Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Avelino, anos 80 (Viriato Teles)

Fotografia de Sandra Bernardo


AVELINO, ANOS 80

O meu amigo Avelino Tavares cumpre hoje 80 anos de vida, e isso devia ser motivo de dupla (ou tripla ou quádrupla) celebração. Porque não se trata de uma vida qualquer, mas da vida de um homem que faz questão de a viver em toda a plenitude; porque é uma vida cheia de história e de histórias de que ainda é preciso deixar relato; porque é a vida de um homem naturalmente generoso e apaixonado, generosidade e paixão que estendeu ao trabalho em prol da música e da cultura a que já dedicou mais de 50 anos; porque não é uma vida qualquer, é a vida de Avelino Tavares.

Pouca gente em Portugal conhece tanto (e gosta tanto) de música como ele. Avelino Tavares - o Tavares, como é conhecido e chamado por quase todos - nunca foi homem de holofotes, sempre preferiu a discrição da plateia ou dos bastidores. E foi aí que empenhou todo o talento e toda a paixão, no sentido de criar e partilhar momentos únicos, frequentemente memoráveis.

É a ele que se deve o Mundo da Canção, MC para os amigos e leitores, primeira revista de divulgação musical que por cá se publicou, a partir do final dos anos 60 do século passado. Mas a revista que fundou foi apenas a primeira etapa dum percurso que depois se estendeu a outras vertentes sempre com a música presente: na edição e na distribuição, na divulgação, e sobretudo na produção de alguns dos melhores espectáculos que passaram por Portugal (e principalmente pela cidade do Porto) a partir dos anos 80.

Do longo e muito digno currículo de Avelino Tavares e do MC fazem parte centenas de grandes concertos, muitos deles históricos: como o último de José Afonso (no Coliseu do Porto, Maio de 83), mas também os de Piazzolla, Gismonti, Paco de Lucia, Atahualpa Yupanki, Nara Leão, Patxi Andion, Carlos Paredes… E 17 edições inesquecíveis do Festival Intercéltico do Porto. E outros. E outras coisas. Uma vida cheia, enfim. E não apenas de música.

O Avelino Tavares é um homem cuja noção de felicidade é inseparável da ideia da partilha, da amizade, do prazer de ser e de estar. Tem sido assim com os amigos, com o trabalho, com tudo aquilo em que se envolve e com que se envolve. Porque só assim as coisas fazem sentido para ele, porque é este afinal o sentido das coisas.

O Avelino Tavares é tudo isto, e é tudo isto que faz dele um ser raro. É também um dos meus melhores amigos, mas não é a amizade que me leva a dizer o que digo. É que ele é mesmo assim.

O Avelino fez agora 80 anos, mas mostra um sorriso de 20 quando exclama que “a vida é tão bonita!” Acreditem, não é conversa de velho: ele sabe mesmo do que fala.

Viriato Teles

(Publicado no seu Facebook no dia 9 de abril)


Viriato Teles (1958) é um jornalista e escritor português. (Wikipédia)

Página de Viriato Teles


quarta-feira, 25 de abril de 2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Na biblioteca (Manuel António Pina)



NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

Manuel António Pina



poema: “Na Biblioteca” autor: Manuel António Pina (1943-2012) obra: Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2001 voz: Ana Celeste Ferreira



Menina a caminho (Raduan Nassar)



Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob os olhares a sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o decoro (o seu decoro, está claro), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome em seguida no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado) e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá ao fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Raduan Nassar

Texto extraído do livro Menina a caminho, SP: Companhia das Letras, 1997.


 Lido na Revista Macondo


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Herança (David Mourão-Ferreira)

Fotografia de Renan Luna



HERANÇA

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância
e desejar que estejas a morrer;
fechar a porta à minha própria infância;
amigos, conhecidos, nem os ver;

quebrar nas mãos o aro da esperança;
mas de mim para mim depois dizer:
"Calma! Quem nada espera tudo alcança...
e guardar o revólver; e beber,

a sós, o vinho que na taça baste
a recompor-te, viva, na distância:
isto foi, como herança, o que deixaste.

E ainda o mais que não te quis dizer:
ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
e desejar ser eu quem vai morrer...

David Mourão-Ferreira



segunda-feira, 16 de abril de 2018

Liberdade adiada (Dina Salústio)



Sentia-se cansada. A barriga, as pernas a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima.
Esperava que qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.

- Como seria o coração?
- Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?
- Seriam todos os corações do mesmo formato?
- ...será que as dores deformam os corações?

