Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Carlos Drummond de Andrade - Passagem do ano



PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
                                                                                                 [e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

A rosa do povo ( 1945)


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Miguel Torga - Prescrição

Fotografia de Alessandra Ribeiro


PRESCRIÇÃO

Deixa passar as horas
Sem as contar.
Alheia a cada instante,
Vive, a viver a vida, a eternidade.
Feliz é quem não sabe
A própria idade
E em nenhum ano pode envelhecer.
Dura encantada na realidade.
Negar o tempo é o modo de o vencer.


Coimbra, 30 de Junho de 1983

Miguel Torga





quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Memória de Natal de Manuel António Pina: 'Um lugar vazio à mesa'

Fotografia de Paul Jackson
 
«Um lugar vazio à mesa», é o título da memória de Natal que o escritor sabugalense Manuel António Pina enviou à Rádio Renascença no âmbito da iniciativa «Era uma vez… no Natal», que aquela emissora de rádio tomou e em que participam outras cinco figuras conhecidas: a fadista Carminho, o poeta Tolentino Mendonça, o ex-presidente Jorge Sampaio, o treinador de futebol Fernando Santos e o padre Hermínio Rico. O texto de Manuel António Pina consta no portal da Rádio Renascença e pode ser lido ouvindo ao mesmo tempo o segundo andamento do concerto nº 2 para piano e orquestra de Brahms.

 
A memória de Natal que me é pedido que partilhe é, não de um, mas de 11 dolorosos natais, os de 1963 a 1974.

Em 1963, meu irmão mais novo, em desacordo com a Guerra Colonial, recusou-se a comparecer à inspecção militar e fugiu clandestinamente para França. Meus pais e eu pensámos que nunca mais o veríamos. O regime de Salazar parecia eterno e as guerras nas colónias africanas constituíam o centro, praticamente exclusivo, da política do país. Daí que a deserção (a situação de meu irmão não era rigorosamente de deserção, pois não chegara a ser incorporado mas, em termos militares, era afim) fosse o mais grave dos crimes, punível mesmo, se em teatro de operações, com a pena de morte.

Além disso, a deserção lançava uma sombra de permanente suspeita política sobre a própria família do desertor, pelo que meus pais receavam nunca vir a ser autorizados a sair de Portugal para visitar meu irmão. Eu próprio, quando, em 1972 ou 1973, depois de cumpridos quase quatro anos de serviço militar e já jornalista, fui encarregado de um trabalho de reportagem na Alemanha, encontrei dificuldades quase insuperáveis para obter passaporte, o que só acabou por ser possível após responsabilização pessoal do director do “JN”, Pacheco de Miranda, pelo meu regresso.

Esse primeiro Natal sem o meu irmão (de quem não tivemos, durante meses, notícias senão uma vez, através de um emigrante de Braga seu conhecido que, tendo vindo de férias, nos procurara para nos dizer que ele encontrara trabalho como “voyeur de nuit” e pedia que lhe enviássemos comida e algum dinheiro) foi, por isso, triste e sem palavras. Minha mãe levantava-se de vez em quando da mesa e ia chorar longamente para a cozinha; meu pai esperava um pouco e, depois, levantava-se também e ia buscá-la, regressando ambos em silêncio. Minha mãe pôs o prato e os talheres de meu irmão e, quando trouxe o bacalhau e as batatas, serviu-lhos. Tudo aquilo se me afigurava patético e doentio, mas também eu chorava por dentro. A certa altura, como a cadeira vazia de meu irmão se encontrava um pouco afastada, minha mãe levantou-se para aproximá-la da mesa e, nesse momento, fingi que precisei de ir à casa de banho e deixei correr livremente as lágrimas. Nos 10 anos seguintes, na nossa ceia de Natal houve sempre um prato e talheres na mesa para uma ausência presente. Até 1974.

«Um lugar vazio à Mesa», de Manuel António Pina
 
(Fonte: Quarta-feira, 21 Dezembro, 2011, Capeia Arraiana)




terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Rui Knopfli - Auto-retrato

Rui Knopfli


AUTO-RETRATO

De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

Rui Knopfli

Mangas Verdes com Sal (1969)


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

David Mourão-Ferreira - Prelúdio do Natal




PRELÚDIO DE NATAL

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira




quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Cecília Meireles - Da saudade



DA SAUDADE

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como “delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem , como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

Cecília Meireles



segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Helder Pacheco - Os dias comuns

Fotografia de Hugo Carriço


Lembro-me que era no Verão e havia um cheiro a terra morna. Lembro-me do sossego da casa e do ruído do comboio ao longe. Lembro-me de vestidos claros e da brisa que agitava os cabelos. Lembro-me que ninguém falava, porque as palavras não pareciam necessárias. Lembro-me de um sorriso tranquilo, de beijos iluminados e de não dar pelo tempo a passar... 

(Ah, saudades do Verão que passou...) 


Helder Pacheco, Os dias comuns

 

Do site oficial https://helderpacheco.wordpress.com

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

100 anos de Clarice Lispector - Uma história de tanto amor

Fotografia de Luisa Cortesão

Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).

10 de agosto

Uma história de tanto amor

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte.

Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.

Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado”. Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café – e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de pôr um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.

Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordálas seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrirlhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava: – Mas é o galo, que é um nervoso, quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue! Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe: – Nós comemos Petronilha.

A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade.

Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguia olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe.

– Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.

Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhoua num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das Minas Gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.

Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.

O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico: era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma presciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.

Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens

A descoberta do mundo (1984)

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

100 anos de Clarice Lispector - Água Viva


Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).

É com uma alegria tão profunda. É uma tal aleluia. Aleluia, grito eu, aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Porque ninguém me prende mais. Continuo com capacidade de raciocínio - já estudei matemática que é a loucura do raciocínio -quero me alimentar diretamente da placenta. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. O próximo instante é feito por mim? Fazemo-lo juntos com a respiração. E com uma desenvoltura de toureiro na arena.

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artifício eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor - pela límpida abstração de estrela do que se sente—capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal jóia refulge no ar, glória estranha de corpo, matéria sensibilizada pelo arrepio dos instantes - e o que se sente é ao mesmo tempo que imaterial tão objetivo que acontece como fora do corpo, faiscante no alto, alegria, alegria é matéria de tempo e é por excelência o instante. E no instante está o é dele mesmo. Quero captar o meu é. E canto aleluia para o ar assim como faz o pássaro. E meu canto é de ninguém. Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.

