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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Luanda em São Paulo (José Eduardo Agualusa)



LUANDA EM SÃO PAULO

Um taxista, ou taxeiro como com mais propriedade se diz em Luanda, estranhou o meu sotaque quando em Novembro do ano passado visitei o Recife.

— Você me desculpe, moço, mas você vem de onde?
Disse-lhe que era angolano e ele olhou para mim espantado.
— Angola? Isso fica no Brasil?

Expliquei que não, Angola fica em África, do outro lado do mar. Um país com pouco mais de dez milhões de habitantes, mais ou menos do tamanho do estado do Amazonas, rico em recursos naturais e destruído por uma prolongada guerra civil.

— Mas você é filho de brasileiros?
— Também não.
— Então onde aprendeu a falar português?

Respondi-lhe, já um pouco irritado, que embora existam em Angola muitas outras línguas, quase toda a gente entende e fala o português.

— Verdade? — estranhou o homem— , julguei que só nós, brasileiros falávamos português.
— E então os portugueses?
— Os portugueses? – o taxeiro sorriu superior. –Bom, esses falam um dialecto meio atravessado, não é bem português…

Mais tarde, passeando pelas ruas de Olinda (o casario pintado de cores loucas, os quintalhões protegidos por grossos muros de adobe ) lembrei-me como sempre da velha cidade de São Filipe de Benguela. Em Salvador reencontrei Luanda ( a festa permanente, o ritmo e o riso, o caloroso calulu). Corumbá, ardendo ao sol, em frente às águas lentas do Paraguai, trouxe-me à memória a Feira do Dondo, na margem direita do Quanza, a primeira cidade que os portugueses construíram nos sertões de Angola. Atordoado pelo calor, voltei a experimentar o estranho sentimento de me encontrar num sítio esquecido, longe da fúria e do fragor do mundo. Em Cachoeira, no recôncavo baiano, reencontrei a alegre vendedeira de raízes, santinhos e prodígios, que no mercado de São Paulo, em Luanda, me vendeu certa vez um pedaço de brututu, para o fígado, e estranhando que eu ainda não tivesse filhos se propôs vender-me também Pau de Cabinda. Num bar de esquina, no Rio de Janeiro, reencontrei os velhos funcionários públicos, de impecável terno de linho branco, que todas as tardes se reúnem a uma mesa da Biker, a mais antiga cervejaria de Angola, e à luz esplêndida do crepúsculo discutem todas as grandes questões do nosso tempo (sobretudo mulheres).

Por tudo isto eu quase acreditei estar em Angola quando vi, em viagem de ônibus entre São Paulo e Campo Grande, uma placa na estrada anunciado: Luanda, cem quilómetros. Mas depois disso conversei com a vendedeira de milagres em Cachoeira, com os funcionários públicos no Rio de Janeiro, centenas de outros brasileiros, e quase todos quiseram saber, como o taxeiro do Recife, onde ficava o meu país. O confronto entre a memória remota de África, que persiste em praticamente todas as regiões do Brasil, pelo menos a norte do Rio de Janeiro, e a absoluta ignorância do que é o continente nos nossos dias, deixa-me sempre perturbado. É como descobrir, no fim da vida, um irmão que partilhou connosco uma infância feliz, e que depois partiu para longe. Nós, em África, nunca deixámos de ter notícias dele. Ele nunca mais soube de nós. Ainda se recorda das canções que cantávamos, do tempero do calulu e do som do berimbau — mas já não sabe quem somos.

É importante para o Brasil redescobrir Angola (África)?

A mim, parece-me que será no espaço africano que o Brasil poderá exercer com mais vantagem, e proveito geral, a sua brasilidade. Parece-me também que o reencontro com África poderia ser importante para ajudar uma certa inquietude racial, latente, que é no fundo parte de uma mais vasta e profunda inquietação de identidade. Esta, porém, é uma questão a que só aos brasileiros cabe responder.

Nós, em África, continuamos à espera.

José Eduardo Agualusa

in Revista Lusofonia, Cascais, Portugal, Julho, 1996