segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Herberto Helder - Teoria das cores

Aguarela de Dona Minúcia



TEORIA DAS CORES

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Herberto Helder

Leituras num banco de jardim | Citação 4 Herberto Helder (n.1930), Teoria das cores, in "Os Passos em volta" ed. Assírio e Alvim, Lisboa, 2001 (texto de 1962, publicado com alterações nas edições posteriores.)



terça-feira, 22 de setembro de 2026

Cecília Meireles - Lua adversa



LUA ADVERSA

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles


Vaga Música (1942)




(Fotografia de Eduardo Hanazaki, Andorinha e lua, 2008)


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Inês Lourenço - Os nomes novos

 

OS NOMES NOVOS

Na primeira manhã da revolução
todos os nomes mudaram. As tuas mãos
eram pássaros os teus braços asas
os teus lábios átrios de canções que sobrevoavam
alegrias irrecusáveis. Os milagres sucediam-se
sem qualquer comando divino. Os desapossados
de tudo eram providos da maior esperança. As flores
não murcharam. Os peixes multiplicavam-se
na brasa diária dos afectos. Nas manhãs seguintes.
acordávamos sempre à espera da queda
de mais um velho costume repressivo. A garganta
habitava todas as palavras que lutavam
contra os velhos saberes quantitativos
que só perguntavam quantos dólares tem um lucro
ou quantos litros tem um almude. Trocámos o nome
das praças das pontes e das avenidas. Levantámos
as cabeças curvadas com vozes ao alto. A Utopia
do Bem e da Equidade invadia-nos o peito
e nenhuma morte se atrevia a silenciar
este novo país contaminado de Futuro.

Inês Lourenço