Antigo blogue dos alunos de ‘Bachillerato’ do IES "M. Domingo Cáceres", de Badajoz.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O Pintor debaixo do Lava-Loiças (Afonso Cruz)

Fotografia de Aline Tomaz


«-As crianças precisam é de comer - disse o mordomo, que acabara de entrar. -Para crescerem fortes. Wilhelm agitou-se ao colo do pai. O coronel, fê-lo encostar a cabeça ao ombro. Wilhelm ficava sempre ligeiramente agitado quando via o mordomo.

-Há muitos tipos de comida - disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. -Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois estômagos do homem alimentam-se através da boca e do nariz, ao passo que o terceiro estômago se alimenta principalmente através dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto de um modo mais subtil.

-Para mim - disse o mordomo -, as palavras são uma grande palermice.»

Afonso Cruz

O Pintor debaixo do Lava-Loiças (2011)

Sinopse no blogue Estante de livros:

"A liberdade, muitas vezes, acaba por sobreviver graças a espaços tão apertados quanto o lava-loiças de um fotógrafo. Esta é a história, baseada num episódio real (passado com os avós do autor), de um pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX, no império Austro- Húngaro, que emigrou para os EUA e voltou a Bratislava e que, por causa do nazismo, teve de fugir para debaixo de um lava-loiças."


Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971) é um escritor, realizador de filmes de animação, ilustrador e músico português.Ler na Wikipédia.



segunda-feira, 25 de março de 2019

"Mãe, eu quero ir-me embora..." (Maria do Rosário Pedreira)


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

In O Canto do Vento nos Ciprestes (2001)


En lyrikline.org podemos ouvir a autora ler este poema.





sexta-feira, 22 de março de 2019

Arte de amar (Manuel Bandeira)

Salvador, Bahia. Fotografia de Francisco Osorio


ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Manuel Bandeira




quinta-feira, 21 de março de 2019

Meditação anciã (Ruy Belo)



Celebramos o Dia Mundial da Poesia com mais um poema de Ruy Belo:


MEDITAÇÃO ANCIÃ

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus

Ruy Belo


Toda a Terra (1976)


quarta-feira, 20 de março de 2019

Povoamento (Ruy Belo)

Fotografia de Stefano Rugolo


POVOAMENTO

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo

Aquele Grande Rio Eufrates (1961)




segunda-feira, 18 de março de 2019

Uma Pedrada no Charco (Urbano Tavares Rodrigues)


E não abrandava. Podia a “vespa” saltar nos buracos da estrada, moer-lhe o fígado e os rins, cortar-lhe a respi-ração. Iam muito em breve fraquejar-lhe as mãos exaustas. Os pés, doridos daquele esforço atroz, relaxar-se-iam, soltar-se-iam, gratos, do estribo. E seria o fim. Embora! Não havia de ceder. Pouco lhe importavam já o Gonçalo e a Mané, o resto do mundo, o motivo, se motivo houvera, daquele desafio. O duelo era só de si para consigo, o duelo era com a noite vasta. (...)

Gonçalo ultrapassava-o agora, numa rajada de insânia. Levava o lenço de seda verde amarrado ao pescoço, esticadas as pontas para trás, pelo vento.

Não. Não queria consentir. Tinha de reconquistar a frente. Mais depressa, ainda mais depressa! Escuros rumores, inimigos, golpeavam-no como setas. Uma lua de pedra no céu, a ameaçá-lo. E o outro a distanciar-se. Acelerou. Viesse a morte, que viesse! A estrada devorada estremecia, vibrava como uma cobra pisada. Os seixos pulavam e faiscavam adiante do guiador. Já não saberia parar. Já lhe parecia impossível parar.

Distante, perdida, quase esquecida, toda a vida anterior. Só ele no meio da noite e dentro daquela euforia dolorosa, terrível, sobre a “vespa” veloz, gelada pelo hálito da morte. Mais depressa, ainda mais depressa!

De repente, aquele estrondo. E, lá adiante, uma imagem minúscula, absurda, tão nítida, tão sem sentido, como num documentário de cinema: a “vespa” pequenina saindo da estrada, guinando, chocando com uma árvore, arremessada ao ar, e aquele boneco de feltro, desarticulado, voando até cair inerte sobre as ramas cloróticas, numa poça de luz.

