POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Eros e Psique (Fernando Pessoa)



Um poema de Fernando Pessoa, poeta português, recitado por Maria Bethânia, cantora brasileira.


EROS E PSIQUE

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Publicado pela primeira vez na revista Presença, núm. 41-42, Coimbra, maio de 1934.






Psiquê (em grego: Ψυχή, Psychē) é uma personagem da mitologia grega, personificação da alma.

Seu mito é narrado no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros - pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal.

A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais monstruoso existente. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça - acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas.

Com o próprio deus do Amor apaixonado por ela, suas setas não foram lançadas para ninguém. O tempo passava, Psiquê não gostara de ninguém, e nenhum de seus admiradores tornara-se seu pretendente.

Para saber mais sobre Eros e Psique(ê).



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

"Lisboa tratou-me, como já vem sendo hábito, muito bem."

Avenida dos Aliados, no Porto*


Lisboa tratou-me, como já vem sendo hábito, muito bem. Gosto genuinamente de Lisboa. Gosto das picardias saudáveis entre Norte e Sul. Divirto-me com os Lisboetas que nos olham com a sobranceria de quem foi uma ou duas vezes ao Norte, há muitos anos, visitar um familar bastante afastado. Como se o Norte fosse um lugar recôndito, por detrás de serras e vales, muito atrasado e sub-desenvolvido. Sorrio interiormente quando me perguntam se é a minha primeira vez em Lisboa como se não existisse Alfa Pendular ou como se os 300Km que nos separam correspondessem a uma vida inteira em viagem.

E depois perguntam como são as Galerias, o Maus Hábitos, a Champanheria da Baixa, a Miss'Opo. Não são nem Bairro Alto, nem Cais do Sodré e eu não tenho bem como lhes explicar as diferenças. O Porto não é Lisboa, está visto. Temos pronúncia e lançamos um bamos lá ber! parolão mesmo no coração de Carnide. Mas não temos Chiado (que raio!), nem Fábrica do Braço de Prata, nem LX Factory. O Majestic fecha aos Domingos à tarde, o metro é de superfície e a Time Out é mensal. Deve ser por isso que nos acham provincianos. A culpa é da Time Out mensal, está claro! Como é que não me lembrei disto antes?!

Fico triste por não termos Chiado, já disse, e essa é a parte mais chata de todas. Gostava de ter o brunch da Tartine e os livros a 5€ da Fyodor Books. E gostava sobretudo que o Porto dinâmico não se fizesse quase apenas da minha geração e das mais novas. Porque o Porto ainda tem uma faixa bastante conservadora, de gente que não vai em brunches e que olha de soslaio para D'Bandadas. O Porto tem gente mais genuína, no entanto. Não vamos tanto em aparatos e aparências, e nisso ganhamos claramente a Lisboa.

Fico assim, dividida, com vontade de entrar nos Aliados e sair no Rossio. Com desejo de arranjar um sistema qualquer de teletransporte. Ora estou cá. Ora estou lá. Almocinho na Foz e chá de final de tarde nas traseiras da Casa Fernando Pessoa. Não ter de escolher entre Porto ou Lisboa. Isso sim, seria vida!


Lido no blogue Alugo-me para rir!
(publicado: 18 de novembro de 2013)




 Praça de D. Pedro IV ou Largo do Rossio em Lisboa



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Mundo Cão (Helena F. Matos)



O que é mais importante: a morte de uma criança ou de um cão? Do cão, pelo menos a fazer fé nesta notícia do DN: «Mulher esfaqueou o seu cão por lhe matar a filha. Uma mulher inglesa esfaqueou, na terça-feira, o seu cão, numa tentativa de salvar a filha de quatro anos de ser fatalmente atacada pelo animal. No entanto, a menina, que acabou por ser atacada, morreu no hospital. Segundo as autoridades policiais, Jodie Hudson esfaqueou o seu cão Mulan, de cerca de oito anos, com uma faca de cozinha, após este ter atacado sua filha Lexi Branson, no apartamento onde viviam, em Mountsorrel, perto de Loughborough (Inglaterra). A menina, de quatro anos, acabou por morrer no hospital, devido aos ferimentos provocados pelo ataque do animal.» O destaque da notícia vai para o facto da mulher ter esfaqueado o cão. A morte da criança vem em segundo plano.

