POESÍA a rodos Textos em prosa em português (literários e não literarios) Vídeos com histórias

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Os transparentes (Ondjaki)




– ainda me diz qual é a cor desse fogo…
o Cego falou em direcção à mão do miúdo que lhe segurava o corpo pelo braço, os dois num medo de estarem quietos para não serem engolidos pelas enormes línguas de fogo que saíam do chão a perseguir o céu de Luanda
– se eu soubesse explicar a cor do fogo, mais-velho, eu era um poeta desses de falar poemas
com voz hipnotizada o VendedorDeConchas acompanhava as tendências da temperatura e guiava o Cego por entre caminhos mais ou menos seguros onde a água jorrante dos canos rebentados fazia corredor para quem se atrevia a circular por entre a selva de labaredas que o vento açoitava
– te peço, vê você que tens vistas abertas, eu estou sentir na pele, mas quero ainda imaginar na cor desse fogo
o Cego parecia implorar numa voz habituada a dar mais ordens que carícias, o VendedorDeConchas sentiu que era falta de respeito não responder àquela dúvida tão concreta que pedia, numa voz de carinho, uma simples informação cromática,
embora difícil e talvez impossível
o miúdo puxou de dentro de si umas lágrimas quentes que o levassem até à infância porque era aí, nesse reino desprevenido de pensamentos, que uma resposta florida poderia nascer, viva e fiel ao que via
– não me deixe morrer sem saber a cor dessa luz quente
as labaredas gritavam com força e mesmo quem fosse cego de ver devia sentir uma sensação amarela de invocar memórias, peixe grelhado com feijão de óleo de palma, um sol quente de praia ao meio-dia, ou o dia em que o ácido da bateria lhe roubou a animação de ver o mundo
– mais-velho, estou a esperar um voz de criança para lhe dar uma resposta
vista de perto ou de longe, a noite era uma trança em negrume e clausura, a pele de um bicho nocturno pingando lama pelo corpo, havia estrelas em brilho tímido no céu, torpor de certa maresia e as conchas na areia a estalar um calor excessivo, os corpos das pessoas em cremação involuntária e a cidade, sonâmbula, chorava sem que a lua a aconchegasse
o Cego tremeu os lábios num sorriso triste
– não demora, candengue, a nossa vida está quase grelhada
as nuvens longe, o sol ausente, as mães gritando pelos filhos e os filhos cegos não viram a luz fátua dessa cidade a transpirar sob o manto encarniçado, preparando-se para receber na pele uma profunda noite escura – como só o fogo pode ensinar
as línguas e as labaredas do inferno distendido numa caminhada visceral de animal cansado, redondo e resoluto, fugindo ao caçador na vontade renovada de ir mais longe, de queimar mais, de causar mais ardor e, exausto, buscar a queima de corpos em perda de ritmia humana, harmonia respirada, mãos que acariciavam cabelos e crânios alegres numa cidade onde, durante séculos, o amor tinha descoberto, entre brumas de brutalidade
um ou outro coração para habitar
– mais-velho, qual era mesmo a pergunta?
a cidade ensanguentada, desde as suas raízes ao alto dos prédios, era forçada a inclinar-se para a morte e as flechas anunciadoras do seu passamento não eram flechas secas mas dardos flamejantes que o seu corpo, em urros, acolhia em jeito de destino adivinhado
e o velho repetiu a sua fala desesperada
– me diz só a cor desse fogo...


Ondjaki


Do seu romace Os transparentes (2013)



(Retirado de kazukuta, onde há também informações e muito mais sobre o autor angolano)





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Jantar em Alcabideche (João Miguel Fernandes Jorge)

Escher



JANTAR EM ALCABIDECHE

Estavam os meus amigos. E, todos, mais
ou menos bêbados. As mãos brincavam com
as facas, apertavam os copos entre os
dedos, espremiam limão sobre os peixes
grelhados. Os gestos, a alegria
do encontro tornara-os tenros e desajeitados.
Mais do que dirigindo-nos a nós próprios,
fazíamo-lo para uma presença imaginária,
a secreta corrente que a cada um unia; e,
mais secretamente ainda, dois e três escondia.
Depois, não há como o álcool,
o vinho branco escolhido – que não fora
excelente – para fazer querer
ser o eu presente o verdadeiro eu;
e que, até então, sempre permanecera
escondido.
Os meus amigos falam, falam todos ao mesmo
tempo e não se entendem.
E quanto mais querem dizer mais abraços dão.
Riem e chegam mesmo a participar, felizes,
na união em cada um;
meio perdidos no seu sonho de representação
de si, não procuram mais do que provar, e
provar aos outros, uma única coisa: cada um
é o mais fiel naquele jantar,
Eu, quase sempre, permaneci alheio e
olhava-os, como vocês, leitores,
nos estão a olhar agora.

