Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

José Tolentino Mendonça - Terraços

Fotografia de mundo torpe


TERRAÇOS

Éramos adolescentes e nem notávamos
preocupados ainda em estar junto dos outros
o primeiro amor fazia-nos sofrer
como não supúnhamos possível
enchíamos os terraços de gambiarras
ou armávamos fogueiras enormes na praia
e dançávamos todo o verão
quase sem tempo para mais

por cima de todos os meses
a morte tomava tais proporções

José Tolentino Mendonça

Baldios (1999)




sexta-feira, 26 de junho de 2020

Mário Faustino - Aqui Jaz



A q u i
J a z

aquele cujo nome traçaram os vagalumes
cujo perfil formaram as pétalas caídas
antes do dia
e do vento

Mário Faustino, 1948


Mário Faustino (1930 - 1962)




segunda-feira, 22 de junho de 2020

Ler Manuel Cintra

Manuel Cintra - Fotografia de © Vitorino Coragem


Não conhecia Manuel Cintra, nem a sua poesia, e ontem, por acaso, soube dele e da sua recente morte em solidão no último fim de semana de maio. À procura dos seus versos dei com estes na sua página do Facebook  (onde se pode ler também que «Manuel Cintra foi tradutor, jornalista, actor e encenador, sendo, no entanto, a poesia “a sua incontornável e apaixonada estrada”.») e só sei que entraram logo dentro de mim.

Seja-lhe leve a terra.



PROJECTOS HUMILDES

Talvez com uma das línguas ir lamber a noite.
E já sem boca ainda dar um beijo.
Talvez numa toca oculta ser animal outra vez,
para encontrar a ternura para sempre.
Talvez deixar de ser velho, por
causa do impossível.
Talvez descobrir no vazio um sentimento cheio.
Talvez mesmo que eu seja nada, isso seja feito de tudo.
Talvez consiga fazer fintas à morte, sem gostar de futebol.
E de certeza contaminado com rigor e para sempre
com amor em vírus, ansiedade em frasco,
liberdade em prisão.

1 de Março de 2020
21h19.


FRIO 

O deserto forçado é um poço tão hostil. Nunca se sabe de onde pode vir a próxima dentada.
No frio pasmado de uma rua demasiado deserta, ouvem-se latidos ritmados, e o ladrar intermitente de um cão enorme, que está numa varanda, angustiado e só.
Alguém o deixou ali há tempo demais.
Duas ruas abaixo os bares estão fechados.
Passa alguém com máscara.
Desviam-se os olhares.
O silêncio é um lugar muito frio.

20 de março de 2020
19h30


CONTÁGIO

Na rua árida, na tarde estéril,no silêncio infecto,
rente à base dos prédios tão imbecil e carcomida,
uma pequena erva com cara de poema olhou para mim.
Que miséria! Tens sílabas? Tens sentido? Uma ou outra palavra? Ainda te lembras dos afectos? Ou és só filha do virus?
E apesar do seu contorno, das suas curvas, da sua elegãncia
incomparávelmente erótica, apesar de ser só erva e só verde,
Nada respondeu.
Mesmo ela, bolas, vinha de máscara.

21 de março de 2020
17h12.


APENAS

Há poetas que morrem. Parece mesmo às vezes que ser poeta, nesta vida, é a partir de certo dia ver morrer outros poetas e pensar sempre, a partir daí: que raio é que eu fiquei aqui a fazer?
Um poeta chama muitas vezes a esses que partiram "os meus poetas", certamente numa tentativa de lhes permitir ficarem. Passa-se então o resto da vida com essa sensação triste, de ser guardião de poetas já mortos.
Mas onde o dilema não bate certo, é que os poetas não morrem. Mais do que muitos outros seres, apenas entram noutro modo de estar vivos, com morte e tudo.
Então um poeta a quem outro morreu passa a ser uma flor com um número de estames cada vez maior. E os estames são apenas lágrimas que conseguiram florir.
Como se a morte fosse apenas um jardim.

26 de Março de 2020.
11h01.


ESTADO DE EMERGÊNCIA

                                                         ao Hugo Mestre Amaro.