Meu tema é o instante? meu tema de vida. Procuro estar a par dele, divido-me milhares de vezes em tantas vezes quanto os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos - só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço para mim.

 Clarice Lispector

Água Viva (1973)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Clarice Lispector - "Minha alma tem o peso da luz..."



Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).

Lispector escreveu o seu último bilhete num leito do Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, no dia 7 de Dezembro de 1977.

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.




(Lido aqui)


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

100 anos de Clarice Lispector - Mais um trecho de 'Perto do Coração Selvagem'

Fotografia de Vasconcelos______________


Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).
 

Descobri em cima da chuva um milagre – pensava Joana –, um milagre partido em estrelas grossas, sérias e brilhantes, como um aviso parado: como um farol. O que tentam dizer? Nelas pressinto o segredo, esse brilho é o mistério impassível que ouço fluir dentro de mim, chorar em notas largas, desesperadas e românticas. Meu Deus, pelo menos comunicai-me com elas, fazei realidade meu desejo de beijá-las. De sentir nos lábios a sua luz, senti-la fulgurar dentro do corpo, deixando-o faiscante e transparente, fresco e úmido como os minutos que antecedem a madrugada. Por que surgem em mim essas sedes estranhas? A chuva e as estrelas, essa mistura fria e densa me acordou, abriu as portas de meu bosque verde e sombrio, desse bosque com cheiro de abismo onde corre água. E uniu-o à noite. Aqui, junto à janela, o ar é mais calmo. Estrelas, estrelas, zero. A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis. Porque não vem a chuva dentro de mim, eu quero ser estrela. Purificai-me um pouco e terei a massa desses seres que se guardam atrás da chuva. Nesse momento minha inspiração dói em todo o meu corpo. Mais um instante e ela precisará ser mais do que uma inspiração. E em vez dessa felicidade asfixiante, como um excesso de ar, sentirei nítida a impotência de ter mais do que uma inspiração, de ultrapassá-la, de possuir a própria coisa – e ser realmente uma estrela. Aonde leva a loucura, a loucura. No entanto é a verdade. Que importa que em aparência eu continue nesse momento no dormitório, as outras moças mortas sobre as camas, o corpo imóvel? Que importa o que é realmente? Na verdade estou ajoelhada, nua como um animal, junto à cama, minha alma se desesperando como só o corpo de uma virgem pode se desesperar. A cama desaparece aos poucos, as paredes do aposento se afastam, tombam vencidas. E eu estou no mundo solta e fina como uma corça na planície. Levanto-me suave como um sopro, ergo minha cabeça de flor e sonolenta, os pés leves, atravesso campos além da terra, do mundo, do tempo, de Deus. Mergulho e depois emerjo, como de nuvens, das terras ainda não possíveis, ah ainda não possíveis. Daquelas que eu ainda não soube imaginar, mas que brotarão. Ando, deslizo, continuo, continuo... Sempre, sem parar, distraindo minha sede cansada de pousar num fim. – Onde foi que eu já vi uma lua alta no céu, branca e silenciosa? As roupas lívidas flutuando ao vento. O mastro sem bandeira, ereto e mudo fincando no espaço... Tudo à espera da meia-noite... – Estou me enganando, preciso voltar. Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. E porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa. Por que calada? Essas curvas sob a blusa vivem impunemente? Por que caladas? Minha boca, meio infantil, tão certa de seu destino, continua igual a si mesma apesar de minha distração total. Às vezes, à minha descoberta, segue-se o amor por mim mesma, um olhar constante ao espelho, um sorriso de compreensão para os que me fitam. Período de interrogação ao meu corpo, de gula, de sono, de amplos passeios ao ar livre. Até que uma frase, um olhar – como o espelho – relembram-me surpresa outros segredos, os que me tornam ilimitada. Fascinada mergulho o corpo no fundo do poço, calo todas as suas fontes e sonâmbula sigo por outro caminho. – Analisar instante por instante, perceber o núcleo de cada coisa feita de tempo ou de espaço. Possuir cada momento, ligar a consciência a eles, como pequenos filamentos quase imperceptíveis mas fortes. É a vida? Mesmo assim ela me escaparia. Outro modo de captá-la seria viver. Mas o sonho é mais completo que a realidade, esta me afoga na inconsciência. O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?

Clarice Lispector
 
Perto do Coração Selvagem (1943)


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

100 anos de Clarice Lispector - Como tratar o que se tem

 

Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).


Como tratar o que se tem

Existe um ser que mora em mim como se fosse casa sua, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem - pois nunca morou em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão. Seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa que não tenha medo do que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que ele não tem nome: basta chamá-lo e se acerta com seu nome. Ou não se acerta, mas uma vez chamado com doçura e autoridade ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: a gente se engana e pensa que é a gente mesmo que está relinchando de prazer ou de cólera.

A descoberta do mundo (1984)


"A descoberta do mundo é o primeiro trabalho de crônicas de Clarice. Mais do que ousar em um novo estilo literário, até então incomum em sua obra, a escritora faz desta publicação um diário de bordo da sua vida: paixões, histórias, entrevistas, filmes. Enfim, tudo o que participou de alguma forma de sua existência. São 468 crônicas publicadas aos sábados no Jornal do Brasil – certos dias agrupam várias delas, pequenas – entre 1967 e 1973 e, curiosamente, muitas delas poderiam ser republicadas hoje sem que ninguém percebesse a passagem dos anos. Algumas reflexões são atuais e atemporais. Personagens e pessoas que passaram por sua história, como as empregadas Aninha e Jandira, e uma jornalista, Cristina – ela não cita os sobrenomes –, são retratados em passagens da memória de Clarice. O livro é dividido em dias, como se fosse um diário, mas sempre entre realidade e ficção. Esta última, no entanto, revela com fidelidade as incertezas que cercavam sua enigmática personalidade." 



Fotografia da família de Clarice Lispector (pais e irmãs) - déc. 1920 em Recife PE. Acervo da Clarice Lispector na Fundação Casa Rui Barbosa  



sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Sophia de Mello Breyner Andresen - Marinheiro




MARINHEIRO REAL

Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Mar Novo (1958)
 

Fyodor Semenovych Bogorodskiy (1895-1959), Jovens (Marinheiros), 1932
 
 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Fernando Assis Pacheco - O tipo que se ia casar



O TIPO QUE SE IA CASAR

Parece que estas crónicas têm de ser escritas em períodos relativamente curtos - garante-me a minha amiga e colega de jornal Ângela Caires, mais metida do que eu nos meandros da Rádio.

