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sexta-feira, 28 de março de 2025

António Reis - “Mudamos esta noite…”


 

Mudamos esta noite.

E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões

onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos

Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos
ainda aqui viviam

e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem

Vai descendo tu

Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias

António Reis


Poemas quotidianos (1967). Há uma edição da Tinta da China de 2017 com prefácio de Fernando J.B. Martinho e posfácio de António Sapinho.

Blog António Reis (último post: 25-9-2020)



(Fotografia de Pedro Couto e Santos)

domingo, 4 de abril de 2021

António Reis - "É domingo hoje..."

Fotografía de Gonçalo Filipe
 


É domingo hoje
mas nós não saímos

é o único dia
que não repetimos

e que dura menos

Mas põe o teu rouge
que eu mudo a camisa

não como quem
de ilusão
precisa

Tomaremos chá
leremos um pouco

e iremos à varanda
absortos

António Reis

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Depois das 7 (António Reis)



DEPOIS DAS 7

Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis,

Poemas Quotidianos (1967)


António Reis (Valadares, 1927 — Lisboa, 1991) foi um cineasta e poeta português que se distingue pelo sentido poético da sua obra (ver filmografia). É um dos representantes no filme documentário do movimento do Novo Cinema, que explora as técnicas do cinema directo. Com contemporâneos seus, usando esses meios, empenha-se na prática da etnografia de salvaguarda.

(Wikipédia)