Começou a travar, suavemente. Quase não podia dar um passo, ao largar a “vespa”. Tinha as pernas hirtas, como se houvessem sido prensadas entre blocos de ferro.

Olhou. E logo voltou a cara. Nem uma esperança sequer de lhe pedir perdão! Gonçalo devia ter caído, com certeza, de cabeça para baixo. Estava todo torcido, o pescoço à banda .

Ricardo venceu finalmente o pavor que o lacerava e curvou-se sobre aquela caricatura morta. Voltou-o com jeitinho . Não havia uma só mancha de sangue no rosto duro, muito branco. Encostou-lhe o ouvido ao peito. Nada. Já não respirava.

Urbano Tavares Rodrigues

Uma Pedrada no Charco (1957)


Urbano Tavares Rodrigues (1923 - 2013) na Wikipédia.


Ler "Urbano Tavares Rodrigues. Um romance com prefácio no Alentejo" (jornal i, 09-08-2013



sexta-feira, 15 de março de 2019

'Poesia reunida' de Maria do Rosário Pedreira (2012)


Programa Ler Mais, Ler Melhor sobre a publicação de Poesia reunida, de Maria do Rosário Pedreira (2012).

Recordamos que Maria do Rosário Pedreira lerá os seus versos em Badajoz no próximo 4 de abril. Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo.




segunda-feira, 11 de março de 2019

O ecumenismo lusitano ou a dupla nacionalidade (Jorge de Sena)




O ECUMENISMO LUSITANO OU A DUPLA NACIONALIDADE

Pela porta lateral da catedral em Colónia
(construída –é vero– para os ossos dos Reis Magos)
eu saía para o branco sol da manha de inverno,
quando um rumor de português subia
em negros hábitos a escada. Freiras
a quem falei sim brasileiras peregrinas
de pouso em pouso a Roma. Quando eu disse
que eu era brasileiro a madre cujo véu
rodeava um rosto emaciado e luso
disse: –Ah, naturalizado, não é brasileiro–.
O outro caso foi em Hamburgo na
Hauptbahnof. O quiosque dos jornais
de todas as línguas. Chega uma mulher
morena –um traço dentro de opulentas peles– e pergunta
por jornais lusitanos em alemão razoável.
Era evidente que só um português dos tais desejaria
em Hamburgo informar–se assim do estado do universo.
É portuguesa? Sou. Palavra puxa palavra,
eu também era. Mas ela exclamou:
–Brasileiro naturalizado? Ah, não é português–
E voltou–me as costas com o periódico na mão,
equilibrando as pernas ainda de varina
dificilmente nos tacões finíssimos.

Jorge de Sena


Exorcismos (1972)



segunda-feira, 4 de março de 2019

Para cinquentões (Carlos Drummond de Andrade)



PARA CINQUENTÕES

Carnaval, carne dada aos vermes
(diz a falsa etimologia)
como pode o cronista inerme
cronicar em plena folia?

Como esquivar-se a teu império
que é serrano em Vila ou Mangueira,
se em mim ri aquilo que é sério
e séria, mesmo, é a brincadeira?

Carnaval, já não sou tão moço
para emilinguir-me no frevo
e sair de guizo ao pescoço
(riso, quatripétalo frevo).

Também inda não sou tão velho
que não ouça o ronco na cuíca.
E da razão o bom conselho
(má rima) não me mortifica.

Entre duas águas, meu caro,
meio-lá-maio-cá me sinto
como um animal semi-raro
divagando no labirinto.

Carnaval, magia do samba!
Fígado, fiscal do consumo…
Para dançar na corda bamba
tanto faz, serpentina, o rumo.

Não fugirei para a montanha
nem pescarei na Marambaia,
pois ante confusão tamanha,
quedemos (Posto 6) na praia,

perto-longe da farra, ouvindo
e vendo, imaginando, enquanto
um carnaval muito mais lindo
dentro de nós eleva seu canto;

carnaval de delícias longas
e cabriolas arlequinais,
feito de caras songamongas
se esbaldando no nunca-mais;

carnaval antigo e futuro
baile de outro Municipal
ou Praça 11 acesa no escuro
da saudade do carnaval.

E é o melhor de tudo, afinal.


Carlos Drummond de Andrade 




sexta-feira, 1 de março de 2019

Eu ontem vi-te... (Ângelo de Lima)

Fotografia de João Atala


Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor
de medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.

Ângelo de Lima
(1872 - 1921)