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quinta-feira, 27 de abril de 2023

Chico Buarque recebeu o prêmio Camões de 2019 no dia 24 de Abril de 2023



Quatro anos depois de ter sido anunciado vencedor, Chico Buarque recebeu o prêmio Camões, maior láurea da literatura em língua portuguesa, das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.



Boa noite excelentíssimos senhores presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa; presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; primeiro ministro de Portugal, António Costa; ministra da cultura brasileira, minha amiga, Margareth Menezes; ministro da Cultura português, Pedro Adão e Silva; querida Janja da Silva; presidente do júri, professor Frias Martins; e tantos amigos e amigas aqui presentes, Fafá de Belém, Carminho, Mia Couto, Miguel de Sousa Tavares, Pilar del Río, meu editor brasileiro Luiz Schwarz, minha editora portuguesa, Clara Capitão, e minha mulher, Carol.

Eu estou emocionado porque hoje de manhã ela saiu do hotel, atravessou a avenida e foi comprar essa gravata. (Risos) Isso me emociona.

Ao receber esse Prêmio eu penso no meu pai, o historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, de quem herdei alguns livros e o amor pela língua portuguesa. Relembro quantas vezes interrompi seus estudos para lhe submeter meus escritos juvenis, que ele julgava sem complacência e sem excessiva severidade, para em seguida me indicar leituras que poderiam me valer numa eventual carreira literária.

Mais tarde, quando me bandeei para a música popular, não se aborreceu, longe disso, pois gostava de samba, tocava um pouco de piano e era amigo próximo de Vinicius de Moraes, para quem a palavra cantada talvez fosse simplesmente um jeito mais sensual de falar a nossa língua. Posso imaginar meu pai coruja ao me ver hoje aqui, se bem que, caso fosse possível nos encontrarmos neste salão, eu estaria na assistência e ele cá, no meu posto, a receber o prêmio Camões com muito mais propriedade.

Meu pai também contribuiu para minha formação política, ele que durante a ditadura do Estado Novo militou na esquerda democrática, futuro Partido Socialista Brasileiro. No fim dos anos 60 retirou-se da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em solidariedade a colegas cassados pela ditadura militar. Mais para o fim da vida participou da fundação do Partido dos Trabalhadores, sem chegar a ver a restauração democrática do nosso país, nem muito menos pressupor que um dia cairemos num fosso, sob muitos aspectos, mais profundo.

O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, meu bisavô mineiro e meu tataravô baiano. Tenho antepassados negros e indigenas, cujos nomes meus antepassados brancos trataram de suprimir da história familiar. Como a imensa maioria do povo prasileiro, trago nas veias o sangue do açoitado e do açoitador, o que ajuda a nos explicar um pouco.

Recuando no tempo, em busca das minhas origens, recentemente vim a saber que tive por decavós paternos o casal Shemtov ben Abraham, batizado como Diogo Pires, e Provida Fidalgo, oriundos da comunidade barcelense. A exemplo de tantos cristãos novos portugueses, sua prole exilou-se no nordeste brasileiro do século XVI. Assim, enquanto descendente de judeus sefarditas perseguidos pela inquisição, pode ser que algum dia, eu também alcance o direito à cidadania portuguesa a modo de reparação histórica. (Risos)

Já morei fora do Brasil e não pretendo repetir a experiência, mas é sempre bom saber que tem uma porta entreaberta em Portugal, onde mais ou menos me sinto em casa e esmero-me nas colocações pronominais. Conheci Lisboa, Coimbra e Porto em 1966 ao lado de João Cabral de Melo Neto, quando aqui foi encenado seu poema “Morte e vida Severina” com músicas minhas. Ele, um poeta consagrado e eu um atrevido estudante de arquitetura.

O grande João Cabral, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, sabidamente não gostava de música e nem sei se chegou a folhear algum livro meu.

Escrevi meu primeiro romance “Estorvo”; em 1990, e publicá-lo foi para mim como me arriscar novamente no escritório do meu pai em busca de sua aprovação. Contei dessa vez com padrinhos como Rubem Fonseca, Raduan Nassar e José Saramago, hoje meus colegas de Prêmio Camões. De vários autores aqui premiados, fui amigo de outros tantos de Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde... Sou leitor e admirador. Esqueci de citar antes o nosso grande Manuel Alegre, aqui presente, que também foi premiado com Camões.

