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quarta-feira, 4 de junho de 2025

Jorge de Sena - Cantiga de Maio

 

CANTIGA DE MAIO

Da prisão negra em que estavas
a porta abriu-se p’ra rua.
Já sem algemas escravas,
igual à cor que sonhavas,
vais vestida de estar nua.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Na rua passas cantando,
e o povo canta contigo.
Por onde tu vais passando
mais gente se vai juntando,
porque o povo é teu amigo.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Entre o povo que te aclama,
contente de poder ver-te,
há gente que por ti chama
para arrastar-te na lama
em que outros irão prender-te.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Muitos correndo apressados
querem ter-te só p’ra si;
e gritam tão de esganados
só por tachos cobiçados,
e não por amor de ti.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Na sombra dos seus salões
de mandar em companhias,
poderosos figurões
afiam já os facões
com que matar alegrias.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

E além do mar oceano
o maligno grão poder
já se apresta p’ra teu dano,
todo violência e engano,
para deitar-te a perder.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Com desordens, falsidade,
economia desfeita;
com calculada maldade,
promessas de felicidade
e a miséria mais estreita.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Que muito povo se assuste,
julgando que és culpada,
eis o terrível embuste
por qualquer preço que custe
com que te armam a cilada.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

Tens de saber que o inimigo
quer matar-te à falsa-fé.
Ah tem cuidado contigo;
quem te respeita é um amigo,
quem não respeita não é.

Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.

                     Santa Bárbara, 4/6/1974


Jorge de Sena




sexta-feira, 25 de abril de 2025

Jorge de Sena - “Nunca pensei viver…”

 

Capa da revista Flama


"NUNCA PENSEI VIVER..."

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
– no negro desespero sem esperança viva –
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Essas promessas – há que fazer depressa
que o povo as entenda, creia mais em si mesmo
do que nelas, porque elas só nele se realizam
e por ele. Há que, por todos os meios,
abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos –
E agora, meu general?

E tu povo, em nome de quem sempre se falou,
ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores
com que saúdas as promessas de liberdade ?
Tomarás nas tuas mãos, com serenidade e coragem,
aquilo que, numa hora única, te prometem ?
E agora, povo português?


SB, 27/4/74


Jorge de Sena


«IX  Poemas “políticos e afins”  (1972-1977)», em 40 anos de servidão, Moraes Editores, Lisboa, 1979


Depois da revolução dos cravos. Foto da imprensa: Leia a República




(Fotografias: Fundação CSSL Portimagem) 


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Manuel Alegre a Salgueiro Maia (50 anos são passados!)

 



A Salgueiro Maia

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre



Associação Salgueiro Maia


sábado, 25 de abril de 2020

Alexandre O’Neill - Cartinha Aberta ao Major Otelo Saraiva de Carvalho



CARTINHA ABERTA AO MAJOR OTELO SARAIVA DE CARVALHO

O major Otelo Saraiva de Carvalho diz-nos 
que só aceitará «a candidatura por uma 
verdadeira imposição popular».

Raul Rego, in A Luta, 10.5.76


«Imposição popular»,
major Otelo, jamais!
Nos versos, o pé quebrar
não faz mal, vem nos jornais…

Pé quebrado na política,
mais tempo leva a soldar.
Aos que lhe fazem requebros,
mande-os altoduquear.

Sua página está escrita
e dela guarda memória
o povo, que não impõe
as estórias à história.

Em vinte e cinco de Abril
sua página foi escrita.
Não há rasura possível.
É uma página limpa.

E uma página linda,
Otelo, meu capitão!
Que mais quererá ainda
com a palavra «imposição»?