«Neste momento, estamos a investigar o caso para perceber toda a história do animal, o local de onde veio, como foi feita a sua inserção na família. E queremos, claro, entrar em contacto com o médico legista para perceber em que circunstâncias se deu a morte de Lexi”, disse Det Supt Sandall, em declarações ao site da BBC.» Da inserção da criança na família nem uma palavra. Sobre o facto de a família deixar a criança num apartamento ao pé do cão também nada. Vão investigar a morte do cão. Perceber toda a história do animal. E claro também falam com o médico legisla para perceber como morreu a criança.

 Helena F. Matos em Blasfémias (7-novembro-2013)



sexta-feira, 22 de novembro de 2013

História de encontros e desencontros (Ana Mesquita)



Ana Mesquita conta-nos uma história de encontros e desencontros, marcada por uma fina ironia, como todas as boas histórias.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Rumor de água (Carlos de Oliveira)




RUMOR DE ÁGUA

Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.

Carlos de Oliveira



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Outono (hmbf)

Fundão (Fotografia de Glória Ishizaka)


 OUTONO

Naquele dia em que acordei invisível tudo me pareceu mais suportável. Andei pelas ruas como um anjo na terra, um fantasma. Não atormentei ninguém, nem deixei que me atormentassem os olhos dos outros. Estava bom tempo. Sentei-me numa esplanada e abri um livro sobre a mesa. Quem olhasse para aquela mesa não me veria, iria apenas reparar num livro que julgaria perdido. Era o meu livro. Folheava-o. Passava as páginas como se fosse o vento, as pontas dos meus dedos sopravam as páginas de um lado para o outro. Quem olhasse as páginas a passarem de um lado para o outro julgaria que era o vento. E era, porque eu era o vento.

Foi naquele dia em que acordei invisível, a seis de Outubro. Apanhei as pessoas distraídas e servi-me de um copo de cerveja. Uma bênção. Que estranho, pensavam as pessoas que passavam e olhavam para uma mesa vazia. Sobre a mesa, apenas aquele copo de cerveja cheio e um livro aberto. Ninguém me via. Fui bebendo a cerveja. O copo ia ficando vazio. Quem o olhasse estranharia, pensaria que ali se passava um acelerado processo de evaporação. E passava. Eu era vapor, nos meus lábios o vapor de um dia, da minha boca para fora uma nuvem de vapor que ninguém via. Apenas eu, que ali sentado folheava um livro e tragava uma cerveja.

Eu era um vapor redundante na boca do vento, exagerava talvez esse esforço inútil a que nos dedicamos sempre que pretendemos meter nas palavras a areia que não cabe nelas. As palavras estão cheias de si, nada lhes podemos acrescentar que elas não tenham já.

Então vi Jayne passar. Fui atrás dela. Não como que perseguindo-a, porque não a perseguia. Na verdade, pouco me ralava onde iria, o que fazia, apenas queria saber se estava bem. E invisivelmente persegui Jayne até uma nova realidade nascida. Jayne tinha uma caminhada encantadora. Entrou numa imagem, e dessa imagem saltou para outra imagem, atravessou túneis longínquos de imagens fantasiosas, tinha a voz de um anjo, o rosto engenhoso de quem sonha e não se importa de oferecer alegria aos olhos. Eu amava Jayne, amo-a. Penso nela a todas as horas do dia. Mas não quis fazê-la sofrer, deixei-me ficar invisível e meti-me por atalhos obscuros, pensei que talvez pudesse ser salvo pela tristeza. De uma atmosfera assim, tudo o que podemos esperar, ironicamente, é a indiferença da monotonia.

Trouxe à flor da pele a revolução disfarçada de um corpo. Senti-me triunfante. Já não estava tão invisível, se bem que ninguém notava em mim. Voltei à mesma esplanada, à mesma mesa, com o mesmo livro e o mesmo copo de cerveja. Agora qualquer pessoa podia ver-me, mas ninguém notava. Era como se eu não estivesse ali, como se a mesa permanecesse desocupada. Na verdade, eu retirara graça a uma mesa vazia. Eu era a esfinge que destoava numa paisagem toldada.

Idiota, chamei a mim mesmo. Para quê pretender um corpo que ninguém toca, que ninguém vê, que ninguém suporta?

