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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Adélia Prado - Casamento



CASAMENTO

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Adélia Prado


Terra de Santa Cruz (1981)


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Ana Paula Tavares - “Devia olhar o rei…”

 


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo
Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.

Ana Paula Tavares


Manual para amantes desesperados. Lisboa: Editorial Caminho, 2007


(Lyrikline, e ouvimos a poeta dizer o poema) 



Fotografia de ©Marcos Freire



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Susana Menezes diz 'Portugal', de Alexandre O'Neill



PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

Alexandre O´Neill


Feira cabisbaixa (1965)


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Maria do Rosário Pedreira - "Dorme, meu amor, que o mundo já viu..."



Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira


O canto no vento dos ciprestes, 2001, Gótica.



quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Ferreira Gullar - Traduzir-se




TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar


Na vertigem do dia  (1980)



(Maira Cibele: Leitura dramatizada do poema Traduzir-se de Ferreira Gullar para a Bienal Virtual do Livro de Volta Redonda)



sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Manoel de Barros - Autorretrato falado



AUTORRETRATO FALADO

Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me sinto como que desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Manoel de Barros


VIDEO_POEMA #36 em cinepovero2009:

Manoel de Barros (1916-2014) “Autorretrato falado” in «O Livro das Ignorãças», 1993 Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Carlos Drummond de Andrade - A flor e a náusea



A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio,
paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horasda tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade



A Rosa do Povo (1945)


quinta-feira, 17 de julho de 2025

Filipa Leal diz 'Portugal', de Alexandre O'Neill



PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .

Alexandre O´Neill


Feira Cabisbaixa (1965)





terça-feira, 1 de julho de 2025

Manuel Alegre - Estou triste




ESTOU TRISTE

Eu tinha grandes coisas para vos dizer
Porém não tenho tempo. Vou-me embora. Deixo-vos
com a vossa tristeza
mergulhada no vinho quieta envilecida.
Minha tristeza é mais pura
não se esconde no vinho não se esconde.
Precisa
de grandes gritos ao ar livre. De
partir à pedrada o copo
onde a vossa tristeza apodrece.
Precisa de correr. Apertar muitas mãos
encher as ruas de muita gente.
Precisa de batalhas
Precisa de cantar.

Manuel Alegre


Dois dados de cinepovero:

"Estou triste" in «Praça da Canção» (1969)
Mário Viegas in «País de Abril» (1974)
Música: José Afonso, "Que amor não me engana" (excerto) in «Venham mais Cinco» (1973).

 

Em depoimento ao diário "i" (26-03-2013, p. 19) Manuel Alegre escreveu: "Chipre, depois da Grécia e, de certo modo, nós próprios, fez-me perceber que esta Europa é uma fraude. Deixou de ser um projecto de paz e liberdade, começa a ser uma ameaça de tipo totalitário, com o objectivo de empobrecer e escravizar os países do Sul. Por isso é conveniente que nos sintamos todos cipriotas. Antes que chegue a nossa vez." Foi este o clic que desencadeou a ideia deste vídeo. Fotografias retiradas da internet. Os clips foram filmados em Lisboa, em 2 de Março de 2013.



segunda-feira, 10 de março de 2025

Carlos Drummond de Andrade - Mãos dadas




MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummon de Andrade


Sentimento do Mundo (1940)



sábado, 21 de dezembro de 2024

Mais una vez: Adélia Prado - Ensinamento



Mais una vez vez: o primeiro poema de Adélia Prado publicado no blogue no día 21 de dezembro de 2010),  mas agora, para além de ler, para ouvir 


ENSINAMENTO

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Eugénio de Andrade - “Faz uma chave, mesmo pequena...”




Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade



segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Alexandre O'Neill - O ladrão do pão (+ dito por Mário Viegas)



Piano - José Calvário e José Luis Tinoco
Viola acústica e direcção musical - José Niza
Pintura de Victor Vasarely (1906-1997)


O LADRÃO DO PÃO 

Eu já não sou marujo.
do mar fujo.

§

O mar é um grande ladrão.
O mar não vem comer à mão.

§

Adentro-me pelos campos.
Levo um remo.
Ainda tremo do re-
mar.

§

Dou costas às searas,
que me fazem marear.

§

O ladrão não rima com pão.
O ladrão não rema.
Quem remava era a minha mão.

§

Até que enfim que o rosmaninho
é uma flor.

§

Remo ao ombro,
deito sombra no
chão.

§

Marujinho às amoras,
foi o mar que te ralhou?


Ainda falam do ladrão.
Ainda sabem quem sou.

§

Um coelho
no tojo.