João Miguel Fernandes Jorge





quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"O sol é grande, caem co’a calma as aves" (Sá de Miranda)




O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!

Sá de Miranda 


sazão – estação; sói (verbo soer) – costuma; cuidados – pensamentos, preocupações.



Francisco de Sá de Miranda (1481-1558) nasceu em Coimbra, doutorou-se em Direito na Universidade de Lisboa e frequentou a Corte até 1521, data em que partiu para Itália. Regressou a Portugal em 1526, depois de um convívio com escritores e artistas italianos que iriam influenciá-lo grandemente. Fruto dessa viagem, trouxe para Portugal uma nova estética, introduzindo o soneto, a canção, a sextina, as composições em tercetos e em oitavas e os versos de dez sílabas.

(Projeto Vercial)




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Restos do Carnaval (Clarice Lispector)

Decoração para o Carnaval no Recife Antigo - PE - Brasil
(Fotografia de Giorgia Santos)


RESTOS DO CARNAVAL

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com os quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.

Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu mudo apelo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.

Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à idéia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.

Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.

Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.

Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido, sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.

Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos já lisos de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Clarice Lispector


Do seu livro Felicidade Clandestina



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A Sibila (Agustina Bessa-Luís)

Agustina Bessa-Luís



– Há uma data na varanda nesta sala – disse Germana – que lembra a época em que a casa se reconstruiu. Um incêndio, por alturas de 1870, reduziu a cinzas toda a estrutura primitiva. Mas a quinta é exactamente a mesma, com a mesma vessada, o mesmo montado, aforados à Coroa há mais de dois séculos e que têm permanecido na sucessão directa da mesma família de lavradores.

– Uma espécie de aristocracia ab imo. – E Bernardo riu-se, cheio de uma ironia afável e quase distraída; tirou do nariz as lunetas, muito maquinal, colocou-as de novo, ajustando as molas de ouro nos vincos que pareciam o sinal de unhadas, e, com um piscar precipitado como quem bruscamente transita da obscuridade para a luz, disse ainda – «Ab imo, da terra», pois ele considerava a cultura como um privilégio pessoal, e nunca perdia a oportunidade de se mostrar generoso, transmitindo-a. Pertencia ele ao ramo da família que do capitalismo ascendera ao posto imediato da intelectualidade e nisso fixara uma aristocracia. Pois que é a aristocracia senão o grau mais alto que uma sociedade deseja atingir, a supremacia de determinada classe sobre as outras, a imposição dos seus valores, sejam eles de força, de trabalho, de espírito, conforme a época que lhes é propícia? A família de Bernardo Sanches tinha adquirido um estado aristocrático, o que quer dizer que estacionara no cumprimento de determinada herança de hábitos, frases, opiniões que, uma vez desprendidas da personalidade que os fizera originais, restavam agora somente como snobismos e ocas imitações. Enfim, o talento da imitação – pensava Germana – chegava a ser tão característico como uma originalidade, não só em determinadas famílias, como, mais genericamente, em determinados povos. Bernardo Sanches era o exemplo duma raça heróica e magnífica enquanto a sua história fora uma questão de sobrevivência, mas que, com a segurança e o conforto, resultara numa brilhante mediocridade. Germana, sua prima, era por seu lado, um tipo fatídico das degenerescências, o artista, o produto mais gratuito da natureza e que se pode definir como uma inutilidade imediata. Era ela uma criatura paciente, tímida, e que inspirava confiança sem limites. Os artistas, que, em geral, se fazem notar pela sua excêntrica banalidade e que se distinguem dos burgueses porque vivem as extravagâncias que os burgueses reprimem em si próprios, não se pareciam nada com Germa. Ela tinha o espírito de parecer vulgar. Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora. Ela balançava-se activamente numa velha rocking-chair que, a cada impulso mais violento, pulava no sobrado, onde se acumulavam pilhas de maçãs sustidas por tábuas muito esfareladas de serrim. Tal como Quina – pensou. E, absorta, pôs-se a murmurar um lento monólogo, olhando à sua frente o caixilho da porta que comunicava com a cozinha, onde se via a pedra da lareira, arrumada e varrida de cinza.

