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sexta-feira, 15 de junho de 2018

"Não batas palmas diante da beleza...." (Ricardo Reis/Fernando Pessoa)

Afrodita, cópia romana de um original grego de Praxíteles


Não batas palmas diante da beleza.
Não se sente a beleza demasiado.
           Saibamos como os deuses
           Sentir divinamente.

Ao ver o belo, lembra-te que morre.
E que a tristeza desse pensamento
           Torne elevada e calma
           A tua admiração.

E se é estátua ou de Píndaro alta estrofe
Em quem teus olhos são abandonados
           Não te esqueças de que essa
           Beleza não é viva.

Sempre ao belo uma cousa há-de faltar
Para que seja triste contemplá-lo
           E nunca se poder
           Bater palmas ao vê-lo...

Calma é a beleza. Ama-a calmamente.
Os dons dos deuses como um deus aceita
           E terás tua parte
           Do néctar dado aos calmos.

12-2-1915

Ricardo Reis / Fernando Pessoa


Poesia, de Ricardo Reis. Edição de Manuela Parreira da Silva. Assírio & Alvim, 2ª edição, Junho 2007