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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Dantes é que era bom, quando a arte não era de receber... (Miguel Esteves Cardoso)




Na ponta da língua

Dantes é que era bom, quando a arte não era de receber, mas de convidar 

Li os romances e as biografias escritas por Penelope Fitzgerald e divertiu-me saber que no século XX deixou de ser a obrigação das visitas divertir os anfitriões, virando às avessas os hábitos dos milénios. Desde os anos 50 aos dias de hoje as revistas estão cheias de ideias para os anfitriões divertirem os convidados. Como é que os anfitriões, que oferecem a casa, a comida e a bebida, deixaram que virassem o bico ao prego? Dantes eram os convidados que tinham de sing for their supper. Preparavam de antemão histórias engraçadas e escolhiam bisbilhotices frescas e interessantes para contar. Os anfitriões limitavam-se a assistir aos esforços dos convidados, julgando-os sem piedade. Se fossem chatos nunca mais eram convidados. Graças ao abate de convidados chatos ficava-se com mesas cheias de pessoas espirituosas e outras que, intencionalmente ou não, eram divertidas. Os anfitriões escolhiam o elenco de convidados com cuidado, para haver faísca e só um mínimo de harmonia. Por exemplo, um convidado com opiniões escandalosamente reaccionárias, sempre a indignar-se com o que dizem os outros, fica sempre bem. Hoje é ao contrário: os anfitriões esfalfam-se para divertir os convidados. Cada um, conforme a bolsa, faz o equivalente a convidar Lady GaGa para cantar os parabéns à criancinha. É uma inversão degradante. Hoje são os convidados que chegam, com cara de tédio, exigindo ser entretidos. Desafiam os anfitriões a diverti-los, sendo implícito que já viram tudo e que é muito difícil captar-lhes a atenção. Dantes, os anfitriões eram os únicos que tinham o direito a aborrecer-se. Faz sentido. Estão presos na própria casa, sem possibilidade de fuga ou sítio para fugir, cercados por uma cambada de chatos que ainda vão na sopa. Na mente dos pobres anfitriões estende-se a longa e lenta marcha da noite, de prato em prato e de copo em copo, até poderem ver finalmente as costas daqueles convidados. Nos restaurantes aconteceu a mesma coisa com os cozinheiros e os clientes. Dantes eram os clientes que decidiam o que queriam comer e o cozinheiro cozinhava conforme. Agora são os cozinheiros, chamados chefs, que decidem não só o que vamos comer, como a ordem do que vamos comer e a maneira como havemos de comer cada coisa. Também entre pais e filhos se verificou a mesma inversão de forças: hoje os pais existem para fazer as vontades aos filhos. Se ainda não é bem assim, para lá marcha. A versão contemporânea é "não fazer cerimónia". Os convidados chegam e comem e bebem o que os anfitriões comeriam se estivessem sozinhos. Quando eu era miúdo havia serviços que eram "para as visitas" em que só se mexia quando havia visitas. Era bom para as visitas mas também era um luxo para os anfitriões e para nós, crianças. Nas cartas e nos diários dos ingleses e inglesas do século XX há sempre passagens divertidíssimas em que se descrevem os horrores gastronómicos e vínicos servidos por personagens distintas. Os anfitriões inesquecíveis não são os que serviram os melhores pratos e vinhos mas sim os que eram indiferentes a tais coisas ou forretas ou egoístas. Num mundo sem cerimónias as coisas são mais alegres mas muito menos memoráveis. A cerimónia, aliás, tem muitas vantagens: mantém as distâncias e, quanto mais elevada fôr, mais se presta a hilariantes gaffes, apreciadas por todos. Não é impossível ter saudades de uma coisa que nunca se viveu. Bem que gostaria de ser um anfitrião à antiga, bem sentado, a apreciar as inteligências dos meus convidados. E o que menos gostaria de ser era um dos convidados desses anfitriões. E é com esta aparente contradição que me despeço.

Miguel Esteves Cardoso