– Você que diz, Germa? – perguntou Bernardo. Perscrutava-a com uma curiosidade passageira, um tanto mortificado porque alguma coisa que não ele próprio o obrigava a inquietar-se. Como ela o fitasse apenas, sorridente e sem lhe falar, achou mais cómodo sentir-se ali o hóspede venerável, e tomar aquele silêncio ainda como uma cortesia. Mas, na verdade, Germa nem sequer pensava nele. Suspeitar isto – ele sabia – seria o bastante para que Bernardo não voltasse mais e estabelecesse no fundo da sua alma permanente disposição de vingança. Preferiu, portanto, ignorar que Germa estava nesse momento totalmente desligada e ausente de si, e que subitamente o ambiente ficara repleto doutra presença viva, intensa, familiar, e que aquela sala, de tecto baixo, onde pairava um cheiro de pragana e de maçã, se enchia duma expressão humana e calorosa, como quando alguém regressa e pousa o olhar nos antigos lugares onde viveu, e o seu coração derrama à sua volta uma vigilante evocação. E, bruscamente, Germa começou a falar de Quina.

Agustina Bessa-Luís


É assim que começa este romance da escritora , A Sibila, publicado em 1954 (*)


Agustina Bessa-Luís na Infopédia


Informação da Direção-Geral do Livro, dos Arquios e das Bibliotecas




sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Ágata (Inês Dias)



ÁGATA 

Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.

Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado de maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.

Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.

Inês Dias


Um raio ardente e paredes frias, Averno, Lisboa, 2013.






Os Três Mal-Amados (João Cabral de Melo Neto)



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas", Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.


(Fonte: releituras - textos)


Dados biográficos e mais sobre João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) em releituras



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Onde se fala de felicidade (Manuel António Pina)




ONDE SE FALA DE FELICIDADE

   Talvez, quem sabe?, depois da morte continuemos a sonhar que vivemos. Talvez a vida seja um sonho, como dizem os budistas, ou talvez seja fogo e combustão como em algumas teologias cristãs. De qualquer forma, a crer no velho tango da minha infância (estou certo que há-de haver também um fado sobre o assunto), hay que vivirla. Com alegria, e reconhecimento, ou só com resignação, não excluindo sentimentos menos convencionais.
   Ontem de manhã, discutia-se na TSF a felicidade. Parece que os portugueses não são felizes, e tentava perceber-se porquê. As discussões inconclusivas são as mais interessantes, sobretudo quando, como era o meu caso, se vem a conduzir cansadamente sob nevoeiro, ao longo de uma auto-estrada interminável e irreal.
   Numa coisa parecia estar toda a gente de acordo: o PIB não é um índice fiável de felicidade. Eu diria que o índice mais fiável de felicidade é não se perguntar se se é feliz. Quando se pergunta já o caldo da felicidade está entornado. O que quer dizer que, se formos felizes, provavelmente não o saberemos. Mas como sermos felizes sem o saber? À mesma hora, na Antena 2, a Filarmónica de Berlim tocava a Sinfonia Italiana de Mendelssohn, e pareceu-me uma boa resposta. Uma resposta, como a vida, a pergunta nenhuma.

Manuel António Pina

Publicado no JN, 21/11/2007


Podemos reler esta e muitas outras crónicas de Manuel António Pina, com todo o prazer, no livro Crónica, saudade da literatura (última edição: 2014). Seiscentas e tal páginas. Uma boa compra para o Dia do Livro, ou mesmo agora.


Sinopse
A modéstia levava-o a (des)considerar as crónicas como uma servidão diária que afirmava com humor só aceitar para alimentar a legião de gatos que tinha em casa e que só serviriam, como tudo o que é jornal e como diziam os velhos tipógrafos do JN num dito que ele tantas vezes citava, para embrulhar peixe no dia seguinte. Ou seja, as crónicas, até pelo seu registo diarístico (jornalístico), não possuiriam nenhum valor literário, seriam feitas como tudo o mais mas mais do que tudo «da matéria da morte e do esquecimento», anacrónicas fora da sua efémera duração, e como tal constituiriam uma dimensão menor, extraliterária, da sua obra. E no entanto, pelas suas características, essas crónicas fazem plenamente parte, de pleno direito, da obra literária de Manuel António Pina. Se ele definia a sua poesia, por complexas razões de poética que não cabe aqui explicar, como «saudade da prosa», as suas crónicas jornalísticas podem definir-se, de certo modo determinante da sua popularidade, como saudade da literatura.

