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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Formas da violência (Alexandre O'Neill)

Fotografía de paulaenfocate


FORMAS DA VIOLÊNCIA

Chamar –não muito longe, a montante do tempo– "Escrivão da pena grande" ao varredor municipal do lixo.

Escrever e publicar um livro com o título de «O Preto que tinha a alma branca».

Macaquear, ainda que por olvidada ancestralidade colonialista o falar dos brasileiros.

Conceber, fabricar e pôr à venda bonecas e bonecos assexuados.

Abominar, ao ponto de proibir ou desejar ver proibir, os brinquedos chamados belicistas, com o pretexto de que são de um «realismo atroz» ou de que –pior ainda!– se é pacifista. (Por estas e por outras é que há muito consequente pacifista que chega a adulto desarmado. É caso para perguntar: «E a paz quem a defende? E como?»)

Noticiar rixas urbanas ou suburbanas, ocorridas naquele mundo que os cronistas castiços apodam de «as alfurjas», identificando como «caboverdianos» alguns caboverdianos, entretanto «integrados», que nela possam ter participado. (Para remover o lixo citadino, não precisam de pátria ou nome; para anavalhar ou capoeirar o cidadão,sim.)

Votar de braço ao alto (quase nunca ao baixo).

Deixar –e, em certos casos, também o não deixar– que, pelo regaço daquela que nos serviu dezenas de anos, continuem a escorregar e a traquinar os filhos dos nossos filhos, já que –nossa desculpa– «ela é tão dedicada!»

Desaconselhar ou desacreditar a prática da política com razões deste jaez: «o que o povo quer é trabalhar em paz.» (E se o povo quiser trabalhar em zás-trás-pás?).

Perguntar –como, microfone na mão, se perguntou– a uma velha camponesa transmontana: «A senhora sabe o que é a política?» (Lá do seu universo ela respondeu que não sabia, mas, quem, realmente, mostrou que não sabia, cá do nosso universo, foi o perguntador, rapaz de boas maneiras, mas de fracas ideias, um que pensa, afinal, que a água começa nas torneiras...)

Alexandre O’Neill 


Do seu livro A saca de orelhas (1979)





segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Se eu fosse eu (Clarice Lispector)

 Clarice Lispector


Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser LOCOMOVIDA do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Clarice Lispector


Uma das maiores escritores brasileiras de sempre, umas das maiores escritoras do mundo, sem exageros. Esta é uma crónica que ela escreveu em 1968 para o Jornal do Brasil.

Clarice Lispector, nascida Haia Pinkhasovna Lispector (Tchetchelnik, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista, nasceu na Ucrânia e foi naturalizada brasileira.





segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A rosa mística (Adélia Prado)

Fotografia de Juliana Lucas


A ROSA MÍSTICA

A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.


Adélia Prado


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

US Índex (Paulo Anunciação)

 
O seguinte artigo foi publicado nos anos 90 num jornal português já desaparecido: O Independente. "US Índex" é o título e Paulo Anunciação, naquela altura correspondente do jornal em Boston, é o autor.


US Índex

Nos Estados Unidos da América, fundamentalistas cristãs, activistas negros, conservadores, liberais, nacionalistas ou simplesmente puritanos encontram cada vez mais motivos para afastar livros das escolas e bibliotecas do país.


A liberdade. Mais do que Hollywood ou a MTV, os hamburgers do McDonalds, Walt Disney ou os atletas da NBA ou NFA, os americanos costumam escolher a velha Constituição, de 1787, como o símbolo e orgulho do país. Os seus sete artigos, mais a “Bill of rights” e as emendas aprovadas posteriormente, falam de liberdades, direitos e garantias. A primeira emenda (1791), nomeadamente, costuma ser ensinada e admirada no estrangeiro: nela se prescrevem as inatacáveis liberdades de expressão, de imprensa e de religião.

Até quando, ninguém sabe. Uma onda crescente de “novos inquisidores” tem percorrido o país, de costa a costa, pondo em causa uma das liberdades mais essenciais: ler um livro. A American Library Association, de Chicago, registou 653 casos de censura a livros em bibliotecas, livrarias e estabelecimentos de ensino durante o ano lectivo de 1992-1993. Outra organização, People for the American Way, um grupo sediado em Washington que controla, há uma década, todas as tentativas de censura nos Estados Unidos, apontou 395 atentados (41 por cento deles bem sucedidos) à “liberdade de ler e aprender”.

Este foi o pior ano de sempre, com 50 por cento de aumento no número de casos registados. Eles têm origem em fanáticos anti-racistas, liberais, fundamentalistas de esquerda e de direita, anti-sexistas, mas –sobretudo– no grupo crescente de movimentos religiosos de direita. “Há lugar para a censura, por razões de segurança ou porque um livro é manifestamente inapropriado. Temos que defender os padrões morais da nossa sociedade”, justificava-se o reverendo Robert Simonds, grande líder da National Association of Christian Education”.

