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segunda-feira, 22 de abril de 2024

Pedro Homem de Mello - Balada do rio Douro



BALADA DO RIO DOURO

Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...

Pedro Homem de Mello



(Fotografia de César Augusto V. R.)


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Bailado (Pedro Homem de Mello)

Fotografia de Fábio Pinheiro


BAILADO

A árvore dançou. E, no entanto,
Seu tronco, inverosímil, não buliu.
O vento sacudiu-lhe o verde manto…
Mas o que foi que o vento sacudiu?

Nunca ninguém pôde saber, ao certo
Se os ramos, de formosos, nos mentiram
Ou, se de os ver, ai! se de os ver tão perto
Os nossos olhos quase não os viram.

Quem bailaria ao som daquela voz?
Quem lhe deu sangue e força verdadeira?
A árvore dançou, oculta em nós.
E o vento fomos nós na terra inteira.

Pedro Homem de Mello



Eu Hei-de Voltar Um Dia, Lisboa, Edições Ática, 1966