A presente antologia, organizada por Sousa Dias, reúne as melhores crónicas de Manuel António Pina, de 1984 a 2012. As palavras dessas crónicas, e sobretudo o espírito dessas palavras que uma multidão de seguidores fazia suas nas suas anónimas indignações sociais, ficarão durante muito tempo a reverberar na memória dos leitores agora desamparados dessa voz.

(Assírio & Alvim)






quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sermão de Quarta-feira de Cinzas (Padre António Vieira)



Eis um trecho do Sermão de Quarta-feira de Cinzas de Padre António Vieira:

Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.





quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Tempo circular (Nuno Júdice)

Fotografia de Manuel Raposo



TEMPO CIRCULAR

Andei pela memória à procura de saída,
e encontrei becos, muros, abismos; fui
ao futuro, sabendo que aí é a porta de ontem;
cruzei-me com velhos, almas penadas,
com as suas mesas de agora. Limpei-as
de toalhas e copos, risquei a madeira
onde uma frase se inscrevia, deixei
tudo sem nada e as palavras
em branco.

Então, recomeço tudo, entre o passado
e futuro, no campo do presente.

Nuno Júdice 




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A memória das palavras [II] (José Gomes Ferreira)

 Autorretrato de Mário Eloy (c. 1936-39)


Mais um trecho do livro A memória das palavras do escritor e poeta português José Gomes Ferreira. Já foi publicado anteriormente este.


Tanto quanto desaprecio as anedotas – tabaco mastigado em muitas salivas – sempre me entusiasmaram os «ditos» individuais, fluentes, concisos, indesligáveis das bocas onde nasceram. (Cá está o aristocrata a deitar a cabecinha de fora.) Ah! Já me esquecia da virtude maior: a espontaneidade. A famosa espontaneidade que nas artes escritas se falsifica no segredo dos laboratórios pacientes de cada um, mas que na arte menor dos comentários de improviso, embora não faltem truques e receitas para a simulação, obedecem em geral a um ritmo paralelo ao engendrar da poesia no subconsciente. E quando por fim irrompem, iluminados de inteligência, até parecem criados de propósito para a síntese daquele mesmo instante – resumo límpido de mil complicações e enredos numa única flor de cheiro tão simples. Enquanto escrevia estas palavras, pensava em alguém. Para ser exacto, em Mário Eloy. Não no Mário Eloy definitivamente fixado na pintura, numa aposta de vida ou de morte, mas no outro, com quem convivi no acaso dos encontrões do Chiado e no amontoar boémio das mesas de café onde os artistas, em férias de horas breves, se entretêm a trocar destinos, os arquitectos a construírem contos, os poetas a modelarem bustos com miolo de pão, os romancistas a desenharem mulheres nuas nos veios dos mármores, os escultores a comporem poemas. Em suma: a busca eterna da compensação dos pendores desprezados. Porque esses seres estranhos, vindos ao mundo para se exprimirem e denunciarem o que se passa na ilha de solidão de cada homem, não surgem assim, já concluídos e apurados, como os vemos nas selectas e nos museus. Quase todos trazem, desde a infância, a fatal nebulosa de mil tendências por definir, numa confusão de melodias, palavras, cores, linhas, formas, gritos, dissonâncias... Só pouco a pouco, a tactear, descobrem os mágicos caminhos próprios no nevoeiro de fogo. E então, este contorna-se pintor. Aquele novelista. Estoutro, dramaturgo. Se bem que estas fixações, claro, não impeçam o poeta Tal de continuar a imaginar-se um grande pintor frustrado e o músico Qualquer Coisa não deixe de tecer serenatas de versos clandestinos à boa da Lua que os homens resolveram agora fuzilar com foguetões.