"Usa períodos pequenos" - diz-me ela. - "Não percas o fôlego a meio de uma frase. Se fizeres frases longas, falta-te o ar e as pessoas depois perguntam se és asmático."

É o que algumas pessoas me têm já perguntado:

"O senhor é asmático?"

Respondo que não, que não sou, mas a minha mulher e uma das minhas filhas são. Conheço os seus momentos de crise, os seus terrores noturnos, as olheiras com que acordam. Tudo isto é terrível e estraga às vezes a boa disposição do cronista, pois nunca ninguém pôde viver sem atenção ao outro, atenção ao próximo, ao que faz vida ao lado: partilhamos as venturas e desventuras alheias na proporção direta da nossa generosidade.

Mas agora que eu já sei que na Rádio se usam períodos curtos, e como não pretendo massacrar o outro com histórias tristes, ou simplesmente melancólicas, vou então contar um conto alegre de um tipo que se foi casar.

O tipo que se foi casar estava imponente de palavra na Messe de um quartel de Cavalaria no Alentejo (olha o período longo, Assis Pacheco!). O tipo que se ia casar, chateado porque no Alentejo em 1963 era uma pasmaceira dos demónios, resolveu convidar para lanchar uma data de amigos. Foram lanchar a um cafezinho que havia em Estremoz, lanche abundante, tipo febras de porco com vinho de Borba e amarelinhas de Veiros, e sucedeu que toda a gente ficou com um grão na asa. Conversa daqui, palestra dali, o grupo ainda teve tempo para mais uma prosa e mais umas amarelinhas noutro cafezinho (olha o período longo!), que aquilo no Alentejo há 14 anos parecia, não era mas parecia, parecia reduzido a cafezinhos e amarelinhas e amigos do peito que nos ajudavam a esquecer o raio da guerra de Angola - aqui é que saiu um período longo, paciência ó Ângela, são coisas da lembrança.

Acabados os dois sucessivos lanches nos dois cafezinhos, o tipo que ia casar disse para a ilustre e tropeçante companhia:

"Bom, malta, agora tenho de passar pela Conservatória."

"E vais a pé, claro" - comentou um dos da malta.

"Não" - cortou logo o tipo que ia casar -, "queres que vá montado nalguma mula do quartel?"

Não era isso, volveu o parceiro. Nada disso. Apenas era ele de ideia que se pedisse uma bicicleta ao cabo Barra, felizmente vivo para não desmentir este conto. O cabo enfermeiro Barra, companheirão das dúzias, emprestava a "burra" daí a cinco minutos. Pneus cheios, guiador sem torção, tudo ótimo, ala! E lá foi o tipo que ia casar direito à Conservatória do Registo Civil, onde o aguardava um funcionário por causa dos papéis do casamento.

Ah, e aqui eu peço muita, muita desculpa à Ângela Caires, o tipo que ia casar era eu, e estava imensamente alegre e bruto e sem equilíbrio em cima da bicicleta e andava só aos esses e em Estremoz diziam quando eu ia passar "olha, o aspirante já vai lindo", sem saberem que eu ia realmente lindo, mas lindo de contente, não lindo de copos, que são coisa de somenos e não ocupam uma vida. Eu voava, rodava nas nuvens, cantava por dentro, e agora estou-me nas tintas para o período curto - há bebedeiras dramáticas e insuportáveis mas aquela era leve, subitamente simultaneamente para rir e chorar (porque havia uma lágrima pendente do monco do aspirante de Cavalaria 3, bolas, um aspirante só casa uma vez, pensava eu, que só casei uma vez e definitivamente com a mesma imagem de mulher).

Na Conservatória esperava-me um silêncio gelado.

"Trouxe as certidões?"

Tinha trazido as certidões.

"Importa-se de assinar?"

"Sim, senhor."

Acabei as assinaturas, agradeci e preparava-me para sair quando um empregado velho para aí chefe dos mangas de alpaca de turno me admoestou:

"Não é estado, senhor aspirante."

Tentei a graça:

"Realmente solteiro não é estado."

E ele: "Estado etilizado."

Apeteceu-me ser mal-educado. Descortês. Chato. Sou o contrário disso quando quero. Desencostei a bicicleta do balcão da Conservatória e saí.

Entrar de bicicleta numa Conservatória do Registo Civil equivalia a um desrespeito qualquer que me ia valendo uma punição militar. As pessoas, se eu lhes explicasse o sucedido, não acreditariam. E talvez o burguesinho século XIX as defendesse: um aspirante a "bicicletear" daquela maneira!

Enfim, lá me deram os papéis, lá casei, lá fui para Angola, lá vim de Angola, lá faço eu crónicas para a RDP, e a menina com quem eu casei às vezes prega-me cá uns sustos com a asma que eu até ando de roda. Ela e a filha. Mas a família no resto é alegre. Não sei se terá herdado o meu ar circense montado na bicicleta do cabo Barra, o companheirão das dúzias. Acho que sim.

Acho eu que tenho de achar que sim. Herdar os repentes de intolerância é que é para se corrigir, mesmo em períodos longos de prosa doméstica.

Deixo-vos um "bom-dia" no pedal deste domingo.

Fernando Assis Pacheco


CRÓNICAS RADIOFÓNICAS INÉDITAS DE FERNANDO ASSIS PACHECO

Em apenas cinco minutos, num programa matinal de domingo para a Radiodifusão Portuguesa, entre 1977 e 1978, Fernando Assis Pacheco seguiu com o ouvinte por histórias sobre futebol de botões, o dia em que se foi casar de bicicleta, viagens de eléctrico, aldrabões, e até lançou adivinhas. As crónicas deste livro, até agora inéditas, foram reunidas a partir de folhas dactilografadas que o autor guardou.

«O cronista é um grande contador de histórias. E escreve as crónicas radiofónicas com o mesmo cuidado que põe na prosa literária, na poesia ou na escrita quotidiana para os jornais. Cabem-lhe os domingos da Crónica da Manhã e Fernando Assis Pacheco escreve sempre a pensar nos ouvintes anónimos que estão de rádio ligado a essa hora. Finge estar vocacionado para "chalacear sobre coisíssima nenhuma", por formação coimbrã. Mas encontra sempre bons motivos para ocupar os minutos de rádio semanais. Nem precisa de procurar assunto, porque "a vida, a vida insidiosa e metediça, a vida piolho na costura, comichão na pele, assombração inesperada, a vida afinal está sempre a electrizar-nos"». — João Pacheco, Prefácio.