Fui para casa ouvir música. Ornette Coleman, Don Cherry, Walter Norris, Don Payne, Billy Higgins. Eu era outra coisa quando ouvia música. Já não era o vento nem um vapor na boca do vento, nem sequer era um corpo, era algo para lá de todo e qualquer tipo de contentamento. Era a finíssima dor do silêncio quando é atravessado pelo som,
...................................................................................................era uma linha ténue que separa o dentro do fora,
.........................era essa pele esticada de onde retiraste o baque de um coração espontâneo,
.......................era um ritmo que não glosa o tempo,
..................................................................................nem a luz que no imo desse tempo se faz treva e ilumina,
.............era uma coisa cheia de vazio,
............................................................a nuvem de pó que se levanta quando à passagem da tempestade as raízes de um coro de árvores gritam em uníssono pelas folhas arrancadas,
..........................e as flores choram o pólen que parte para lugares insondáveis e de lá nunca mais volta.


hmbf


Publicado: Terça-feira, 28 de Setembro de 2010 no muito recomendável blogue Antologia do esquecimento.




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O velho e o laranjal (Júlio Barata-Feyo)

 


Uma crónica do magazine de fim de semana do jornal  Público, que apareceu perdida entre os meus papeis.


O VELHO E O LARANJAL

Ela era jovem, na casa dos vinte, neta e única familiar dele. Vivia e trabalhava em Lisboa e fora visitá-lo à aldeia, no Algarve, porque andava preocupada. Nos últimos tempos, sempre que lhe telefonava, ele respondia com resmungas e monossílabos, sinal evidente de que a vida não lhe corria de feição. As coisas tinham piorado recentemente, ela tirara-se de cuidados e aproveitara o fim-de-semana para se meter a caminho e ir vê-lo. Encontrou-o a meio da manhã de sábado, a gozar o calor psicológico do sol de Fevereiro, sentado contra o seu muro de pedra preferido, aquele de onde via o mar. – Bom dia, avô - e o avô respondeu-lhe com um resmungo.

Percebeu que a situação era grave quando soube que dizia respeito ao laranjal. O laranjal era a menina dos olhos dele, plantado à mão, árvore a árvore, há mais de trinta anos e a sua única fonte de rendimentos a que lhe dava a dignidade de, no entendimento do avô, não ser um assistido da "esmola pública” (era assim que ele chamava à pensão mínima de sobrevivência). Cada ano que passava os comerciantes de laranjas baixavam a oferta pelo laranjal e ele estabelecera um limite na sua cabeça para aquela inexorável queda dos preços: no dia em que lhe propusessem menos dinheiro do que no primeiro ano em que vendera o jovem pomar, ele fosse cego se, se... Se, não sabia o quê, mas seria a revolta. E ela ali estava, a revolta.

– Ofereceram-me trinta contos, vê lá tu, trinta contos! Menos de dez escudos por cada quilo de laranja (O avô já não falava em reis mas também não atinava ainda com os euros).

– Sabes onde é que eu lhes disse que podiam meter os trintas contos, sabes? – A neta sabia ou pelo menos calculava, mas achou por bem não puxar pela resposta e ele em não insistir. Trinta contos. Menos de três contos por mes... O avô ia viver da horta e cortar no peixe e no tabaco, por esta ordem, que correspondia à importância dos dois produtos na hierarquia das suas prioridades.

A neta olhou-o com aqueles olhos verde claro que herdara dele. Passou-lhe pela cabeça explicar os princípios da concorrência dentro da União Europeia, os condicionalismos da mundialização, o sumo concentrado que chegava de Marrocos e do Brasil, não a dez mas ao equivalente a cinco escudos o quilo de laranja, explicar o mecanismo da margem de lucro das fábricas de refrigerantes, enfim, explicar-lhe a modernidade. Passou-lhe pela cabeça e nada disse. Sentou-se ao lado dele, também ela a olhar para o mar, mas viu apenas a derradeira morada de um vivo e um cemitério de recordações.

– As nossas laranjas são boas, avô – o velho concordou com a cabeça. – Conheço muita gente de Lisboa que pagaria bom dinheiro para vir colhê-las, directamente da árvore, a duzentos escudos o quilo ou até mais. São laranjas da terra, sem produtos químicos – o velho voltou a acenar que sim – e isso agora é que está na moda, cada vez mais na moda.

