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segunda-feira, 13 de abril de 2020

José Craveirinha - Jacarandás da saudade

Jacarandá em flor em Moçambique (Foto de Patrícia Caldeira)


JACARANDÁS DE SAUDADE

Tempo
de seus passos vindo
pelo tapete de roxas flores
dos jacarandás enfileirados na rua.

Hoje
é eterno o ontem
da silhueta de Maria
caminhando no asfalto da memória
em nebuloso pé ante pé do tempo.

...

Todo o tempo
colar de missangas ao pescoço
sempre o tempo todo
suruma minha suruma da saudade.

Suruma daquela saudade
das flores dos jacarandás
nos passos de Maria.

José Craveirinha



suruma
[Moçambique] folhas de cânhamo utilizadas para fumar, marijuana.
Do maconde chirima, «idem»


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O meu preço (José Craveirinha )

Crianças moçambicanas (Blogue Beijo de mulata)



O MEU PREÇO

Eu cidadão anónimo
do País que mais amo sem dizer o nome
se é para me dar de corpo e alma
dou-me todo como daquela vez em Chaimite.
Dou-me em troca de mil crianças felizes
nenhum velho a pedir esmola
uma escola em cada bairro
salário justo nas oficinas
filas de camiões carregados de hortaliças
um exército de operários todos com serviço
um tesouro de belas raparigas maravilhando as praias
e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas.
Se é para me dar
dou-me de graça por conta disso.
Mas se é para me vender
vendo-me mas vendo-me muito caro.
Ao preço incondicional
de quanto me pode custar este poema.

José Craveirinha



(Mais poemas de Craveirinha no blogue À sombra dos palmares)

José Craveirinha, Lourenço Marques (actual Maputo), 1922 - 2003.

Pode considerar-se José Craveirinha como o poeta nacional moçambicano, no sentido em que Camões o é para Portugal. De certo modo, com a sua poesia frequentemente extensa, narrática, glosando temáticas da dominação colonial, da identidade nacional e de lirismo amoroso ou irónico, Craveirinha acaba por forjar textos que têm marcas épicas, que funcionam como relatos concentrados ou alusões à gesta do povo de Moçambique. (Pires Laranjeira, Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 278) , in Lusofonia.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Karingana ua karingana (José Craveirinha)

*


KARINGANA UA KARINGANA

Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
— Karingana ua Karingana —
é que faz o poeta sentir-se
gente.

E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.

— Karingana!

José Craveirinha


Karingana ua karingana: Fórmula clássica de iniciar um conto e que possui o mesmo significado de “Era uma vez”.

Fonte: Página de António Miranda, onde podem ser lidos mais poemas de José Craveirinha e de outros poetas africanos.


José João Craveirinha (1922-2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.(Wikipédia)






quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

José Craveirinha



José Craveirinha, poeta maior da literatura moçambicana e primeiro africano a ganhar o prémio Camões (1992) cresceu no mesmo bairro onde o Eusébio deu os primeiros toques na bola, no periférico Mafalala, Maputo.

Nasceu em 1922 quando a antiga Lourenço Marques ainda nem era bem uma cidade, senão o embrião da metrópole em que se começou a converter anos mais tarde. Fez da escrita a sua vida e o meio mais-que-perfeito para denunciar abusos contra os Direitos Humanos.

Já se sabe que a ignorância é a namoradinha do preconceito. Devo admitir que eu era, estava e estou ainda muito ignorante em relação à obra do Craveirinha. Parti da minha ideia preconcebida que ele havia escrito essencialmente contra a ocupação colonial dos portugueses e a favor da construção da identidade moçambicana. Não sendo de todo errado, descobri graças a um livro emprestado, que o Craveirinha se deu ao trabalho de fazer as coisas tão bem feitas, que aquele que leia alguns dos seus poemas mas que desconheça quem é e de onde vem o poeta, pensará que ele está a descrever uma situação típica na Faixa de Gaza, na Síria, no Afeganistão e em tantos outros focos bélicos.

Quero com isto dizer que dei um pontapé na ignorância. Em troca ganhei o prazer da companhia de um poeta que é de Moçambique, dos moçambicanos e de todas as pessoas. Um defensor dos Direitos Humanos. E se não fosse assim ora digam-me lá porque é que ele teria escrito coisas como estas:



Cancioneiro de Xiguevengos

Mãe e filha partiram de Chidenguele
com todos os quesitos cumpridos
mais dois: outra filha e uma irmã raptadas

Três semanas antes tinham pedido ao Grupo Dinamizador
salvos-condutos de viagem à vizinha localidade
para evitar problemas no “control”

Com todos os seus requisitos em ordem
antes da curva do segundo canhoeiro
mãe e filha foram violadas.

Depois a récua de xiguevengos
foi antologiando as duas
no versátil cancioneiro
das catanadas


Outra beleza

Uns exibem insólitos perfis
de outra beleza
maquilhada
no mato.

Ou
do viés
ou de frente
perfeitos modelos de caveira
desfilam sem nariz.


O Seio

Mamana
amamentando
vale a pena sobreviver
ao holocausto da horda?

Ela
a olhar
os cães devorando
sua carne do seio amputado?


João Matangulana

Refugiado na emergência do volante
João Matangulana súbito conseguiu
Reforma de condutor
Há 35 anos
Encartado

No paradeiro do emboscado Mercedes Benz
A família identificou João Matangulana
Pela meia chapa da matrícula
Apanhada no entulho


Propaganda

Era tudo falso.
Tudo propaganda do inimigo.
Cabala infame.
No corpo intacto não se notava
Nenhum sinal de tortura
Nem qualquer espécie de sevícia.

Só...
Cabeça reclinada na areia
Ele repousava degolado.



Agradeço a Ofélia Queirós a licença para publicar esta mensagem do seu blogue cabeça no ar ou ar na cabeça