Da página da editora Tinta da China (Janeiro de 2017)


"Dar cinco minutos às crónicas inéditas de Fernando Assis Pacheco", de João Céu e Silva  (DN, 27 de janeiro de 2017)

"Salvé, Fernando Assis Pacheco", de Francisco Louçã, (Público, 31 de janeiro de 2017)


Assis Pacheco de bicicleta em Pardilhó



Fernando Pessoa / Álvaro de Campos - Poema em linha recta



Já tinhamos ouvido aqui este poema do heterónimo pessoano Álvaro de Campos em 2013. Agora, outra versão:

Osmar Prado recitando "Poema em linha reta" (Fernando Pessoa), em cena de O Clone (2002)


POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa




quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Fernando Pessoa - A morte é a curva da estrada

Dito por Natália Luiza


A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

23-5-1932

Fernando Pessoa



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Eugénio de Andrade - Os amigos


Fotografia de Luiz Felipe Sahd

 

OS AMIGOS

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria –
por mais amarga.

Eugénio de Andrade 

 

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Reinaldo Ferreira - O Futuro

 

Fotografía em The Delagoa Bay World

 

O FUTURO

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários

Reinaldo Ferreira (filho)


segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Antero de Quental - O Palácio da Ventura

Gravura de Doré

 

O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Manoel de Barros - "No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates..."


Fotografia de Xavier Donat

 

No caminho, as crianças me enriqueceram mais do que Sócrates. Minha imaginação não tem estrada. E eu não gosto mesmo de estrada. Gosto de desvio e de desver.

Manoel de Barros numa carta a José Castello



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Fernando Pinto do Amaral - Zeitgeist

Sem título (1997) - António Dacosta (1914-1990)


Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios onde, às escuras,
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, para conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
plo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pla madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acedia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação save
e assim alcançarem a eternidade.


Fernando Pinto do Amaral

leyapoemas, jl
2009


(Lido em canal de poesia)


Nota. Zeitgeist (pronúncia: tzait.gaisst) é um termo alemão cuja tradução significa espírito da época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.

(Wikipédia)



sexta-feira, 6 de novembro de 2020

António Osório - Amo-te

Fotografía de Piero/fiume azzurro


AMO-TE

Amo-te
com pressa
de não acabar o amor.

António Osório

O lugar do amor (1981)

Poema lido no blogue Acontecimentos, de António Cícero.


domingo, 1 de novembro de 2020

Adélia Prado - As mortes sucessivas



AS MORTES SUCESSIVAS

Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu
me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu
nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
´deixa, tá bom assim´.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.

Adélia Prado

Retirado de Bagagem (1976), o seu livro de estreia.




sábado, 31 de outubro de 2020

Carlos Drummond de Andrade - Aurora

Bondinho, Santa Teresa - Rio de Janeiro (Fotografia de Marco Nunes)


AURORA

O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.

Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar
(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
que o mundo ia acabar às 7 e 45.
Últimos pensamentos! últimos telegramas!
José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.

O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?

Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.

Carlos Drummond de Andrade




segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Alexandre O’Neill - Se...



SE... 

Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco do correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o "ponto" do Jorge!) tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao sair com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Tavessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino, tac, vai mudar?


Alexandre O'Neill



Do seu livro No Reino da Dinamarca (1958)





sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Pedro Paixão - Perseguição da beleza

Fotografia de kiss-my-pixels


PERSEGUIÇÃO DA BELEZA

Há quem persiga o poder, o dinheiro, a fama. Eu persigo a beleza. Não é uma escolha. É uma condenação. Sem beleza faleço. É um trabalho difícil, muitas vezes doloroso, cheio de revezes. Já passei dias e dias com as mãos na garganta apavorado que ela não volte a visitar-me. É difícil dizer o que é aquela poderosa presente ausência que nos oprime e agarra. Nunca está onde está, mas sempre um pouco mais longe, noutro sítio. Não são cores, imagens, sons, nem sequer a suave pele de uma mulher que me encantam. É o que está para além disso e que isso chama. A beleza corre o permanente perigo de a qualquer momento se desfazer em nada. É, na verdade, por completo insustentável. Não se pode medir, calcular, torná-la obedientemente exacta. É impossível provar que existe. Daí a urgência, o coração a bater na boca. A perseguição da beleza é uma corrida de obstáculos sem meta de chegada. Basta o som de uma voz para rasgar futuros. Basta uma fotografia de uma mala fechada sobre uma cama para abrir horizontes. Todos os cuidados são insuficientes. É um trabalho longo preenchido de mistérios. Se se procura controlar, escapa. Se se procura guardar, esvai-se entre os dedos. Tem de ser roubada com toda a rapidez e mantida no movimento que é só dela. Se se tenta parar, fixar, já não vale a pena. O dinheiro tem certamente as suas vantagens. Uma das poucas coisas que serve para várias. E a beleza não serve de nada. Atrapalha. Provoca desastres nas famílias, intoxica-nos até ao desmaio, não poupa nada. Devia ser proibida. É um escândalo no meio do mundo. É a causa do espantoso medo que é perdê-la. Não escolhi ser quem sou, este vício de que sou escravo. O que mais importa ninguém escolhe. Já tentei ser tantos para escapar de mim, para me desviar desta vida que me deram. E depois vem a beleza. Surpreendente ao virar de uma esquina. Um desejo marcado no ponto de encontro do aeroporto onde ficaremos para sempre abraçados. A tomar duche à minha frente. A irromper do nada. A primeira coisa que um qualquer fanatismo sabe que tem a fazer é demolir com a beleza. Com todo o direito, de todas as maneiras. A beleza semeia a desordem nas almas e nos corpos que anima. A beleza alimenta-se de uma liberdade particularmente virulenta. É impertinente. Não conhece regras. Vive da vida e de mais nada.

Pedro Paixão 




segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Manuel António Pina - Farewell happy fields - IV

Fotografia de Sérgio Granadeiro (Expresso)




Farewell happy fields  – IV

Farewell happy fields
where joy for ever dwells: hail horrors...

Milton, Paradise Lost



(Adeus campos felizes; remorsos: adeus.)
vamos os dois ao longo dos dias felizes
conversando e ouço o que dizes
como se quem falasse fosse eu;
(adeus palavras, sonhos de beleza,
montanhas desoladas da infância
donde tudo se via: a alegria
e a cegueira do que não se via;)
vês agora o que eu vejo, a minha sombra
caminhando a teu lado num tempo sem sentido,
quando eu ainda não tinha morrido?