O avô tirou os olhos do mar, vagamente interessado, vagamente desconfiado. – E depois pisam-me a horta toda, está bom de ver. – A neta percebeu que ele mordera o anzol, o irracional anzol da esperança, sorriu e explorou a vantagem. –Se pisarem a horta, pagam ainda mais e têm direito a uma carga de porrada. – O avô tinha a fama de quem gostara de molhar a sopa na sua juventude.

O velho voltou-se outra vez para o mar, lentamente. Fora algumas vezes a Lisboa, para visitar a neta ou ser visto pelo médico. Franziu o sobrolho e pestanejou... Lembrou-se de gente em prédios de apartamentos como as sardinhas nas latas de Tavira, de sorrisos esquecidos como nos días de naufrágio, de buzinas raivosas como as sirenes dos barcos em noites de nevoeiro. Lembrou-se de gente com ar infeliz e que parecía gostar disso, de sofrer! Masoquistas, diria a neta. Que nada disse. O velho semicerrou os olhos para disfarçar um brilho de malícia. – Talvez tenhas razão. Mas se eles vierem, as laranjas é só para disfarçar. Vêm é para levar porrada.


Júlio Barata-Feyo


Nota sobre as moedas: O escudo era a antiga moeda portuguesa. 1 euro = 200,50 escudos. Um conto = 1.000 escudos.


segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Todos os nomes (José Saramago)



Por cima da moldura da porta há uma chapa metálica comprida e estreita, revestida de esmalte. Sobre um fundo branco, as letras negras dizem Conservatória Geral do Registo Civil. O esmalte está rachado e esboicelado em alguns pontos. A porta é antiga, a última camada de pintura castanha está a descascar-se, os veios da madeira, à vista, lembram uma pele estriada. Há cinco janelas na fachada. Mal se cruza o limiar, sente-se o cheiro do papel velho. É certo que não passa um dia sem que entrem papéis novos na Conservatória, dos indivíduos de sexo masculino e de sexo feminino que lá fora vão nascendo, mas o cheiro nunca chega a mudar, em primeiro lugar porque o destino de todo o papel novo, logo à saída da fábrica, é começar a envelhecer, em segundo lugar porque, mais habitualmente no papel velho, mas muitas vezes no papel novo, não passa um dia sem que se escrevam causas de falecimentos e respectivos locais e datas, cada um contribuindo com os seus cheiros próprios, nem sempre ofensivos das mucosas olfactivas, como o demonstram certos eflúvios aromáticos que de vez em quando, subtilmente, perpassam na atmosfera da Conservatória Geral e que os narizes mais finos identificam como um perfume composto de metade rosa e metade crisântemo. Logo depois da porta aparece um alto guarda-vento envidraçado de dois batentes por onde se acede à enorme sala rectangular onde os funcionários trabalham, separados do público por um balcão comprido que une as duas paredes laterais, com excepção, em uma das extremidades, da aba móvel que permite a passagem para o interior. A disposição dos lugares na sala acata naturalmente as precedências hierárquicas, mas sendo, como se esperaria, harmoniosa deste ponto de vista, também o é do ponto de vista geométrico, o que serve para provar que não existe nenhuma insanável contradição entre estética e autoridade. A primeira linha de mesas, paralela ao balcão, é ocupada pelos oito auxiliares de escrita a quem compete atender o público. Atrás dela, igualmente centrada em relação ao eixo mediano que, partindo da porta, se perde lá ao fundo, nos confins escuros do edifício, há uma linha de quatro mesas. Estas pertencem aos o ficiais. A seguir a eles vêem-se os subchefes, e estes são dois. Finalmente, isolado, sozinho, como tinha de ser, o conservador, a quem chamam chefe no trato quotidiano.

A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca. A contínua agitação dos oito da frente, que tão depressa se sentam como se levantam, sempre às corridas da mesa para o balcão, do balcão para os ficheiros, dos ficheiros para o arquivo, repetindo sem descanso estas e outras sequências e combinações perante a indiferença dos superiores, tanto imediatos como afastados, é um factor indispensável para a compreensão de como foram possíveis e lamentavelmente fáceis de cometer os abusos, as irregularidades e as falsificações que constituem a matéria central deste relato.

