Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Gilka Machado - “A que buscas em mim, que vive em meio...”

 

A que buscas em mim, que vive em meio
de nós, e nos unindo nos separa,
não sei bem aonde vai, de onde me veio,
trago-a no sangue assim como uma tara.

Dou-te a carne que sou… mas teu anseio
fora possuí-la – a espiritual, a rara,
essa que tem o olhar ao mundo alheio,
essa que tão somente astros encara.

Por que não sou como as demais mulheres?
Sinto que, me possuindo, em mim preferes
aquela que é o meu íntimo avantesma…

E, ó meu amor, que ciúme dessa estranha,
dessa rival que os dias me acompanha,
para ruína gloriosa de mim mesma!

Gilka Machado

Meu glorioso pecado (1928)

Gilka da Costa de Melo Machado, conhecida como Gilka Machado, (Rio de Janeiro, 12 de março de 1893 - Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1980) foi uma poeta brasileira. Seu trabalho geralmente é classificado como simbolista. Machado ficou conhecida como uma das primeiras mulheres a escrever poesia erótica no Brasil; também foi uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino (em 1910), que defendia o direito das mulheres ao voto, atuando no mesmo também como tesoureira.


Mais poemas em Escritas.org 

(Fotografia: Revista O Malho, nº 1578, de março de 1933. Fonte: Biblioteca Nacional Digital, Hemeroteca Digital)


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Luíza Neto Jorge - Minibiografia


"No texto poético encontrou Luíza Neto Jorge um espaço de resistência e insubordinação contra a repressão do Estado Novo. Com as palavras recusava o modelo vigente e provocava: «Diferente me concebo e só do avesso/ O formato mulher se me acomoda». É o poema que faz este episódio do programa "Voz", dito pela atriz Joana Seixas. Para ver, ouvir e ler aqui."

Ensina RTP


Minibiografia

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.

Luíza Neto Jorge

in A Lume (1989)




Luiza Neto Jorge, tradutora e poetisa portuguesa, nasceu em Lisboa, no dia 10 de maio de 1939.

Foi fundadora do Grupo de Teatro de Letras, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Desistiu do curso para ir viver para Paris (1962-1970).

Integrou o grupo de poetas que se reuniu em torno do movimento Poesia 61, antologia poética, organizada em fascículos, que reúne textos de Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz e Maria Teresa Horte, no âmbito do qual publicou Quarta Dimensão. O seu primeiro livro foi Noite Vertebrada, publicado em 1960.

Traduziu obra, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro, de autores como Céline, Sade, Marguerite Yourcenar, Garcia Lorca, Boris Vian, entre outros. Recebeu, em 1987, o Grande Prémio de Tradução Literária pela tradução da Obra “Mort à Crédit” de Lous-Ferdinand Céline.

Fez adaptações de textos para teatro e colaborou com alguns cineastas.

Encontra-se representada em quase todas as antologias de poesia portuguesa contemporânea (editadas em Portugal e no estrangeiro) e tem grande parte dos poemas traduzidos para diversos idiomas.

Morreu em Lisboa, no dia 23 de Fevereiro de 1989, vítima de doença pulmonar.

A Editora Assírio & Alvim lançou, em 1993, ‘Poesia’, uma edição que reúne toda a poesia de Luiza Neto Jorge.

(escritores.online)




quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Mário Cesariny - Homenagem a Cesário Verde

 

Fotografía en escritas.org

HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

Mário Cesariny

Aqui, De tarde, de Cesário Verde.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Carlos Drummond de Andrade - Um Homem e o seu Carnaval




UM HOMEM E O SEU CARNAVAL

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

Carlos Drummond de Andrade


Do seu livro Brejo das Almas (1934)


Fotografia: Foliões brincando o carnaval de rua, no Rio de Janeiro, s.d. Fundo Correio da Manhã.



domingo, 14 de fevereiro de 2021

Alexandre O’Neill - “Não o amor não tem asas..."

Coisas do amor! (Fotografia de Luzinete Martinez)


Não o amor não tem asas
se tem asas são as mãos
que se enlaçam para a festa
maravilhosa do corpo
e entre elas o coração

coração acordeão

Alexandre O'Neill

Coração Acordeão. Edição de Vasco Rosa. Lisboa, O Independente, 2004. p.13



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Alexandre O'Neill - Mesa

A ler Orpheu (1954) - José de Almada Negreiros (1893-1970)


MESA 

põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa

desmanivela-a
desce
é cama

faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama

desmanivela-a
desce mais
é caixão

entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão

era a brincar
era a brincar

manivela-o
sobe
é cama

manivela-o
sobe
é mesa

põe os cotovelos na mesa

Alexandre O'Neill




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Alexandre O'Neill - Desaprender



DESAPRENDER

Há uma altura em que, depois de se saber tudo, tem de se desaprender. Sucede assim com o escrever. Com o escrever do escritor, entenda-se. Eu, provavelmente poeta, estou a aprender a... desaprender. E para quê e como se desaprende? Para deixar de ronronar, para que o leitor, quando o nosso produto lhe chega às mãos, não exclame, satisfeito ou enfastiado: «- Cá está ele!».

