousa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles onde outros muitos estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, de que creio que o capitão há-de mandar amostra a Vossa Alteza. E, segundo diziam esses que lá foram, folgavam com eles. Nesse dia vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados. Ali, alguns andavam daquelas tinturas quartejados, outros de metades, outros de tanta feição como em panos de armar, e todos com os beiços furados e muitos com os ossos neles e outros sem ossos.

Alguns traziam uns ouriços verdes de árvores que, na cor, pareciam de castanheiros, embora mais pequenos. E eram cheios de uns grãos vermelhos pequenos que, ao ser esmagados entre os dedos, faziam a tintura muito vermelha de que eles andavam tintos. E, quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

Todos andam rapados até acima das orelhas, e assim as sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas de fonte a fonte tintas da tintura prete, que parece uma fita preta larga de dois dedos.

E o capitão mandou àquele degredado Afonso Ribeiro e aos outros dois degredados que fossem lá andar entre eles, e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo por quem eles folgavam. E aos degredados mandou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. Eram de madeira, e das ilhargas de tábos, e cobertas de palha, de razoada altura; Todas numa só casa, sem nenhum repartimento. Tinham dentro muitos esteios, e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.

Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os achavam: e que lhe davam de comer daquela vianda que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes que na terra há e eles comem.

Quando se fez tarde, fizeram-nos logo tornar a todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. Ainda, segundo diziam, queriam vir com eles.

Resgataram lá por cascavéis e por outras cousinhas de pouco valor que levavam, papagaios vermelhos muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores à maneira de tecido assaz formoso, segundo Vossa Alteza todas estas cousas verá, porque o capitão vo-las há-de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram, e nós tornámo-nos às naus.

À terça-feira, depois de comer, fomos em terra dar guarda de lenha a lavar roupa. Estavam na praia quando chegámos obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegámos, vieram-se logo para nós sem se esquivarem e depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto connosco que alguns nos ajudaram a acarretar lenha e a meter nos batéis. E lutavam com os nossos e tomavam muito prazer.

Enquanto cortávamos a lenha faziam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que ontem para isso se cortou.

Muitos deles vimham ali estar com os carpinteiros. E creio que faziam mais por verem a ferramenta de ferro com que a faziam, que por verem a cruz, porque eles não têm cousa que de ferro seja e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas num pau entre duas talas mui bem atadas, e por tal maneira que andam fortes, segundo diziam os homens que ontem a suas casas foram, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles connosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

O capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e a outras, se houvessem delas novas, e que, em toda a maneira não viessem dormir às naus, ainda que eles os mandassem. E assim se foram.

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios por essas árvores, deles verdes e outros pardos grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos. Mas eu não veria mais que nove ou dez. Outras aves então não vimos, somente algumas pombas seixas, e pareceram-me bastante maiores que as de Portugal. Alguns diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Mas, segundo os arvoredos são muitos e grandes e de infindas maneiras, não duvido que por esse sertão haja muitas aves. Cerca da noite nos volvemos para as naus com nossa lenha.

Eu creio, senhor, que não dei ainda aqui conta a Vossa Alteza da feição de seus arcos e setas. Os arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que, creio, o capitão a Ela há-de enviar.

Á quarta-feira não fomos em terra porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e a fazer levar às naus isso que cada uma podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. No dizer de Sancho de Tovar, que lá foi, seriam obra de trezentos.

Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, a que o capitão ontem mandou que em toda maneira lá dormissem e trouxeram papagaios verdes e outras aves pretas, quase com pegas, senão quanto tinham o bico branco e os rabos curtos.

Quando Sancho de Tovar se recolheu à nau, queriam vir com ele alguns, mas elle não quis senão dois mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noite mui bem pensar e tratar. Comeram toda a vianda que lhes deram e mandou-lhes fazer cama de lençois, segundo ele disse. Dormiram e folgaram aquela noite.

E assim não houve nada mais este dia que para que escrever seja.

À quinta-feira, derradeiro dia de Abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E, em querendo o capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, trouxeram-lhe vianda e comeu. Aos hóspedes, sentaram cada um em sua cadeira e de tudo o que lhes deram comeram mui bem, especialmente lacão cozido, frio e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel e eles connosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta, e tanto que a tomou meteu-a logo no beiço. E, porque se lhe não queria segurar, deram-lhe um pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe detrás seu adereço para se segurar e meteu-a no beiço assim revolta para cima e vinha tão contente com ela como se tivera uma grande jóia. E tanto que saímos em terra foi-se logo com ela, e não apareceu mais aí. Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles, e daí a pouco começaram a vir mais, e parece-me que viriam à praia este dia quatrocentos ou quatrocentos e cinquenta.