José Saramago

Do seu livro Todos os nomes (1997)


O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior do Arquivo do Registo Civil. Este funcionário cultiva a pequena mania de coleccionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas colecções, de informações exactas sobre o nascimento (data, naturalidade, nome dos pais, etc.) dessas pessoas. Dedica-se portanto a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. Casualmente, a ficha de uma pessoa comum (uma mulher) mistura-se com outras que estás copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz surgir nele a necessidade de conhecer a vida dessa mulher. Começa assim uma busca, a procura do outro.  (fundação José Saramago)


Sobre este romance: .Dos meus livros e literar.com.br.




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Escritor angolano Ondjaki recebe Prémio José Saramago por 'Os Transparentes'



– ainda me diz qual é a cor desse fogo…
o Cego falou em direção à mão do miúdo que lhe segurava o corpo pelo braço, os dois num medo de estarem quietos para não serem engolidos pelas enormes línguas de fogo que saíam do chão a perseguir o céu de Luanda
– se eu soubesse explicar a cor do fogo, mais-velho, eu era um poeta desses de falar poemas com voz hipnotizada o VendedorDeConchas acompanhava as tendências da temperatura e guiava o Cego por entre caminhos mais ou menos seguros onde a água jorrante dos canos rebentados fazia corredor para quem se atrevia a circular por entre a selva de labaredas que o vento açoitava
– te peço, vê você que tens vistas abertas, eu estou sentir na pele, mas quero ainda imaginar na cor desse fogo
o Cego parecia implorar numa voz habituada a dar mais ordens que carícias, o VendedorDeConchas sentiu que era falta de respeito não responder àquela dúvida tão concreta que pedia, numa voz de carinho, uma simples informação cromática,
embora difícil e talvez impossível o miúdo puxou de dentro de si umas lágrimas quentes que o levassem até à infância porque era aí, nesse reino desprevenido de pensamentos, que uma resposta florida poderia nascer, viva e fiel ao que via – não me deixe morrer sem saber a cor dessa luz quente
as labaredas gritavam com força e mesmo quem fosse cego de ver devia sentir uma sensação amarela de invocar memórias, peixe grelhado com feijão de óleo de palma, um sol quente de praia ao meio-dia, ou o dia em que o ácido da bateria lhe roubou a animação de ver o mundo
– mais-velho, estou a esperar um voz de criança para lhe dar uma resposta vista de perto ou de longe, a noite era uma trança em negrume e clausura, a pele de um bicho noturno pingando lama pelo corpo, havia estrelas em brilho tímido no céu, torpor de certa maresia e as conchas na areia a estalar um calor excessivo, corpos de pessoas em cremação involuntária e a cidade, sonâmbula, chorava sem que a lua a aconchegasse o Cego tremeu os lábios num sorriso triste
– não demora, candengue, a nossa vida está quase grelhada as nuvens longe, o sol ausente, as mães gritando pelos filhos e os filhos cegos não viram a luz fátua dessa cidade a transpirar sob o manto encarniçado, preparando- se para receber na pele uma profunda noite escura – como só o fogo pode ensinar as línguas e as labaredas do inferno distendido numa caminhada visceral de animal cansado, redondo e resoluto, fugindo ao caçador na vontade renovada de ir mais longe, de queimar mais, de causar mais ardor e, exausto, buscar a queima de corpos em perda de ritmia humana, harmonia respirada, mãos que acariciavam cabelos e crânios alegres numa cidade onde, durante séculos, o amor tinha descoberto, entre brumas de brutalidade um ou outro coração para habitar
– mais-velho, qual era mesmo a pergunta?
a cidade ensanguentada, desde as suas raízes ao alto dos prédios, era forçada a inclinar-se para a morte e as flechas anunciadoras do seu passamento não eram flechas secas mas dardos flamejantes que o seu corpo, em urros, acolhia em jeito de destino adivinhado e o velho repetiu a sua fala desesperada – me diz só a cor desse fogo...

Ondjaki


Excerto do romance Os Transparentes




“Este prémio não é meu, este prémio é de Angola”

Isabel Coutinho
05/11/2013 - 12:01


Prémio José Saramago atribuído ao escritor angolano Ondjaki pela obra Os Transparentes. O leitor confronta-se com uma crioulização radical da língua portuguesa, diz o júri.

