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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Essa cachorra vira-latas (Isabela Figueiredo)



ESSA CACHORA VIRA-LATAS

O meu pai quis emigrar para o Brasil, mas não conseguiu. Moçambique foi uma segunda escolha.
Do Brasil, nos anos 40, vinham os brasileiros, todos ricos, de fato branco, e ao meu pai devia agradar a ideia. Barrigudo, de anéis nos dedos.
Se o meu pai tivesse emigrado para o Brasil toda a nossa vida teria sido diferente. Primeiro, ele não poderia agir por lá como colonialista; segundo, é provável que nunca daí tivéssemos saído; terceiro, eu não teria de esperar pela próxima vida para ser brasileira, e poderia sentir-me todos os dias na minha verdadeira pele.
Eu gosto de brasileiros. Gosto da forma como encaram a vida, cantam, dançam, comem, bebem e riem. Gosto da sua expressividade. "Acaba não, mundão", dizem, chegando à praia, abrindo os braços ao sol. A senhora da loja de vernizes, na Costa da Caparica, diz-me "você pode usar esse prateado aí, e um dia especiau, pr'a brilhar mesmo, você mete este outro por cima e ninguém a segura" - e em vez de um verniz, vende-me dois, porque ela acertou, eu quero brilhar, eu quero que ninguém me segure.
Será assim tão impossível compreender o fascínio que o mundo inteiro sente pelo Brasil e a enorme vontade de aprender português para saber pedir uma cachaça, uma água de coco, e dizer pr'o mulato, você é lindo?

Compreendo lindamente, e gostaria que os portugueses fossem muito mais brasileiros, muito mais leves, sorridentes. Que levantassem o rabo das cadeiras e não vivessem no medo do que pensam os outros.
Passeando hoje com a Morena, apanhei-me a dizer-lhe, sai daí vira-latas. O que fazia ela? Virava lata. Ou seja, investigava as imediações dos contentores do lixo com um interesse extraordinário. E apercebi-me de que a expressão que os brasileiros usam para designar o cão rafeiro é a mais bonita, a mais expressiva. Nunca me ocorre que a Morena seja rafeira, mas cachorra vira-latas, sim, todos os dias, durante os passeios. É vira-latas mesmo.
O português falado no Brasil tem uma série de outras palavras compostas absolutamente deliciosas, criadas pelo uso, pela observação, pelo povo. Uma língua constrói-se e evolui dessa forma. É uma tristeza sentir que os portugueses têm a presunção de pensar que só o Português europeu é Português a sério.

Isabela Figueiredo

Retirado do seu blogue Novo Mundo, 26 de julho de 2011