Resumindo: no nosso caso, Mário Eloy gelou pintor. Mas presumo que, para o entendermos bem, nunca poderemos prescindir da análise dos seus outros talentos secundários, sobretudo o de comediante, provado em público com a criação do Bobo da Ribeirinha. A mim, pelo menos, ninguém me tira da ideia que o Mário Eloy, actor de si mesmo, representou toda a vida, representou sempre, até parafraseando Fernando Pessoa, aquilo que deveras era.

Além disso – e aqui retomo o fio inicial – possuía o dom destacável (aliás comum a vários na época) do julgamento rápido das coisas da Arte e do mundo, vazado em fórmulas de originalidade subtil, a que o encanto de dizer emprestava não sei que suspeita de profundidade intuitiva. (Uma vez, por exemplo, no fim de ler um artigo meu, rematou com convicção de flecha a acertar: você escreve redondo... E eu, durante algum tempo, andei de facto convencido de que escrevia redondo!)

Mas o seu dito obra-prima estava reservado para um flibusteiro, representante dessa incrível falange de impingidores de odes e sonetos que, mal apanham alguém desprecavido, encostam-no à parede, ajeitam-no bem e zás! – ouvem-se, os miseráveis!, ouvem-se à nossa custa, felizes de poderem reflectir-se num espelho qualquer, mesmo bocejante.

Defesa? Esta, apenas: atufar os bolsos de pêlo do mesmo cão e replicar olho por olho, sonetaço por sonetaço, ode por ode. Ou então, virar os ouvidos para dentro e escutar a música da imaginação, com o sorriso celestial da surdez provisória. A que Mário Eloy juntava ainda esta outra arma de vantagem táctica: um estrabismo providencial que o ajudava à ausência de se fingir pre-sente. Mas sem embargo não escapava. Como não escapou naquela tarde histórica em que um novelista falhado, de rolo de papel em riste, veio instalar-se na cadeira em frente ali na sua mesinha habitual da Brasileira, voz de comando com olhos súplices:

– Vou ler-lhe esta novela. Interessa-me a sua opinião.

E pumba! Durante vinte minutos, leu, soletrou, vibrou, declamou, arrebatou, enfastiou...

Deteve-se, por fim, a limpar o suor, interrogativo:

– Então Que tal a acha?

E a resposta tombou luminosa, breve (afinal maior do que ele supunha), a abranger quase todos os livros da pátria:

– Desnecessária.

E saiu do café no seu andar de desengonço...


Agora viria talvez a talhe de foice discorrer acerca da necessidade da arte com a respectiva pitadinha de filosofia em quarta mão – tão epocal e pedante. Mas prefiro concluir com simplicidade que acusar uma pseudo-obra-de arte de desnecessária me parece mais grave do que considerá-la medíocre ou má.

Desnecessária quer dizer desligada de qualquer lume pessoal ou colec¬tivo, sem pontes para o mistério nem missão social a cumprir.

Espécie de rosa de pétalas de pano que os homens teimas sem em colar à seiva duma planta que terminantemente se recusasse a dar flor. Por outro lado, e em compensação, a necessidade estética toma às vezes tal fúria de força impetuosa que chega a transformar as coisas em belas ou, pelo menos, a acendê-las duma comoção parecida com a beleza.

O que justamente senti nessa tarde de penumbra de há muitos anos, quando encontrei perto duma montra da Rua da Palma aquela mulher de xaile a contemplar uma horrenda estatueta do «Vendedor de jornais» – boneco popular de fábrica em série, pintado de verde, com cabelos verdes, boca verde, pés verdes...

Mas se vissem o êxtase de sortilégio da pobre velhota presa a tão imprevista necessidade de levar para casa, de qualquer maneira, embrulhado no xaile, aquele trambolho de pesadelo!

– Quanto custa? – perguntou-me. (Coitada, não sabia ler.)

E eu lá decifrei, com esforço de atentar bem, o preço marcado na etiqueta:

– Tantos escudos.

Sorriu-me, por agradecimento distraído, remexeu os dedos no bolsilho do avental, contou as moedas e, num tropeçar trôpego, entrou na loja a medo.

Anoitecia devagarinho.

E ainda a lembrar-me do sorriso de ternura da pobre mulher de xaile, e a gozar aquele momento de transe, tão fundo como matar a fome, lancei medrosamente o último olhar para a estatueta.

Oh! Era bela – garanto-vos.

José Gomes Ferreira


A memória das palavras - ou o gosto de falar de mim (1965)