Traziam alguns deles arcos e setas que foram trocados por carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam connosco do que lhes dávamos e alguns deles bebiam vinho. Outros o não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem o beberão de boa vontade.

Andavam todos tão dispostos, tão bem feitos e galantes com suas tinturas, que pareciam bem.

Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com muito boas vontades, e levavam-na aos batéis e andavam já mais manso e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles.

Foi o capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, que a nosso parecer era esta mesma que vem ter à praia em que nós tomámos água.

Ali ficámos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo que é tão basto e de tantas prumagens, que homens não as pode contar. Há entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos.

Quando saímos do batel disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se erguer amnhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. Acenaram a estes dez ou doze que aí estavam para que fizessem assim e foram logo todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se homen os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles não têm nem entendem em nenhuma crença, segundo parece. E portanto, se os degredados, que aqui hão-se ficar, aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa fé, a qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade, e imprimir-se-à ligeiramente neles qualquer cunho que lhes quiserem dar. E porque Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa Portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação. E prazerá a Deus que, com pouco trabalho será assim.

Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha nem outra alimária que acostumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito e dessa semente e frutos que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto com quanto trigo e legumes comemos.

Nesse dia, enquanto ali estiveram, dançaram e bailaram sempre com os nossos ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nosssos amigos que nós seus. Se homem lhes acenavam se queriam vir às nossa naus faziam-se logo prestes para isso, em tal maneira que se nós os quiséssemos convidar todos, todos viriam. Porém, não trouxemos esta noite às naus senão quatro ou cinco, a saber: o capitão-mor, dois; Simão de Miranda, um, que trazia já por pajem; e Aires Gomes da Silva, outro, também por pajem. Um dos que o capitão trouxe era um dos hóspedes, que lhe trouxeram da primeira vez que aqui chegámos, o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa e com ele um seu irmão, os quais foram esta noite mui bem agasalhados, assim de vianda, como de cama de colchões e lençóis, para os amansar.

E hoje, que é sexta-feira, primeiro dia de Maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor chantar a cruz, para melhor ser vista. Ali assinalou o capitão o lugar onde fizessem a cova para a chantar.

Enquanto a ficaram fazendo, ele com todos nós outros fomos pela cruz abaixo do rio, onde ela estava. Trouxemo-la dali com esses religiosos e sacerdotes diante cantando, à maneira de procissão.

Eram já ali alguns deles, obra de setenta ou oitenta e quando nos viram assim vir logo se foram meter debaixo dela, para nos ajudar. Passámos o rio ao longo da praia e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de besta. Andando ali nisto, vieram bem cento e cinquenta ou mais.

Chantada a cruz com as armas e divisas de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos.

Ali estiveram connosco a ela obra de cinquenta ou sessenta deles, assentados todos em joelhos assim como nós.

E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos de pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram connosco e alçaram as mãos, ficando assim até ser acabado e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos posemos de joelhos, eles puseram-se assim todos como nós estávamos, com as mãos levantadas e em tal maneira sossegados que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.

Estiveram assim connosco até acabar a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o capitão com alguns de nós outros.

Alguns deles, por o sol ser grande, estando nós comungando, levantaram-se e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinquenta ou cinquenta e cinco anos, ficou ali com aqueles que ficaram. Este, estando nós assim, juntava aqueles que ali ficaram e ainda chamava outros, e andando assim entre eles a falar, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem. E nós assim o tomámos. Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou em alva e assim se subiu, junto com o altar, a uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos apóstolos cujo dia hoje é, tratando, no fim da pregação deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos causou mais devoção.

Esses que estiveram sempre à pregação, quedaram-se assim como nós olhando para ele. E aquele que digo que chamava alguns que viessem para ali, alguns vinham e outros iam-se. E, acabada a pregação, como Nicolau Coelho trouxesse muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda, houveram por bem que se lançasse uma ao pescoço de cada um, pela qual cousa o padre frei Henrique se assentou ao pé da cruz e ali, um por um, lançava a sua, atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha primeiro beijar e alevantar as mãos. Vinha a isso muitos e lançaram-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinquenta.

Isto acabado, era já bem uma hora depois do meio dia, viemos às naus comer, trazendo o capitão consigo aquele mesmo que fez aos outros aquela mostrança para o altar e para o céu e um seu irmão com ele, ao qual fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca e ao outro uma camisa das outras.

