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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O irreal quotidiano (José Gomes Ferreira)




Na semana passada, certo inglês, de passagem por Lisboa, quase me implorou, farto do Idêntico em toda a parte:

— Mostre-me qualquer coisa que não exista noutro país. Há?

Meditei meio segundo e respondi, telegráfico:

— Há. «Cabarets».
O senhor estrangeiro encolheu os ombros em trejeito de desdém. Mas eu teimei:

— Sim. «Cabarets» …«Cabarets» estranhos, ao contrário, de pernas para o ar, sem «jazz» nem pretos de dentes brancos a soprarem gargalhadas nos saxofones. «Cabarets» … do avesso em que não se encontram mulheres de riso fatal a dançarem ao som macabro do estalar das rolhas das garrafas de champanhe. Autênticas Casas de Sofrer – onde se servem indigestões de mariscos e bebidas tristíssimas – construídas de propósito para pessoas, com fumos de luto nas mangas, que pretendem chorar em público sem medo do ridículo. «Cabarets» – válvulas-de-escape, em suma…Venha comigo e verá.

Tomámos um táxi, descemos uma viela sonâmbula, abrimos a porta de vidro em frente e pisámos com reverência o veludo do tapete de cascas de tremoços do Salão de Fados em que duas dezenas de seres, palidamente diluídos no rumor das vozes em surdina, se preparavam para sofrer em comum.

Ambiente de bicos de pés. Os criados deslizavam, irreais, com sapatos fantasmas, para não perturbarem a dor dos clientes que, de cabeça pesada entre as mãos, parafusavam neste tema de meditação irresolúvel: «A vida é uma chatice!» (…)

Ia começar a função. No estrado alinhavam-se duas cadeiras à espera do viola e do guitarrista que entraram pouco depois em ritmo de enterro. O cantor também não tardou a surgir no catafalco, mancha negra dos cabelos até aos sapatos, solenidade de telegrama de pêsames, lívido, suado, sinceramente infeliz, cara de serenata à meia-noite a noivas mortas…

Houve um sussurro espectral. Os ouvintes ajeitaram-se o melhor possível nos assentos para sofrerem com comodidade.

José Gomes Ferreira


De O Irreal Quotidiano: histórias e invenções (1971). Sobre este livro, v. CITI


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A memória das palavras [II] (José Gomes Ferreira)

 Autorretrato de Mário Eloy (c. 1936-39)


Mais um trecho do livro A memória das palavras do escritor e poeta português José Gomes Ferreira. Já foi publicado anteriormente este.


Tanto quanto desaprecio as anedotas – tabaco mastigado em muitas salivas – sempre me entusiasmaram os «ditos» individuais, fluentes, concisos, indesligáveis das bocas onde nasceram. (Cá está o aristocrata a deitar a cabecinha de fora.) Ah! Já me esquecia da virtude maior: a espontaneidade. A famosa espontaneidade que nas artes escritas se falsifica no segredo dos laboratórios pacientes de cada um, mas que na arte menor dos comentários de improviso, embora não faltem truques e receitas para a simulação, obedecem em geral a um ritmo paralelo ao engendrar da poesia no subconsciente. E quando por fim irrompem, iluminados de inteligência, até parecem criados de propósito para a síntese daquele mesmo instante – resumo límpido de mil complicações e enredos numa única flor de cheiro tão simples. Enquanto escrevia estas palavras, pensava em alguém. Para ser exacto, em Mário Eloy. Não no Mário Eloy definitivamente fixado na pintura, numa aposta de vida ou de morte, mas no outro, com quem convivi no acaso dos encontrões do Chiado e no amontoar boémio das mesas de café onde os artistas, em férias de horas breves, se entretêm a trocar destinos, os arquitectos a construírem contos, os poetas a modelarem bustos com miolo de pão, os romancistas a desenharem mulheres nuas nos veios dos mármores, os escultores a comporem poemas. Em suma: a busca eterna da compensação dos pendores desprezados. Porque esses seres estranhos, vindos ao mundo para se exprimirem e denunciarem o que se passa na ilha de solidão de cada homem, não surgem assim, já concluídos e apurados, como os vemos nas selectas e nos museus. Quase todos trazem, desde a infância, a fatal nebulosa de mil tendências por definir, numa confusão de melodias, palavras, cores, linhas, formas, gritos, dissonâncias... Só pouco a pouco, a tactear, descobrem os mágicos caminhos próprios no nevoeiro de fogo. E então, este contorna-se pintor. Aquele novelista. Estoutro, dramaturgo. Se bem que estas fixações, claro, não impeçam o poeta Tal de continuar a imaginar-se um grande pintor frustrado e o músico Qualquer Coisa não deixe de tecer serenatas de versos clandestinos à boa da Lua que os homens resolveram agora fuzilar com foguetões.

