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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Até que o vós me doa (Ricardo Araújo Pereira)



Tenho saudades de uma pessoa. É a segunda pessoa do plural. Em Lisboa, como sabeis, fora do púlpito praticamente ninguém a usa. Se calhar, tem um sabor antigo – e vós desejais ser modernos. Ou então soa a beatice – e vós ambicionais ser marotos. Seja por que razão for, a segunda pessoa do plural foi substituída por uma formulação meio esquisita. Em vez de “vós falais”, dizeis “vocês falam”. (Eu também digo, mas estou a conter-me para efeitos de comédia.) Ora, “falam” é a terceira pessoa do plural e, por isso, “vocês falam” constitui uma mixórdia linguística. 
A forma verbal que usamos para “eles”, aplicamos a “vós”. Na verdade, a “vocês” – que, ao que parece, resulta da contracção das palavras “vossas mercês”, uma expressão pelo menos tão antiquada como “vós”. Em Lisboa (e não só) dizemos, por isso, “vocês falam” e “eles falam”. Aquele “falam” passa a servir para tudo. Em inglês, a mesma forma verbal também serve para várias pessoas: I speak, you speak, we speak, they speak. É uma falta de higiene e uma vergonha. Parece uma língua inventada por crianças.

Façamos um esforço para retomar o vós. E, de caminho, tentemos também recuperar esta forma de imperativo que parece usar o presente do conjuntivo. Nos livros, ainda se diz: “Brindemos à saúde do Vítor.” Na vida real, no entanto, toda a gente diz: “Vamos brindar à saúde do Martim”, não só porque ninguém usa aquele imperativo, como porque já quase ninguém se chama Vítor. Os colegas das minhas filhas têm nomes completamente diferentes dos colegas que eu tinha na idade delas. Não há um Jorge, acabaram os Fernandos e os Paulos, escasseiam os Carlos e rareiam mais ainda os Vítores. Já no meu tempo, não havia Vicentes, e quase ninguém se chamava Tomás, Martim ou Lourenço. Vós chamastes outros nomes aos vossos filhos e parastes de invectivar os amigos com o imperativo que pede emprestado ao conjuntivo. “Partamos imediatamente, Alberto!”, costumava exclamar-se. “Vamos embora, João Maria!”, grita-se agora. Estais dispostos a reaver conjugações antigas? Se sim, contactai-me. Tentemos organizar um grupo de gente saudosa deste modo de falar, e decidida a devolver-lhe o uso. Já houve iniciativas piores, não diríeis?

Ricardo Araújo Pereira

(Publicado na revista Visão, 15-12-2016)


Dois comentários lidos no blogue Entre as brumas da memória, onde parte deste artigo foi também publicado:

"O RAP é obviamente um tipo do Sul. Se andasse pelo Norte do país e ouvisse as pessoas de lá ficaria a saber que uma grande parte do portugueses usa a 2ª pessoa do plural, apesar do efeito massificante (e também estupidificante) da televisão que difunde, quase em exclusivo, o que Vital Moreira chama lisboetês. No meu limitado entendimento da questão parece-me que o uso progressivo do "vocês" resultou de um certo "acriolamento" da língua e, sobretudo, da dificuldade da conjugação verbal do "vós" em frequentes situações.. NG"

"Também deveria ser dito ao RAP que um grande número de portugueses distingue claramente a fonética de "voz" com a de "vós" ao contrário do que está imp´lícito no seu trocadilho. Que que viaje pelo interior-norte do País a partir de Tancoso e poderá constatá-lo... NG."