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segunda-feira, 30 de maio de 2016

A carne - Diário da decomposição



O texto original é inglés. Não estava assinado. A tradução foi publicada na revista portuguesa K, uma ótima revista dos anos 80-90.


A carne - Diário da decomposição

Morrer. Passar-se. Morto e enterrado. Comer as alfaces pela raiz. Ir para o céu. Ir para os anjinhos. Sete palmos abaixo da terra. Marar. Bater as botas. Esticar o pernil. Dar o peido mestre. Falecer. Passar para o outro lado. Dar a alma ao criador. Deixar-nos. Apagar-se. Fenecer. Ir para o inferno. Bater às portas do paraíso. Ir para o maneta. Expirar. Dar o berro. Dar de comer às minhocas. Quinar . Finar. Esvaecer. Esmaecer. Perecer. Ir desta para melhor.

Na morte, o seu coração parará, perderá o pulso e você deixará de respirar. Ficará pálido, todos os seus músculos se relaxarão e o seu corpo começará a perder calor à razão de 0,7 graus por hora.


Após MEIA HORA

A sua pele vai perdendo a cor, à medida que o sangue desce sob o peso da gravidade. Se estiver deitado de costas, o sangue afluirá à zona das costas e à parte inferior dos seus membros. Qualquer pressão sobre a pele irá torná-la branca, porque o sangue se dispersará. As suas extremidades tornam-se azuis. Os olhos começam a afundar-se.


Após QUATRO HORAS

Serão agora evidentes os primeiros sinais do rigor mortis. Antes do resto do corpo, as pálpebras, o rosto, o máxilar inferior e o pescoço tornar-se-ão rígidos. Um esforço violento ou uma electrocução pouco antes da ocorrência da morte acelerarão o rigor mortis. Este será retardado se a causa da morte for asfíxia ou envenenamento por monóxido de carbono. Depois de se ter espalhado a todo o corpo, começará a desaparecer pela mesma ordem com que se instalou. Em trinta horas, todos os seus músculos ficarão relaxados.


Após VINTE E QUATRO HORAS

O seu corpo arrefeceu até atingir a temperatura ambiente. A menos que seja conservado no frio, a sua pele começará a tomar tons vermelho-acastanhados. Em cerca de uma semana, esta descoloração alastrará ao peito, às coxas e, gradualmente, à tonalidade do corpo. As suas feições poderão estar irreconhecíveis e você exalará um cheiro intenso a carne apodrecida. Temperaturas quentes ou uma morte súbita acelerarão o processo de decomposição. Se for conservado a uma temperatura amena e num ambiente seco, o seu corpo mumificará, o que dará à pele uma aparência seca e encerada.


Após TRÊS DIAS

No interior do seu corpo, começará a formar-se gás, que poderá provocar o aparecimento de bolhas de líquido avermelhado com cerca de oito centímetros de diâmetro e o seu escorrimento através dos seus orifícios. Tudo isto confirma a história do corpo da raínha Isabel I: inchou tanto que rebentou o caixão.


Após TRÊS SEMANAS

A sua pele, cabelo e unhas estarão agora soltos, tanto que seria fácil arrancá-los. Mais cedo ou mais tarde, a sua pele rebentará expondo os músculos e a gordura. É nesta fase que os insectos e os vermes começarão a comer a sua carne. A temperatura ambiente determina a velocidade a que você ficará reduzido a um esqueleto. 

Num ambiente quente e fechado, demoraria um mês até se tornar num esqueleto; ao frio e no exterior, levará mais tempo. 

Teoricamente, o seu esqueleto poderá sobreviver eternamente. 


Adaptado de um artigo da Esquire inglesa, Junho 1991

In K nº 16, "A carne: diário da decomposição", Janeiro de 1992




quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Norte Nome de Portugal (Miguel Esteves Cardoso)




Norte Nome de Portugal

Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.

Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.

Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte.

Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito.

Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem.

As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o "O Norte". Defendem o "Norte" em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo.

Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima.

Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer "Portugal" e "Portugueses". No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como "Norte". Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?