Resumindo: no nosso caso, Mário Eloy gelou pintor. Mas presumo que, para o entendermos bem, nunca poderemos prescindir da análise dos seus outros talentos secundários, sobretudo o de comediante, provado em público com a criação do Bobo da Ribeirinha. A mim, pelo menos, ninguém me tira da ideia que o Mário Eloy, actor de si mesmo, representou toda a vida, representou sempre, até parafraseando Fernando Pessoa, aquilo que deveras era.

Além disso – e aqui retomo o fio inicial – possuía o dom destacável (aliás comum a vários na época) do julgamento rápido das coisas da Arte e do mundo, vazado em fórmulas de originalidade subtil, a que o encanto de dizer emprestava não sei que suspeita de profundidade intuitiva. (Uma vez, por exemplo, no fim de ler um artigo meu, rematou com convicção de flecha a acertar: você escreve redondo... E eu, durante algum tempo, andei de facto convencido de que escrevia redondo!)

Mas o seu dito obra-prima estava reservado para um flibusteiro, representante dessa incrível falange de impingidores de odes e sonetos que, mal apanham alguém desprecavido, encostam-no à parede, ajeitam-no bem e zás! – ouvem-se, os miseráveis!, ouvem-se à nossa custa, felizes de poderem reflectir-se num espelho qualquer, mesmo bocejante.

Defesa? Esta, apenas: atufar os bolsos de pêlo do mesmo cão e replicar olho por olho, sonetaço por sonetaço, ode por ode. Ou então, virar os ouvidos para dentro e escutar a música da imaginação, com o sorriso celestial da surdez provisória. A que Mário Eloy juntava ainda esta outra arma de vantagem táctica: um estrabismo providencial que o ajudava à ausência de se fingir pre-sente. Mas sem embargo não escapava. Como não escapou naquela tarde histórica em que um novelista falhado, de rolo de papel em riste, veio instalar-se na cadeira em frente ali na sua mesinha habitual da Brasileira, voz de comando com olhos súplices:

– Vou ler-lhe esta novela. Interessa-me a sua opinião.

E pumba! Durante vinte minutos, leu, soletrou, vibrou, declamou, arrebatou, enfastiou...

Deteve-se, por fim, a limpar o suor, interrogativo:

– Então Que tal a acha?

E a resposta tombou luminosa, breve (afinal maior do que ele supunha), a abranger quase todos os livros da pátria:

– Desnecessária.

E saiu do café no seu andar de desengonço...


Agora viria talvez a talhe de foice discorrer acerca da necessidade da arte com a respectiva pitadinha de filosofia em quarta mão – tão epocal e pedante. Mas prefiro concluir com simplicidade que acusar uma pseudo-obra-de arte de desnecessária me parece mais grave do que considerá-la medíocre ou má.

Desnecessária quer dizer desligada de qualquer lume pessoal ou colec¬tivo, sem pontes para o mistério nem missão social a cumprir.

Espécie de rosa de pétalas de pano que os homens teimas sem em colar à seiva duma planta que terminantemente se recusasse a dar flor. Por outro lado, e em compensação, a necessidade estética toma às vezes tal fúria de força impetuosa que chega a transformar as coisas em belas ou, pelo menos, a acendê-las duma comoção parecida com a beleza.

