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segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Fiama Hasse Pais Brandão - Tâmara

 


TÂMARA

Pura circunstância trazerem-me
num cesto levíssimo as tâmaras.
Com a boca peso três sílabas.
Com os olhos sou ávida.
Com as mãos repouso e saboreio
os frutos translúcidos.

Fiama Hasse Pais Brandão


Obra Breve  (1991)




(Fotografia de Aina Vidal)

terça-feira, 8 de março de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão - Da voz das coisas

Fotografia de José Ferreira Jr




DA VOZ DAS COISAS

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão

As Fábulas (2002)




quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

"Nada tão silencioso como o tempo..." (Fiama Hasse Pais Brandão)




Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até na íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.

Fiama Hasse Pais Brandão

in Cenas Vivas




(Fotografia de Dave Binyon, captured time, 2023)


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um poema de Fiama Hasse Pais Brandão




«Com o suor do teu rosto ganharás
o teu pão», escreveram no teu berço.
Dormiste, respiraste e, um dia,
escarneceram do suor do teu rosto.

É hoje, quando tu, filho de Europa,
expulso da seara do teu trigo,
em todos os muros vês escrito
que o suor é vão, e o teu rosto negado.

Fiama Hasse Pais Brandão

(1938 - 2007)


Do livro Cenas Vivas, Relógio d'Água, Abril de 2000