Por mais que eu leia e fale de literatura, por mais que eu publique romances e contos, por mais que eu receba prêmios literários, faço gosto de ser reconhecido no Brasil como compositor popular, e em Portugal como o “gajo” que um dia pediu que lhe mandassem um cravo e um cheirinho de alecrim. Valeu a pena esperar por esta cerimônia marcada, não por acaso, para a véspera do dia em que os portugueses dessem a avenida Liberdade a festejar a revolução dos cravos.

Lá se vão quatro anos que meu prêmio foi anunciado e eu já me perguntava se não o haviam esquecido. Porque sabe-se: prêmios também são perecíveis, tem data de validade.

Quatro anos com uma pandemia no meio davam às vezes a impressão que um tempo bem mais longo havia transcorrido. No que se refere ao meu país, quatro anos de governo funesto duraram uma eternidade, porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas mas nem por isso podemos nos distrair, pois a ameaça facista persiste, no Brasil e por toda parte. Hoje, porém nessa tarde de celebração, reconforta-me lembrar que o ex-presidente teve a rara fineza de não sujar o diploma do meu Prêmio Camões, deixando seu espaço em branco para assinatura do nosso presidente Lula.

Recebo esse prêmio menos como uma honraria pessoal e mais como um desagravo a tantos autores e artistas brasileiros humilhados e ofendidos nesses últimos anos de estupidez e obscurantismo. Muito obrigado.




sexta-feira, 17 de abril de 2020

Teixeira de Pascoaes - “Na palavra abysmo..."


A Reforma Ortográfica de 1911 deixou cair o y. A palavra abysmo passou a abismo. Na altura, o escritor Teixeira de Pascoaes, revoltado com a alteração, escreveu: “Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério…Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformá-lo numa superfície banal.”


(Fonte: Revista Estante - Fnac; também lemos aí: "Abysmo: como no antigo acordo. A editora de João Paulo Cotrim nasceu em 2011, no abysmo da crise económica. Mas isso, sublinha o fundador, é o que menos importa")



Regressar a Casa com Manuel António Pina (Abysmo, 2015), de Inês Fonseca Santos, em Deus me Livro.



segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Sophia de Mello Breyner Andresen, de João César Monteiro (1969)


Pelo facto de se celebrar no dia 6 de novembro o centenário do nascimento desta grande autora portuguesa, nesta semana só será publicada obra dela ou ligada a ela.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6 de novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)

Sirva o documentário de João César Monteiro como apresentação.

Sophia de Mello Breyner Andresen, de João César Monteiro (1969)

"No que ao meu filme diz respeito, suponho que, antes do mais, ele é a prova, para quem a quiser entender, que a poesia nao é filmável e não adianta persegui-la." JCM

(naquela altura  João César Monteiro assinava como  João César Santos)




segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A Escola no tempo dos meus avós


A Escola no tempo dos meus avós

No tempo dos meus avós a relação entre o professor e os alunos era má, pois o professor usava uma cana para castigar os alunos ou mandava-os ir para junto da secretária, pondo-os de joelhos com as mãos por baixo.

Na escola da minha avó, só andavam raparigas e os rapazes andavam noutra escola. Por isso, as raparigas davam-se bem umas com as outras. Na escola do meu avô, as raparigas e os rapazes andavam todos juntos.

A escola dos meus avôs era bastante velha e as casas de banho eram à “antiga portuguesa”: de madeira e com um buraco.

As brincadeiras da minha avó, sendo rapariga, eram: jogar às escondidas, ao lencinho e à macaca. As brincadeiras do meu avô, sendo rapaz, eram: jogar futebol com uma bola feita de panos velhos, ao pião e ao botão. Ambas as escolas tinham baloiços pendurados nas árvores.

As matérias estudadas antigamente eram praticamente as mesmas: matemática, história, geografia, português e ciências.

Os trabalhos de casa eram sempre os mesmos: fazer a tabuada, fazer cópias, resolver problemas e fazer contas.

Na escola da minha avó e do meu avô não havia avaliação, nem por períodos, nem no final do ano. O professor ia vendo os trabalhos que cada um ia fazendo e corrigia-os. Só na terceiro ano havia exames em que os alunos faziam o que sabiam e eram aprovados ou reprovados, os aprovados recebiam um diploma.

Os pais dos meus avós nunca falavam com o professor, por isso não tinham nenhuma informação sobre eles.