Foi ontem. Ou talvez antes. Ou logicamente, depois de amanhã.
Eu ia a descer a rua. Ando a coxear,mas como em vez disso,
seguro na trela da cadela, funciona como bengala, ou tripata,
e não se nota.
Havia pessoas a subir a rua. Na verdade, talvez não fossem pessoas. Acho que eram mortos, ou o que deles restava. Vinham todos de máscara, e com as cabeças embrulhadas em redes anti-sociais.
Um dia, quando tirassem a rede e a máscara, já não teriam rosto. Seriam uma espécie de bolas de golfe gigantes, sem destino nem apetite.
Na verdade, olhando melhor, nem eram pessoas, nem mortos:
apenas alguns ossos, teimando em subir a rua,só para me irritar. Houve um osso que gritou, ao chocalhar contra outro. Mas não passava de falso alarme.
Tentei sorrir. Vi que no meio desta triste confusão, também a subir a rua, vinha um beijo. Vestido a preceito, com fato chique completo.
Mas nem isso lhe valeu. Perverso como sou, decidi recebê-lo.

8 de maio de 2020.
12h52.



Manuel Cintra (1956-2020). Morreu o poeta que se mostrou imprescindível como metáfora

Nascido em 1956, em Lisboa, era filho do linguista Luís Filipe Lindley Cintra e irmão do actor e encenador Luís Miguel Cintra. Quanto a ocupações, foi-se virando para os lados que tinha por possíveis como tradutor e jornalista, actor e encenador, mas era um desesperado romântico, tinha uma pedra mal diluída no cérebro e para o que lhe dava mais era para escrever versos. Terá contado certa vez, segundo testemunhou Henrique Fialho, que a sua estreia como poeta na prestigiada colecção da Editorial Presença ficou a dever-se à sugestão de Ruy Belo, que ali viu reunida a sua obra. Do Lado de Dentro foi publicado em 1981, e seguir-se-iam mais duas dezenas de colecções de poemas, muitos deles em edições de autor ou em editoras bastante discretas, quase clandestinas. Sobre a pouca ou, às vezes até ausente, recepção da sua obra, pode agora citar-se com outro vigor um dos seus primeiros versos: “A inércia alheia preenche/ o céu como um formulário”.

Primeiro parágrafo do artigo de Diogo Vaz Pinto em Jornal i (04-06-20)


V. também antologia do esquecimento, de Henrique Manuel Bento Fialho.



quinta-feira, 18 de junho de 2020

José Saramago - Da impossibilidade deste retrato

Fernando Pessoa, por Júlio Pomar


Da impossibilidade deste retrato (1)

Este texto foi prólogo do catálogo de uma exposição de retratos de Fernando Pessoa na Fundação Calouste Gulbenkian no princípio dos anos 80, creio que em 85. Por me parecer que não viria fazer má figura neste blogue, aqui o trago.Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma das fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual? De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade, e, tendo em conta a ocorrente multiplicação das suas imagens, provocada por apetites sobreexcitados de representação e facilitadas por um domínio generalizado das técnicas, o homem dos heterónimos, já voluntariamente confundido nas criaturas que produziu, entrará no negro absoluto em muito menos tempo que o outro de uma cara só, mas de vozes também não poucas. Acaso será esse, quem sabe, o perfeito destino dos poetas, perderem a substância de um contorno, de um olhar gasto, de um vinco na pele, e dissolverem-se no espaço, no tempo, sumidos entre as linhas do que conseguiram escrever, se do rosto sem feições nem limites ainda alguma coisa vem intrometer-se, está garantido o dia em que mesmo esse pouco será definitivamente lançado fora. O poeta não será mais que memória fundida nas memórias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declará-lo fosse primeira invenção sua. Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia.


Outros cadernos de Saramago

Da impossibilidade deste retrato (2)

Entretanto, o pintor vai pintando o retrato de Fernando Pessoa. Está no princípio, não se sabe ainda que rosto escolheu, o que se pode ver é uma levíssima pincelada de verde, se calhar vai sair daqui um cão dessa cor para pôr em conjunção com um jockey amarelo e um cavalo azul, salvo se o verde for apenas o resultado físico e químico de estar o jockey em cima do cavalo, como é sua profissão e gosto. Mas a grande dúvida do pintor não tem que ver com as cores que há-de empregar, essa dificuldade resolveram-na os impressionistas de uma vez para sempre, só os homens antigos, os de antes, não sabiam que em cada cor as cores estão todas: a grande dúvida do pintor é se há-de ter uma atitude reverente ou irreverente, se pintará esta virgem como S. Lucas pintou a outra, de joelhos, ou se tratará este homem como um triste coitado que realmente foi ridículo a todas as criadas de hotel e escreveu cartas de amor ridículas, e se, assim autorizado pelo próprio, poderá rir-se dele pintando-o. A pincelada verde, por enquanto, é somente a perna do jockey amarelo posta do lado de cá do cavalo azul. Enquanto o maestro não sacudir a batuta, a música não romperá lânguida e triste, nem o homem da loja começará a sorrir entre as memórias da infância do pintor. Há uma espécie de ambiguidade inocente nesta perna verde, capaz de se transformar em verde cão. O pintor deixa-se conduzir pela associação de ideias, para ele, perna e cão tornaram-se em meros heterónimos de verde: coisas bem mais inacreditáveis do que esta têm sido possíveis, não há que admirar. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do pintor enquanto pinta. O retrato está feito, vai juntar-se às dez mil representações que o precederam. É uma genuflexão devota, é uma risada de troça, tanto faz, cada uma destas cores, cada um destes traços, sobrepondo-se uns aos outros, aproximam o momento da invisibilidade, aquele negro absoluto que não reflectirá nenhuma luz, sequer a luz fulgurante do sol, que faria então à breve cintilação de um olhar, em frente a apagar-se tão cedo. Entre a reverência e a irreverência, num ponto indeterminável, estará, talvez, o homem que Fernando Pessoa foi. Talvez, porque também isso não é certo. Albert Camus não pensou duas vezes quando escreveu: "Se alguém quiser que o reconheçam, basta que diga quem é." No geral dos casos, o mais longe a que chega quem a tal aventura ouse propor-se é dizer que nome lhe puseram no registo civil.