Que venha a vaga de fundo
que o há-de levar ao cume
do tal poder popular?
Presidente, dê-me lume,
vamos mas é charutar…

Alexandre O’Neill


Lido em Coração Acordeão (Alexandre O'Neill), Edição de Vasco Rosa. O Independente, 2004.





quinta-feira, 25 de abril de 2019

"E nunca mais a guerra e nunca mais..." (Fernando Assis Pacheco)

Fernando Assis Pacheco (1937 - 1995), soldado em Angola,
com o cão Eusébio (1963)


DURANTE AS PRIMEIRAS HORAS DO 25 DE ABRIL

E nunca mais a guerra e nunca mais
e nunca nunca mais e nunca a guerra
e nunca mais e nunca e nunca mais
e nunca nunca nunca nunca a guerra

Fernando Assis Pacheco

Versos enviados para o Fundão pelo autor, a partir da redacção do jornal República, durante as primeiras horas do 25 de Abril de 1974, há, exactamente, 45 anos. Estão publicados na página nove do Jornal do Fundão de 5 de Maio de 1974.

E foram reencontrados graças ao livro de crónicas radiofónicas “Tenho Cinco Minutos para Contar Uma História”, lançado em 2017 pela Edições Tinta-da-China.


Lido em Senderos da Mão Esquerda, do amigo Luís, a quem agradeço. Partilhamos uma grande devoção por Assis Pacheco e lamentamos não o termos podido conhecer.

******************************

Pela minha parte, acrescento um poema de Assis Pacheco, de um livro publicado em 1972: Catalabanza, Quilolo e Volta.


MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

******************************

Isto acontece em qualquer guerra: ir e não voltar... António da Conceição Lopes da Silva vai para África com 22 anos e um ano depois, morre em combate.


Fonte: Web Lobão da Beira




A Salgueiro Maia (Sophia de Mello Breyner Andresen)



A SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disse

Sophia de Mello Breyner Andresen



Mulheres do meu país (Maria Teresa Horta)


MULHERES DO MEU PAÍS

Deu-nos Abril
o gesto e a palavra

fala de nós
por dentro da raiz

Mulheres
quebrámos as grandes barricadas
dizendo: igualdade
a quem ouvir nos quis

E assim continuamos
de mãos dadas

O povo somos:
mulheres do meu país

Maria Teresa Horta, in Mulheres de Abril
Editorial Caminho



Maria Teresa Horta (Lisboa, 20 de maio de 1937) é uma escritora, jornalista e poetisa portuguesa. Ler na Wikipédia.

Maria Teresa Horta em Portal da Literatura



quarta-feira, 25 de abril de 2018

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Antes e depois do 25 de Abril de 1974 (Beatriz Cunha)



"À conversa com a minha mãe, e apesar de ela apenas ter 7 anos de idade aquando do 25 de Abril, notei algumas alterações na sua vida, nomeadamente no que diz respeito ao microssistema.

O que mais notei foram alterações no que respeita à escola; antes do 25 de Abril, fiz a primeira classe como aluna da minha mãe, numa escola em que rapazes e raparigas estavam separados, quer nas aulas quer no recreio. o mais engraçado, é que apesar de os alunos serem separados, eu estava numa turma de rapazes, pois a minha mãe dava aulas aos rapazes! Depois do 25 de Abril fui obrigada a mudar para a escola da minha área de residência, deixei de ser aluna da minha mãe, e já estava numa turma mista, e tinha muito medo dos rapazes!

Era muito nova e não tenho a noção das alterações na sociedade, mas lembro-me de começarem a existir muitas manifestações, passava na rua e eram só caravanas com os carros a apitar e com bandeiras, os muros cheios de cartazes políticos, dos mais diversos partidos! Também me lembro de, na televisão, à hora do almoço, começarem a dar os desenhos animados dos Beatles! Começou a haver muito mais agitação, e as músicas de intervenção passaram a ser uma constante nas rádios e em todos os locais públicos. Antes, isso era impensável!

Também me lembro da grande vaga de retornados das ex-colónias, a maior parte deles vieram sem nada, e comecei a conviver com eles diariamente, na escola, eram vizinhos, e alguns deles ainda hoje são grandes amigos. Tenho uma vaga ideia de em Lisboa terem feito A Pirâmide, com alimentos para ajudarem os retornados, e davam as imagens na televisão. Foi pouco tempo depois do Natal desse ano..."