(Adeus perfeição, adeus imperfeição.)
Às vezes pergunto-me se valeu a pena,
se não haveria outra solução,
se não poderia, por exemplo, ter embarcado
num desses barcos que aparecem sempre
milagrosamente na última estrofe,
e se tu não poderias ter ficado
no cais, ou em alguma metáfora mais
imperiosa, partindo também donde te via,
e se assim não teria tudo sido
menos improvável e menos cansativo.

Infelizmente não havia barco onde
coubéssemos eu e as minhas lembranças;
tudo o que havia, tudo o que realmente havia,
a ti o tinha dado
e, dando-to, tinha-to roubado,
e a minha própria morte pairava
entre ti e mim indecisamente,
como uma idEia, não como algo presente.

Agora volto a sítios vastos
uma última vez. Com hesitantes passos
subo as escadas e bato à porta
e tu abres-me a porta mesmo estando morta
e mesmo eu estando morto, como se fôssemos
visitados pelo mesmo sonho.

Manuel António Pina


Do seu livro Farewell Happy Fields (1992)




sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Cristovam Pavia - Requiem

Cristovam Pavia, menino

 
REQUIEM

                                                     (ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...

Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me confundo contigo.

Cristovam Pavia

"Por delicadeza perdeu a vida", Pedro Mexia (Público, 22-9-2010)
 
 
 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Manuel Bandeira - Antologia

Ilustração de Emilio Damiani


ANTOLOGIA

A vida
Com cada coisa em seu lugar.
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.

Quero esquecer tudo:
— A dor de ser homem... Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Manuel Bandeira






sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Mário de Sá-Carneiro - Dispersão

Fotografia de César Augusto V. R para este poema



DISPERSÃO

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto
E hoje, quando me sinto.
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que me abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que protejo:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... Mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que sonhei!... )

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...


 Paris - maio de 1913.


Mário de Sá-Carneiro 




segunda-feira, 5 de outubro de 2020

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Blogue Enfado - Cinema


Fotografia de Xvant


Cinema 09.07.2005

O nervoso miudinho de conseguir um bom lugar e entrar antes que as luzes apaguem. O silêncio escuro antes do projector se ligar. O falar baixinho durante as apresentações. O mundo novo que começa em tamanho gigante à nossa frente. O novelo desenrolado lá dentro. O genérico final e querer saber de quem era aquela música. O irritante e necessário acender das luzes. O levantar vagaroso e o andar trôpego. O cigarro acendido cá fora. O encanto quando é bom. O enfado quando é mau.

Metam lá isto tudo num DVD e depois falamos.


Blogue Enfado, de Guilherme Cartaxo



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Fátima Maldonado - As Mulheres de Ozu

Setsuko Hara


AS MULHERES DE OZU

Em Ozu
as mulheres parecem conchas
macias do embate noutras pedras
arestas recolhidas e guelras aparadas
nas garras de volfrâmio.
Porta-chaves contra balcões de fórmica
por homens agitados
à busca de cervejas
Elas conservam
no meio da substância
onde o plástico coagulou em estrela,
em sachada na lama
ou baba dejectal,
a mesma bolsa de ar que declina
a arte sedosa da astúcia.
Mimoso camarão
na férvida água chamariz,
natureza trivial recolhida
à inócua tintagem de drageia
assomando à papila
a ante-deleição,
carne desfibrada entre palato e língua
até nada restar senão a ténue espuma
que sobrenada o acto,
o gesto inclinado,

a subserviente postura lateral.

Fátima Maldonado


Poemas Com Cinema: Organização de Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.


Ineko Arima



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

João Miguel Fernandes Jorge - E o chão fosse o meu coração

Fotografia de bbabyshambles


E O CHÃO FOSSE MEU CORAÇÃO

Partira. E por isso me doía a cabeça e não
dormira toda a noite. Ficara enrolado nos
lençóis, à escuta, esperando um regresso,
esperando não sabia o quê.
Compreendia que continuava ainda na mesma
sensação de expectativa,
à espera de qualquer coisa, numa ansiedade que
não passava como se a vida não pudesse mais
ser a mesma, apesar do próximo inverno
apagar inexoravelmente todos os sinais.

Partira. O inverno encarregar-se-ia, pouco a
pouco, de tudo esbater. Aqueles meses tão
cheios da sua presença haviam de recuar, de
perder importância, de desbotar e de se
irem fundindo noutros dias.
Perder-se-iam no abusivo uso dos infinitos que
dão sempre uma poesia frouxa,
uns versos de incidente
na pressa de registarmos um acontecimento
extravagante.

Partira. Não deixaria de tirar daí algum proveito,
um pano torcido acima de um balde como se
se lavasse o chão
e o chão fosse o meu coração.

João Miguel Fernandes Jorge

a jornada de cristóvão de távora. segunda parte. Presença, 1ª edição, 1988.



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Ruy Belo - Primeiro e Segundo Poemas do Outono

 

Fotografia de Francisco Oliveira



PRIMEIRO POEMA DO OUTONO

Mais uma vez é preciso
reaprender o outono –
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração

E sabe deus a minha humana mão


SEGUNDO POEMA DO OUTONO

Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver

Ruy Belo

Aquel Grande Rio Eufrates (1961)


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Pepetela - O nosso país é bué

Mercado de Roque Santeiro, Luanda. Fotografia de David Burke


O NOSSO PAÍS É BUÉ

Quando miúdo Lito irrompeu pela casa, feito bola de futebol a entrar na baliza do Primeiro d'Agosto, como ele gostava de ver no estádio da Cidadela, a mãe assustou, que passa, que passa? Eram tempos difíceis, qualquer notícia podia trazer uma tragédia, qualquer corrida podia significar perigo, qualquer grito significar agonia.

— Esse país é bué, mãe, esse país é bué!

Dona Fefa bem conhecia os entusiasmos repentinos do filho pelo país, aprendidos nos livros da escola, embora contrariados constantemente na rua. Desta vez ele vinha daí mesmo, da rua, se espantava ainda mais ela por tanto patriotismo. Parou de mexer a colher de pau na panela do feijão com óleo de palma, limpou as mãos ao avental, disse com voz cansada, explica então como esse país é bué, que mentira mais te pregaram? Que não era mentira, não, ele tinha visto mesmo, mãe, petróleo a sair no chão, aí no quintal de Dona Isaura.

— Deixa de brincadeiras, não vês estou a trabalhar?

