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segunda-feira, 11 de junho de 2018

eu sei lá, sei lá (Marta Lança)

Fotografia de Kris Harvestter


eu sei lá, sei lá

Já não passava a época dos santos populares em Lisboa há muito tempo. Apesar do ritual repetido (as músicas, as sardinhas, os manjericos e os bezanos ancestrais) há uma alegria nestas noites que não deixa de ser entusiamante e sempre renovada.

O Santo António traz ao de cima o que há de mais bairrista, buçal e provinciano nos lisboetas, mas também por isso mesmo, retrai qualquer coisa de muito igual que atravessa o mundo. Para perplexidade de europeus que visitam a cidade nesta altura, o castiço, a informalidade, a música pimba, os amassos, o calor, tanto humano como do outro, vingam e valem a pena. Aquelas pessoas que não se cruzam durante o resto do ano, arrumadas nos seus códigos e representações socio-culturais, frequentando espaços de acordo com critérios de meio, gostos e amigos, ali se acotevelam, sorriem, comunicam, brindam, admiram-se ironica e mutuamente. Dançam lado a lado sucessos de criativas letras como “é o bicho é o bicho”, a “cabritinha” ou a “garagem da vizinha”. As feministas dos bar dos Anos 60 fazem olhinhos aos betos de Santos, o Toni da oficina bebe do mesmo plástico do chinês da papelaria e o casal vamp partilha a calçada portuguesa com o par de barrigudos que dança solene aqueles dois toques com 40 anos de prática. Todos dão o show.

Na noite de dia 12 para 13 de Junho em qualquer recanto do centro histórico, da Graça a Alfama, da Bica à Mouraria, o movimento é um corpo colectivo a descer e subir as colinas de Lisboa. Sem faltar o territorial desfile alegórico das marchas populares na Avenida, na competição renhida mas fraterna entre os não tão diferentes bairros, com as suas coreografias, adereços, altares em riste, que reforçam identidades não problemáticas, como bem quis o Estado Novo. E a encerrar o desfile, decrépito e triste como todos os mundos pirotécnicos, o fogo-de-artifício.

Bonita festa de palcos suspensos e sintetizadores estereofónicos, os verdadeiros protagonistas das canções. De arraial em arraial, a mesma dúvida existencial é-nos oferecida na cantiga mais em voga esta ano: “mas quem será, mas quem será o pai da criança? Eu sei lá sei lá!” Mais à frente uma roda de kuduro, do outro lado a música tecno ganha terreno com gente aos pulos e mão indicadora dançando sem amanhã. Os grelhadores improvisados reforçam na febra, bifana e sardinha, e a facturar. Há uns quantos indianos com perucas onde desponta uma careca de santo António. Serão funcionários da Câmara a vender a imagem do multiculturalismo da cidade?

O bom povo português que, por estes dias, descontrói o poder com toda a gente junta a desprivatizar a rua entre a “cabritinha” e as cervejas, ocupando as esquinas e as escadas com o seu sound system, a sua alegria e o seu “não quero saber”, o mesmo que comenta nas tascas a troika e os políticos - todos iguais, é só promessas e cantigas - e votam nos que lá estão.

E assim vamos, ao menos em Junho o ar é de todos.

Marta Lança


No seu blogue A vida escrita (20-6-2011)