Os meus avós já não se lembram de episódios tristes ou alegres. Mas contam que alguns colegas deles guardam muitas recordações, porque o professor batia-lhes e castigava-os.

Era assim a escola de antigamente.

Ainda achas que a tua escola é má?

Inês Campos 


(Fonte)



quinta-feira, 25 de abril de 2019

"E nunca mais a guerra e nunca mais..." (Fernando Assis Pacheco)

Fernando Assis Pacheco (1937 - 1995), soldado em Angola,
com o cão Eusébio (1963)


DURANTE AS PRIMEIRAS HORAS DO 25 DE ABRIL

E nunca mais a guerra e nunca mais
e nunca nunca mais e nunca a guerra
e nunca mais e nunca e nunca mais
e nunca nunca nunca nunca a guerra

Fernando Assis Pacheco

Versos enviados para o Fundão pelo autor, a partir da redacção do jornal República, durante as primeiras horas do 25 de Abril de 1974, há, exactamente, 45 anos. Estão publicados na página nove do Jornal do Fundão de 5 de Maio de 1974.

E foram reencontrados graças ao livro de crónicas radiofónicas “Tenho Cinco Minutos para Contar Uma História”, lançado em 2017 pela Edições Tinta-da-China.


Lido em Senderos da Mão Esquerda, do amigo Luís, a quem agradeço. Partilhamos uma grande devoção por Assis Pacheco e lamentamos não o termos podido conhecer.

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Pela minha parte, acrescento um poema de Assis Pacheco, de um livro publicado em 1972: Catalabanza, Quilolo e Volta.


MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

******************************

Isto acontece em qualquer guerra: ir e não voltar... António da Conceição Lopes da Silva vai para África com 22 anos e um ano depois, morre em combate.


Fonte: Web Lobão da Beira




segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Medo da Eternidade (Clarice Lispector)

Fotografia de Nicole Novak




Medo da Eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Clarice Lispector 
 
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Medo da Eternidade é uma crônica escrita por Clarice Lispector, e pode-se dizer que é uma reflexão a respeito de um dos maiores medos humanos, que é a morte, a eternidade. Muitas pessoas não gostam de conversar a respeito ou sentem medo por não saberem ao certo o que lhes espera após esta vida. Clarice faz com que o leitor reflita a respeito da eternidade, algo incompreensível para a mentalidade finita do ser humano.

A crônica trata a eternidade de uma maneira bem simples, talvez até simplória, comparando-a a um “chicle”, uma bala que, segundo a história, não acaba nunca. O encanto da história se dá no fato de que é contada sob o olhar de uma criança, que descreve seus pensamentos e sentimentos ao experimentar aquele chicle que não acaba nunca. A inocência e pequenez da criança diante de um mistério tão grande como este é uma alusão à pequenez e ingenuidade do ser humano diante do mistério da eternidade, incompreensível a mentes tão limitadas.

A menina é apresentada ao tal “chicle” pela sua irmã, que lhe presenteia com um e lhe dá as instruções de como ela deve proceder, tomando cuidado para não perdê-lo, pois seria a única forma de não permanecer com ele eternamente. Primeiramente a menina se assusta com tal engenhosidade, envolvida pela ideia de uma bala que duraria para sempre. Ao mastigá-la, porém, a criança se sente desconfortável, nervosa, e faz uma reflexão altamente adulta dizendo que não é capaz de suportar o peso da eternidade, e que não está à altura da eternidade. Para resolver o problema, a menina finge que deixou cair o chicle no chão sem querer, e após dar as explicações à sua irmã, se sente aliviada por não ter mais que carregar o peso da eternidade consigo.

Se trata de uma crônica típica, que utiliza uma situação cotidiana para abordar um tema reflexivo. Ao analisar a situação, o leitor é levado para dentro da mente da menina, vendo seu espanto e estranhamento diante de algo novo e desconhecido, e a partir daí compara a situação vivida por ela consigo mesmo. No início da história a personagem parece ser inocente, mas ao longo desta vai mudando, a ponto de, ao final, tomar a atitude de ignorar a eternidade, por se enxergar incapaz de lidar com ela. A crônica ressalta a fragilidade humana e leva à reflexão. A personagem tem profundidade psicológica que é revelada a partir dos pensamentos que são relatados na história.