Zás zar-
pa.

Ainda falo as palavras do ladrão.

§

Nestes quatro caminhos alguém naufragou.

Aqui viu contados seus dias
Joaquim Inácio, dito O Manaças,
morto à traição numa espera
que para ele não era.
Ó tu que passas,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria
por sua intenção.


Credo!
Eu e o remo
fazemos sombra de cruz
no chão.

§

Pergunto ao do tractor:

Amigo, aonde leva este caminho?
– Pra lá dos montes, marujinho.


Ó ladrão
vou-te afogar em vinho.

§

À porta da taberna,
o ramo de louro.

Na soleira,
uma cadela prenha.

§

À terceira rodada
já querem saber donde é que eu sou,
que venho ali fazer.

Respondo:

Esquecer.

§

Tenho lá fora um remo.
É o que me resta do mar,
mais uma grande vontade
de o afogar.


§

Marujinho, a terra é madrasta
pra quem está do lado do suor.

– E o mar é um grande ladrão.
Não troca o suor em pão.

§

Galgo a soleira,
pego no remo.

Estirada, a cadela
parece um peixe
na minha esteira.

§

Agora abre-se
o guarda-chuva da noite.

Nos montes, em derredor,
piscam luzeiros,
alteiam-se fogachos.

Trinco a cebola,
mordo o casqueiro.

Largo a pensar.

§

Dois luzeiros descem do monte.
Desaparecem. Aparecem.

Dois faróis encandeiam-me.
Tac-tac de motor.

Suba.
É a última da carreira.

§

Tran! A porta fechou-se.

Olho em redor.
Sou o único passageiro.

§

Nas curvas, ouço o remo
rolar no tejadilho.

Começo a não perceber.
Começo a sentir frio.

§

Ninguém me cobra bilhete.

A camionete vai
desarvorada.

§

Ninguém me pergunta

donde? praonde?

A camionete pá-
ra.

§

É aqui. Desça.

Salto.
Atiram-me o remo
para a estrada.

§

Então o grande olho
acusador,
fogo santelmo na roda da candeia,
crava-se em mim: – Aqui é a fronteira.
Algo a declarar?

– Só este lenho
que eu trouxe por trazer.

– Nada a fazer.
Tem de voltar prò mar.


§

Ao sol
não canta o rouxinol.

Na alta manhã
uma voz clareia.

Lá estão os montes
de antes de eu os sonhar.

§

– Acorda, padeirinho
que o pão não cozeste.
Deixaste sair o dia.
Onde foi que te perdeste?

Trouxeste a pá contigo,
à procura de forno?
Escusavas de ir tão longe,
que o meu ainda está morno.

Vem cozer o teu pão,
padeirinho jeitoso.
Eu amasso a farinha.
Tu aqueces o forno.

E depois, quando o pão
estiver a tufar,
galhofeiros, riremos
de o ouvir estalar.


§

Quem disse que fui marinheiro?
Aqui declaro a pura verdade:
esta pá é pá de padeiro
(padeiro de muito enfornar)
e se não fora o ladrão do pão
até gostava de ir conhecer
o mar!



Alexandre O'Neill


De Ombro na Ombreira (1969) 




quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Manuel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo



TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros



(Hoje é o décimo aniversário da morte de Manoel de Barros)


quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Carlos Drummond de Andrade - Resíduo

 


RESÍDUO

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade



A rosa do povo (1945)



sábado, 19 de outubro de 2024

Lemos e ouvimos “Esplanada”, de Manuel António Pina



É o primeiro poema de Manuel António Pina que recordo ter lido. Já foi publicado aqui em 2012, ano da sua morte, no Porto, a 19 de outubro. Agora podemos ouvi-lo também na voz de Pedro Lamares.



ESPLANADA


Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina



sábado, 31 de agosto de 2024

Adélia Prado - Tempo



TEMPO

A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem,
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho,
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

Adélia Prado



segunda-feira, 22 de julho de 2024

Hélia Correia - Para que servem os poetas em tempo de indigência?


PARA QUE SERVEM OS POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?

um vídeo-poema a partir de "A Terceira Miséria", de Hélia Correia

24 Setembro, 22h00, Herdade da Urgueira no Encontro "Poesia, Um Dia" (Vila Velha de Ródão)

uma criação colectiva de Ana Gil, Nuno Leão, Nuno Mendoza e Tiago Moura com a participação do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de Ródão e de alguns elementos da comunidade local

apoio Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão




terça-feira, 28 de maio de 2024

Manoel de Barros - O apanhador de desperdícios




O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros



(Fotografia de Rosa Gambóias)