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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Regra sua para quem quiser viver em paz - D. João Manuel




Regra sua para quem quiser viver em paz

Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada:
tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás;
quanto podes não farás,
quanto sabes não dirás,
quanto vês não julgarás,
quanto ouves não crerás,
se quiseres viver em paz.
Seis coisas sempre vê,
quando falares, te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando:
nunca fies, nem porfies
nem a outro injuries,
não estejas muito na praça
nem te rias de quem passa,
seja teu tudo o que vestes,
a velhacos não afrontes,
não cavalgarás em potro.
Nem tua mulher gabes a outro,
não cuides de ser valentão
nem travar contra a razão.
Assim lograrás tuas cãs
com tuas queixadas sãs.

D. João Manuel




Poeta palaciano cuja produção poética se encontra coligida no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, nascido cerca de 1469 e falecido em 1500, filho de D. João Manuel, bispo da Guarda, e de Justa Rodrigues, e que exerceu na corte a função de camareiro-mor do rei D. Manuel. Autor de uma obra poética diversificada que inclui a poesia amorosa, o louvor religioso, o pranto e composições satíricas, é um dos poetas mais requisitados para a participação em torneios poéticos coletivos, sobretudo de chacota a acontecimentos burlescos e à indumentária de alguns frequentadores da corte, tendo ainda colaborado nas "justas" organizadas por D. João II para celebrar o casamento de D. Afonso. Poeta bilingue, da produção individual destaca-se a lamentação, em arte maior, à morte do príncipe herdeiro; pequenos poemas de teor didático-moral, como a "Regra sua para quem / quiser viver em paz"; duas composições religiosas em louvor de Nossa Senhora e de Santo André; além de várias glosas de tema amoroso, que fazem prova do seu virtuosismo versificatório.

(Infopédia)