Miúdo Lito se encostou na parede mal rebocada da cozinha, onde se notavam, entre os bocados de barro seco, os troncos tortos de mandioqueira que seguravam a construção precária. Encolheu os ombros. Falou mais baixo, mas ainda entusiasmado:

—Vi o petróleo a sair assim do buraco que eles cavaram no chão, mãe. Afinal tinham tapado aquele bocado com esteiras, nem nos deixavam entrar lá no quintal. Era para esconder o buraco que andavam cavar. Mas hoje se distraíram e eu entrei com o Pedro. Vi o buraco. Dona Isaura estava a receber o balde em cima, o pai do Pedro estava lá dentro do buraco. Quando me viram berraram bué com o Pedro, que ninguém que podia entrar no quintal, se ele não sabia já... Depois me pediram muito não conta embora a ninguém.

— E já me estás a contar a mim, ralhou Dona Fefa, seu fofoqueiro.

— Mas a senhora é minha mãe, posso contar. Até porque também vamos cavar buraco no quintal. O Pedro me disse que depois vai vender em garrafas na rua, como os outros estão fazer. Esse petróleo que serve para os candeeiros que agora se anda a comprar no Roque Santeiro, afinal não vem da Sonangol, está vir mesmo do chão.

Dona Fefa estava estranhar. Lito não era mentiroso e se dizia que tinha visto é porque era verdade. De facto já ouvira falar, no mercado Roque Santeiro vendiam petróleo para candeeiro mais barato que o tabelado pelo governo. Mas então a amiga Isaura se metia em negócios desses e nem lhe dizia nada? Sim, o kandengue fez bem em contar. Julgava ela que conhecia os amigos... Quando cheirava a dinheiro no ar, logo entravam os esconde-esconde, para não se perder negócio. Então Dona Isaura, quase vizinha, que só escapou ser comadre porque a menina morreu à nascença, ia lhe convidar para ser madrinha do segundo filho, essa mesma Dona Isaura que conhecia desde que se instalaram no bairro na altura da Independência afinal agora esqueceu a amizade e guardou segredo de que havia petróleo no quintal dela, hum, hum, não se faz a uma amiga! De facto havia esse cheiro que aparecera de repente no bairro, parecia vir de todos os sítios ao mesmo tempo. Julgava que vinha da refinaria, às vezes eles faziam umas limpezas e deitavam os líquidos à toa, até para o mar. Afinal vinha dos quintais vizinhos e era a prova do que dizia Lito. Mas se no quintal de Dona Isaura há petróleo, não quer dizer que aqui também tem, era Dona Fefa a querer duvidar ainda de uma sorte demasiada...

— Mas tem sim, mãe, tem em todos estes quintais da zona. O pai do Pedro também soube pelos vizinhos e pelo cheiro que vinha do lado. Todos andam a cavar, só que estão a esconder, têm medo do governo.

A prudência da mãe desconfiou de tanta fartura, se têm medo do governo é porque estão a fazer coisa má, o que não era no entanto certo, argumentava o miúdo ainda entusiasmado, só têm medo porque a polícia vem e fecha os poços à toa, ou a polícia pede gasosa demais. Logo veio acima o nacionalismo de Miúdo Lito que repetiu este país é bué, aqui nem é preciso refinar. Isso estudei na escola, o petróleo tem de ser refinado ali na Petrangol, só depois pode ser utilizado nos candeeiros ou nos carros ou nos aviões. Mas aqui sai já directo do chão para o candeeiro, não sei se também dá prós carros. E bué mesmo, ninguém que aguenta esta terra. Miúdo Lito saiu disparado para a rua, com o mujimbo a encher o peito. Dona Fefa ficou a pensar, então a vizinha Isaura vai mandar o Pedro vender petróleo na rua? É capaz de dar bom dinheiro. E que jeito lhe dava, também a ela. Viúva, obrigada a trabalhar de lavadeira para criar o filho, sem mais família na cidade e sem saber onde anda a que deixou no mato, perdida pelas guerras... uns garrafões de petróleo todos os dias podiam ajudar muito. Mas como cavar um buraco no quintal? Ela sozinha? O miúdo podia ajudar, mas não chegava. E para essas coisas não se pode contratar um roboteiro, aproveitam logo nas exigências e acaba por ficar muito caro. Nem dá pedir a um vizinho, não é mesmo coisa que se peça a um vizinho, por muita intimidade que haja. A latrina fora cavada há anos pelo marido e levou muito tempo, pois não é fácil cavar um buraco fundo. E Lito tinha dito que o pai do Pedro desaparecia no buraco para encher o balde, imagine-se a altura do buraco. Abanou a cabeça. Era uma tentação aproveitar a riqueza que jazia em baixo do quintal, lá isso era. E não estava a roubar ninguém, o petróleo estava na terra, era de quem apanhasse. Ou não?