Beatriz Cunha

Lido em Psic.12ºB.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Soneto presente (Ary dos Santos)




Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

José Carlos Ary dos Santos




segunda-feira, 28 de abril de 2014

24 de Abril, sempre. Democracia nunca mais (Ricardo Araújo Pereira)




24 de Abril, sempre. Democracia nunca mais

Celebram-se este mês os 40 anos da morte do 25 de Abril. Ou talvez não seja bem isto. Mas parece. Não se sabe ao certo como vão ser comemoradas as quatro décadas de democracia. Suspeita-se apenas que a cerimónia vai ser pobre, triste, e presidida por gente que não mexeu uma palha para que a Revolução acontecesse. Os capitães de Abril não estarão presentes. Durante o Estado Novo, as pessoas que fizeram o 25 de Abril não podiam falar na Assembleia da República. Ao fim de 40 anos de democracia, continuam a não poder. Podem estar presentes, desde que seja só para enfeitar. Mas não querem. É pena. Sugiro um friso de capitães de Abril feito de fotografias em tamanho real, recortadas em cartão. Faz o mesmo efeito que os organizadores da cerimónia pretendiam, e podem usar-se fotografias dos tempos em que os capitães de Abril estavam mais novos e mais magros. É uma maneira de termos um 25 de Abril ainda mais próximo do original. E de plástico, que é mais barato.

Outra ideia, um pouco mais subversiva, mas igualmente respeitadora da ordem e do silêncio: todos os democratas presentes na Assembleia para a cerimónia comemorativa do 25 de Abril levam no bolso uma máscara do Vasco Lourenço. E, quando a corja topa da tribuna do hemiciclo, põem a máscara. Talvez pregue um susto suficiente para que alguns dos organizadores da festa corram a comprar um bilhete para o Brasil. As agências de viagens bem precisam de um incentivo destes.

Entretanto, e creio que já no âmbito das festividades, Durão Barroso afirmou que, antes do 25 de Abril, "apesar de algumas liberdades cortadas, havia na escola uma cultura de mérito, exigência, rigor, disciplina e trabalho" que se perdeu. Realmente, havia algumas liberdades cortadas. E algumas goelas, também. Mas, para o presidente da União Europeia, o regime em que havia uma polícia política que prendia, torturava e matava tinha um ensino muito bom. Parece que, na antiga RDA, o desporto também era óptimo. Dizem que Jack, o Estripador, tinha uma linda colecção de selos. E, como se sabe, os nazis tinham marchas lindas.

De facto, e com muita pena minha, o ensino do Estado Novo era melhor e mais exigente. Cito, por exemplo, o Livro de Leitura da 3.ª Classe, de 1958: "Com o Estado Novo abriu-se para Portugal uma época de prosperidade e de grandeza, comparável às mais brilhantes de toda a sua história. (...) Construíram-se muitas escolas, e hão-de construir-se as que forem precisas para que todas as crianças em idade escolar tenham onde educar-se e instruir-se." A prova de que o ensino era bom é que Durão Barroso memorizou estas palavras do livro único e não mais as esqueceu. É pena que, aparentemente, os primeiros-ministros que governaram Portugal após o 25 de Abril não tenham conseguido manter este nível de excelência nas nossas escolas. Não sei se Durão Barroso conhece algum. Mas todos eles merecem uma palmatoada. E deviam decorar os nomes dos rios e caminhos-de-ferro de Angola, para castigo.

Ricardo Araújo Pereira


Revista Visão  (24 de abril de 2014)





sexta-feira, 25 de abril de 2014

25 de abril de 1974 (Noémia Pinto)