E, segundo o que a mim a e todos pareceu, esta gente não lhe falece outra cousa para ser toda cristã senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos, por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria ou adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E para isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os baptizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa santa fé pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais ambos hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho em redor de si. Porém, ao assentar não fazia memória de o muito estender para se cobrir. Assim, Senhor, que a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria mais quanto a vergonha.

Ora veja Vossa Alteza se, quem em tal inocência vive, ensinando-lhe o que para sua salvação pertence, se converterá ou não.

Acabado isto, fomos assim perante eles beijar a cruz, despedimo-nos e viemos comer.

Creio, Senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumentes que esta noite se saíram desta nau no esquife, fugidos para terra, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida. Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras altas, delas vermelhas, delas brancas e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia palma muito chã e muito formosa.

Vista do mar, nos pareceu, pelo sertão, muito grande, porque a estender olhos não podíamos ver senão terra e arvoredos, que nos parecia mui longa terra. Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal nem de ferro, nem lho vimos.

Porém, a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro-e Minho, porque neste tempo de agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas, infindas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-as aproveitar, dar-se-à nela tudo, por bem das águas que tem.

Mas o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecut, isso bastaria, quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, o acrescentamento da nossa santa fé.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta vossa terra vi, e se algum pouco alonguei, Ela me perdoe, porque o desejo que tinha de vos tudo dizer mo fez assim pôr pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé Osório, meu genro, o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500

Pero Vaz de Caminha

 
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A carta de Pero Vaz de Caminha para o Rei D. Manuel I com as novas do achamento da Terra de Vera Cruz, Porto Seguro, 1 de Maio de 1500 A Carta está datada de Vera Cruz, 1 de Maio e assinada por Pêro Vaz de Caminha, escrivão da feitoria de Calecut, enviado por D. Manuel na armada de Pedro Álvares Cabral, e é o primeiro testemunho da existência de um mundo até então desconhecido dos povos ligados por contiguidade geográfica, o primeiro testemunho de uma realidade que mudou verdadeiramente a face da terra. Foi escrita no período crucial dos Descobrimentos, nos tempos em que a ciência náutica finalmente tornou possível fazer o reconhecimento do nosso planeta. As pessoas referidas na carta são, em primeiro lugar Pedro Álvares Cabral, o responsável pela armada, e outros,mencionados ou não, que faziam parte da expedição, eram capitães experientes, pertencentes a grandes famílias portuguesas, bem como grandes comerciantes florentinos. A Carta faz um relato muito circunstanciado dos costumes dos habitantes da terra, o seu comportamento pacífico, mesmo dócil, suas casas, alimentação, vestuário, vários utensílios como arcos, setas, machados, aves, a cor da terra, os densos arvoredos, a inexistência de animais domésticos. É também de realçar a forma como Caminha se refere aos índios: a três séculos de Rousseau, vemos o olhar maravilhado perante o seu bom primitivismo, a sua ingenuidade, a sua inocência. É como que a antecipação do mito do bom selvagem, que Rousseau teorizou e que originou obras como Atala e René, de Chateaubriand, ou o Guarani, do brasileiro Alencar.

A Carta foi escrita por uma testemunha presencial que acompanhou a armada e participou na expedição feita em terra firme, sob o comando de dois homens experientes, escolhidos por Cabral. Ele tinha a incumbência de transmitir ao rei todas as ocorrências e por isso esteve sempre no centro das operações. O tratado de Tordesilhas tinha sido assinado havia pouco tempo, e urgia comunicar a descoberta do novo mundo. A Carta guarda-se na Torre do Tombo no lugar próprio - nas inquirições, ou seja, os inquéritos a que se procedeu desde os primórdios da nacionalidade para se saber a situação dos bens e direitos da Coroa. A Carta é uma inquirição - de características específicas, decerto, próprias da natureza dos bens a inquirir. As descrições e confrontações habituais, tendo como pontos de referência acidentes geográficos diversos e bens de raiz dos mais diferentes senhorios, dão lugar ao relato dos sucessos primeiro da armada e por fim em terra firme. Em terra firme, a inquirição ganha contornos ímpares, pois que ímpar era a realidade. A Carta é pois um documento de arquivo que, devido à capacidade de observação, à cultura e ao talento do seu autor reúne a característica por excelência da obra literária - o prazer de a ler.

Arquivo Nacional da Torre do Tombo