Esperou que o feijão apurasse e foi falar à vizinha Isaura, saber mesmo das coisas, o coração dela estava a doer e mais doía se não tirasse a coisa alimpo. Avizinha que lhe desculpasse o atrevimento, mas o miúdo contou, sabe como são os miúdos, não podem guardar segredo, e o assunto é tão importante que merece mesmo o risco de criar incómodo entre amigos. A vizinha Isaura compreendeu, ficou muito embaraçada no princípio, até estava mesmo para contar à Dona Fefa, só que o meu marido disse, espera ainda mais um pouco para ver se sai alguma coisa, muitas vezes as promessas não se cumprem, mas era verdade mesmo, tinha saído petróleo, a amiga podia vir no quintal ver e cheirar, cheira mesmo a petróleo, logo mais vamos vender na rua e Dona Fefa também devia cavar um buraco, se tornar proprietária de um poço de petróleo, ainda vamos ser uns nababos a andar de Mercedes e fumar charuto, vizinha. Uma gargalhada de Isaura fugiu para as ralas nuvens no céu azul. Dona Fefa tinha dúvidas, e se a polícia sabe? Esse de facto era o problema, os vizinhos que tinham poços clandestinos andavam a discutir muito isso, disse Dona Isaura, porque para uns garimpo de petróleo é proibido, os angolanos não podem ter poços, só os estrangeiros, o que é evidentemente uma injustiça os donos da terra serem afastados dessas riquezas, outros no entanto diziam não, agora já há garimpo livre, não só de diamante mas de tudo, não há mais partido único, nem garimpo único, é a democracia petrolífera. E o que está no subsolo não tem dono. Ainda preciso de pensar bem, rematou Dona Fefa, sozinha como vou cavar, mesmo com o Lito a ajudar? E voltou às suas enegrecidas panelas. Não teve tempo de tomar uma decisão. Miúdo Lito e os outros miúdos da zona se pássaram o mujimbo e não aguentaram o peso de o reterem, eram tão patriotas que tiveram de o transmitir a vizinhos mais longe, para estes também se congratularem com o país que tinham, de modo que a notícia chegou a uma rádio, depois a outra, a cidade ficou a saber, o país e o mundo. Depois a polícia também soube e veio no bairro proteger a empresa encarregada de tapar os buracos à força, dizendo que afinal andava a morrer gente com explosões e incêndios provocados por esse petróleo que não era petróleo bruto e não saía da terra só assim, afinal antes tinha passado pela refinaria e depois se infiltrado pelo chão vermelho por algum tubo gasto, formando um lençol subterrâneo. Então não ouviram falar de Só Afonso, aquele fazedor de tijolos já velho mas sempre rijo, que morreu numa explosão a acender o candeeiro? Era desse líquido aí, mistura de gasolina com outro produto, um perigo para todos, sobretudo as crianças. Os supostos donos dos poços ainda tentaram resistir aos homens da empresa e aos polícias, até porque agora somos proprietários e não podemos ser tratados como deslocados de guerra sem voz, têm de nos ouvir, a nós, os micrempresários, agentes económicos. Mas as autoridades disseram, esse produto tem dono, saiu da refinaria ou de tubos da refinaria ou de outro sítio qualquer, além disso é perigoso, já morreu gente, portanto, senhores micrempresários, se insistem, chamamos os ninjas, eles sabem dar cabo rapidamente de qualquer resistência à autoridade. Foi o ponto final no garimpo de petróleo, que de facto era gasolina adulterada pela muita ferrugem dos canos. Mais tarde veio a explicação nos órgãos de comunicação social, a refinaria era velha e há muito tempo não tinha manutenção a sério, daí as fugas de líquido.

Miúdo Lito ficou desiludido. Não por ter desaproveitado a riqueza que dormia no seu quintal. Mas porque afinal o país não era assim tão bué como imaginara.

Pepetela

1999 (escrito para a Revista da Sonangol)



quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Carlos de Oliveira - Infância

Fotografia de Juca Filho


INFÂNCIA

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Carlos de Oliveira



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Teixeira de Pascoaes - Poeta


POETA

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou-
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

Teixeira de Pascoaes

Sempre (1898)


(CVC)



"Teixeira de Pascoaes", por Maria das Graças Moreira de Sá, em Instituto Camões.



terça-feira, 1 de setembro de 2020

José Cardoso Pires dizendo "Fumar ao Espelho"



"Aos cinquenta anos dei por mim a fumar ao espelho e a perguntar E agora, José. Fumar ao espelho, qualquer José sabe isso, é confrontarmo-nos com o nosso rosto mais quotidiano e mais pensado. Por trás, em fundo, tem-se um cenário do presente imediato (a porta do quarto, um cabide vazio) mas esse presente, logo à segunda fumaça já é passado (a porta desfez-se, o cabide voou) e tanto mais passado quanto mais mergulhamos no cigarro. O olhar envelheceu, foi o que foi.

E então, por mais que a gente diga que não, começam a aparecer as pegadas históricas do Dinossauro que nos andou a foder a vida durante cinquenta anos. Adivinhamo-las à super- -superfície do vidro, são manchas fósseis, gretadas, então não se vê logo?, e, escuta à distância, ouve-se o carrossel do medo. Aqui e ali vão-se levantando farrapos do muito que em nós se adiou e do muito que em nós se morreu, e nalguns casos podemos até distinguir o traço de liberdade que abrimos com os nossos livros nessa desolação prolongada. Pronto, estamos feitos, José. De agora em diante começa o rememorar, devias saber.

Certo, cinquentas... muito ano. Muito silêncio, muita humilhação. Mas diz-me, espelho, vale a pena recordá-los? A que propósito agora esse arranhar de ferida, essa recriminação?

José, no espelho, encolhe os ombros. É como se não me ouvisse, como se não se ouvisse, nada a fazer.

No espelho os olhos só se vêem reflectidos noutras coisas, segreda-me por cima do ombro o honorável William Shakespeare a páginas tantas (e com franqueza, deitam um bafo podre, estas palavras). Mas nem assim, José continua na dele. José é José, suspeita que o querem despir do passado para que fique incapaz de o reconhecer quando lho puserem pela frente na primeira oportunidade. E defende-se, não desarma. Daqui a pouco está com certeza a citar Santayana (não me admirava nada) e a sublinhar desgraças. Revê exemplos, concita mortos porque (palavras de Santayana, eu não dizia?) «quem esquece o passado arrisca-se a vivê-lo outra vez» e ao chegar a este ponto não adianta mais. Disse. Ou melhor, eu disse.

Mas fumar ao espelho não é só ver para trás olhando de frente. É também um modo-josé de futurar, para lá do rosto que o repete e que fumega. E aí, deixa que te diga, o pessimismo ... que nos lixa. Porquê? Ah bom, porque... uma dor de colhões, não te rias. Absolutamente. O pessimismo, se não sabes ficas a saber, sempre teve a ver com carências afectavas. Daí que ele seja incómodo por natureza. Incómodo para o próprio que, sabe Deus, tem de viver toda a vida com essa dor, esse nó, e incómodo para a Pátria que já mandou para o Camões todos os Velhos do Restelo que lhe andavam a dar azar. Isto - por um lado, aquele a que podemos chamar Da Saúde Nacional. Mas há o outro, o da superstição. Absolutamente. O pessimismo acaba sempre por funcionar como uma superstição de prudência: prevê o pior para ir acumulando resistências contra o mau mas sempre na esperança de que o mau nunca venha a acontecer. E se acontecer, percebes, também já não perde tudo, ganhou pelo menos a glória da razão. Uma superstição pela negativa ou por efeito contrário, dirá algum, mas muitas ... realmente nesse jogo a dois gumes que acaba o austero pessimismo. Que horas serão isto?

Horas? Nos colóquios de espelho nunca é tarde nem é cedo nem hora certa sequer, quem me ensinou isto foi o reverendo Lewis Carrol que tinha a mania dos vidrinhos às cores. Se calhar ... Por isso que estes exercícios, se a gente não tiver cuidado, acabam num ritual que não interessa nem ao Menino Jesus. Um ritual, José, onde o padecente, em vez de incenso se esfumaça em nicotina. Em vez de incenso, tabaco, em vez de hossanas, Provocações, e às duas por três, se a gente não mete travões, esta coisa, este frente-frente, acaba numa auto- contemplação. Ou numa autoflagelação, para o caso tanto faz. Porque aqui tudo se passa entre o indivíduo e as suas imagens e, curiosamente, numa conversa muda que sabe tanto a círculo vicioso como este cigarro que eu tenho nos dedos. Fumo-o e ele fuma-me, estás a ver?