À oitava edição, o Prémio Literário José Saramago foi para Ondjaki, escritor e poeta que nasceu em Luanda em 1977, autor do romance Os Transparentes, publicado pela Caminho em 2012 e que é um retrato de Angola.

O prémio foi esta terça-feira anunciado na sede da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa. Numa cerimónia em que a poeta angolana Ana Paula Tavares, e um dos membros do júri, fez o elogio do autor e da obra distinguida por unanimidade.

"Este prémio não é meu, este prémio é de Angola." Foi assim que Ondjaki agradeceu o prémio, no valor de 25 mil euros. "Eu não ando sozinho, faço-me acompanhar dos materiais que me passaram os mais velhos. Na palavra 'cantil' guardo a utopia, para que durante a vida eu possa não morrer de sede."

A notícia continua no Público.



quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Nuno Markl conta-nos uma história



Este vídeo inaugura una nova etiqueta no blogue Um Reino Maravilhoso: "Vídeos com histórias". Aí vão encontrar isso de que toda a gente gosta: ouvir histórias. Gostamos de ler, mas adoramos ouvir que alguém nos conte alguma coisa, e se dá para rir, muito melhor. É ou não é?

Antes podiam ser lidos neste blogue textos em português e, às vezes, podíamos ouvir poesia declamada. Agora, para além disso, vamos ouvir histórias. Contadores de histórias? Stand up Comedy? Bom, tanto faz. Português oral, ao vivo, pronto.

O primeiro convidado é Nuno Markl, que fala no True Tales 2012 - Tivoli BBVA.

Para quem não conhecer Nuno Markl, eis o que nos conta de si próprio:

Nasci em 1971, com uma quantidade insana de nomes - seis, para ser mais exacto: Nuno Frederico Correia da Silva Lobato Markl. Já fui jornalista sério, mas contrariado.

Em 1995 larguei isso e dediquei-me ao humor de forma profissional, trabalhando nas Produções Fictícias em programas como Herman Enciclopédia, Paraíso Filmes, O Programa da Maria ou Os Contemporâneos. Pelo meio criei O Homem Que Mordeu o Cão, na Rádio Comercial, e isso tornou-se um fenómeno tão avassaladoramente gigante, que ainda não sei bem como é que aquilo aconteceu. Sei que deu origem a um punhado de livros e que, só à conta das vendas do primeiro, comprei uma casa gira.

Deixei a Comercial para perseguir novas aventuras radiofónicas noutro lugar e conheci lá a minha musa Ana, com quem tenho um filho que é a criação mais extraordinária da minha vida - melhor ainda do que o sketch Pai Natal Vs Menino Jesus, do Herman Enciclopédia!

Regressei à Comercial para fazer A Caderneta de Cromos, a rubrica que me faltava fazer e que eu gostaria que alguém tivesse feito antes para eu ouvir, mas como ninguém fez, faço-a eu. Estreei-me no cinema como actor (!) em A Bela e o Paparazzo, do grande António-Pedro Vasconcelos. Deve estar para aí em DVD. Vejam, que é um filme de amor. E o amor é bonito.

(Rádio Comercial)


E aqui, o blogue dele: Há vida em Markl.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Crato diz que portugueses precisavam "trabalhar um ano sem comer" para pagar a dívida



Crato diz que portugueses precisavam "trabalhar um ano sem comer" para pagar a dívida

05 Novembro 2013, 00:26 por Lusa

O ministro da Educação afirmou que, para ser dispensada mais austeridade no Orçamento do Estado para 2014 e ainda pagar a dívida total do Estado, todos os portugueses teriam que "trabalhar um ano sem comer".


Numa sessão de esclarecimento sobre o próximo Orçamento, que decorreu esta segunda-feira em Ovar, Nuno Crato argumentou que o corte nas despesas do Estado não é suficiente para "pôr as contas [da Nação] em ordem" e que se impõem ainda alguns "sacrifícios que vão transformar Portugal num país competitivo".

"Teríamos de trabalhar mais de um ano sem comer, sem utilizar transportes, sem gastar absolutamente nada só para pagar a dívida", garantiu o ministro, sublinhando que não há forma de pôr a economia a crescer "sem se sair primeiro deste beco". Nuno Crato considerou, por isso, adequado um Orçamento do Estado que tem por base quatro pilares: consolidação orçamental, equidade, solidariedade e crescimento.