A narração é contada em primeira pessoa (narrador-personagem), semelhante a um relato de memórias, já que a pessoa que viveu a história não é mais criança quando faz o relato. A visão é unilateral e subjetiva, limitando-se as percepções da personagem que conta a história. O tempo se dá com base no espaço que é o caminho entre a sua casa e a escola, porém a certo ponto da narrativa o tempo deixa de ser cronológico e passa a ser psicológico, pois a personagem se detém em descrever seus pensamentos e sentimentos.

Ana Paulo Araujo
(infoescola.com)



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Biografia de José Saramago

O escritor português José Saramago retratado pelo fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (Globo)


Biografia do Prémio Nobel português, retirada da página da Fundação José Saramago.

Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de Novembro de 1922, se bem que o registo oficial mencione como data de nascimento o dia 18. Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele não havia ainda completado dois anos. A maior parte da sua vida decorreu, portanto, na capital, embora até aos primeiros anos da idade adulta fossem numerosas, e por vezes prolongadas, as suas estadas na aldeia natal.

Fez estudos secundários (liceais e técnicos) que, por dificuldades económicas, não pôde prosseguir. O seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas profissões: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista. Publicou o seu primeiro livro, um romance, Terra do Pecado, em 1947, tendo estado depois largo tempo sem publicar (até 1966). Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na revista Seara Nova. Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do jornal Diário de Lisboa, onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante cerca de um ano, o suplemento cultural daquele vespertino.

Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do jornal Diário de Notícias. A partir de 1976 passou a viver exclusivamente do seu trabalho literário, primeiro como tradutor, depois como autor. Casou com Pilar del Río em 1988 e em Fevereiro de 1993 decidiu repartir o seu tempo entre a sua residência habitual em Lisboa e a ilha de Lanzarote, no arquipélago das Canárias (Espanha). Em 1998 foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura.

José Saramago faleceu a 18 de Junho de 2010.


* * * * * * * * * * *







Foi há vinte anos: o Nobel da Literatura, para José Saramago


A Academia Nobel anuncia a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998 a José Saramago (8 de outubro de 1998)


Academia Sueca

O Secretário permanente

Communicado à imprensa

8 de Outubro de 1998

Prémio Nobel da Literatura 1998


“que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”

O português José Saramago faz 76 anos de idade em Novembro. É um prosador oriundo da classe trabalhadora que só atingiu a celebridade quando cumpriu os 60 anos. Desde então alcançou a notoriedade e tem visto a sua obra ser frequentemente traduzida. Vive presentemente nas ilhas Canárias.

“Manual de Pintura e Caligrafia: um romance”, que saiu em 1977, ajuda-nos a entender o que viria a acontecer mais tarde. No fundo, trata-se do nascimento de um artista, tanto o do pintor como o do escritor. O livro pode, em grande parte, ser lido como uma autobiografia mas, na sua intensidade, encerra também o tema do amor, assuntos de natureza ética, impressões de viagens e reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. A libertação alcançada com a queda do regime salazarista transforma-se numa imagem final portadora de abertura.

“Memorial do Convento”, de 1982, é o romance que o vai tornar célebre. É um texto multifacetado e plurissignificativo que tem, ao mesmo tempo, uma perspectiva histórica, social e individual. A inteligência e a riqueza de imaginação aqui expressadas caracterizam, de uma maneira geral, a obra saramaguiana. A ópera “Blimunda”, do compositor italiano Corghi, baseia-se neste romance.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, publicado em 1984, é um dos pontos altos da sua produção literária. A acção passa-se formalmente em Lisboa no ano de 1936, em plena ditadura, mas possui um ambiente de irrealidade superiormente evocado. Este ambiente de irrealidade é acentuado pelas repetidas visitas do falecido poeta Fernando Pessoa a casa da personagem principal (que é extraída da produção pessoana) e das suas conversas sobre os condicionalismos da existência humana. Juntos deixam o Mundo após o seu último encontro.

Em “A Jangada de Pedra”, publicada em 1986, o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.

Existem todas as razões para também mencionar “História do Cerco de Lisboa”, de 1989, um romance sobre um romance. A história nasce da obstinação de um revisor ao acrescentar um não, um estratagema que dá ao acontecimento histórico um percurso diferente e, ao mesmo tempo, oferece ao autor um campo livre à sua grande imaginação e alegria narrativa, sem o impedir de ir ao fundo das questões.

“O Evangelho segundo Jesus Cristo”, de 1991, romance sobre a vida de Jesus encerra, na sua franqueza, reflexões merecedoras de atenção sobre grandes questões. Deus e o Diabo negoceiam sobre o Mal. Jesus contesta o seu papel e desafia Deus.

Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título “Ensaio sobre a Cegueira”. O autor omnisciente leva-nos numa horrenda viagem através da interface que é formada pelas percepções do ser humano e pelas camadas espirituais da civilização. A riqueza efabulatória, excentricidades e agudeza de espírito encontram a sua expressão máxima, de uma forma absurda, nesta obra cativante. “Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.”

O último dos seus romances, “Todos os Nomes”, sairá este Outono, em tradução sueca.Trata-se de uma história sobre um pequeno funcionário público da Conservatória dos Registos Centrais de dimensões quase metafísicas. Ele fica obcecado por um dos nomes e segue a sua pista até ao seu trágico final.

A arte romanesca multifacetada e obstinadamente criada por Saramago, confere-lhe um alto estatuto. Em toda a sua independência Saramago invoca a tradição que, de algum modo, no contexto actual, pode ser classificada de radical. A sua obra literária apresenta-se como uma série de projectos onde um, mais ou menos, desaprova o outro mas onde todos representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia.

The Swedish Academy 

(Fonte: The Nobel Prize)




segunda-feira, 5 de março de 2018

Carta de Manuel António Pina a alunos do EPE em França


Coordenação de Ensino Português no Estrangeiro

Compete ao Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. coordenar a atividade dos docentes de língua e cultura portuguesas no estrangeiro e promover a interação entre os vários níveis e modalidades de ensino e fomentar o ensino do português como língua não materna e estrangeira nos curricula e sistemas de ensino, designadamente em países com comunidades de língua portuguesa.

Com sede em Embaixadas e Consulados portugueses, as Coordenações de Ensino Português, ao serviço direto dos docentes da rede de Ensino de Português no Estrangeiro são, também, espaços de apoio logístico ao ensino da língua e cultura portuguesas.



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Memórias de um Craque (Fernando Assis Pacheco)



Memórias de um Craque. 30 crónicas de Fernando Assis Pacheco gravadas por Nuno Moura para a BOCA (www.boca.pt). A edição (livro+2 CDs) inclui fotografias inéditas e textos de Mário Zambujal, José Carlos Vasconcelos, Nuno Costa Santos e Nuno Moura. O arranjo gráfico é de Pedro Serpa, a gravação e edição de Oriana Alves e a mistura e masterização de António J. Martins.

(2016)









quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Uma biografia multimédia de Manuel António Pina e dois poemas


Hoje há cinco anos que morreu Manuel António Pina, escritor, jornalista e poeta português, e para ficar a conhecer melhor a vida e obra dele vamos clicar neste link:



Artigo da Infopédia sobre Pina


E também, é claro, vamos ler, dois poemas dele: o primeiro, mais simples, e o segundo, com mais profundezas...

CAFÉ ORFEU

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.



OS OLHOS

O rosto que olha para trás,
o lado de fora do visível,
existe este rosto ou é apenas,
diante da infância, o olhar que se contempla?

Em ti, ó noite,
reclino a cabeça.
O que eu fui sonha,
e eu sou o sonho:

alguma coisa que pertence
a um desconhecido que morreu
que outro desconhecido (é este o meu rosto?)
fora da infância infinitamente pense.


terça-feira, 13 de junho de 2017

Análise do poema "Quando era criança" (Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa aos três anos de idade



Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Fernando Pessoa

2-10-1933





Análise do poema "Quando era criança"

O poema "Quando era criança" é um poema ortónimo tardio de Fernando Pessoa, datado de 2 de Outubro de 1933. Sendo um poema tardio e da autoria de Pessoa em seu próprio nome, caracteriza-se por uma das temáticas mais queridas a Pessoa quando escrevia em seu próprio nome: a lembrança da infância, enquanto período dourado da sua vida.

Por isso, este poema fala da própria infância de Pessoa e não só da infância enquanto período de felicidade para todos os homens.

Passemos à análise do poema propriamente dito:

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

Aqui Pessoa aborda a temática da infância enquanto período da inconsciência completa: "Vivi, sem saber". As crianças vivem a felicidade, porque em grande medida a desconhecem estar a viver. Esta oposição pensar/viver acompanhará sempre Pessoa nas suas análises. Ele sabe que será impossível regressar àquela condição infantil, porque hoje adulto ele sabe qual é a sua vida e não a pode ignorar: ele agora pensa e não se limita a viver. Por isso ele diz "Só para hoje ter / Aquela lembrança". De facto tudo o que resta é a lembrança, porque essa inconsciência da vida não vai regressar novamente.