Toca a queimar, rasgar, riscar e proibir. Autores como Hemingway, Shaw, Tchekhov –com a simples justificação de que ele era “russo”–, Huxley e Camus; ou a figura de “Hamlet”, porque era “um porco anti-semita”. Ninguém escapa. Os exemplos, por vezes, roçam o ridículo. Where’s Waldo? foi banido de uma biblioteca de Long Island porque uma mãe, preocupada com a educação do filho menor, descobriu nele uma figurinha que mostrava meio seio destapado. A figura –uma entre dezenas– não é maior do que uma meia unha, na dupla página de Waldo On the Beach. Edgar Rice Burroughs e o seu clássico Tarzan of the Apes não tiveram melhor sorte. Justificação: Tarzan vivia em pecado com Jane. Há quem chegue ao ponto, até, de reescrever clássicos como As Aventuras de Huckleberry Finn, por exemplo, e publicar versões “políticamente correctas” (um autor negro, Irving Wallace, editou recentemente uma versão “corrigida” com o título The Adventures of Huckleberry Finn, (Adapted). A obra, considerada por muitos como a primeira e melhor de toda a literatura norte-americana, seria “inaceitável” porque inclui vezes demais a palavra “nigger”. Outros, mais rebuscados ainda, encontraram no livro uma verdadeira (e perigosa) apologia da homossexualidade. Tudo porque num trecho do livro o escravo Jim diz para o seu amiguinho Huck: “I’ll meet you back at the raft, Huck honey”. Seus malandros.


ALGUNS DOS LIVROS CONTESTADOS OU CENSURADOS EM BIBLIOTECAS, ESCOLAS E LICEUS DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA NO ANO DE 1992-1993

The Cabbages Are Chasing The Rabbits — Censurado em Deer Ridge (Indiana) porque “pode fomentar animosidade contra os caçadores”.

Bless me, Ultima — Queixas em vários liceus em Califórnia. “O livro contém muitas referências obscenas e satánicas, além de palavrões em espanhol. Glorifica a bruxaria e a morte”.

Fahrenheit 451 — Num liceu de Califórnia foi distribuído aos estudantes com todos os “damn” e “hell” tapados com tinta negra. O tema deste livro –curiosamente– é a censura.

The Goats — Retirado de uma biblioteca escolar em Prosser (Washington) porque num dos capítulos relata-se o salvamento de uma menina nua.




segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Gaibéus (Alves Redol)



Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Lezíria Grande. Como se da Ponta de Erva ao Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte.

O ar escaldava; lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados por esgares que o esforço da ceifa provocava. O Sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso.

Trabalhavam à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão. Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento.

A ceifa, porém, não parava, e ainda bem - a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também.

E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam pão e conduto da vila.

Então os dias tornar-se-iam ainda mais penosos e o degredo por terras estranhas mais insuportável.

Vencidos pelo torpor os braços não param. Lançam as foices no eito, juntando os pés de arroz na mão esquerda, e o hábito arrasta-os em gestos quase automáticos, mais um passo e outro, a caminho da maracha que fecha o extremo de cada canteiro. Caminham sempre no mesmo balouçar de ombros; as pegadas do seu esforço ficam marcadas na resteva lodosa.

Talvez muitos deles pensem que o arroz deitado nas gavelas repousa primeiro do que os seus corpos. Se pudessem deter-se também, por instantes, e descansarem depois a cabeça nos montes de espigas que deixam atrás de si, a ceifa poderia animar.

Mas o bafo que vem da seara queima mais em cada minuto e as cabeças dos alugados pesam já tanto como o cabo das foices nos braços esgotados. Estão atulhados de amarelo, de pensamentos e de grãos de fogo que a canícula doente lhes insuflou no sangue.

Ninguém entoa cantigas para animar, embora os capatazes tenham incitado as raparigas cantaroleiras para o fazer. Nos ranchos não há agora quem saiba cantar.
Como podem as cachopas entrar em cantos ao desafio, se os peitos parecem fendidos pela fadiga e o ar que respiram se tornou lava do vulcão da planície?!

-Auga!... Auga!... - Gritam os rapazes aguadeiros.

Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.

Os seus brados parecem vogar sobre o rancho e não se dissolvem. Ficam a boiar na massa espessa da lava de fogo e angústia que cobre as searas. As palavras não naufragam.

Talvez por isso também as raparigas não cantem. Agora só saberiam canções tristes que lhes recordassem a sua condição de alugadas.

Alves Redol

Do seu primeiro romance, Gaibéus (1939).

Nota. "Gaibéus" era o nome dado aos camponeses que faziam a ceifa do arroz no Ribatejo, em meados do século XX.

Alves Redol (1911-1969), escritor neorrealista português.


De interesse, sobre este autor, vida e obra: Manifesto Jeocaz Lee-Meddi