25 de abril de 1974

Eu era uma criança.
Gostava de ter vivido aqueles momentos de apreensão mas também mágicos que acompanharam a revolução e ficaram para além dela.
Gostava de ter podido abraçar sentidamente aqueles Homens, em nada parecidos com os homúnculos que hoje por aí pululam.
De ter podido dizer-lhes «Obrigada» de rosto lavado em lágrimas e voz embargada.
De ter podido entregar um cravo vermelho a cada um deles.
De ter podido dizer-lhes que agora sim, agora é que o futuro nos ia sorrir. Agora é que iríamos concretizar a nossa grandeza, graças a eles.
De os ter acompanhado pelas ruas fora.
De ter ficado com o seu cheiro entranhado nas minhas roupas que não lavaria nem usaria jamais, de modo a perpetuar aquele odor heróico.
De ter abraçado todos aqueles com quem me cruzasse, subitamente transformados em meus irmãos na felicidade de concretizar um futuro sonhado.
De ter sentido aquele saborzinho único que fica quando a justiça impera e quando sabemos que vivemos momentos especiais.
De ter visto o povo nas ruas, cada vez em maior número, uns com olhares de medo, olhando ainda de soslaio, tentando perceber onde andaria o «bufo» mais perto de si, outros com um sorriso de orelha a orelha, sonhando já com o amanhã em liberdade.
De ter presenciado as reacções dos meus pais, de lhes ter lido o medo. De, depois, rir com eles, e construir sonhos de alegria, de igualdade, de justiça social. De entoar lindas e frescas canções de revolução, liberdade e esperança.
Sim, o dia 25 de Abril de 1974 amanheceu especial e histórico e eu, infelizmente, era demasiado criança para o viver intensamente ou para simplesmente o viver.
Ainda assim, nunca é tarde para isto:
OBRIGADA por tudo o que fizeram pelo nosso país.


Publicado por Noémia Pinto a 25 de Abril de 2013 em aventar.





quinta-feira, 24 de abril de 2014

os equívocos de abril - blogue 'Blasfémias'

Governo de Pedro Passos Coelho, de cravo ao peito, durante as comemorações
oficiais do 25 de Abril em 2012, na Assembleia da República
(Blogue 
Cais do olhar)



os equívocos de abril
22 Abril, 2014
por rui a.

O 25 de Abril, que celebra 40 anos nos próximos dias, foi fonte de inúmeros equívocos que macularam indelevelmente o regime e o país. O mais grave de todos foi ter-nos legado uma “direita” cujo principal representante à data o celebra agora de cravo vermelho na lapela, lado a lado com a esquerda e a extrema-esquerda desse e do nosso tempo. Por mais que nos esforçássemos, dificilmente haveria melhor síntese dos motivos históricos que explicam o estado a que o país chegou.

Fonte: blogue Blasfémias


* * * * * * * * *



Quanto pesa um cravo vermelho na lapela?

Em dia de comemoração de Abril, o uso da flor que simboliza a revolução continua a ser polémica. A esquerda enverga-a com orgulho mas é um incómodo para a direita. Rui Gaudêncio. Público,  26/04/2013 - 18:11 





Dois poemas de Sophia de Mello para este 25 de Abril




25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O día inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen



Mais: 25 poemas e canções para o 25 de Abril, em Biblio Beiriz.




quarta-feira, 23 de abril de 2014

25 de Abril, sempre! (Tomás Vasques)



25 de Abril, sempre!


Esta gente que nos governa detesta o 25 de Abril, o dia fundador da nossa democracia - o dia mais feliz da vida de quem o viveu e de quem não se acomodou à ditadura


Comemora-se esta semana o quadragésimo aniversário do derrube da ditadura salazarista. Uma prolongada ditadura que chegou pela mão de um professor da Universidade de Coimbra, apessoado e bem-falante, seminarista e anti-republicano, depois de um golpe militar que pôs termo à I República, a qual se deixou afundar numa crise política, económica e financeira permanente. Uma ditadura igual a todas as ditaduras, com o seu rol de perseguições políticas, prisões e assassinatos de opositores. De pobreza, analfabetismo e cacete. Inculta e profundamente reacionária.

À medida que nos afastamos no tempo daquela madrugada de Abril, adensa-se cada vez mais, no discurso político e na "análise histórica" elaborados nestes últimos anos, a partir de uns "jovens turcos" acantonados em jornais, revistas e blogues, promovidos a "ideólogos" de outros amanhãs que cantam, o branqueamento da ditadura e a desvalorização do significado do dia 25 de Abril, enquanto data fundadora da nossa democracia. O desbragamento e a falta de vergonha e de memória assumiram tais proporções que até Durão Barroso, ex-presidente do PSD, ex-primeiro-ministro de uma coligação dos partidos que nos governam e ainda presidente da Comissão Europeia louvou, descontraidamente e sem corar, a "excelência" do ensino em tempo de ditadura. O velho ditador de Santa Comba Dão, lá na tumba onde expia os seus pecados, deve ter aplaudido o reconhecimento póstumo e gracejado, à sua maneira, sobre os discípulos que por cá deixou.

