segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Jorge de Sena - “Não sei de ti sombras…”

 



“NÃO SEI DE TI SOMBRAS…”

Não sei de ti sombras mais belas que
as dos teus membros pensativos quando
nessa penumbra de memórias feita
adormentadamente sobre ti repousam.
Que uma palavra no teu seio vibre
como um estalido seco de mobília
por dentro do calor do vago quarto,
quebrou-se o encantamento, e não regressas,
já a tua ausência agora sobe mansa,
e, murmurante, alastra humedecendo
a seca praia dela a se embeber,
enquanto fugacíssimos luzeiros
ansiosos riscam o dissolver da sombra.

Jorge de Sena


Pedra Filosofal (1950) em Poesia - I, 2ª edição. Círculo de Poesia. Moraes Editores, Lisboa/1977