REMATE
Volta o filho pródigo
à casa do pai
e o próprio pai é morto desde Adão.
Onde havia relógio
e cadeira de balanço
vacas estrumam a superfície.
O filho pródigo tateia
assobia fareja convoca
as dezoito razões de fuga
e nada mais vigora
nem soluça.
Ninguém recrimina
ou perdoa,
ninguém recebe.
Deixa de haver o havido
na ausência de fidelidade
e traição.
Jogada no esterco verde
a agulha de gramofone
varre de ópera o vazio.
O ex-filho pródigo
perde a razão de ser
e cospe
no ar estritamente seco.
Carlos Drummond de Andrade
(Lição de Coisas, publicado em 1962, traz um dos mais impressionantes poemas sobre as origens familiares de Drummond, intitulado “Remate”. Revista Sphera)