Miguel Esteves Cardoso


Revista K, Nº 2, Novembro de 1990 (*)




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sonhei que era o Pai Natal (Francisco Sande e Castro)



Esta noite sonhei que era o Pai Natal. Tinha chegado o grande momento e, depois de doze meses de boa vida, regressava o dia de trabalho. Iria fazer uma direta ao volante do meu trenó. De manhã tinha estado a escovar as renas e, da parte da tarde, limpei e aparelhei a viatura. Bebi dois cafés ao jantar para não me dar o sono ao volante, e parti para a famosa noite. É difícil trabalhar um só dia por ano. É como quem bebe uma garrafa de vinho depois de um longo período de abstinência: pedrada certa.

Saí de casa pouco antes da meia-noite, ainda no meu estado normal. Não tinha ainda voado 500 metros quando uma das renas se estatelou no ar com gritinhos histéricos. Era uma cãibra. Tinha insistido para que fizessem ginástica ao longo do ano mas os pobres animais são preguiçosos e eu até os compreendo. Quando nos habituamos ao dolce far niente não queremos outra coisa. Depois de uma rápida massagem, seguimos viagem. Enquanto as «meninas» vão seguindo o caminho habitual, eu revelo a lista de presentes. Paramos à frente da primeira chaminé. É estreita, daquelas que eu odeio. Se pudesse dar nas vistas, deixava bilhetes a todos estes idiotas que mandam construir chaminés estreitas. Se o ano passado já tinha entrado com dificuldade, o álcool que me aquece as noites solitárias agravou o problema. A meio da chaminé, já com o fato todo chamuscado, ouvi vozes lá em baixo. A minha discrição tinha-me permitido nunca ter sido visto e deveria manter esse ar misterioso. Esperei calmamente a meio da chaminé que se fossem deitar enquanto rezava para que ninguém se lembrasse de acender a lareira. Cá fora uma das renas assobiava pelo topo da chaminé, lembrando-me o nosso atraso. Perdemos mais de meia hora com o problema e tivemos que nos esfalfar para tentar recuperar o tempo perdido. Comecei a andar depressa de mais para as possibilidades do trenó, que ia largando peças pelo caminho. Os livros das crianças que falam de nós estão longe da realidade, e preocupa-me que não haja ninguém a escrever uma opinião séria sobre a difícil tarefa do Pai Natal. A realidade é dura e triste. Eu passo a noite de Natal com o fato sujo e roto. As renas suam que nem cavalos depois de uma dura corrida, e o trenó fica feito num oito. Foi construído para escorregar na neve com pouco peso e aguenta mal as cargas que lhe ponho em cima. Ainda por cima tem de voar a velocidades para as quais não está concebido. Chegamos à segunda casa. As crianças daqui escolheram uns presentes horríveis, mas gostos não se discutem e eu tenho que os aceitar a todos. Continua a estafadeira e, pelas três da manhã, as renas já estão de rastos. Há uma mais desastrada, que todos os anos fica com as pernas cheias de nódoas negras porque não há poste ou chaminé em que ela não tropece. Eu já escorrego pelas chaminés sem me segurar. Nestas coisas emagreço entre três a quatro quilos.

São quatro da manhã e ainda temos centenas de lares para visitar. Engano-me na chaminé da casa dos Rebelos e entro pela da cozinha. Caio em cima de duas panelas e o estrondo é enorme. A senhora Rebelo acorda assustada e vem à cozinha com medo de encontrar um assaltante.

«Quem está aíl» pergunta a voz trémula. Distraído e nervoso respondo — «é o Pai Natal». A senhora desata a fugir pelas escadas acima aos gritos pelo marido e eu deixo os presentes na cozinha e volto a sair rapidamente por onde entrei. Quando a noite me começa a correr mal fico nervoso e só faço asneiras. Cá fora as renas estão deitadas em cima de um telhado, já demasiado cansadas para se preocuparem. Os aquecimentos solares são coisa que não existia quando me inventaram e têm provocado inúmeros problemas. As renas têm o vício de se deitarem em cima deles para se aquecerem e, gordas como estão, rebentam sempre com os frágeis sistemas. Não há noite de Natal em que não provoquem meia dúzia de inundações e temos sempre que fugir à pressa antes que os donos deem pela desgraça. O que vale é que nunca desconfiam de nós.