Fernando Pessoa, provavelmente, nem tanto. Já não lhe bastava ser ao mesmo tempo Caeiro e Reis, cumulativamente Campos e Soares. Agora que já não é poeta, mas pintor, e vai fazer o seu auto-retrato, que rosto pintará, com que nome assinará o quadro, no canto esquerdo dele, ou direito, porque toda a pintura é espelho, de quê, de quem, para quê? O braço levanta-se, enfim, a mão segura uma pequena haste de madeira, de longe diríamos que é um pincel, mas há motivos para suspeitar: nele não se transporta uma cor verde, ou azul, ou amarela, nenhuma cor se vê, nenhuma tinta. Este é o negro absoluto com que Fernando Pessoa, por suas próprias mãos, se tornará invisível.

Mas os pintores vão continuar pintando.

José Saramago



+ Diário de Notícias



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Alexandre O'Neill - Que vergonha, rapazes!

Fotografia de yowser85


QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?

Alexandre O'Neill  


De ombro na ombreira (1969)




sábado, 13 de junho de 2020

Fernando Pessoa - Prece



PRECE

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

[...]

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.

Fernando Pessoa 

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação. Lisboa: Ática. 1966. P. 61.



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Luís de Camões - “Alegres campos, verdes arvoredos...”

Ribeira da mata, fotografia de *F~


Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual,
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.

Luís de Camões



Jorge de Sena - Camões dirige-se aos seus contemporáneos

Luís Vaz de Camões, 1907, de José Malhoa



CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as idéias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E, mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Assis, 11/6/1961

Jorge de Sena 


Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos e Outros Textos  (1973), plaquette.



Jorge de Sena




segunda-feira, 8 de junho de 2020

António Gedeão - Poema da Auto-estrada

Fotografia de Emanuele Kanitz


POEMA DA AUTO-ESTRADA

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Foge, foge, Leonoreta.
Vai na brasa de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que enterra.
Tudo foge à sua volta,
o Céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Foge, foge, Leonoreta

Vai na brasa de lambreta.

António Gedeão

Do seu livro Máquina de Fogo (1961)




Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Armindo Mendes de Carvalho - Denúncia



DENÚNCIA

Denuncio a máquina de fabricar tristeza
denuncio os assassinos da paisagem
o verso e o reverso das escritas secretas
as organizações da angústia nocturna
os que precisam de criada para todo o serviço
e para uso próprio do menino da casa
os investigadores puristas da moral alheia
a oferta de flores injectadas de veneno
os que escrevem cartas de recomendação
os que apunhalam reputações com risos a três quartos
os que recebem à linha para dizer bem ou mal
os que têm a sua religião para as ocasiões
os segregacionistas das little rock
o santo e a senha de todos os lados
os fabricantes de morfina com nomes potáveis
a poética dolorosa de conversa fiada
e [sic] arame farpado camuflado em fitas de inauguração
os que têm coração apenas para as setenta pulsações
denuncio os denunciantes.

Armindo Mendes de Carvalho


Lido no blogue Rua Onze



segunda-feira, 1 de junho de 2020

Gomes Leal - Cantiga do campo

Fotografia de José Marques, Ceifeira alentejana


CANTIGA DO CAMPO

Por que andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde cozes,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo
Exposto às chuvas e aos sois!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as magoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Por que andas tu mal comigo?
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Gomes Leal


in Gomes Leal, Claridades do Sul, Braz Pinheiro Editor, Lisboa, 1875.