O que justamente senti nessa tarde de penumbra de há muitos anos, quando encontrei perto duma montra da Rua da Palma aquela mulher de xaile a contemplar uma horrenda estatueta do «Vendedor de jornais» – boneco popular de fábrica em série, pintado de verde, com cabelos verdes, boca verde, pés verdes...

Mas se vissem o êxtase de sortilégio da pobre velhota presa a tão imprevista necessidade de levar para casa, de qualquer maneira, embrulhado no xaile, aquele trambolho de pesadelo!

– Quanto custa? – perguntou-me. (Coitada, não sabia ler.)

E eu lá decifrei, com esforço de atentar bem, o preço marcado na etiqueta:

– Tantos escudos.

Sorriu-me, por agradecimento distraído, remexeu os dedos no bolsilho do avental, contou as moedas e, num tropeçar trôpego, entrou na loja a medo.

Anoitecia devagarinho.

E ainda a lembrar-me do sorriso de ternura da pobre mulher de xaile, e a gozar aquele momento de transe, tão fundo como matar a fome, lancei medrosamente o último olhar para a estatueta.

Oh! Era bela – garanto-vos.

José Gomes Ferreira


A memória das palavras - ou o gosto de falar de mim (1965)




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Viver sempre também cansa (José Gomes Ferreira)

 



Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira

(José Gomes Ferreira, 1900-1985)



"Na noite de 8 de Maio de 1931, num segundo andar da Rua Marquês de Fronteira, encontrei, finalmente, a expressão autêntica do poeta autêntico, há tanto procurada. À terceira tentativa, para uma série de poesias que eu intitulava Poemas de Reincidência, escrevi dum jacto e quase sem emendas o poema 'Viver sempre também cansa'. Mostrei-o ao Carlos Queiroz, então meu amigo de todos os dias, que, sem me consultar (e se consultasse daria logo o meu consentimento, claro), o enviou a João Gaspar Simões. Pouco depois aparecia na Presença. E assim entrei no âmbito da chamada Poesia Modernista. A propósito, devo dizer que nunca fiz parte do grupo presencista. Como nunca pertenci a qualquer grupo saudosista . Ou à Seara Nova. Voltemos à noite de 8 de Maio de 1931 e à poesia de 'Viver sempre também cansa', onde já havia - coisa insólita na época! - uma referência a Mussolini...Desde então senti que surgia em mim a expressão do poeta verdadeiro. E para marcar bem, para separar bem o novo do antigo poeta, acrescentei sub-repticiamente ao Gomes Ferreira, com que assinara os 'Lírios do Monte' e as duas edições de 'Longe', o meu nome próprio: José! Passei a bagatela, reputo eu de valor psicológico importantíssimo. E, assim, num novelo terrível de ganhar a vida com artigos diversos, crónicas anedóticas, contos e contecos, anúncios das cintas Pompadour, publicidade, traduções de fitas, etc., iniciei a minha carreira de poeta, a que mais tarde chamei de poeta militante." 

(Lido em Absorto)





segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

"Devia morrer-se de outra maneira..." (José Gomes Ferreira)



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira


José Gomes Ferreira (1900-1985), escritor e poeta português.



terça-feira, 10 de abril de 2012

A memória das palavras (José Gomes Ferreira)



Nessa personalidade (...) salientava-se a trave mestra dum sentimento que, embora em esboço, já sobrepujava todos os outros: o da sensibilidade da apreensão do mal e a implícita responsabilidade, mesmo que a culpa pertencesse a outrem — sentimento que pelos tempos adiante se complicou dos remorsos de haver vida mal vivida, morte mal morrida e não-amor.