É hoje que sinto
Aquilo que fui
Minha vida flui
Feita do que minto.

"Hoje" é que Pessoa sente o que foi. Isto reforça o que já dissemos: hoje a vida de Pessoa é feita daquele "pensar" que não existia quando ele era apenas criança. Hoje ele "sente", quando era criança apenas "vivia". A sua vida actual é uma mentira - pela sua própria avaliação. É uma mentira, provavelmente porque ele sente não conseguir descobrir a verdade do seu destino: é uma mentira existencial, uma vida que Pessoa sente não lhe pertencer por direito.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Pessoa está preso então nessa vida, nessa mentira que lhe impuseram. O que lhe resta é o "livro" que lê, o livro das memórias de uma infância perdida. E ao ler, vem-lhe um "sorriso alheio", um sorriso do passado, que já não é dela, mas que ele pode continuar a recordar, num apaziguamento frágil, mas que ao menos o poderá consolar na sua existência perdida. A memória da infância perdida conforta-o, mas igualmente o sufoca.

Ps: podem encontrar as características de Fernando Pessoa Ortónimo neste link:

prof2000.pt


(Fonte desta análise: Um Fernando Pessoa)



quarta-feira, 7 de junho de 2017

Jorge de Sena



Jorge de Sena morreu a 4 de junho de 1978 em Santa Bárbara, na Califórnia. Recordamo-lo hoje com estas duas ligações e um poema


Ler Jorge de Sena 


Jorge de Sena no Instituto Camões
por Jorge Fazenda Lourenço



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Clarice Lispector no Instituto Moreira Salles




Acompanhamos o link sobre Clarice Lispector na página do Instituto Moreira Salles com uma breves palavras do primeiro romance dela, Perto do Coração Selvagem:


E sempre no pingo de tempo que vinha nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer.



Clarice Lispector no IMS




segunda-feira, 2 de maio de 2016

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya (Jorge de Sena)



CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena


Nota. Reparem no uso do pronome vos e nas formas verbais a ela associadas.




Dito por Mário Viegas









segunda-feira, 18 de abril de 2016

A escola dos meus pais (Luís dos Anjos)



A escola dos meus pais

No tempo dos meus pais, quando em cada aldeia deste país, por mais escondida que estivesse na encosta de uma serra, havia pelo menos vinte ou trinta crianças na escola primária, a escolaridade terminava, na esmagadora maioria dos casos, na quarta classe.

Com a conclusão da quarta classe as crianças sabiam ler, escrever e contar e sabiam igualmente de cor os nomes dos rios e dos seus afluentes, das serras e das linhas férreas de norte a sul do país. Por outras palavras, dominavam a língua materna, a matemática básica e conheciam, pelo menos no mapa, o país onde viviam. Eram estas as ferramentas que lhes eram dadas para lutarem pela vida. E tudo isto era conseguido com enormes sacrifícios, pois naqueles tempos a vida, sobretudo nos meios rurais, não era fácil, e não raras vezes antes da ida para a escola os mais novos ainda tinham de ajudar os pais nas lides do campo ou da casa. Só depois seguiam para a escola, munidos de uma sacola de pano ou serapilheira onde levavam uma lousa, giz, a tabuada e pouco mais. Na escola esperava-os uma sala de aula sem qualquer conforto, com um estrado de onde o professor dava a aula, e nas paredes um mapa de Portugal, as fotografias dos governantes da pátria e um crucifixo. Não havia placards com desenhos coloridos nem cartazes. A tudo isto juntava-se um método de ensino básico e austero, assente em grande parte no medo das reguadas. Admiro, pois, a vontade que estas crianças tinham em aprender a juntar as letras e a somar dois mais dois. Admiro a capacidade com que souberam, mais tarde, já adultos, ultrapassar as dificuldades da vida e proporcionar a toda uma nova geração (a minha) uma janela de oportunidades incomparavelmente maior.

Na história do nosso país a geração dos meus pais foi aquela que, inquestionavelmente, teve de lidar com o maior conflito de gerações e salto educacional: foram eles que fizeram a ligação entre um analfabetismo quase global da geração dos meus avós e uma geração de doutores e engenheiros.

Luís dos Anjos

(Fonte)