Os jovens turcos que sustentam ideologicamente este governo sempre se sentiram incomodados com o 25 de Abril, com os militares que executaram o golpe de Estado que derrubou a ditadura e com o povo que o transformou numa revolução. Recusando liminarmente o entendimento de que a democracia é o regime que dá espaço de luta a todas as expressões políticas - o que aconteceu a partir daquele dia de Abril -, começaram por teorizar que só a 25 de Novembro de 1975 nasceu a democracia, quando os comunistas são metidos na ordem democrática. Depois, cimentada a ideia, e após a elaboração de muitos estudos, concluíram que, afinal, a democracia só existiu em Portugal depois de 1982, altura em que foi extinto o Conselho da Revolução.

Mas não se ficaram por aqui. Mais tarde, começaram a falar em 1985, altura da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, como a data fundadora da democracia. De imediato, empurraram-na mais um ano, para 1986, com a eleição de Mário Soares, o primeiro chefe de Estado civil. E a seguir transferiram a data para 1989, aquando da revisão constitucional de 1989, a qual flexibilizou a garantia das nacionalizações.

Mas, mesmo assim, depois de transferirem o 25 de Abril de 1974 para 8 de Julho de 1989, os jovens turcos, os ideólogos deste governo, em sintonia com os principais banqueiros, encabeçados por Fernando Ulrich, insistem ainda que o voto dos portugueses está condicionado pela Constituição: um governo eleito não pode fazer o que quer, tem de subordinar a sua actuação a uma constituição "socialista e marxista", pelo que devemos aguardar que nos indiquem uma nova data para irmos beber um copo em comemoração da instauração da democracia.

Esta gente que nos governa detesta o 25 de Abril, o dia fundador da nossa democracia - o dia mais feliz da vida de quem o viveu e de quem não se acomodou à ditadura. Uns procuram disfarçar essa aversão, com um palavreado redondo, do tipo: "Sim, o 25 de Abril, mas foi só a libertação, não a liberdade ou a democracia"; outros, já enaltecem os feitos da ditadura. E foi aqui o cais a que aportámos, quarenta anos depois. Este governo e os seus ideólogos estão a aplanar o terreno para que o povo diga, como no fim da monarquia, como escreveu Raul Brandão: "Venha tudo, venha o pior, venha o diabo do Inferno que nos livre disto!"

Tomás Vasques, Jurista

publicado em 21 Abr 2014 (Jornali)





terça-feira, 22 de abril de 2014

40 anos de Abril: dois poemas de Manuel Alegre

Manuel Alegre, jovem estudante em Coimbra (*)


Manuel Alegre nasceu em 1936 e estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, onde participou activamente nas lutas académicas. Cumpriu o serviço militar na guerra colonial em Angola. Nessa altura, foi preso pela polícia política (PIDE) por se revoltar contra a guerra. Após o regresso exilou-se no norte de África, em Argel, onde desenvolveu actividades contra o regime de Salazar. Em 1974 regressou definitivamente a Portugal, demonstrando, nos vários cargos governamentais que tem desempenhado ao longo dos anos, uma intervenção fiel aos ideais da Liberdade.

A sua poesia foi e é um hino à Liberdade e, talvez seja por isso que é lembrada por muitos resistentes que lutaram contra a ditadura. É considerado o poeta mais cantado pelos músicos portugueses, designadamente Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Manuel Freire, António Portugal, José Niza, António Bernardino, Alain Oulman, Amália Rodrigues, Janita Salomé e João Braga.

Este poema de Manuel Alegre simboliza a esperança pela Liberdade e foi cantado por Adriano Correia de Oliveira. O cantor era um amigo do poeta e companheiro das lutas estudantis em Coimbra.

Continua na página do Instituto Camões.


TROVA DO VENTO QUE PASSA

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.






A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Qaundo vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote


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Interessante: Biblio Beiriz (25 poemas e canções para o 25 de Abril)


Site de Manuel Alegre