Assim deduzo de duas histórias escritas na infância e bem esclarecedoras. A primeira redigi-a (é o termo escolar exacto) na Sala de Estudo do Colégio Francês que frequentei até os 13 anos. O Alberto Rodrigues Miranda, professor de Liceu e velho amigo que assistiu, com amizade de testemunha desatenta, à formação do meu universo, tal vez se recorde. Tratava-se de uma espécie de romancico intitulado O Miserável com um entrecho à primeira vista tolo Senão leiam: «um ladrão salta as grades do jardim dum palácio onde se lhe deparam duas crianças a brincar na relva. Aponta-lhes a pistola e intima-as: ‘vão lá dentro ao cofre do pai e tragam-me todo o dinheiro que encontrarem’. As crianças amedrontadas obedecem e não tardam a reaparecer, aos saltinhos, com dois braçados de notas de que o ladrão se apodera, ávido. Mas quando se prepara para se retirar, eis que o salteador pára de súbito, surpreendido, a contemplar a pureza doce das crianças...

E então, num repente lívido, saca da pistola e mata-se».

Vá, riam! (Eu também rio com gosto). Riam às gargalhadas! Riam desta obra-prima que, para a minha mentalidade infantil, possuía tal significado de arrepio de beleza que ainda há instantes estremeci, ao recordar-me do pobrezinho do Miserável a autocastigar-se com um tiro absurdo na cabeça, sabe-se lá bem porquê, possivelmente com saudades da inocência... (...)

Aqui sacudo a tentação de narrar alguma das imaginosas façanhas do capitão Scott para persistir nas escarafunchadelas na infância e evocar outro mestre inolvidável: o Dr. João Soares.

Professor excepcional, o que ainda hoje sei de geografia ele mo ensinou — e com que fantasia estuante!, com que perpétuo inventar de mnemónicas que nos divertiam às gargalhadas espectaculares! 

Mas para além de leccionador de continentes, países, serras, portos, capitais, povos e costumes, os meus olhos infantis, sequiosos de mitos, divisavam nele mais alguma coisa do que um educador vulgar. Um forjador de caracteres, ao mesmo tempo severo e alegre, enérgico e bom.

Estou a recordar-me do entusiasmo e do tacto com que nos falou da nova bandeira, verde e vermelha — em Dezembro de 1911 infiro eu —, hasteada em frente, na torre da Igreja dos Anjos. E da intervenção modelar com que puniu a burla de eu lhe ter apresentado como meu um mapa da Eu¬ropa, desenhado e colorido pelo Alberto Miranda.

O Dr. João Soares descobriu logo a falcatrua ingénua (havia classificado o mesmo mapa pouco antes) e muito sereno, como se não desejasse humilhar-me diante dos meus companheiros, pronunciou apenas meia dúzia de palavras duras e magoadas, duma simplicidade aterradora: «És um dos meus melhores alunos. Tentaste intrujar-me. Não te merecia isso. Feriste-me muito. Vai sentar-te e medita no caso». Mais nada.

Desfiz-me em lágrimas, eu, o pequenino José Ferreira, já autor de O Miserável que, ao ver a sua inocência perdida, dera um tiro na cabeça.

José Gomes Ferreira

Do seu livro A memória das palavras - ou o gosto de falar de mim (1965)

Sobre este escritor, poeta e ficcionista português:  Wikipédia e As tormentas (no segundo link podem ler-se versos dele)





segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Não deixem morrer as palavras!" (José Gomes Ferreira)

 José Gomes Ferreira (1900-1985)


- O Senhor já reparou bem num dicionário? Num dicionário qualquer... Tanto faz... Já reparou? Pois a mim faz-me lembrar sabe o quê?

Um jazigo de família, ou melhor, um jazigo da nação. Uma espécie de mausoléu de papel, onde gerações empilharam séculos e séculos de palavras. Algumas já definitivamente mortas, cobertas de bichos, outras quase a morrer... E muitas, apenas adormecidas, à espera de um toque de dedos para regressarem à vida diária... onde utilizamos ao todo quantas palavras vivas - diga-me lá quantas? Quinhentas? Mil? Nem tantas talvez!

Garanto-lhe que (...) quando ouço de manhã até à noite os mesmos termos... as eternas expressões... os substantivos inevitáveis... os adjectivos fatais... e o verbo ser, o verbo haver, e o verbo fazer... sabe o que me apetece? (...) Gritar aos homens: não deixem morrer as palavras! 

 José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista nascido no Porto.

Biografia e obras de Gomes Ferreira em As tormentas e na Wikipédia