Na verdura dos seus anos, a preocupação do escritor parece ser a da originalidade. Ser-se original é mostrar-se que se é diferente. E as pessoas gostam das primeiras piruetas que um sujeito dá. E o sujeito gosta de que as pessoas vejam nele um talento.

Atenção, vêm aí as receitas, as ideias feitas, os passes de mão, os clichés, os lugares selectos ou, mais comezinhamente, os lugares comuns. O escritor está instalado. Revê-se na sua obra. Começa a abalançar-se a voos mais altos, a mergulhos mais fundos. É a intelectualidade que o chama ao seu seio, o público que o põe, vertical, nas suas prateleiras. Arrumado. Quase sem dar por isso, o escritor acomodou-se e tornou-se cómodo, quando propendia, nos seus verdes anos, a incomodar-se e a tornar-se incómodo. Organiza «dossiers» com os recortes das críticas que lhe fizeram ao longo da sua carreira (nome, já de si, chamuscante), vai a colóquios, celebrações, congressos. Ganha prémios.

É traduzido e publicado no estrangeiro. Por desfastio (e por que não?, algum dinheiro) aceita colaborar em conspícuas revistas ou em jornais efémeros como o dia a dia em que vão sendo publicados. Está de tal modo visível que já ninguém dá por ele. É o escritor.

Se as coisas continuarem indefinidamente assim, o escritor pode ser alcandorado a gloríola nacional, com todos os direitos inerentes a uma situação dessas: academia, nome de rua, estatueta ou estátua, tudo isso em devido tempo, quer dizer, já velho ou já morto o escritor. Pedra campal sobre o assunto.

Alexandre O'Neill

Uma Coisa em Forma de Assim (1980)



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Última entrevista a Alexandre O’Neill e Alfredo Barroso sobre O'Neill

 

 

Publicado no blogue O funcionário cansado (1.09.08):

"Está quase a fazer 23 anos, a 21 de Setembro de 1985, foi publicada no Expresso a última entrevista de Alexandre O’Neill, feita por Clara Ferreira Alves. Deixo-a aqui:"

E agora deixo eu aqui: Alexandre O'Neill: a última entrevista


Mais um artigo de Alfredo Barroso no Jornal i (14-03-2018):

"Se há poeta do século XX que tenha compreendido a “patriazinha” foi Alexandre O’Neill. Mas a “patriazinha” não gosta de se ver ao espelho"

Alexandre O’Neill, o grande poeta “esticalarica e caixadóculos”


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Blogue Bianda - A mata

 Mata em S. Tomé (Fotografia de Robert Grant)


A MATA

Atravessando a mata. A mata vive, tem ossos, carne, coração, espírito. No carro o condutor conta a história da árvore que foi cortada num dia e no dia seguinte apareceu de pé, ainda com as marcas da serra, mas de pé e eu vi, vi mesmo. A mata tem mistérios.

Na roça do João oiço as histórias de S.Tomé, que são tantas, cruzadas, emaranhadas, resolvidas, mal resolvidas, problemáticas, esperançosas e por aí fora. O céu desaba-se em água. Chove sempre, sempre e forte. A mata tapa tudo, só se vislumbrando um punhado de casas ali, um troço de estrada mais além, o cume dum monte ao longe, uma breve vista do mar e as vozes.

A mata tem sons e vozes. S.Tomé tem povos vários, atirados do mar para dentro da mata. Com o lento escoar do tempo os povos se cruzam mas ainda dizem, nós, eles, aqueles, este é nosso, aquele é deles, não queremos saber nada deles e assim. Os povos ainda não sabem se juntar, num único abraço.


Lido no blogue Bianda
(12-11-11)

Uma ajuda do dicionário Houaiss para algumas palavras:

Mata 1. área coberta de plantas silvestres de portes diversos. 2. m.q. floresta ('conjunto de árvores') (...)

Floresta: denso conjunto de árvores que cobrem vasta extensão de terra; mata.

Roça: terreno de lavoura, grande ou pequeno; plantação, plantio.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Alda do Espíritu Santo - Ilha Nua

Ilha de S. Tomé, fotografia de André Pipa


ILHA NUA

Coqueiros e palmeiras da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta de irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras...

Alda do Espíritu Santo

É Nosso o Solo Sagrado da Terra (1978)



Alda Espírito Santo, também conhecida por Alda Graça, teve a sua educação em Portugal, onde chegou a frequentar a Universidade.

Acabou por abandonar, em parte devido às suas actividades políticas, mas também por motivos económicos. Regressada a S. Tomé, veio a trabalhar como professora.

Na sua passagem por Lisboa, foi contemporânea, de Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente na Casa dos Estudantes do Império.

Foi uma das mais conhecidas poetizas africanas de língua portuguesa, tendo ocupou s cargos de relevo nos governos de São Tome e Príncipe, como o de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura tendo sido igualmente Deputada.

Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias lusófonas, nomeadamente em M. Andrade e F. J. Tenreiro, Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958); ª Margarida, Poetas de S.Tomé e Príncipe (1963); M. Ferreira, No Reino de Caliban II (1976); C. ª Medina, Sonha Mamana África (1988); O Coro dos Poetas e Prosadores de S.Tomé e Príncipe (1992); entre outros bem como em jornais e revistas de São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique.

Dados de Lusofonia Poética