Já está a amanhecer e ainda não acabámos o serviço. Com a pressa, bato com o trenó numa chaminé que cai aos bocados. Um guarda-nocurno olha para cima e reconhece-nos. «Olha o Pai Natal!...».

 Antes que consiga acabar a frase atiro-lhe um presente à cabeça provocando-lhe um desmaio e consequente amnésia. São condicionalismos desta difícil profissão. Nem sempre podemos ser bonzinhos.

Regressamos a casa todos de rastos para encontrar meia dúzia de presentes esquecidos.

Enfureço-me: «quem é se esqueceu de pôr estes presentes no trenó?». Todas as renas disfarçam. É sempre a mesma coisa. Agora não foi ninguém. Verifico os nomes na etiqueta. Pertencem todos à família Florença. Volto a subir para o trenó e parto em direcção à sua casa o mais discretamente possível. Quando vou a entrar pela chaminé, oiço vozes. As crianças choram e os pais tentam consolá-las:

 - «O Pai Natal deve ter-se esquecido, mas nós amanhã compramos-vos outros presentes.»

- «Qual Pai Natal, qual carapuça», responde o Zezinho. «Nós sabemos muito bem que isso não existe. O pai não quis foi dar-nos presentes.»

Sinto-me ofendido com esta falta de fé e hesito em deixar os presentes; mas a aflição daquele pai faz-me pena. Atiro os embrulhos pela chaminé e ainda volto a ouvir a voz do Zezinho antes de me ir embora:

«O pai fez de propósito para partir o presente.»


Francisco Sande e Castro



(Revista K, anos 90)



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O livro único (João Manuel Mimoso)



O LIVRO ÚNICO

Naquela manhã de Outubro de 1958 vi-me pela primeira vez como um anónimo na multidão. Daí nasceu a minha aversão (que ainda hoje mantenho) por todas as actividades de grupo.

Na parede o Presidente Salazar e o General Craveiro Lopes olhavam benignamente a sala. Quando a professora entrou, dois alunos repetentes (conheciam-se pelo facto de terem o dobro da nossa altura) levantaram-se e esticaram o braço direito. Confusos, todos os imitámos...

Do meu primeiro dia na Escola Oficial 78 guardo uma lembrança de paredes brancas e frases exemplificando consoantes e ditongos: “ao, ão, a tua mão, tanta mão, tanta mão” (ilustrado por meninos da Mocidade com o braço estendido); “L, l, lálarilálá, alto, altar, Lusitos! Viva Salazar! Viva Salazar!” (crianças cantando); F, f, os gatitos estão zangados e fazem f... f... f... f...” (gatos assanhados )...

Na página 55 (atingida por altura do Natal) começavam os textos. Um dos meus preferidos é “Quando eu for grande ” (pg. 84): “... O Carlos: Eu queria ser padre, ter uma igreja, um altar, dizer missa e pregar sermões. E eu, disse a Clarinha, gostava de ser missionária, ir para muito longe ensinar doutrina aos pretinhos. Pois eu, gritou a Filomena batendo palmas, quero ser dona de casa como a nossa mãe!”.

O último texto era o “Milagre das Rosas” e (inevitavelmente) havia que fazer uma redacção sobre o assunto. A minha preferida é a de um garoto que explicou: “A rainha levantou a saia e mostrou tudo. O rei disse: Senhora, nunca tal vi. O povo gritou em coro: Milagre, milagre!” (Não sei que nota teve).

Ao fim da tarde fazia os exercícios de cópia e de caligrafia (com caneta de tinteiro) sentado na mesinha ao canto da sala do velho 4º andar da Rua do Ouro. Só interrompia o trabalho quando os eléctricos para a Estrela desciam a rua com um tramm-tramm irritante. Há uns dias voltei à casa da Rua do Ouro e (chamem-lhe criancice ) sentei-me na sala a rever o livro por onde aprendi a ler. Gostava que a minha mesinha ainda existisse ao canto e que os eléctricos ainda partissem do Rossio – o seu tramm-tramm teria sido música para mim.

 João Manuel Mimoso

Lido na revista Kapa (anos noventa)