quinta-feira, 19 de março de 2015

José Luís Peixoto presenta en Badajoz su última novela "Galveias"



José Luís Peixoto presenta en Badajoz su última novela "Galveias"

El próximo día 24 de Marzo, a las 11:30, en la Biblioteca Pública de Badajoz


El próximo día 24 de Marzo, a las 11:30, vendrá a la Biblioteca Pública de Badajoz José Luís Peixoto, un escritor portugués y uno de los nombres más destacados de la literatura contemporánea a hablar sobre su obra y, aprovechando el evento, presentar su última novela "Galveias".


Panorama-Extremadura







segunda-feira, 16 de março de 2015

Sê jovem (António Botto)




SÊ JOVEM

Sê jovem,
jovem, apenas.

Não faças literatura
nem ponhas o melancólico aspecto
de quem sabe
e se debruça
nos abismos
desta pobre humanidade
tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
-- e sê jovem!

Mas não queiras ser mais nada
quando estás ao pé de mim.

António Botto


António Botto (1897 — 1959) foi um poeta, contista e dramaturgo português - um dos mais originais e polémicos do seu tempo. A sua obra mais popular, Canções, compreende um conjunto de poemas líricos que expressam o drama do sentir homoerótico, de modo subtil mas explícito, e foi um marco na lírica portuguesa pela sua novidade e ousadia, causando grande escândalo e ultraje entre os meios reaccionários da época. Amigo de Fernando Pessoa, que foi seu editor, defensor crítico e tradutor, conheceu igualmente outras figuras cimeiras da literatura portuguesa. Ostracizado em Portugal, em 1947 viajou para o Brasil, onde viveu os últimos anos em grande atribulação e penúria. Morreu em 1959, no Rio de Janeiro.

(Wikipédia)




António Botto, o autor diferente





segunda-feira, 9 de março de 2015

Morreste-me (José Luís Peixoto)




Regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as casas, a branquear a cal; e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir. E, no entanto, tudo como se continuasse. O silêncio fluvial, a vida cruel por ser vida. Como no hospital. Dizia nunca esquecerei, e hoje lembro-me. Rostos tornados desconhecidos, desfigurados na minha certeza de perder-te, no meu desespero desespero. Como no hospital. Não acredito que possas ter esquecido. Enquanto esperava pela minha mãe e pela minha irmã, as pessoas passavam por mim como se a dor que me enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também. As mulheres falavam, os homens fumavam cigarros. Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seres incautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a virmos, ela não nos verá. Esperavam. Num carro demasiado rápido, a minha mãe, curvada de perder o que possuía, e a minha irmã. Os homens e as mulheres falavam e fumavam ainda quando subimos. No quarto, numa cama qualquer que não a tua, o teu corpo, pai. Talvez distante, preso num olhar entreaberto e amarelado, respiravas ofegante. O ar com que lutavas, lutavas sempre, gritava o seu caminho rouco. Pelo nariz, entrava o tubo que te sustinha. Aos pés da cama, a minha mãe calada, viúva de tudo. À cabeceira, a minha irmã, eu. Cortinas de plástico, biombos de banheira separavam-nos das outras camas. Pousei-te as mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda pele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao olhar amarelo, ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamos voltar para casa, pai; vamos que eu guio a carrinha, pai; só enquanto não puder, pai; vá, agora está fraco mas depois, pai, depois, pai. Menti-te. E tu, sincero, a dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai. À hora, mandaram-nos sair. Quando saímos, agarrados como naúfragos, a luz abundante bebia-nos.


José Luís Peixoto


Início do livro Morreste-me (1ª edição: do autor, do ano 2000), "deu a conhecer o jovem escritor José Luís Peixoto (...) é o relato da morte do pai, o relato do luto, e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora."







sexta-feira, 6 de março de 2015

Ruy Ventura na Aula de Poesia Díez Canedo



Na passada terça-feira, dia 3, o poeta português Ruy Ventura leu excertos da sua obra para os alunos de diferentes escolas secundárias de Badajoz. Foi apresentado por duas alunas da nossa escola (faltou a Ana, que tinha um teste a essa hora) através de um Powerpoint com alguns dados biobliobiográficos.

A obra de Ventura, escrita em forma de poema em prosa, foi lida e esclarecida por ele nalguns passos. Talvez não seja uma poesia fácil para os alunos, pela riqueza vocabular, pelas imagens... mas lá estavam eles a seguir as palavras pela brochura que edita e distribui a Aula de Poesia Díez Canedo.

Para aqueles que perguntaram pela razão de não ser uma edição bilingue, é preciso dizer que os diretores da Aula julgaram melhor ideia publicar só em português para incluir mais obra original.


Dentre as perguntas que os alunos fizeram ao poeta, fico com duas:

A poesia dele seria diferente se tivesse nascido fora do Alentejo? Ruy Ventura sublinhou a importância que para ele e a sua visão do mundo tem o facto de ter nascido numa zona de fronteira (como pode acontecer na Catalunha que fica perto de França) de ser raiano, como todos aqueles que nasceram em Badajoz, ou nas localidades vizinhas da fronteira, da raia/raya, são "rayanos".

Como e quando é que ele decidiu ser poeta? Ventura respondeu que ele não decidiu a certa altura ser poeta, mas que foi a poesia que o escolheu, que decidiu por ele...

E umas palavras que quem gosta de poesia. Esta aprecia-se melhor na leitura repetida daqueles versos que nos tocam, mesmo que não percebamos tudo o que lá se diz.

Para terminar, eis um trecho do seu livro Assim se deixa uma casa.

Nasce do medo desta cidade, vista entre dois táxis que param ao fundo da janela. Encontro um silêncio em que os passos são a residência possível depois da melancolia. 

A porta fecha-se para que o corpo encontre o seu próprio equilíbrio. É preciso descer até ao rio e, desse modo, virar sempre a página, continuar a contabilidade que regista o cansaço como uma pequena alegria.  





quarta-feira, 4 de março de 2015

J.L. Peixoto: Apresentação do romance "Galveias" em Badajoz



Todos temos um lugar onde a vida se acerta. Cada mundo tem um centro. O meu lugar não é melhor do que o teu, não é mais importante. Os nossos lugares não podem ser comparados porque são demasiado íntimos. Onde existem só nós os podemos ver. Há muitas camadas de invisível sobre as formas que todos distinguem. Não vale a pena explicarmos o nosso lugar, ninguém vai entendê-lo. As palavras não aguentam o peso dessa verdade, terra fértil que vem do passado mais remoto, nascente que se estende até ao futuro sem morte.


Trecho do último romance de José Luis Peixoto, Galveias, que será apresentado pelo próprio autor na Biblioteca Pública de Badajoz no próximo dia 24 de março.


Crítica deste romance na revista Visão (16-10-2014)