A nível social, o governante destacou a preocupante redução na natalidade, o que significa na sua opinião, a longo prazo mais prestações sociais do Estado para uma população em que há mais idosos do que trabalhadores activos.

Já a nível económico, realçou que o crescimento e o emprego não poderão obter-se, nesta fase, através da mera injecção de capital na estrutura produtiva do país e de um maior endividamento para esse efeito.

"Não se pense que o crescimento e o emprego se obtêm só à custa da injecção de dinheiro e pelo aumento da dívida", avisou Nuno Crato, considerando que "a pura injecção de dinheiro na economia provoca a distorção do sistema produtivo e não consegue, por si só, criar crescimento".

Atrair investimento para o país é uma das soluções recomendadas, mas também nesse contexto, o ministro declarou que o futuro passa pela reforma do IRC, a redução da taxa do IVA e a agilização do sistema judicial.

"Estamos a apressar as acções executivas nos tribunais de primeira instância porque uma das condições que os investidores impõem [para apostarem em Portugal] é que os tribunais funcionem bem", explicou Nuno Crato.

A taxa de desemprego, que tem vindo a diminuir gradualmente ao longo de 2013, e o aumento das exportações, evidente nas últimas avaliações económicas, constituem alguns dos outros aspectos em que o ministro sustentou o seu optimismo. "Em vez de termos entrado numa espiral recessiva, como dizem os mais pessimistas, Portugal entrou na espiral responsável, aumentando a sua competitividade externa", concluiu.




domingo, 3 de novembro de 2013

brincávamos a cair nos braços um do outro (valter hugo mãe)

valter hugo mãe


brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade

valter hugo mãe


valter hugo mãe é o nome artístico do escritor Valter Hugo Lemos (Henrique de Carvalho, Angola, 25 de Setembro de 1971). Além de escritor é editor, artista plástico e cantor português .



Escritor português Valter Hugo Mãe participa em festival de poesia no Egito
Da Redação - 02/11/2013 15:00

Com o apoio do Instituto Camões, Valter Hugo Mãe estará na próxima semana no festival de poesia Kalam Lelshabab, que decorrerá no Cairo. 

Lisboa - O escritor português Valter Hugo Mãe participa na próxima semana no Festival Internacional de Poesia Kalam Lelshabab, a decorrer entre 3 e 7 de novembro em diversos locais do Cairo, com o apoio do Camões, instituto estatal português orientado para a cooperação e promoção da língua portuguesa. 

O tema do festival são as diferentes linguagens da poesia, como os libretos e as letras de canções. Assim, serão apresentadas leituras, músicas e performances em diversas línguas, na Universidade Ain Shams – Faculdade Al Alsun, no Instituto Italiano de Cultura e nos centros culturais egípcios Wekalat Al-Sultan Al-Ghoury, Sama Khana e Darb 1718. (...)

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A pressão dos mortos (Ruy Belo)



A PRESSÃO DOS MORTOS

Fechas a mala do carro cheia de bagagem. E de súbito apercebes-te de que não é novo o gesto. Muitas vezes o viste já repetir. A muitas horas do dia, mas nunca como num fim de tarde. Qualquer que fosse a paisagem, a mesma paisagem: a terra calcinada, o canto das cigarras, o ar espesso do vapor a provocar a rarefacção das coisas vistas e a dar-lhes um ar de miragem. Fecha-se o tampo do caixão sobre a cara conhecida para todo o sempre. Nem se levanta o problema da eternidade. Esta terra é que tu amaste com todas a contrariedades e os problemas quotidianos. Amaste homens que por vezes talvez te tenham dado na cara e eram deliciosamente imperfeitos como tu. E tiveste de te despedir deles. Já não eram daqui. Já tinham problemas de mortos. Já se falava deles no imperfeito e não no presente. Mudou um simples tempo de verbo e tudo mudou. Um último olhar a essa caixa de mau gosto. Gostarias de atirar um torrão, como em criança, para esconjurar os maus sonhos. Mas falta-te a inocência. Decisivamente, tens de fechar com força a mala do carro. E pedes que te ponham os pneus à pressão 22. A pressão dos mortos.

Ruy Belo


Do seu livro Homem de palavra[s] (1970)