Fumar ao espelho, solidão dobrada - diria o meu irmão se aqui estivesse (mas não está, morreu aos vinte e um anos num avião militar), ele que, sem cigarro e sem espelho, acabou por conhecer a mais estranha e a mais ampla solidão que se pode conhecer. A do espaço final, vê tu. A da imensidão azul onde a morte o foi procurar, 3500 pés acima do planeta dos homens.

Não, nisto de alguém se interrogar ao espelho, olhos nos olhos, é consoante. Tem muitos ângulos - e tu estás aí, que não me deixas mentir. Vários ângulos. Há quem procure, santa inocência, fazer um discurso de silêncio capaz de estilhaçar o vidro e há quem espere receber, por reflexo da própria imagem, algum calor animal que desconhece. Seja como for, o que dói, e assusta, e é triste e desastradamente cómico neste exercício, é o pleonasmo de si mesma em que a pessoa se transforma. Repete-se. Se bem que com feroz independência (todo o seu esforço é esse) repete-se em imagens controversas que a possam explicar.

Quanto à solidão de há pouco não há pleonasmo nem desdobramento que a salve nem mesmo os psicanalistas que temos cofres cheios dela. Para o vulgar contribuinte, a solidão resume-se a um vocábulo lamentoso ou a um fatalismo social de crédito comprovado, mas em boa verdade talvez não passe de uma metáfora do medo, simplesmente. Seja ela o que for, peço desculpa mas sem solidão ninguém vive. Solitário, não vamos mais longe, é este escritor que aqui está quando se entrega ao acto de escrever. Quer ele queira, quer não, só assim pode cumprir linha a linha a sua escrita na qualidade simultânea de autor e de leitor que são duas figuras distintas da Utopia de si mesmo. E depois? Há algum mal nisso?

De modo que fuma, José, deixa correr. Solidões, duplicações, masturbações, é tudo conversa ou pouco menos. Queimam os dedos, reduzem-nos a fibras secas se nos deixamos arrastar por elas. Concreto, concreto, só esse alguém que nos vigia, que te vigia, aí no espelho, e que nos escuta por dentro. Mas escutar, realmente? Para te ser sincero, ainda não percebi. Ainda não sei se... por arrogância, se por desconfiança que ele nos encara com tanta dureza.

Somos três agora. (Sempre fomos, tu é que não reparaste: dois que se olham e um terceiro que os escreve, olhando-se). No entanto, o rosto que nos é comum aos três está devastado pelo tempo. Esse aí não tarda muito que lhe caiam os dentes e fique coberto de rugas a bulir de vermes. Duvidas? Então espera por mais dois ou três outonos de cigarros e já vais ver. Três outonos, não lhe dou mais. Até lá vai continuar assim, em aresta viva, e com a tal contensão que, não sendo arrogância nem suspeita, ser o quê? Orgulho?

Não, orgulho, nem pensar. E se fosse, pior para ele que se calhar pouco fez para mudar o mundo e muito para não se deixar mudar. Aceitemos que é, antes, um endurecimento defensivo, para aí, sim. E aguardemos. O resto, Deus o dirá, se alguma vez o souber ler devidamente.

Tudo isto, já te disse, tem de ser encarado a vários ângulos. Sempre a vários ângulos, não te esqueças, porque, segundo alguns, os personagens deste tipo são de visagem errante. Como toda a gente? Como toda a gente, possível. Só que esse que tens diante de ti nunca na vida soube administrar a sua ima em pública, como se pode depreender logo à primeira abordagem. Porquê, não se sabe; as razões podem ser muitas. Pudor, impaciência, falta de traquejo, sei lá. Há também a independência, a independência... demasiado impeditiva, sempre foi, mas por essa ou por outras razões, a verdade é que esse talento nunca ele teve. E não se julgue que a lacuna não é grave porque a imagem de marca que os corretores das Letras e os lobbies da Opinião põem a circular no mercado a cotações de estarrecer. Ah, os lobbies, ah, os lobbies. Ah, perfumadas sacristias onde o livro em branco, antes de ser livro, já foi condenado ou marcado com uma pétala seca na página da eternidade.

Uma vez mais, silêncio, José mantém-se olhos nos olhos. Parece desconhecer que em qualquer álbum de glórias o verdadeiro retrato do paciente pode ser desfigurado com a mesma facilidade com que o fumo do cigarro o encobre ali no espelho. Nesse caso que se lixe e cara alegre, então não é?

Deixemo-lo portanto assim. Em directo e ao natural. Como se vê, tem o cabelo mais branco neste momento mas mantém a vislumbrada malícia de si mesmo que sempre se lhe conheceu. Pelo menos... o que eu penso - ou, antes, o que ele pensa. Vez por outra nota-se-lhe um perpassar de ironia pelo olhar, mas se o tem... luz breve e em geral magoada, não dá sequer para temperar o desalinho aparente que há nele e que provém mais de uma certa Lisboa à balda do que propriamente de outra coisa.

Quanto ao mais, pouco a acrescentar. Visagem martelada (já se disse), máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar - e é tudo.

Ah, e os cigarros! Em 1990, este autor ainda continua a fumar, imagine-se, e a perguntar todos os dias E agora, José. A cada interrogação aspira, fundo e lento, até o morrão do cigarro abrir brasa no vidro do espelho, e há alturas em que encolhe os ombros e pensa de alto «Acta est fabula», se assim me posso exprimir em sinal de despedida.

Mas é um dizer por dizer, nada de especial. Quando menos se esperar, ele aí estará outra vez nesta cadeira e neste lugar, a fazer resumo e projecto de si mesmo, e diga-se de passagem que não se dá mal assim. Como sempre, não tem angústia nem surpresa porque vai encontrar alguém que amanhã, dia comum, recomeça de novo a vida na primeira linha do capítulo que se segue.

Aqui tens, José, o homem que te interroga. Que te fuma e te duvida. Que te acredita.

E com esta me despeço, adeus até outro dia, e que a terra nos seja leve por muitos anos e bons neste lugar e nesta companhia.

Pá, apaga-me essas rugas. Riscam o espelho, não vês?


Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 89-94


(Fonte do texto CITI)