Pensou em atirar a lata de água ao chão, esparramar-se no liquido, encharcar-se no liquido, fazer-se lama, confundir-se com aqueles caminhos que durante anos e mais anos lhe comiam e mais anos lhe comiam a sola dos pés, lhe roubavam as forças.

Imaginou os filhos que aguardavam e já deviam estar acordados. Os filhos que ela odiava!

Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria se caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.

Não. Não voltaria para casa.

O barranco olhava-a, boca aberta, num sorriso irresistível, convidando-a para o encontro final. Conhecia aquele tipo de sorriso e não tinha boas recordações dos tempos que vinham depois. Mas um dia havia de o eternizar. E se fosse agora, no instante que madrugava? A lata e ela, para sempre, juntas no sorriso do barranco.

Gostava da sua lata de carregar água. Tratava-a bem. Ás vezes, em momentos de raiva ou simplesmente indefinidos, areava-a uma, dez, mil vezes, até que ficava a luzir e a cólera, ou a indefinição se perdiam no brilho prateado. Com fundo de madeira que tivera que lhe mandar colocar, quando começou a espirrar água e já não suportava uma torcida de farrapo, ficou mais pesada, mas não eram daí os seus tormentos.

Atirar-se-ía pelo barranco abaixo. Não perdia nada. Alías nunca perdeu nada. Nunca teve nada para perder.

Disseram-lhe que tinha perdido a virgindade, mas nunca chegou a saber o que aquilo era.

À borda do barranco, com lata de àgua à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos no peito.

O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos...Como ela os amava, Nossenhor!

Apressou-se a ir ao encontro deles. O mais novito devia estar a chamar por ela. Correu deixando o barranco e o sonho de liberdade para trás.

Quando a encontrei na praia, ela esperando a pesca, eu atrás de outros desejos, contou-me aquele pedaço da sua vida, em resposta ao meu comentário de como seria bom montar numa onda e partir rumo a outros destinos, a outros desertos, a outros natais.

Dina Salústio


Escritora e poetisa cabo-verdiana nascida em 1941, em Santo Antão, em Cabo Verde, com o nome de Bernardina Oliveira. (Infopédia)


Dina Salústio em escritores.online






quinta-feira, 12 de abril de 2018

Dois fragmentos de Caio Fernando Abreu



Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.

A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.

Caio Fernando Abreu


Mais fragmentos em a moça do sonho




segunda-feira, 9 de abril de 2018

Dióspiro (Daniel Maia-Pinto Rodrigues)



DIÓSPIRO

depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho

é nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça

Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Do seu livro Conhecedor de Ventos, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1987


(Visto em Canto Celeste, de Ana Celeste Ferreira)


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dois textos de António Gregório

O ARTISTA NÃO VOLTARÁ PARA O BIS

É um momento que me comove particularmente nos funerais, o aplauso à passagem da urna, como no fim de um longo espectáculo; depois o rumor da debandada dos estimados espectadores, cada um retomando só, embora a cisma da companhia, a performance do seu. Agora vou dançar.



UM TEMPO NOVO

Gosto tanto deste primeiro dia de hora nova, de chegar, como agora, às sete e meia da tarde, dar uma palmada sonora, inaugural, na minha própria testa e dizer Já?, pensei que ainda eram seis e meia.

(De alguma maneira enviesada, lembrei-me deste poema, Dióspiro, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues: depois do almoço/ quando arrastamos a cadeira/ um pouco para trás/ uma sonolência morna/ entrelaçada de luz/ entra pelas janelas/ ludibria as cortinas/ e difusa poisa no vinho// é nessa altura que dizemos:/ vou comer este diospiro/ antes que apodreça)

António Gregório


Publicados no dia 25 de março de 2018 em CORAÇÃO ACORDEÃO. Um blogue de variedades



terça-feira, 3 de abril de 2018

A António Pereira, Senhor de Basto... (Sá de Miranda)

Fotografia de Moitas Moitas



A António Pereira, Senhor de Basto,
quando se partiu para a Corte co’a casa toda

Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
Crecerem cercas e o gasto,
Vi, por caminhos tão maus,
Tal trilha e tamanho rasto,
Logo os meus olhos ergui
À casa antiga e à torre,
E disse comigo assi:
Se Deus nos não val aqui,
Perigoso imigo corre.
Não me temo de Castela,
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa
Que, ao cheiro desta canela,
O Reino nos despovoa.

Sá de Miranda